De onde vem Heelum?

O nome “Heelum” não significa nada em especial (que o autor saiba) na Terra. Heelum, em na-u-min, significa “mundo”, “realidade”.

O universo da série Controlados

Mapa figurativo de Heelum, colorido
Outro desenho aproximado de Heelum, diferente dos que aparecem nos livros da série.

No princípio deste universo distinto, havia Imi, a inexistência (“imi”, em na-u-min; inexistência, nada, vazio.). Junto à inexistência havia Nauimior, o “mestre da existência” (“nauimior”, em na-u-min, é construído a partir da junção de “nau”, ser, existência, e “imior”, destruir, transformar em nada. É aquele que destrói a existência e, portanto, tendo capacidade de fazê-lo, é seu mestre. Esta ideia de dominação potencial (a liberdade como condição de alguém que não está sujeito à boa-vontade de outrem) está presente na ideia de liberdade republicana. Esta é a dinâmica inicial do universo de Controlados: Imi e Nauimior em constante interação.

Sendo o único a existir de fato, Nauimior continha toda a existência dentro de si. Tudo aquilo que não era, mas poderia vir a ser. No entanto, reunir sob si todas aquelas formas de existência – muitas delas contraditórias e dependentes de regras mutuamente excludentes – significa uma força interna muito grande; uma espécie de pressão destrutiva, de dentro para fora, expressão de toda a força criativa que se encontra naquilo que ainda não existe. Vergando-se sobre o seu próprio peso e sua própria multiplicidade, Nauimior rompeu-se e várias coisas separaram-se dele. Permanecendo juntas, transformaram-se em Heelum: da própria ideia de terra e água aos animais e às plantas; tudo foi se organizando em torno de uma região fora de Nauimior, onde pôde encontrar existência – onde pôde vir a ser.

Encolerizado pelo novo desequilíbrio, Nauimior tentou recuperar Heelum e integrá-lo a si, mas a existência independente e livre era agora uma força por si só. Por mais forte que fosse, contudo, Heelum via-se sem armas para combater o mestre da existência.

A dinâmica torna-se mais complexa quando mais uma parte escapa de Nauimior: Roun (“sol”, em na-u-min), que, ao vencer a resistência interna de Nauimior, começou a prover energia para que Heelum não sufocasse em meio ao imi, nem tampouco sucumbisse ao fim da existência ao ser derrotada por Nauimior.

Isso, no entanto, não foi suficiente. Apenas Nauimior era forte o bastante para vencer o nada absoluto e prosseguir existindo. Sem Nauimior, Heelum e Roun não podiam resistir indefinidamente: estavam condenados. Foi então que Roun fez um acordo com Nauimior: Nauimior protegeria Heelum de imi, abraçando-o, mas não reintegrando-o: Heelum seria independente, e conservaria sua existência. Em troca, Roun voltaria, todos os dias, para Nauimior.

“O que não existe precisa do que existe – como se fosse a sua face mais oculta.” – Rubem Alves

Esta foi a origem dos dias em primeiro lugar: Quando Roun vence nauimior mais uma vez ele surge no horizonte e recomeça a dar energia para Heelum. A noite é trazida pela reintegração de Roun a Nauimior, e as estrelas (em Heelum, coloridas, mas nunca brancas) são partes de Roun que sobrevivem à reintegração e se prendem à existência de Heelum. Os mares externos a Heelum também surgiram a partir deste evento: a linha do horizonte é Nauimior, e tudo que vai para lá é destruído, pois passa a não mais existir.

A veracidade dos fatos

Como mostrado no primeiro livro, há um grupo de intelectuais de Ia-u-jambu que contesta a veracidade de muitas histórias acerca do início dos tempos, de Heelum, e dos homens em geral – chegando a contestar a própria Rede de Luz, que teria instruído os homens acerca de todas as histórias desses tempos em que eles não estavam presentes.

Quando os próximos livros forem lançados, as informações desta página e seção serão expandidas. Um aviso de spoilers será posto aqui em respeito àqueles que leram apenas os livros anteriores, mas já têm acesso ao Neborum Online.

A simbologia do universo de Heelum

A origem do universo de Heelum é certamente envolta em filosofia e conceitos simbólicos.

Em primeiro lugar temos Imi, o nada, e Nauimior, o mestre da existência posto que ele tem a força para destruí-la. Nauimior é, portanto, a morte: o fim da existência, aquilo que leva à inexistência pois transforma existência em inexistência.

Logicamente, Nauimior é a única existência em um universo em que se considera que tudo é ocupado por Imi – ou seja, o que não é Imi, é algo que existe; Nauimior é, portanto, algo real, algo de fato existente, ou seria simplesmente parte de Imi. Temos que Nauimior contêm em si, portanto, tudo aquilo que existe: ele representa neste dado momento inicial, sendo a única entidade existente, tudo aquilo que existe. Podemos falar em uma ideia tangencial neste cenário, que é a ideia da positivação que a morte e a destruição trazem; como elas trazem o novo e a possibilidade do novo: a existência e sua renovação, a garantia de sua continuidade, está contida, portanto, na destruição daquilo que é velho. Isto foi inspirado não apenas em Nietzsche, mas em uma leitura particularmente agradável dele feita por Keith Ansell-Pearson.

A gênese de Heelum é, portanto, um momento crucial na exploração simbólica desse universo. Sua criação significa uma afirmação de valores que delineiam as bases desta realidade: Heelum “nasceu” de Nauimior, ou seja, era uma parte de Nauimior que veio a ter uma existência independente, e assim o fez porque esse é o resultado da imprevisibilidade da existência, bem como da inventividade, criatividade, e diversidade existentes – e essa palavra, existentes, já indica o cerne da questão: por existirem, existem dentro de Nauimior; a expressão dessa existência fez com que buscassem uma existência independente – ou seja, é a criatividade buscando se afirmar através da concretização da pluralidade, da diversidade, da multiplicidade efetiva.

Temos então uma espécie de contraste entre o inequivocamente igual e uniforme – a morte, que transforma tudo que há (elementos díspares, diferentes entre si) em algo que não é (elementos iguais na única característica que os define, sua não-existência). É um princípio de uniformidade opressora, até mesmo inescapável considerando sua “personificação” metafísica em Nauimior, contra o princípio de diversidade e multiplicidade da existência. Essa é a batalha conceitual fundamental que se desenrola nos símbolos de criação deste universo.

Da mesma forma como podemos nos perguntar como foi que a vida, um elemento tão frágil, bem como o próprio universo (cujas origens sabemos algo de todo tão insatisfatório em termos de completude de conhecimento) pôde manter sua existência e prosperar, não podemos deixar de nos perguntar como poderia qualquer outra forma de existência resistir a Nauimior. Roun, figura solar, representa portanto a esperança, a boa sorte, a oportunidade e a coragem. Porque há sempre uma chance de realizar sonhos e de concretizar  a energia pulsante da existência, que impulsiona para a multiplicidade. É essa chance que Roun representa: poderosa, é capaz de fornecer a Heelum defesa suficiente contra Nauimior.

A história é que uma situação de hostilidade não seria boa para nenhuma das “partes”: já fora de Nauimior, se Heelum e Roun sucumbissem ao nada Nauimior se tornaria muito mais fraco. Nauimior, Roun e Heelum então fizeram um pacto: Nauimior, capaz de resistir a Imi, iria proteger a existência de Heelum (que não entraria, portanto, em contato direto com Imi) enquanto Roun alternaria sua existência entre fazer parte de Heelum e fazer parte de Nauimior. Eis a barganha pela existência: é preciso um equilíbrio entre aquilo que nasce e aquilo que morre; entre aquilo que vem a ser e aquilo que deixa de ser; só assim é possível preservar a própria existência.

Temos então uma narrativa que trata de vida e morte e, em seu lugar, existência e inexistência, e de como é possível (e necessário) atingir um equilíbrio que possibilite a própria existência; para além disso, a ideia da diversidade e da multiplicidade como uma espécie de identidade essencial da existência, uma característica importantíssima que expressa a própria vida em oposição à uniformidade do nada, que está sempre à espreita para destruir a multiplicidade.

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