Fuga

Lenzo estava sentado; as costas curvadas e os cotovelos sobre os joelhos. No sótão completamente vedado, com ele, o mesmo minério vermelho que antes servira de guia aos outros filinorfos e o barulho da chuva, mais forte na parte da casa que recebia o primeiro baque das gotas. Só se podia entrar por uma portinhola que abria mediante o uso de um truque, e ainda assim Lenzo teria tempo de esconder o minério e a si mesmo caso um estranho adentrasse o lugar.

O ambiente refletia bem, em todos os sentidos, a situação do homem. Fedendo a mofo e a todo tipo de coisas velhas, aquele era o depósito da casa de Kan, que estava atualmente em estado de aluguel. Para o governo de Al-u-een, naquela casa morava Gagé — que, discreto ao longo das mais recentes atividades, conseguira ficar limpo de qualquer ligação com os filinorfos. Sua fama não o precedia e, portanto, se a polícia viesse atrás de Kan, este não seria um lugar por onde começar. Mas, por precaução, escondiam-se no sótão enquanto arrumavam as coisas para partir para Roun-u-joss, onde estariam muito mais a salvo.

Enquanto cheirava a podridão de um lugar que não era seu, esperando para ser jogado em uma jornada que não queria que fosse sua, Lenzo ficava se perguntando, imerso em uma profundidade vermelha que só intensificava sua dor de cabeça, por que fez o que fizera. Como pôde fazer aquilo a seu próprio tio?

Não que ele tivesse sido um parente presente em sua vida, mas nada justificaria aquilo. Lenzo quase nunca havia feito algo por convicção. Ficou deslumbrado com os alorfos e com Neborum, e aprendeu os simples ataques de algumas tradições e as técnicas únicas do grupo do qual fez parte por um longo tempo. Realmente acreditava naquilo? Se sim, como tudo parecia tão raso e sem sentido agora?

Sua crença era forte no método, mas não aguentou a pressão dos resultados. Conhecera Hiram e tornara-se um dissidente; um filinorfo. Viu que havia algo de errado com Heelum. Algo que os alorfos não podiam consertar. Se ele desejava fazer a diferença de verdade, não podia continuar mentindo para si mesmo. Era como se ouvisse Hiram repetir isso dentro da própria cabeça: seu trabalho era irrelevante enquanto alorfo.

Eles incomodavam, certamente, e por isso estavam sendo cada vez mais perseguidos. Mas não incomodavam a ponto de transformar as coisas. Ninguém transforma nada do conforto de um lar. Arriscar era preciso. E Lenzo, apesar de ter se mostrado disposto a fazer algo, nunca teve de fato oportunidade. Hiram tinha um paradeiro errante, e Lenzo sempre fora esquivo quanto a suas determinações.

Mas a hora havia chegado. Um plano estava bem arquitetado, e Hiram veio com reforços. Agora, mais do que nunca, precisava de Lenzo: precisava de um acesso simples e direto à presença de Hourin, ou o plano seria muito mais difícil de concretizar. Maldita hora em que Hiram disse que precisava de Kan. Não precisava. Kan foi um pretexto, uma armadilha; Hiram, a víbora Raquel e o bandido Gagé o haviam atraído para aquela maldita casa de fugitivos e, sabendo que Lenzo jamais cederia à pressão de um ataque, confiaram o golpe fatal ao amigo em quem Lenzo confiava.

Kan o atacou e o convenceu a participar daquilo; era a única explicação. Agora sua vida estava acabada.

Tinha que escolher entre ser preso e, ainda pior, receber a ira dos magos de Al-u-een, ou embarcar em uma viagem que provavelmente o levaria até a costa oeste de Heelum sem nunca ser capaz de lhe trazer paz.

Um barulho no assoalho assustou Lenzo, que se levantou num salto e bateu com a cabeça no teto.

— Sou eu. — Disse Kan, tranquilizando o homem do lado de dentro.

Lenzo não respondeu. Permaneceu de pé, mas curvado. Como é que Kan, que se dizia um alorfo, de repente ficara tão confortável andando naquele bando? Não, uma conversa não o convenceria daquele jeito. Sabia muito bem que uma conversa com Hiram não era uma conversa comum, mas aquilo tudo foi uma armação. Tinha que ter sido.

Kan subiu, já estando completamente dentro do sótão.

— Já empacotamos tudo e conseguimos uma charrete. — Ele dizia, com as mãos nos joelhos. Um pouco mais alto que Lenzo, tampouco podia se dar ao luxo de ficar de pé naquele espaço. — Vamos esperar anoitecer um pouco mais e vamos.

— Eu vou embora, Kan.

Lenzo viu um sorriso tímido brotar no rosto abaixado de Kan.

— É claro que vai. Todo mundo vai.

— Eu não vou com vocês.

— Lenzo…

— Você mentiu pra mim, Kan! — Interrompeu Lenzo. — Você… Você me atacou para me convencer! Você me convenceu a matar o meu tio!

— Que idiotice é essa?

— Idiotice?! Idiotice? Eu vi a sua mão debaixo da mesa, Kan, e eu vi os outros nos castelos deles, e mesmo não vendo os castelos eu via eles nas janelas, nas torres, m-mas e você? Onde você estava?

— Eu estava quieto dentro do meu castelo! — Rebateu Kan, com as sobrancelhas caindo para perto dos cílios.

— Eu estava preocupado com eles, Kan, mas não com você… Foi realmente um plano perfeito, seu preculgo nojento!

Kan olhava diretamente para a raiva de Lenzo. Ficou irritado com a impossibilidade de se levantar completamente; aquela discussão feita com o corpo curvado era ainda pior, por irrisório que aquilo fosse.

— Eu estava com Hiram nessa. Nós armamos um teatro para você. — Explicou ele, com a voz mais dura. — Mas nós não usamos magia.

— É claro que não usaram, não é? — Lenzo riu da própria estupidez, olhando para o chão. — Se vocês matam… Até usam a magia para ajudar a matar… Usar a magia de vez em quando não é nada

Kan chegou mais perto de Lenzo, pé por pé, e este não conseguiu recuar a ponto de evitar que os rostos estivessem separados por um palmo de ar abafado.

— Tenho uma notícia pra você, Lenzo. — Disse Kan, antes de levantar arquear as sobrancelhas e balançar sutilmente a cabeça. — Nós não fizemos isso sem você junto.

— N-não me importa. Nada do que você me diz me importa, se a polícia perguntar, é isso que eu vou dizer para eles. Que vocês me atacaram. Que eu fui obrigado a fazer isso.

Kan agitou a cabeça ainda mais afirmativamente; a língua percorria as costas dos dentes.

— Tudo bem.

— Quer dizer, e-eu não vou à polícia, mas n-não posso impedir que venham até mim. Se eles vierem.

Ele estava só cuidando de si mesmo, pensou Kan. “Muito justo”.

— Eu fui fraco ontem e me deixei enredar por vocês, mas eu estou fora disso. De vez. — Culminou Lenzo, resoluto. — E se vocês quiserem me matar, v-vocês…

— Cala a boca, Lenzo. — Disse Kan, por fim. — Nós vamos te deixar aqui como você quiser. Só não venha depois pedir asilo para nenhum de nós.

Kan virou-lhe as costas tortas e foi embora, deixando Lenzo outra vez na companhia de chuva e de pedra.