Mistérios

Os mistérios (ou mistérios de Heelum) são eventos, seres ou objetos apartados da lógica normal de Heelum. Nenhuma regra geral governa a todos igualmente: caracterizam-se pela singularidade, pelo fato de serem específicos, sendo conhecidos por um nome tão genérico justamente porque não têm nada em comum a não ser o fato de que não se inserem no funcionamento esperado do universo de Heelum.

Simbologia

Simbolicamente falando, os mistérios de Heelum podem ser várias coisas: desde eventos, sistemas e objetos – como a transformação de um humano no Yutsi Rubro, a magia ou os minérios – até personagens que expressam um conceito ou uma ideia – e nesse caso suas existências são expressões da loucura da existência. Como discutido no artigo “De onde vem Heelum?”, Heelum conseguiu se tornar estável porque é apenas uma parte da existência, mas Imi em si é o caos, é pura contradição (posto que todas as coisas, inclusive as diametralmente opostas e as praticamente inconcebíveis, coexistem nele). A ideia é que as incoerências e as contradições permanecem no tecido da existência: aquilo que não existe sempre se intromete e rompe a barreira de Nauimior, passando a existir. Nesse sentido a própria vida e a imaginação, a criatividade, são mistérios de Heelum (e, pensando poeticamente em nosso mundo, também em nosso, mesmo que possa não ser um mistério em sua definição mais científica). É essa noção de contradição e caos que se corporifica em Heelum através dos mistérios.

Linguística e mitologia

Os mistérios são, em muitos casos, como lendas e mitos, só que verdadeiros – o que costuma ser o caso de histórias do gênero de fantasia, é claro, embora isto os torne exploráveis e analisáveis (como no caso da magia e dos minérios). Mas a conexão entre mistérios e mitos, especialmente no que tange à simbologia, não fica restrita a essas coincidências.

— Você desconhece os mistérios de Heelum, seu insolente estúpido!

— Eu os conheço. — Respondia Desmodes com a mesma firmeza. — Sou um mago.

[…] — Magia e minérios são processos… E coisas. — Explicou, tirando as botas. — Você não conhece os mistérios. Mistérios de verdade. […] Se sabe tanto sobre os mistérios, por que falou daquele jeito?

— Não sabia sobre ele.

— Ah… Sim.

Desmodes permaneceu em pé. Robin deitou de barriga para cima.

— Lato-u-nau é o inimigo de Al-u-bu. Al-u-bu é o mistério que cuida dos al-u-bu-u-na. […] Ele é ardiloso. Paciente. […] Ele a vence, de vez em quando. Mas não sempre, já que ele é…

— … Parte dela. — Completou Desmodes.

A Aliança dos Castelos Ocultos, capítulo 27 (ler no site de leitura)

Os estudos sobre a mitologia de Claude Lévi-Strauss, que culminaram em uma coleção de livros conhecida como “Mitológicas”, mostram uma interpretação nova e ousada (dentro do campo dos estudos sobre mitos da época) do fenômeno que, como tudo relacionado às teorias de Lévi-Strauss, tem uma ligação com a linguística.

Para a linguística, é fato que em cada língua é apenas um pequeno subconjunto de sons que forma todas as palavras. No entanto, modificações, seja lá qual for o motivo, sempre podem surgir: afinal, os seres humanos não se tornam incapazes de produzir um determinado som, apenas não estão acostumados a fazê-lo dependendo da língua que aprendem como materna. Assim, no livro “O Cru e o Cozido” (Volume I das Mitológicas), Lévi-Strauss comenta que “os elementos rejeitados não deixam por isso de existir. […] Eles vêm se abrigar por trás daqueles promovidos ao grau de chefes de fila, que os escondem com seus corpos, que estão sempre prontos para responder por toda a coluna e, se for o caso, a chamar tal ou tal soldado fora da fila. Dito de outro modo, a totalidade virtualmente ilimitada dos elementos permanece sempre disponível” (páginas 385 e 386 da segunda edição da Cosac Naify, 2010). Esse também é o caso da simbologia que faz vir à tona os mistérios de Heelum: aquilo que “inexiste” está como potente, como energia latente, em tudo que existe, podendo surgir no devir de uma existência essencialmente contraditória e conflituosa.

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