Perspectivas

Dalki estava sentado em um grande sofá marrom com os joelhos distantes e a ponta dos dedos na têmpora. Olhava para a penumbra de sua casa, no centro de Al-u-een. A sala combinava a cor do sofá ao amarelo das paredes com uma atitude positiva, e nada da harmonia branda do espaço era afetado por minérios porque Dalki gostava de ficar não apenas sozinho — tarefa fácil, já que morava sozinho — mas também no escuro. A pouca luz vinha do lado de fora apenas, dos postes da cidade.

Dalki era o chefe de polícia. De costas largas, o homem cultivava uma aparência simples; tinha uma grande marca de nascença na bochecha direita, que ocupava quase um quarto do rosto. O formato de seus olhos sugeria que ele era um homem triste, mas a verdade é que na maioria das vezes estava inexpressivamente contente. Se não com seus resultados, pelo menos com os desafios que lhe eram dados. Afinal de contas, ser um policial era um trabalho complexo: Al-u-een almejava ter na realidade a justiça que se punha na cabeça das crianças. Ele, portanto, precisava evitar a ação dos magos, prendendo-os ou banindo-os da cidade caso fossem descobertos — qualquer mago que fosse, sem se preocupar com o modo como uns desenhavam os outros. Bandidos ou mocinhos, ninguém sairia impune de um assassinato. Não se Dalki pudesse evitar.

O caso em que ele se envolvera no dia anterior era peculiar. Hourin, notável parlamentar, fora mortalmente ferido com uma espada atravessando-lhe o peito. Influente e rico, sempre gerou a ira de parcela da população que acreditava nos boatos acerca de seu status enquanto mago. Ele, no entanto, negava o rumor — obviamente — e jamais algo substancial foi encontrado.

Dalki foi chamado por um homem que morava na rua de Hourin, onde os vizinhos ouviam gritos desesperados vindo da casa do político. Quando ele e mais dois policiais chegaram lá, não havia mais gritos. Espadas em punho, arrombaram juntos a porta da casa e procuraram por um pressuposto agressor no andar de baixo. Não viram ninguém.

Subiram e começaram a vasculhar os quartos. Começavam a chamar por Hourin quando abriram a porta do quarto de sua filha. Viram a própria, lívida e ensanguentada, deitada na cama, virada para a direita; ele, de bruços no chão, o peito levemente sustentado na direção da garota pela espada, que ainda estava lá.

A primeira coisa que Dalki fez foi verificar a pulsação da filha — ele, certamente, não sobrevivera; além disso, se os gritos eram femininos, ela ainda estava viva quando presenciou o ferimento do pai. Ardendo em febre, lutava pela vida. Dalki chamou os outros policiais e disse para um deles trazer imediatamente uma charrete. O outro deveria alertar a casa de saúde da cidade, para onde ela deveria ser levada.

As portas não aparentavam violação, e todas as janelas estavam fechadas. As cortinas estavam cerradas também. Ao analisar o quarto onde encontrara a vítima, viu que os caules das flores do parapeito estavam quebrados, como se tivessem sido amassados. No beco em frente à janela viu uma longa escada de ferro que alcançava o segundo andar da casa.

Procurou superficialmente pela casa por algum papel solto e rabiscado: algum tipo de carta explicando o assassinato. Se Hourin fosse mesmo um mago, poderia ter sido morto por um filinorfo; alguém que acreditasse estar agindo em função de alguma nobreza de alma. Nesse caso, era possível que tivessem deixado uma explicação, um manifesto, um desenho que fosse explicando o motivo do crime. Nada encontrou.

Procurou por indícios de que fosse um ladrão: se algo fora roubado, então talvez o assassino tenha subido a escada, fugindo de Hourin. Ao ser encurralado no quarto do segundo andar, vencera Hourin em uma luta. Uma altercação explicaria a presença de uma segunda espada no quarto da filha. Isso, evidentemente, excluiria a noção de que Hourin fosse um mago. Um mago não chegaria a ser uma pessoa da importância de Hourin se não fosse capaz de repelir um mero ladrão com alguma artimanha. Contudo, não havia sinais claros de que algo havia sido roubado, pelo menos não com pressa. Tudo parecia estar em seu devido lugar à primeira vista. Dalki cuidou para que uma segunda vista começasse.

Tinha sorte de a filha do político ainda estar viva. Quando ela acordasse, poderia esclarecer muitas coisas. Era improvável que o corpo tivesse sido simplesmente largado no quarto após o acontecimento, já que não havia sangue em nenhuma outra parte da casa. Ele provavelmente havia sido morto na frente da própria filha. Crueldade, pensou Dalki. Se isso de fato acontecera, ela poderia ter visto o assassino. Quem sabe ter ouvido um nome. Também seria capaz de verificar a casa para se certificar de que nada havia sido roubado. Um cenário promissor.

***

O prédio do Parlamento de Al-u-een era um dos mais bem cuidados da cidade. Sua última ampliação era antiga, mas fez do lugar um imponente prédio de três andares, largo e comprido, que misturava polidas esferas e colunas cilíndricas a monumentais estruturas de corvônia e vidraças azuis. A praça à frente do Parlamento era um espetáculo à parte; com trilhas simétricas por entre um bosque iluminado por minérios rosados, continha, bem ao centro, para onde todas as trilhas convergiam, uma estátua pela qual Al-u-een era famosa.

Chamada de “O Nascimento”, a escultura mostrava uma explosão gigantesca em que todas as cores estavam presentes. Do cerne da explosão surgiam ondas em que a esfera maciça ao centro expandia-se de maneira cada vez mais caótica, e de dentro da expansão saíam braços, pernas e cabeças com expressões confusas nos não poucos rostos. O nível de detalhe da obra era impressionante, e via-se que as cores não eram escolhidas ao acaso ou jogadas em qualquer parte: possuíam zonas de influência específicas, e criavam um todo harmônico — mas ao mesmo tempo complexo e difícil de entender antes de admirar.

Dentro do Parlamento as notícias da morte de Hourin apareceram de uma vez, e dali causaram massiva estupefação. Kent, uma figura tão antiga quanto Hourin naquele palco, pediu por silêncio logo no começo da sessão da chuvosa manhã seguinte. Quis proferir um discurso na sala pequena, como era a chamada a sala de reuniões exclusiva para os parlamentares.

O nome, no entanto, não deixava de ser irônico: a sala era pequena se comparada ao campo aberto que servia para as reuniões públicas — a praça em frente ao prédio — mas não deixava de ser grandiosa. Por dentro, minérios verdes dispunham-se em losangos ao longo das paredes que ocupavam dois andares do prédio. Não havia cadeiras; apenas sofás voltados para um púlpito bem retilíneo com um metálico símbolo de um martelo cruzando uma espada acoplado à frente. Aquele era o símbolo de Al-u-een, e embora a maioria dos cidadãos pensasse no martelo como uma ferramenta que representava a justiça (com boas razões para fazê-lo), ele na verdade estava ali por ser uma das mais antigas ferramentas usadas na arte da escultura. Al-u-een, embora se preocupasse com o equilíbrio entre os cidadãos, via a si mesma, acima de tudo, como bela. Bela e poderosa.

Kent subiu no lugar de destaque. Os outros presentes, usando as ubíquas capas negras com botões no topo, logo abaixo do queixo, estavam prontos para ouvir o que ele tinha a dizer. O tradicional homem de cabelo raso e fino, com óculos estreitos e a mandíbula justa observou a plateia com sentimentos mistos. Faria uma apologia arriscada; previu um discurso tempestuoso, considerando que quem estava logo ali, à frente, provavelmente escolhera um lugar apropriado para tentar provocá-lo.

— Colegas de profissão! — Sua voz era arrastada, como se a garganta precisasse de muito esforço, mas também era clara. — Caros parlamentares de Al-u-een, somos espectadores infelizes de uma verdadeira tragédia. Hoje nos reunimos como em um dia qualquer. Mas sabemos todos que este não é um dia qualquer.

“Irei mais longe esta manhã!”, continuou ele. “E direi que não somos espectadores de uma tragédia. A tragédia é um destino. O destino de Hourin não era falecer desta maneira indigna. Seu destino era muito mais glorioso. Mas foi interrompido de maneira bárbara. Senhoras e senhores, somos espectadores de um crime. Um crime como esse há muito tempo Al-u-een não presenciava… “

Minoru, um político sentado em um sofá logo à frente do púlpito, não impedia que os lábios se alargassem em um sorriso. Regulava-se no apoio mal fadado; os dentes perfeitamente alinhados em um largo sorriso contradiziam os olhos negros que falavam a linguagem da raiva agarrada.

— … E nós temos que remanescer fortes frente a essa perda e essa ameaça. Sim, é uma ameaça!

Minoru já ria ruidosamente, chamando atenção. Os cabelos escuros e lisos à altura dos ombros tremia junto com a caixa torácica do homem sarcasticamente risonho.

— Porque enquanto a justiça não for feita… Enquanto não soubermos o real motivo deste assassinato… Não poderemos voltar a trabalhar tranquilos.

— Nós sabemos porque ele foi morto, senhor Kent. E isso não vai atrapalhar nossas atividades. Vai livrá-las de uma sombra!

O burburinho nasceu como se estivesse preso desde o começo, esperando por um momento que o libertasse. Kent olhou por alto para as conversas dos companheiros. Estavam divididos; em todo foco de conversa via-se mãos agitando-se em discussões.

— Ora, senhor Minoru… — Retomou Kent. O silêncio aos poucos retornou. — Se o senhor sabe… Deveria contar à polícia! E se considera que… O falecimento de um parlamentar fará algum bem a Al-u-een… Terá sido o senhor a tirar-lhe a vida?

— Ora, não seja ridículo! — Respondeu ele mais que rápido que as reações do público. — Todos aqui sabiam muito bem o que ele era. Um mago! Ele se foi por causa disso, não há dúvida.

— Está fazendo acusações muito sérias, senhor Minoru. — Kent começava a descer do púlpito, lentamente.

— O senhor está tentando glorificar a vida de um mago, senhor Kent, o senhor está consciente desse desrespeito com a memória dessa cidade? Ele não deveria estar nesta casa ou sequer nesta cidade!

— E o senhor está dizendo que a vida de um mago de nada vale? Este foi um crime terrível! Merece ser punido exemplarmente!

Minoru se levantou. Os dois parlamentares se aproximavam cada vez mais, numa tensa dança que se construiu ao largo das atenções da pequena multidão.

— Se o senhor fosse um homem que se inteira dos verdadeiros problemas de Al-u-een não diria as besteiras que disse. Dizes que por muito tempo não vemos um crime como este. Não temos trinta dias corridos, trinta, sem que a polícia tenha que lidar com um alorfo ou um filinorfo morto nas imediações da cidade!

— Então o senhor crê que estes magos devemos preservar, senhor Minoru?

— Certamente são os mais inofensivos.

— Hourin está morto, senhor parlamentar! Devemos honrar sua memória prendendo seu assassino como demanda nossa justiça!

— Hourin era um PÚSTULA! Um CORRUPTO! É PENA que não temos a morte como punição para esse crime, porque não é só ele que enfrentaria problemas, não é mesmo, senhor Kent?

O homem que antes discursava perdeu a paciência, rompendo a linha que o impedia de cair em luta aberta como se o peso a mais que faltasse tivesse sido jogado com satisfação. Kent partiu para cima de Minoru; a mão prontamente alcançando a guarda da espada na cintura, seu oponente fazendo o mesmo. Não tiveram tempo para chegar a uma batalha de fato, pois os políticos próximos a eles os puxaram para trás, impedindo o combate.

MENTIROSO! — Bradava Kent, o rosto vermelho de fúria, enquanto era arrastado para uma parede da sala.

Minoru olhou para ele mais uma vez, de longe, depois que se livrou da tutela preventiva de outros colegas. Ofegava, sentindo as pálpebras vibrarem no ritmo do coração asfixiado.

Suas atitudes foram, de fato, inadequadas. Onde é que estava com a cabeça? Via que Kent parecia tão estarrecido quanto ele, sendo este um inédito contato visual, completamente diferente dos outros. Num arrombo de vergonha, deixou o zunido incoerente da sala para trás.