O Conselho

A erma região do centro de Heelum era composta por um conglomerado de colinas e árvores que, acreditava-se, era inabitado. Ainda que ninguém morasse ali, o lugar era usado como passagem: das Montanhas Iarna nascia o Rio Joss, pelo qual desciam de barco aqueles que viessem da Cidade Arcaica com destino a Kerlz-u-een. Era também um atalho, ainda que não claramente definido, para Imiorina; podia-se chegar à cidade do deserto pelo norte, através de uma longa estrada a partir de Enr-u-jir, mas aqueles com pressa tinham a aventura como a opção mais adequada. Esse era o caso de alguns magos que, pagando um pouco a mais, eram deixados logo na outra margem do rio, e adentravam um espaço longo e solitário que qualquer um preferiria evitar. Aqueles que permaneciam na embarcação observavam, meditativos, as reservadas figuras que se dispunham a seguir aquele caminho, e concluíam que eles deveriam ter uma boa razão para fazê-lo.

De fato tinham. Desmodes seguia apressado rumo às Montanhas dos Oniotos. A charrete seguia por um estreito vale em que o chão tinha marcas de rodas e cascos; a trilha ladeava verdes campinas, oliveiras cujas folhas mais baixas tinham frágil aspecto e eventuais coelhos e raposas. O caminho seguia sinuoso, mas mantinha-se relativamente reto rumo ao centro das altas montanhas. Na última meia hora de trajeto observadores ficavam escondidos, camuflados em uma mata um pouco mais fechada, para evitar que estranhos seguissem o caminho até o final. Desmodes não era um estranho para eles.

Agora o caminho era de subida, mas os yutsis não pareciam abalados; seguiam firmes por uma terra já sem vegetação. Logo já era possível perceber o quão alto era o lugar: o tablado curvo de toda região ao leste aparecia ao longe.

Desmodes seguiu em frente e passou por uma abertura entre duas paredes rochosas. Entrou em uma gigantesca planície completamente cercada pelas montanhas. Um suntuoso castelo fora construído próximo à entrada, com colunas frontais exibindo ricos e complexos detalhes em prata e uma torre de três andares, no canto mais distante da entrada, para que pudessem observar as terras mais baixas, situadas após um desnível: um acampamento militar, com cerca de duzentos homens de prontidão, entre soldados e oficiais. Aquele era o exército do secreto Conselho dos Magos, e o castelo servia de reunião e quartel general do Conselho, além de residência para qualquer mago membro do Conselho que quisesse ficar ali.

Desmodes parou a charrete. Desceu dela e, sem esperar por alguém que viesse tirá-la dali primeiro, entrou no castelo.

A sala de entrada era ampla, alta e principalmente vazia; uma câmara escura em que as luzes das janelas, uma a cada lado da porta principal, lançavam raios espectrais sobre um chão de pisos azuis. Havia uma entrada à esquerda e uma à direita, sem portas, e uma escada de pedra cor de bronze em cada parede subjacente, ambas convergindo para o segundo andar. De lá vieram Igor e Ramos. Este, um homem mais velho e carismático com alguns fios grisalhos no preenchido couro cabeludo e alguns fios negros na aguda barba cinza — e nenhum dos fatores dava a entender que perdera o viço de sua juventude. Aquele, um sujeito baixo com um peculiar bigode espesso, trazia na boca dentes irregulares e espaçados.

— É Desmodes, não? — Perguntou Igor, com um sorriso que parecia ser torto devido a uma desfunção de ótica.

Desmodes era novo no conselho; era natural que alguns magos não lembrassem seu nome.

— Sim, de Jinsel. — Respondeu ele. — Vocês são Igor e… Ramos.

— Certo. — Disse Igor, enquanto Ramos confirmou com um aceno. — Está voltando de onde? De Jinsel?

— Vim de Enr-u-jir. Já estão todos aqui?

— Quase… Só esperando por Lucy, agora que você está aqui. — Igor passou a olhar para algum lugar fora do castelo. — Cremos que ela chegará em breve.

***

A porta era grossa e pesada; a maçaneta, reta e feita de um metal escuro, exibia a letra “E” em relevo para quem entrava. Desmodes ocupava o quarto que fora de uma maga espólica de Novo-u-joss.

O Conselho dos Magos era composto por vinte e um magos: sete de cada tradição, independentemente da cidade de origem. Quando um entrava, outro deveria sair, e os escolhidos eram eleitos tendo em vista o envolvimento com a comunidade. Com o conselho formado, um mago deveria ser escolhido para liderar a todos. Este seria o mago-rei.

O Conselho foi formado durante a Aurora da União, antes de todas as guerras modernas, por bomins e preculgos dispostos a colaborar uns com os outros a fim de prosperar. Os espólicos não existiam ainda, mas depois da guerra em que Napiczar aterrorizou Heelum com exércitos disciplinados e cruéis, foram incluídos no grupo.

O quarto de Desmodes era longo e bem iluminado. À esquerda da porta havia um armário e uma porta para o banheiro, enquanto que logo à frente ficava a alta e larga cama, coberta em rubros lençóis. À direita e sem sólidas divisões estava uma pequena sala com sofás azul-marinho e uma mesa de canto com duas cadeiras de madeira clara.

Logo uma mulher em um curto vestido amarelo apagado entrou, apressada, trazendo uma bandeja. Em cima do prato, um largo pedaço de carne de onioto — azul-claro e suculento — com alguns grãos e folhas de alface, além de um doce marrom, fruta com uma polpa cremosa e doce. Enquanto isso um homem usando vestes também amarelas entrou e deixou as duas malas que Desmodes trouxera na charrete em cima da cama, começando a abri-las e organizar as roupas no armário. O novo habitante do castelo olhava pela janela, com apenas uma breve visão do acampamento militar, e sentia com a mão direita em um bolso interno o raro minério verde e marrom que havia conseguido na breve passagem pela Cidade Arcaica.

***

Desmodes entrou em uma casa pequena demais para ser um castelo, mas luxuosa demais para pertencer ao tipo de pessoa que poderia ter uma casa daquele tamanho em Jinsel. Fechou a porta atrás de si, dourada e alta, e desceu alguns degraus azuis para chegar a uma sala estranhamente ampla. Nela, quatro sofás verde-escuros formavam um quadrado de assentos em meio a chão e paredes amarelos como o sol. O ambiente de janelas fechadas só fez aumentar o calor, e Desmodes tirou o colete negro que trazia por cima da camisa bordô.

Desmodes! — Exclamou uma mulher alta e magra, que entrara na sala batendo palmas ritmadas. — Parabéns! Pa-ra-béns!

Ela continuou de pé, olhando para ele com dois penetrantes e enraivados olhos aquáticos, plena de consciência de que não haveria resposta. Seu curto vestido azul-claro, que parecia não ter saído de seu corpo desde uma festa sem hora para acabar, servia bem como cálice para o cabelo loiro e seco que abaloava a cabeça, começando a balançar assim que ela começou a ir embora.

Logo parou, como se houvesse uma parede invisível que não pudesse transpor. Seu corpo relaxou e ela fechou os olhos, respirando fundo. Virou a cabeça para a direita e encontrou um rosto frio no sofá.

— Vamos. — Disse Desmodes, convidativo. — Sente-se comigo.

— Inasi-u-sana ainda não começou. — Rebateu ela, ríspida. — Não costumo usar essa sala em outras estações.

— Não penso que tenha tantas salas boas como essa.

Eleonora desaprovou o comentário do visitante, sem dar à bronca qualquer impressão cômica ou amigável. Seu andar era duro e férreo; seu fechado sapato negro, o cume invertido de uma roupa apertada e nebulosa, fazia uma som abafado e sinistro ao entrar em contato, pé por pé, com o chão de etérea tonalidade.

— Então. — Sentou-se ela no sofá em frente, entrelaçando os dedos das mãos. — Como já disse, parabéns. Você deve ser muito poderoso.

— Nem todos os magos do Conselho são poderosos.

— Digo isso porque você deve ter precisado de magia para entrar no Conselho. Você nunca fez nada por nós. Eu quase não lembrava do seu nome. Como é que você foi escolhido para me substituir, Desmodes?

— Eu não reconhecia o valor da comunidade antes.

Eleonora fez um muxoxo de rebelde incompreensão, olhando para a porta que levava à cozinha a sua esquerda. Balançava a cabeça; sua perna cruzada começava a tremer.

— Mas você está certo… Nem todos os magos do Conselho são poderosos.

— Fale mais sobre eles.

Ela o olhou diretamente nos olhos.

— Se eu não falar você vai me machucar, não é?

Desmodes concordou com um aceno breve. Eleonora deu de ombros e reclinou-se sobre o encosto acolchoado.

— O mago-rei é Dresden. Ele é um homem de honra, e não chegou lá por acaso… É muito habilidoso, e que eu me lembre nunca usou magia lá dentro entre eles…

— Um mago leal.

— Sim, ele é leal. — Confirmou ela, levantando as sobrancelhas. — É firme… E cuidadoso. Deve ser um bom homem… E, como eu disse…

— De que tradição? — Interrompeu Desmodes.

— Ele é preculgo. Os outros preculgos são… — Ela começou a contar nos dedos, pensativa. — Maya, Anke, Sandra… Saana, Sylvie… Não, Sandra é uma bomin. Ela e Valeri são bomins… Temos o Igor também como preculgo, e… O Duglas.

— O que sabe sobre eles?

— Bem, Maya é muito organizada. Metódica. Eu não gosto dela. É inteligente, mas não é muito boa. Anke, por outro lado, é uma cobra…

— Por quê?

— Ela vai perceber tudo sobre você quando você começar a falar com ela. — Eleonora parecia ressentida, ainda que satisfeita por poder destilar em alguém toda sua crítica. — Os instintos dela não devem ser subestimados, Desmodes, nunca.

— Lembrarei disto.

— Quem mais… Ah, sim, Sandra. Sandra é uma mulher de cabelo curto, eu lembro… Encontrou o amor no Conselho, veja só. Valeri é a sua companheira. Duas malditas, aquelas duas bomins. São diferentes, as duas, você vai ver, mas são todas insuportáveis, cada uma de um jeito. Saana e Sylvie são duas fracas, as duas preculgas, mas Sylvie pelo menos faz parte da corte em Den-u-tenbergo.

— Den-u-tenbergo. — Confirmou Desmodes.

— Sim. Ela não parece boba, mas eu nunca conversei muito com ela…

— Você conversava com alguém, Eleonora?

Ela aproximou-se dele vagarosamente.

— Eu conversava mais com os homens, Desmodes.

— Então fale sobre eles.

Eleonora voltou a se recostar no sofá, bufando com força.

— Temos o Duglas, por exemplo. Esse é preocupado… Detesta os filinorfos e os alorfos mais do que muitos ali, se não mais que todos.

— Quem mais é como ele?

— De odiar filinorfos? Bem, temos o Elton. Vem de Enr-u-jir, o coitado, o que podemos dizer? Vive com problemas e por ele matava esses rebeldes um por um… O Duglas é preculgo, mas o Elton é bomin.

— E os outros?

— O Souta é um mequetrefe daqui de Jinsel. Ele provavelmente vai tentar socializar com você, mas é um tolo. É um espólico, também. Bem, Desmodes, eu não sei mais o que você quer que eu diga. Quer mesmo que eu fale sobre todos os magos naquele lugar?

Desmodes a observou enquanto ela pedia por clemência, mais entediada que cansada.

— Voltarei amanhã.

Levantou-se para ir embora, e antes de alcançar a porta a ex-membro do Conselho o chamou:

— Tem uma coisa sobre Dresden, o mago-rei. Ele consegue se duplicar com… Mais facilidade.

Desmodes virou-se para ela.

— É o que dizem. — Reiterou Eleonora. — Não tenho certeza, mas… O que eu ouvi dizer é que ele nunca está numa cidade só.

***

A sala de reuniões era do mesmo tamanho de um quarto e ficava no andar térreo, logo abaixo das escadarias de acesso ao segundo andar no salão de entrada. As luzes bruxuleantes de dez tochas — oito distribuídas entre as paredes longas, e uma para cada parede mais curta — deixavam o lugar pronto para o mais acalentador banquete.

A mesa era longa, com dez lugares de cada lado e uma cadeira posicionada em apenas uma ponta — a cadeira do mago-rei Dresden. Ele usava uma grossa capa verde-escura, refletindo sua tradição. Em seu rosto claro, coberto por áspera barba, havia uma cicatriz que começava na orelha e parava na metade da bochecha, misturando-se às rugas de expressão.

Atrás da cadeira do mago-rei havia um grande relógio negro, com números, ponteiros e longo pêndulo recortados em pura prata. A reunião estava marcada para as quatro horas, e o tempo se esgotava. Antes que Dresden pudesse anunciar o início da reunião, os magos se olharam, numa chuva de comunicações redundantes.

— Vamos esperar. — Disse Dresden, sorrindo.

Desmodes ocupava seu lugar na ponta mais distante do mago-rei, do lado esquerdo da mesa; sentava-se ao lado de Janar, um brando espólico de Imiorina, e de frente para Robin, um carrancudo bomin da Cidade Arcaica. Enquanto um era um moreno forte e alto de escuras sobrancelhas grossas, o outro era pálido, com cabelo cinzento, podendo ser confundido com alguma espécie de irmão mais velho e menos satisfeito de Dresden.

Alguns dos magos estavam ausentes na primeira reunião de que Desmodes participara, mas ele certamente lembrava-se dos outros. De Eiji, no mesmo lado da mesa, bem arrumado com seu geométrico cabelo escuro curto. Eiji tinha pequenos olhos precisos, exatos em sua arquitetura engenhosa, e trazia no formato dos lábios uma espécie de sorriso predatório do qual não conseguia escapar, estando triste ou feliz. Lembrava-se também de Anke, atraente mulher que cultivava sua pele morena de maneira espetacular. Seus olhos claros destacavam-se, intensos, disputando do interlocutor a atenção com sua fala macia. Maya, por sua vez, trazia nos olhos grandes a irrefutável identidade de seus agastadiços encantos. De frente para Maya estava Saana, com um brilhante cabelo loiro encaracolado, e do outro lado de Anke ficava Sylvie, com seu pescoço longo e nariz arrebitado, o que ajudava a ossatura exposta a dar um caráter mortuário a uma maga que já não praticava gentilezas com frequência.

— Desculpem o atraso. — Disse Lucy, uma maga de voz doce e o mais longo cabelo da mesa, loiro e ricocheteante. Sentou-se na cadeira vaga do lado esquerdo da mesa.

— O importante é estarmos todos aqui. — Atenuou Dresden. — Esta é a nossa segunda reunião de Inasi-u-sana, no vigésimo-segundo dia da estação. Suponho que não haverá problemas se marcarmos a terceira para o quadragésimo dia.

Ninguém se manifestou.

— Ótimo. Imagino que esta reunião será ocupada, haja vista a quantidade de ausentes da última vez.

Realmente me surpreende que todos vieram hoje. — Disse Elton.

Desmodes deslocou-se de leve para frente, observando o mirrado homem negro de Enr-u-jir, que tinha uma musculatura surpreendentemente destacada, quase tão notável quanto os olhos revoltosos.

— Você parece incomodado, Elton. — Disse Dresden, acomodando-se na poltrona com uma das mãos a massagear a testa.

— É claro que sim. E aposto que não estou sozinho. — Ao fazer o comentário, voltou-se para os colegas, dos quais alguns assentiam. — A existência desse Conselho nos dá esperanças, Dresden. Esperanças que não estão sendo correspondidas.

— Talvez o senhor não entenda o objetivo deste Conselho, Elton. — Respondeu o rei.

— Eu creio que entendemos, Dresden. — Disse Valeri, à diagonal de Desmodes. Sua voz, de todo contundente, era uma luta para transformar um quê de frustração em esforço conciliatório. Valeri, que trazia em seu rosto pouco vaidoso as marcas de uma indubitável guerreira, era uma das principais comandantes do Exército de Prima-u-jir. — Nós, magos, temos que nos ajudar… Mas já faz muito tempo desde a criação deste Conselho, e hoje os tempos são… Simplesmente outros.

— Temos mais alorfos agora. Alorfos e filinorfos. — Disse Duglas, enfim materializando o que estava na cabeça da maioria deles. De corpo robusto e compacto, apesar da não tão baixa estatura, Duglas tinha uma voz rochosa que bem retratava o jovem rosto. — Enfrentamos resistência. É por isso que eu estive fora. Eu, pelo menos, estava tendo problemas em Den-u-pra.

— Isto é besteira. — Disse Dresden, com uma feição de desgosto. — Não duvido que todos nós estejamos em animosidades contra estes… Grupos… Mas nosso objetivo é nos unirmos contra eles. Não é isso o que estamos fazendo?

— Mas como temos feito isso? — Rebateu Elton. — Ainda somos proibidos em Ia-u-jambu e em Inasi-u-een. Em muitos lugares temos que evitar nos revelarmos ou perderíamos nossos cargos!

— Temos que ter calma quanto a isso, Elton. Ia-u-jambu é um caso à parte, você conhece o orgulho daquele povo. Se nós somos proibidos hoje é porque já somos proibidos há muito tempo.

— Nós estamos liderando a discussão quanto à abertura aos magos em Al-u-een. — Colaborou Maya. — Em um ou dois rosanos vamos ter uma grande vitória para comemorar, eu tenho certeza.

— Além disso — interveio Saana — combinamos um incentivo em todas as cidades para aprovar leis contra alorfos e filinorfos, não é? A polícia vai nos ajudar a combatê-los. Ou vai investigar menos os casos em que nos defendemos, pelo menos…

— E temos apenas uma vitória quanto a isso, e que nem se pode contar como vitória… — Ironizou Duglas. — Ia-u-jambu os proíbe apenas porque nos proíbe também.

— O importante é que nós estamos agindo — Opinou Saana, tirando os braços da mesa e recostando-se à cadeira. — Eu penso que…

— Essas medidas são ruins.

Os magos que não identificaram de pronto a origem do comentário logo a descobriram através dos outros, que, próximos, viraram-se para Desmodes.

— Qual é o seu nome? — Perguntou Duglas, com a testa exibindo leve consternação.

— Desmodes.

— Por que não concorda, Desmodes? — Indagou Dresden.

— Fazer dos alorfos e filinorfos foras-da-lei e tornar o poder dos magos mais visível só vai aumentar a ira e intensificar a ação dos mesmos alorfos e filinorfos. Além disso, vai provocar debate. Se eles devem ser condenados, isso deve ser natural, e não objeto de polêmica.

— Então supõe que devamos deixar as coisas como estão. — Presumiu Duglas.

— Não. Alorfos e filinorfos se desenvolvem à sombra da inação. Devemos exterminá-los.

— Já se vê que você vem de Jinsel! — Replicou Elton, irritadiço. — Você pode não ter esses problemas lá, Desmodes, mas alorfos têm família, têm amigos, não são perdidos no mundo. Muitos deles vivem no centro das cidades. Por quanto tempo acha que podemos segurar a polícia?

— Não disse que seria fácil. O plano exige competência. — Rebateu Desmodes. Elton desviou o olhar de Desmodes como se precisasse fritar alguma coisa.

— Estamos claramente mal representados… — Disse Sylvie, como se pensasse alto.

— Quer mais magos de Den-u-tenbergo, Sylvie? — perguntou Eiji.

— O único modo de piorar seria termos mais magos de Den-u-pra

Conversas paralelas dispararam ao longo da mesa. Eiji dizia para os magos das imediações que era um verdadeiro absurdo terem três magos de Den-u-pra no Conselho. Souta, um espólico baixo e calvo, prestava mais esquiva atenção a Desmodes do que à conversa. Elton concordava em silêncio, enquanto Duglas gerou sua própria conversa ao concordar com ressalvas, afirmando que todos os magos da cidade mereceram os postos. Igor e Saana defenderam-se, um com contida veemência, outra com justificativas, dizendo ora que ninguém havia dito o contrário, ora que eles também haviam merecido os cargos.

Peri, um mago de modos gentis e colares de madeira pendurados no pescoço, comentava o quanto Kerlz-u-een precisava da ajuda do Conselho. Com o apoio quieto de Brunno e um mais vocálico de Kevin, Lucy defendeu-se ao dizer que a necessidade da cidade não deveria significar benefícios dentro do Conselho. Brunno era um jovem rapaz de cabelo loiro rasteiro e desajustado em cuja pele macilenta estava estampada a gélida indiferença que sentia por todas aquelas disputas de ciúmes e inveja entre cidades. Kevin, por sua vez, era um comerciante de nariz adunco e longo cabelo negro, tendo por volta de cinquenta rosanos. Já mais envolvido com os desafios do sucesso ao lidar com diferentes vontades e modos de viver em Rirn-u-jir, estava profundamente interessado no tema.

Sylvie dizia para Anke que, historicamente, Den-u-tenbergo e Al-u-tengo sempre tiveram menos magos no Conselho do que era justo. Maya levantava a voz, tentando passar adiante a certeza que tinha de que as coisas não eram desequilibradas daquela forma. Ramos, pescando no ar a acusação, concordou prontamente com Maya (dando a ela chance de falar), adicionando depois que na verdade lembrava-se de muitos magos de Al-u-tengo no Conselho. Cássio participava de duas ou três conversas, mais observando-as do que lhes adicionando algo. Janar, num discreto tom elogioso, congratulava Desmodes por seus argumentos, e os dois eram observados por Robin, com feições de leve desdém, aquilo que sente quem não quer estar em um lugar mas, em função do falatório inútil de outrem, não pode sair.

Dresden precisou pedir por silêncio algumas vezes até que todos se acalmassem.

— Só estamos dizendo, Dresden — disse Duglas, por fim — que seria melhor se pudéssemos trazer três magos por cidade. Um de cada tradição. Essa é uma proposta antiga, que há muito tempo é ignorada aqui no Conselho.

— Sabemos que há magos em Ia-u-jambu, mas há quanto tempo não os ouvimos aqui? Eles não têm chance de serem conhecidos porque simplesmente não podem se expôr. — Apoiou Maya, incrementando o argumento.

Desmodes, rangendo os dentes, permaneceu quieto.

— Não podemos fazer isso. Não agora. — Disse Dresden, balançando a cabeça negativamente ao dar a palavra definitiva. — O que vocês pedem é uma reestruturação muito grande para tempos como esses. Há mais uma coisa a discutir antes de pensarmos no que estamos fazendo em cada cidade. — Recomeçou Dresden, não dando margem aos murmúrio que já eram gerados a partir do desapontamento dos magos. — Precisamos visitar os al-u-bu-u-na novamente.

Os al-u-bu-u-na viviam na floresta Al-u-bu, a nordeste do centro de Heelum. Eram uma comunidade que não construiu grandes complexos urbanos, preferindo viver de forma mais modesta em meio a adaptações menos radicais do meio. Foram descobertos nas peregrinações que visavam reconstruir e recolonizar a Cidade Arcaica, mas desde então mantinham uma relação fria e distante com os outros — em oposição não muito radical à relação anterior, simplesmente inexistente — desconfiados que eram das intenções deles, e em especial das intenções dos magos.

— Há algum problema? — Perguntou Robin.

— Não, mas nós sabemos como os alorfos têm nos dado dores de cabeça. — Explicou Dresden, lançando olhares inquisidores para Duglas e Elton. — Temos que nos certificar de que a lealdade deles continua conosco.

— Eu irei, é claro. — Disse Robin.

— Desejo ir também.

Robin, surpreso, apontou seus olhos negros para Desmodes.

Por quê? — Indagou ele.

— Acredito que é uma boa chance de conhecer o tipo de atividade que nós, magos do Conselho, fazemos de diferente e essencial para os magos de Heelum como um todo.

A eloquência foi o suficiente para convencer Dresden, que não fez mais que agitar a cabeça em sumária aprovação antes de voltar-se ao resto da pauta.