Realidades

Da colina mais alta de Prima-u-jir Tornero podia ver todo o pequeno centro da cidade. Era composto, basicamente, por casas de no máximo dois andares e algumas praças, mas havia outras coisas interessantes: uma ampla região aberta usada para as festividades da cidade, e também como mercado; o prédio do Parlamento e o palácio do mestre da cidade; um pequeno teatro decadente. A natureza acidentada da região agradava aos olhos: as colinas preenchiam grande parte do cenário, e mais ao longe era possível ver o Rio da Discórdia e o Rio Pesado dando origem ao Rio Prima.

Uma charrete puxada por dois yutsis chegava perto, subindo a estrada. Logo o transporte parou em frente às escadarias da mansão de Byron. A porta laranja se abriu, e por ela saiu uma mulher alta e magra, com um rosto triangular e cabelos loiros muito lisos. Ela se vestia com elegância; seu longo vestido começava azul-claro no chão e escurecia até ficar completamente preto na altura dos ombros. Virou-se em direção a Tornero ao sair da charrete e, com um olhar rápido e altivo, saudou-o com um movimento da cabeça. Tornero retribuiu o gesto. Intuía que ela deveria ser respeitada, especialmente na presença de seu mestre, mas ainda não entendia por que — E enquanto isso não ficasse claro se recusava a prestar a ela saudações muito efusivas.

Byron parou ao lado da mulher. Era baixo, comparado a ela; atarracado e já bastante velho, seus óculos conferiam ainda mais rosanos à idade que já aparentava ter. Seu cabelo e barba eram como que misturados, uma contínua faixa curta e grisalha cobrindo seletivamente a clara superfície da pele.

— Tornero, esta é Gisell. Ela é uma bomin de Den-u-tenbergo que veio fazer negócios conosco.

— Seja bem-vinda a Prima-u-jir, Gisell.

— É uma terra belíssima! — Comentou ela, com uma voz levemente anasalada. — Essas colinas lembram muito Den-u-tenbergo.

— Vamos entrar. — Disse Byron, que sempre deixava os ouvintes confusos quanto as suas intenções. Ninguém sabia se aquilo era um convite ou uma ordem.

Acolhido como discípulo por Byron logo depois que Lamar foi deixado de lado, Tornero viu seu sonho se tornar realidade. Ele sabia que era merecedor daquilo. Ele, e não Lamar. Afinal, era corajoso, ambicioso, inteligente — tudo que um mago deveria ser. Lamar era fraco, inseguro, e só tinha conseguido aquela chance por causa dos pais. Tornero não tinha pais que pudessem dar isso a ele, com favores ou dinheiro. Teve que lutar sozinho pelo que quis. E venceu.

Os três subiram as escadarias cinzentas em silêncio; Byron na frente, com passadas determinadas, e os outros dois atrás. De um harmonioso tom caramelo, a porta combinava perfeitamente com a alvenaria bege da casa de quatro andares — a maior da cidade. Um empregado abriu a porta pelo lado de dentro antes que eles vencessem os degraus, e o grupo encaminhou-se diretamente para a sala de reuniões, nos fundos do andar térreo.

Bem iluminada em amarelo, a pequena sala contava com dois retratos de um Byron dez rosanos mais jovem em suas paredes; em um deles, vestia uma capa laranja, e em outra as escuras vestes de ofício de um parlamentar de Prima-u-jir. O mestre bomin tomou assento na grande poltrona atrás de uma mesa de escritório bem organizada. De frente para ele restavam duas cadeiras grandes e pouco confortáveis, nas quais Gisell e Tornero sentaram. Ele, puxando a cadeira com naturalidade e descaso. Ela, cuidando para causar menos ruído.

— Pois bem. — Byron observava a mesa e balançava a cabeça, como se visse, enfim, que tudo estava em ordem. — O que você tem para me dizer, Tornero?

— Eu vi Lamar.

Gisell o observava com a pacífica qualidade da desinteressada ignorância. Já o semblante de Byron permaneceu na mesma seriedade pronta a rir ou a explodir em berros.

— E o que houve?

— Ele está dando aulas. Vinte e cinco pessoas quando estive lá. Isso foi há dois dias. Como eu disse antes — prosseguiu Tornero, com prazer na autorreferência — ele é fraco. Ataquei a ele e a seus alunos sem dificuldade. Ele deve ser eliminado imediatamente.

— Trata-se de um alorfo? — Perguntou Gisell. Byron discretamente fez que sim. — Pestes! Não sei como vocês daqui lidam com esses baderneiros, mas em Den-u-tenbergo eles ficam presos para sempre em uma casa em uma jir bem distante.

— Aqui nós somos cautelosos, minha cara Gisell. — Explicou Byron. — As coisas são diferentes em Prima-u-jir. Não poderíamos fazer isso ou, assim, de repente, tomar qualquer atitude impensada.

Tornero intuiu que ele disse, indiretamente, que não faria nada.

— Creio, mestre, se me permite a recomendação, que devemos eliminá-lo porque ele é a razão pela qual no futuro precisaremos ser ainda mais cautelosos! É preciso…

— Tornero, acalme-se. — Byron mostrou ao discípulo a palma da mão com o punho ainda encostado à mesa. — Acredito que está sendo passional demais para um bomin.

Tornero vira Byron dentro do próprio castelo, por detrás de uma coluna, mas o deixou trabalhar sem interrupções. Sua fúria contrastava com a regozijante paz que começava relutantemente a tomar conta dele. Sua mente lhe ditava razões para odiar seu próprio mestre, mas sentia como se o sangue se tornasse um fluido refrescante, pulsando de forma a relaxar cada parte do corpo, contradizendo sua razão.

— Mestre… Lamar ainda é fraco. Ele pode ser liquidado enquanto ainda é cedo.

— Não… Não estou tão certo disso… — Interveio Byron, tamborilando os dedos sobre a superfície da escrivaninha. — Sua fraqueza de iaumo não significa falta de fibra. Sua história deveria tê-lo levado a esquecer a magia, mas ele não apenas se tornou alorfo como teve a coragem de voltar para Prima-u-jir com um admirável projeto de transformação!

Gisell achou aquele um estranho arranjo de palavras, mas não disse nada. Tornero não conseguia mais sentir o que quer que Byron estivesse fazendo com ele. A sensação passara; virou fogo que o tomara por completo; seus lábios tremiam, e ele não conseguia encarar o mestre nos olhos. Quando o fez, recebeu um olhar benevolente. Poderia jurar que viu Byron dar um leve sorriso — cínico escárnio!

— Continue monitorando, Tornero. Pode ir.

Tornero se levantou e foi em direção à porta. Antes de sair, virou-se uma última vez.

— Da próxima vez que me atacar, mestre… Eu me defenderei.