Lições de silêncio

O sol se punha de maneira sempre igual, cena reprisada a cada dia aberto. O abraço que unia Tadeu a Amanda parecia igual no que tocava à mecânica do movimento, em que um braço vai por lá e o outro por ali. Os dedos se arrastam enfim pelo tecido que separa as peles, e se acomodam quando os músculos ou os ossos se anteparam, e não há mais como apertar ou para onde ir. Dessa vez, tanto um quanto o outro sabiam o que dizia cada batida descompassada de coração; o que significava o afastamento mais ligeiro, o beijo mais curto, a mão trêmula que há rosanos já não tinha o hábito de tremer. Afinal, mesmo nos mais idênticos fins de dia as nuvens garantem que nenhum pôr-de-sol seja igual a outro.

Sabiam que não podiam falar nada, e o eco dessa regra repelia olhares ansiosos. Sabiam, na verdade, que sequer poderiam se encontrar, mas ver um ao outro era tudo pelo que esperavam todos os dias. Uma das coisas que mais incomodavam os aprendizes de mago era justamente que precisavam vir, nem que fosse para cancelar encontros futuros — embora isso significasse cancelar muito mais do que meras reuniões.

— Como… E-estão sendo as aulas? — Perguntou Amanda.

Tadeu suplicou pelo semblante que ela não fizesse aquilo. Ela entendera a mensagem.

— Isso é tão injusto…

— É, eu… — Ela começou, embarcando na fracamente expressa rebeldia dele. — Eu não preciso saber o que você faz, mas… Por que a gente não pode nem se ver?

Continuaram de pé, os dois com as mãos nas do outro.

— E agora? Eu não posso deixar de te ver. Não posso…

Lágrimas desciam pelos rostos de ambos. As mãos se apertaram mais.

— Meu pai disse que… Que não podíamos ficar juntos porque todo mundo ia desconfiar da gente. Nós somos muito jovens…

— Ele sabe?! — Interrompeu Amanda, apavorada.

Não — emendou Tadeu — mas quando ele me explicou por que ele não queria me ver perto de você, ele disso isso.

Amanda torceu os lábios.

— Por que isso é importante agora?

— Bem, eu… Estava pensando… Talvez isso quer dizer que quando formos mais velhos… Talvez possamos ficar juntos. Quando acharem que nós vamos nos controlar melhor e…

Amanda puxou Tadeu para perto e o beijou. Ele reagiu lentamente, passando a beijá-la depois de um tempo de estupor, tomado pela boa sensação dos lábios mornos dela. Não sabia se ela sorria ou se desesperava; não sabia se havia pensado em uma solução que não envolvesse paciência, segredos e riscos.

— A gente vai consertar isso. — Sussurrou ela ao se separar dele.

Tadeu suspirou pela boca, esperando ter um dia a mesma confiança.

— Eu estava pensando também… — Recomeçou ela. — Você sabe que de vez em quando eu… Pensava em ser médica, lembra?

— Sim. E eu achava que a gente tivesse que escolher entre ser mago ou ser outra coisa.

— É, eu também.

— Como se ser mago fosse uma profissão, que…

— … Que você tivesse que fazer isso! — Completou ela.

— Uhum.

— Bem… — Amanda parou, olhando para a boca de Tadeu. Ele sabia que ela, na verdade, selecionava palavras com especial cuidado. — Eu posso ser médica… E ser maga vai ser bom porque eu vou… Poder…

Tadeu abriu a boca e ela freou a frase, preocupada. Amanda levantou os olhos para ele, e seus dentes apareciam num sorriso constrangido. Ela não podia terminar aquela frase.

***

Dentro do quarto majoritariamente bege, com ocasionais detalhes rosados, Amanda experimentava um longo vestido verde-claro comprado pelo pai. Era reto e liso no topo, tinha uma alça grossa que apoiava-se no pescoço, e se desenvolvia em volume e complexidade perto do chão, onde parecia desfigurar-se em fumaça verde, intacta, apesar de difusa, sempre que a garota se mexia. Permitiu-se sorrir de leve ao tocar no próprio cabelo, que roçava na nuca. Alguém bateu à porta.

— Filha?

— Entra, pai.

Barnabás, vestindo elegantes vestes negras, abriu a porta do quarto.

— Só quis ver como você estava, e se estava pronta.

— Acho que estou.

Ela tirou os olhos do espelho e, dando meia volta, sorriu ao pensar que o pai estava realmente bonito.

— Estou bem? — Perguntou ela.

— Hmmm… Sim, minha querida, está deslumbrante… — Dizia ele, em um tom alheio que prenunciava reprovação. — Mas acho que você passará frio, filha.

— Eu queria pegar a sua capa. A verde-escura. Eu adoro ela.

— Claro, querida. — Disse ele.

Um sorriso satisfeito brotou em seu rosto. Ele permaneceu por mais alguns segundos olhando para ela ao invés de ir buscar a capa. Quando ela enfim chegou perto da porta, tencionando sair do quarto, viu que ele continuava ali.

— O que foi, pai?

— Não, não é nada importante. Hoje vou apresentá-la a outros magos. Apresentá-la não apenas como filha, mas como parte dos preculgos.

Amanda fez que sim, com um sorriso singelo. Pensava em Tadeu.

— Bem… Estou ansioso por fazer você vislumbrar seu futuro! — Terminou ele, alcançando a mão da filha. — Quero fazer seus sonhos se tornarem realidade, minha querida, nada menos que isso. Vou buscar sua capa. — Ela assentiu com a cabeça. Antes de sair do quarto, ele se virou novamente e viu que ela ainda olhava para ele. — Sabe… Sua mãe achava que eu ficava bem bonito naquela capa.

***

Tadeu colocava uma capa azul clara por cima da roupa menos importante que pôde achar em seu armário escuro, embutido de modo que a madeira se transformava parcialmente na corvônia da parede ao fundo. Um quarto feito sob medida: luzes amarelas para iluminar o bom e negro espaço; mobília imóvel, motivos prateados em todos os detalhes, uma única, central janela vermelha que a mãe abria mais que ele. Não queria ir àquela festa dos magos bomins. Detestava não poder contar com Amanda para entendê-lo.

Levou um susto quando percebeu, ao virar-se para a porta, que a mãe o observava da entrada do quarto.

— Mãe, que… Que susto! — Reclamou ele. Eva aproximou-se do filho, sem sorrir mais do que já sorria antes, e tirou-lhe a capa.

Azul, meu filho, é a cor dos espólicos. — Ensinou ela. — Laranja é a cor dos bomins. Procure usá-la. Ou pelo menos não use azul nas reuniões, tudo bem?

Ele confirmou de qualquer jeito.

— E os preculgos? Que cor são?

“Ela não vai desconfiar por causa disso.”

— Hmm… Você não consegue adivinhar?

Ele imediatamente pensou nas roupas que Amanda usava, mas eram tantas — e podiam não significar nada já que ela as usava antes de ser maga, ou aprendiz de maga. Tampouco conseguia se lembrar das roupas que o pai dela usava.

Percebeu que Eva o observava enquanto ele se concentrava; ela sorriu mais uma vez, um sorriso que o tocou como algo, de algum modo, forçado.

— Mãe… Você é uma maga, não é? — Desviou-se ele.

— Sou.

Eva alisou os ombros da capa laranja-escura que pusera no filho.

— Você… Está triste? — Perguntou ele.

Ela olhou para baixo, suspirando com discrição.

— Você não quer que eu aprenda magia?

— Você quer aprender magia? — Rebateu ela, tranquila.

— … E-eu não sei.

— Nessa cidade esperam muito de nós, filho. Às vezes isso significa que temos que deixar algumas coisas pra trás.

— E se eu não quiser deixar nada pra trás?

Tadeu xingou a si mesmo em silêncio por talvez ter deixado transparecer nos olhos alguma das dezenas ou centenas de mentiras que escondiam tudo dos pais. Eva passou a mão por seu rosto, expressando um sorriso apertado que durou pouco.

— Às vezes não temos escolha.

Tadeu tentou não pensar através de uma perspectiva conspiratória, mas lhe parecia que a mãe queria que ele tivesse.

***

Amanda entrou em um salão baixo, mas comprido, em que minérios verdes e amarelos enchiam o lugar de luz. Claro como o dia, ainda que fosse noite, o lugar era aconchegante e até mesmo divertido: um restaurante e bar exclusivo situado no primeiro andar de um castelo reto e sem destaque, espremido entre dois hotéis no centro da cidade.

Não foram muitos os que olharam para eles quando entraram no lugar, mas Amanda percebeu que os rostos, bem dispostos sobre capas e golas, sob chapéis femininos e masculinos, ficaram positivamente surpresos. Havia algumas pessoas de idade, outras que poderiam ser seus pais e mães — mas que, ainda bem, não eram, pensou ela — e rarefeitas mesas exclusivamente formadas por jovens, em geral separadas por gênero.

A música do ambiente era clássica, com uma flautista tocando uma relaxante melodia em um canto mais ao fundo. Amanda acompanhou o pai, que ia cumprimentando todas as pessoas que via (de outros políticos e burocratas até militares e arquitetos), o que significava que Amanda deveria fazer o mesmo. Sua cabeça estava confusa com todos aqueles nomes, dos quais não conseguiria se lembrar, e todos aqueles olhos, que ficavam sempre intensamente agradecidos pela nova presença no grupo.

— Querida… Há uma mesa com pessoas mais jovens lá. — Apontou Barnabás. — Acredito que prefira passar seu tempo com suas amigas do que comigo, que devo falar de assuntos entediantes para você a noite inteira…

Ela duvidou da sugestão por algum tempo. O que era pior? Fazer parte da mesa em que todos a empurrariam para um futuro sem Tadeu ou da mesa em que nenhuma das pessoas era uma amiga de fato? Ela e aquelas meninas não tinham nada em comum; aquilo sempre ficara claro para todas as partes de cada conversa que já tiveram. Um desperdício seguido de outro.

Na verdade, agora tinham algo em comum.

***

Tadeu descera da charrete com o pai no encalço. Pararam em frente a um grande castelo na área leste da cidade, bem perto do mar e das torres; a maresia chegava até eles numa lufada de vento ou outra. Ele estava decorado de amarelo e laranja por fora, e os portões principais, abertos, davam acesso a um longo e bem iluminado corredor, em cujo chão se estendia um vivo tapete vermelho.

— Tente não se impressionar muito. — Recomendou Galvino, com um sorriso.

Tadeu olhava para os lados, esperando ver algo diferente, mas tudo que havia era uma parede bronzeada de alvenaria e mais minérios simulando os primeiros momentos do crepúsculo vespertino.

Ao virarem à direita puderam ver um piso azul-claro brilhante. Por cima dele, mesas circulares, com toalhas alaranjadas que quase encostavam no chão. Ao longe via-se algumas das mesas ocupadas com figurões da cidade; generais, professores, donos de terras, muitos dos quais Tadeu se lembrava, pois visitavam a casa do pai. Reconheceu o próprio professor de tradição numa mesa logo adiante.

Quando finalmente entraram por completo no salão, Tadeu viu uma profusão de luzes em espiral cobrindo as paredes dos mais de quatro andares do castelo sem cobertura: os convidados da reunião tinham o céu por teto enquanto animadamente levavam garfos e copos à boca, enchendo o local de educado burburinho.

— Está ótimo este rosano. — Comentou Galvino, seguindo em frente.

Tadeu caminhou mais para o centro, maravilhado, procurando ver tudo acima de si, e esbarrou sem querer em algo maior que ele. Olhou para frente, aparvalhado, e encontrou Jorge.

— Oi.

— Oi, Jorge.

Tadeu voltou a olhar para o chão, o encanto das luzes quebrado por aquele desagradável encontro. Jorge, “amigo” de infância, parecia ter o conteúdo do rosto injustamente concentrado no centro. Tadeu viu que a mesa que parecia ser dele tinha ainda outros dois garotos, cujos nomes levaria infinitos segundos para lembrar.

— Posso me sentar? — Tadeu perguntou, num impulso.

— Ham… É, sim. Acho que sim. — Jorge parecia ainda mais surpreso que Tadeu.

Qualquer mesa seria melhor que, por falta de opção, a do pai.

***

— Vocês sabem o que é uma charrete com dois bomins caindo de um penhasco?

O silêncio que precede o humor.

— Um desperdício! Cabiam muito mais!

Risinhos insuportáveis seguiam-se, todos diferentes — uns mais agudos, outros mais ritmados, outros obviamente exagerados — mas igualmente destoantes à enfadonha trilha musical. Amanda não rira; nem dessa vez e em nenhuma outra. Já tinha ouvido anedotas sobre trabalhadores rurais (“O que um camponês disse para o outro quando acidentalmente descobriram um minério de luz? Estamos ricos! Com toda essa luz agora vamos trabalhar a madrugada inteira!”), contos sobre alguns homens de Al-u-een (“Minha mãe jura que eles quase desmaiaram quando viram a altura da torre. Não são uns fracotes?“) e irritantes piadas sobre outras tradições mágicas (“Quantos espólicos são precisos para pendurar um minério de luz na parede? Um só, e ele manda o minério se pendurar sozinho!”). Ela segurava o queixo com a mão direita, o cotovelo em cima da mesa, e viu que o pai lançava um olhar preocupado para ela enquanto ouvia algum outro homem falar.

Amanda pensou que estava provavelmente desapontando o pai. Endireitou-se na cadeira, perturbada com a vigilância.

— E então, Amanda… Seu pai te trazendo a uma festa preculga, é? — Dizia Anna.

— É. Estou começando a aprender.

Havia cinco meninas além de Amanda na mesa. As três que não estavam conversando — todas com longuíssimos cabelos loiros e impecáveis vestidos verde-água — arregalaram os olhos, surpresas. Havia uma outra dupla que não prestara atenção na conversa, já que conversavam entre si; uma menina de grandes olhos azuis e cabelo preto levantado em um coque e uma outra, com um triangular rosto cadavérico que parecia concentrar todos os músculos do corpo nas maçãs do rosto. Uma das loiras deu um tapa no braço de uma das morenas, contando o que estava havendo. Anna, balançando e levantando as mãos, deu um sorriso largo.

— Oh, querida, por que não disse antes?!

***

Tadeu não conseguia encontrar uma posição confortável na cadeira. Sua má vontade de estar de frente para Alex, aquele garoto de olhar esnobe e ondulado cabelo firme, era tamanha que ele não conseguia olhar para outro lugar que não o centro da mesa, num ponto qualquer que fosse menos mortificante que aquela conversa.

— Meu pai acabou de comprar mais terras em Kor-u-een. — Dizia ele, com o cotovelo esquerdo jogado para trás da cadeira. — Ele disse que é um excelente negócio no leste lá.

— Onde é Kor-u-een? — Perguntou Jorge.

— No Sul, seu idiota. — Respondeu Geraldo, o garoto magricelo e com um negro cabelo escorrido do outro lado da mesa, à direita de Tadeu. — Acho que a minha mãe vai comprar também.

— Mas a sua mãe é uma… Arquiteta…

Geraldo olhou pela primeira vez na noite para Tadeu, logo voltando-se para os outros dois para compartilhar signos de paternalista indulgência.

— Sim, mas… — Disse ele, fazendo uma pausa para uma risada atravancada. — Ela vai comprar pra ganhar mais dinheiro.

Tadeu ponderou que não deveria ter pensado assim alto. Suportou com irônica honraria o segundo momento na noite em que pensava balbúrdias de si mesmo e resolveu ir mais fundo — ficou curioso quanto àquela situação. Amanda de fato havia dito que era possível ser outras coisas além de apenas um mago.

— A sua mãe não é… Não participa da política? — Perguntou.

— Não, ela diz que irrita ela demais. Por quê?

— Ele está aprendendo magia agora… — Comentou Jorge, com um sorriso malicioso nos lábios acompanhando um vagaroso balançar vertical de cabeça.

— Seu pai é um grande político. — Comentou Alex. — Provavelmente pensa que os magos são todos envolvidos com a política.

— Quem pensa, eu ou o meu pai?

— Você, é claro. — Ele riu brevemente, franzindo as sobrancelhas. Os outros o acompanharam. — Que pergunta…

Tadeu não sabia o que fazer ao ser publicamente humilhado. Lembrava-se dos velhos tempos em que nunca soube o que era sentir-se superior a alguém, ou pelo menos igual. Todos os garotos com os quais conversava chegavam a ele impondo respeito de qualquer jeito que pudessem. Tadeu nunca jogou aqueles jogos. Eram uma estupidez; ele sequer conhecia as regras. Aqueles jogos, no entanto, pareciam ser a essência daqueles meninos, mesmo tendo vários rosanos se passado.

— A beleza de ser um mago… Qual é o seu nome mesmo?

— Tadeu.

— Tadeu. A beleza de ser um mago, Tadeu, é que você pode ser qualquer coisa. As portas do futuro estão abertas para você. Mas você precisa ter as chaves.

Tadeu não estava gostando do rumo daquela conversa. Desviou os olhos dos de Alex antes que ele resolvesse ter ideias. Era melhor passar despercebido por aquela festa.

— Está na hora de ser iniciado, Tadeu.

Alex fez um movimento com a cabeça, indicando uma das saídas. Sorria abertamente agora; um sorriso sem controle, com os músculos travados na expressão que inspirava loucura. Tadeu não fazia ideia do que estava acontecendo.

— Vamos lá fora.

***

— Iniciada? — Perguntou Amanda, pega de surpresa.

— Sim. Todas as novas magas devem passar por isso.

— E… O que vocês vão fazer?

— Simples! Vamos te invadir e brincar um pouco com você.

Anna sorria, e os olhos das outras brilhavam de expectativa enquanto respondiam, nem sempre silenciosa mas sempre afirmativamente, quando Anna perguntou se não era assim que funcionava. Amanda olhou para o pai. Estava distraído; conversava com uma mulher em longas vestes roxas, encostando a palma da mão cuidadosamente em suas costas.

Depois disso, passou a pensar com frieza num fato novo que a deixou mais quente. Se elas a invadissem, talvez pudessem descobrir sobre Tadeu.

Isso não podia acontecer.

— Não… Vocês não vão não…

— Você tem que deixar, Amanda.

— Não… — Amanda tentou sorrir. Era uma brincadeira, afinal, não era?

— Você vai deixar ou ficará de fora — Ameaçou Anna.

— Fora do quê? — Retorquiu Amanda, irritada.

Anna a olhou com declarado desprezo. Balançou a cabeça por um tempo, deixando a boca aberta ao ponto de os amarelos dentes da fronte aparecerem por completo, e por fim levantou-se com ares de determinação.

— Vamos, meninas. Deixem ela aí.

A boca da aparente líder do bando já não jazia aberta quando elas se levantaram e foram embora, para longe daquela mesa e em direção à saída. Andavam devagar, algumas com um passo mais estranho que outras, mas todas acima de dourados sapatos abertos, todos iguais. Amanda se levantou logo depois de olhar para o chão, refletindo sobre as consequências do que fez.

Pensou em chamá-las de volta. Tinha todas as razões para querer que elas não a atacassem, mas sabia que deixá-las ir não era bom. Mas o que diria para que voltassem? Que deixaria que elas a invadissem?

— Filha?

Amanda fechou os olhos e tremeu, deixando o ar nos pulmões escapar dolorosamente. Desapontamento paterno era algo de que não precisava. Virou-se e encarou Barnabás, que parecia preocupado.

— O que aconteceu?

— Uma… Iniciação estúpida. Elas queriam me invadir, e eu não deixei.

— Você lutou com elas? — Perguntou Barnabás, mais interessado do que preocupado.

— Não pai, eu mal consigo me manter de pé lá… Você sabe disso…

Barnabás inspirou forte; foi o que Amanda pôde ouvir, de cabeça abaixada observando, envergonhada, o polegar direito digladiar-se com uma pele sobressalente do indicador esquerdo.

— Querida, eu… Não posso te forçar a fazer isso, e não quero pedir que faça. Mas peço que pense bem no que está fazendo. Essas meninas serão grandes mulheres um dia. Mulheres importantes. Podem um dia ser a chave do seu futuro.

E, com um beijo suave na testa da filha, Barnabás saiu de perto, deixando-a sozinha em frente à grande mesa, de braços cruzados e rosto culpado. Prestou atenção ao som da flauta, que a tirava ainda mais do sério naquele momento. Bateu a palma da mão na mesa, olhando em volta para todas as cabeças, agora desobrigadas com os chapéus, e que não pareciam prestar atenção nela. Melhor, pensou Amanda, já que não era nada bom protagonizar brigas memoráveis.

***

Alex, Geraldo e Jorge acompanhavam Tadeu para fora do castelo. Seu coração batia rápido, preocupado com o que lhe fariam; não tanto pela dor que pudesse sofrer, mas apenas pela inquietude de ter que se submeter a eles.

Chegaram. Alex empurrou Tadeu de leve, continuando até que ele encostasse no muro externo do castelo, e então deu alguns passos para trás, voltando a ficar no meio, mas um passo à frente, dos outro dois.

— Hoje nós vamos te atacar, Tadeu. Já foi atacado antes?

Tadeu não tinha certeza, mas não conseguiu responder àquilo. Pensou imediatamente em Amanda. Seria fácil descobri-la em seu castelo? Seria possível descobri-la?

Naquele momento entendeu que seu segredo estava longe de estar seguro.

— Então… Chegou a hora!

— E-eu vou contar pro meu pai!

Foi a única coisa que conseguiu pensar para se livrar daquele julgo. Logo — a partir do sorriso maníaco de Alex transformado em risada geral — percebeu que foi uma péssima ideia.

— Vai contar para o papai, é, Tadeu?

— Você faria a mesma coisa. — Soltou, desesperado.

Poderia até falar sobre a mãe, que também era maga, mas por que piorar as coisas? Piscou os olhos com força. Não percebera, mas apertava os punhos contra a parede.

— Você está certo… Depois meu pai lida com o seu.

— Alex!

A voz feminina, que não era adulta mas tampouco era infantil, veio da escuridão atrás do grupo. Tadeu conseguia discernir apenas que o vulto usava uma capa que ia até o joelho, e de lá para baixo a calça seguia até o que pareciam ser botas. Os braços pareciam cruzados — ou pelo menos não caídos pelos lados do contorno.

— Anabel?

— Deixa ele em paz.

— Alex, vamos embora… — Dizia Geraldo.

— Eu vou te dar um soco na cara! — Urrou Jorge, abandonando a magia.

— Eu faço você gritar de dor primeiro. — Ela respondeu, afiada.

Tadeu tentava parar de tremer quando Alex se virou, olhando para Tadeu uma última vez.

— Vamos embora.

***

Amanda foi até o balcão no fundo da sala, ao lado de onde antes estava a flautista, e pediu para o garçom um copo de água. Olhou para o lado e percebeu um garoto de sua altura, com um curto e organizado cabelo loiro, pequenos olhos castanhos, e um copo que parecia conter suco de laranja.

— Eu vi o que aconteceu. — Disse ele, mexendo o suco com uma vareta de madeira.

Amanda o observou, incerta se deveria falar com ele. “Como o dia pode ficar pior?”

— Você viu o quê?

— O jeito como aquelas meninas te pressionaram.

— Hmm… — Entendeu ela, voltando os olhos para a água que acabara de chegar.

— O que você queria com elas?

— Como assim?

— Bem… — Ele tomou um gole do suco e voltou a olhar para ela. Havia algo de sério em seu jeito encantadoramente simples. — Elas pensam que se você se aproxima é como se já tivesse assinado um contrato. Elas assumem que você vá se sujeitar a elas, e quando não faz isso, elas acham que você é uma traidora.

Amanda concordou com a descrição.

— É… Eu não sabia disso.

— Se soubesse não teria chegado perto delas?

— É que… Eu não quis que elas me atacassem.

— Você sabe que elas podiam ter te atacado de qualquer jeito.

Isso também a incomodava. Seu segredo não estava a salvo. Só depois dessa experiência é que ela se dera conta disso por completo. Ele terminou o suco e, levantando-se, virou-se para o lado de fora.

— Estou indo embora.

— Não, espera. — Pediu ela. — Você é do tipo… Influente?

— Como? — Sorriu ele, confuso.

— É… Como elas, você é alguém importante para o meu futuro?

— Ham… — Ele olhou para o chão e ela percebeu que ele entendera errado. Não era pra menos. — Você é franca.

— Não é isso. É que você perguntou o que eu queria com elas. Eu já conhecia elas, só não era amiga delas. Mas meu pai está começando a me ensinar magia agora e ele disse que era importante pra mim ficar amiga delas e… Bem, eu estraguei tudo. Ele está decepcionado comigo. Se eu ficasse amiga de você talvez ele visse que pelo menos eu fiz um amigo.

— Bom, então deixa ver se eu entendi… Você não está me usando para o seu futuro, mas está me usando para não decepcionar seu pai?

— Não é bem isso. — Disse ela, mas já reconhecendo a estranheza do que havia proposto. “Pelo menos não fui falsa”, pensou. — É que você é legal… Parece legal… E achei isso… Diferente. Meu nome é Amanda, aliás. Por que eu nunca te conheci quando eu era menor?

— Bem, se eu vou ficar e falar disso… — Disse ele, sentando-se novamente. — Então é melhor eu sentar e pedir outro suco. Meu nome é Gustavo.

***

Anabel aproximou-se de Tadeu, que deslizara para o chão, assustado, e agachou-se à frente. Ele agora a via por completo: ela tinha um liso cabelo ruivo um pouco mais abaixo dos ombros, e a capa que vestia era uma mistura sem sentido de laranja e preto.

— Por que fez isso?

— Não gosto deles.

— Procura briga por diversão?

— Mais ou menos. E aí, você está bem?

— Vou ficar. — Garantiu Tadeu. — Só não queria… Participar daquela coisa.

— É, mas você sabe que agora tem três opções. Ou você fica longe deles… Ou fica perto e se prepara para ser atacado… Ou se prepara para quando eles vierem.

Tadeu analisou as opções. Nenhuma parecia boa, então ele imediatamente criou uma quarta: ficar por perto dela para que ela pudesse ameaçá-los mais uma vez.

Ele viu que os olhos dela eram pretos. Ela viu que os olhos dele eram azuis. Os dois sorriram; ela mais que ele. Deixando a posição que já começava a fazer doer os pés, Anabel sentou-se ao seu lado.

— Você podia me ensinar a ameaçar eles do jeito que você fez.

— Não, não posso fazer isso. Sou discípula, não mestre. Mas te digo, eles vão voltar. Falar do seu pai não foi inteligente.

— É, eu sei. Mas eu precisava impedir que eles me atacassem hoje.

— Mas você sabe o que isso significa, não sabe? — Disse ela, mostrando-se levemente confusa. — Eles queriam que você fizesse parte do grupo. Isso era a iniciação, era…

— É, eu sei. Eles me disseram. Mas é que eu não podia… Eles não podiam me atacar.

Ele evitou o olhar dela, que parecia já ter entendido do que ele estava falando.

— Segredos.

Ele assentiu com a cabeça. Fechou os olhos mais uma vez ao pensar no risco que corria, sem saber que já o carregava havia rosanos.

— Por favor não me ataque.

— Não, eu respeito isso. Eu também tenho os meus. Meus segredos. Também não fiz nenhuma iniciação.

A menina olhava para a frente, absorta. Com o canto do olho, Tadeu notou que ela parecia ser apenas um pouco mais velha que ele — embora sutis diferenças de idade sejam sempre difíceis de discernir.

— Meu nome é Tadeu.

— Ah, verdade! Eu nem perguntei antes… Bem, você já sabe o meu.

***

— Eu não sou daqui. — Dizia Gustavo. — Eu vim de Den-u-pra com o meu pai há uns… Dois rosanos.

— Hmm… Eu já tinha passado da época em que procurava por amigas. Ou era ofertada a elas…

— Como assim?

— É que… É complicado.

— Hm. Tem a ver com o porquê de não querer aquelas meninas vasculhando seu castelo?

O silêncio confirmava enquanto ela olhava para baixo. E se ele a atacasse?

— Bem, de qualquer forma… Eu sou novo aqui. Meu pai insiste que eu venha nessas reuniões pra conhecer gente da minha idade, mas… Eu já conheci quem eu precisava nessa cidade.

— Você fala de um jeito… — Disse ela, notando um quê de tristeza e nostalgia na voz de Gustavo. — Você quer voltar pra Den-u-pra?

— Sinto falta de lá. De observar as estrelas, que eu sinto que brilhavam muito mais do que aqui. Do teatro, do espírito daquelas praças.

— Parece bom lá.

— E é. Mas falo sério quando eu digo que eu já conheci quem eu queria.

— Isso quer dizer que você já faz parte de algum grupo que não tem espaço para mim?

— Ah, isso seria triste. Seu pai ficaria muito desapontado.

Ela sorriu, na esperança de que ele sorrisse de volta e as duas frases fossem tidas como as brincadeiras que eram. Ele sorriu de volta, permitindo a Amanda aprender, aos poucos, a decifrar aqueles dois olhos brincalhões.

— Não, não quis dizer isso. Como eu disse, venho aqui por causa do meu pai. Eu também não fiz a iniciação. Não gosto dessa gente.

— Mas ainda assim já conheceu todo mundo que precisava…

— É, mas… Podemos ser amigos. Posso ajudar você, se você quiser.

— Sério? — Ela disse, esperançosa.

— É. Bem, você já viu que eu não posso influenciar muito o seu futuro, mas… Pode dizer ao seu pai que tem um novo amigo.

— E… Se eu disser isso pro meu pai eu vou estar mentindo?

Ele riu, levantando-se da cadeira.

— Você é boa. — Ele riu ainda mais. — Muito, muito boa.

E, pagando pelo copo de suco a mais que consumiu, botou no balcão seis moedas de ouro e foi embora.

— Espera, só mais uma coisa… — Disse ela. Ele se virou, com uma surpreendente ausência de sinais de impaciência. — O que o seu pai faz?

— Ele é médico.

Amanda levantou as sobrancelhas, com a mente a mil. Pensou, enquanto via o novo amigo distanciar-se com um andar altivo, que talvez ele pudesse ajudá-la em seu futuro mais do que ele poderia adivinhar.