Argumentos

O Parlamento de Prima-u-jir não era, quanto a qualquer aspecto arquitetônico, um prédio notável. De um amarelo esparramado, como tantos outros, misturava-se, com a sutileza de um yutsi jogando-se ao mar, ao cinza bruto dos pedregulhos das ruas do centro. Tinha dois andares e dimensões modestas que não impediam a controvérsia; alguns consideravam, com polida crítica, um exagero a alocação de um quarteirão inteiro para um prédio com aqueles requerimentos. O argumento ganhava força ao se notar que o espaço mais relevante era a sala de reuniões, de frente para os fundos do edifício, onde aconteciam as deliberações de rotina. O resto das salas variava entre banheiros, pequenas estantes-arquivo e salas particulares.

Duas fileiras de cadeiras estavam dispostas ao longo da larga mesa da sala de reuniões, mobília mais suntuosa que o prédio todo junto. No lado da mesa voltado para as janelas, bem ao centro, sentava Frederico. Tão velho quanto Byron, tinha olhos enevoados que pendiam, inescrutáveis, em direção à eriçada barba negra.

À esquerda do mestre estava Caterina, tratando de controlar suas mãos; primeiro a direita, e então a esquerda. Verônica sentava-se logo ao lado, uma ruiva de cabelos curtos e feições horizontais que olhava para a mesa sem demonstrar nenhuma emoção em particular. Vestia um casaco amarelo de lã típico do Leste. Mais à esquerda ficavam Alessandro, postura reta, estatura média e lábios contraídos, e Leonardo, forte e careca. Havia pertencido ao Exército de Prima-u-jir, e lá tinha desenvolvido o vício de bater os punhos contra madeira. Ele gostava do jeito particular com que sua pulsação parecia se avivar e, mais fria, se assustar com a incomum interação de que participava.

À direita de Frederico estavam aqueles abertamente a favor do projeto em razão do qual se reuniram para discutir. Byron, na posição mais longínqua da mesa, sentava-se ao lado de Gisell. Luca, de pernas cruzadas, parecia relutante em voltar-se para o lado de dentro. Vestia um casaco longo de pele de ronco, cheio de vincos inflexíveis. Marco posicionava-se ao lado, em uma expansiva posição de debate e reflexão. Olhava para todos os lados, e embora tivesse um semblante calmo, sentia-se profundamente irritado com a chuva que caía jocosa lá fora. Ângela e Alice, completos opostos físicos, seguiam-se ao grupo. Esta, com um rosto macilento; aquela, cheia dos pés ao rosto bochechudo, passando pela batata das pernas, coxas e barriga. Do lado de fora da sala estava Tornero, sentado com a cabeça para baixo e as mãos na nuca.

Gisell levantou-se, incomodada com os gestos pouco sutis que seu corpo precisava fazer para deslocar-se na sala. Sentou-se, enfim, em frente ao mestre da cidade, que a observou com idosa impaciência.

— Caros parlamentares de Prima-u-jir. — Começou ela.

Em Neborum, Caterina tinha os olhos vidrados na porta; esperava, desconfortável e torta, pelo momento certo de agir. Nos outros castelos os magos observavam, apreensivos, o círculo de edifícios que se formara em uma campina grande e deserta. Ali não chovia, embora as nuvens escuras borbulhassem para baixo, galopando sem sair do lugar. O castelo de Tornero estava mais longe, fora do círculo, mas seu iaumo estava ao lado de Byron, no topo de uma alta torre no castelo de seu mestre.

— Devo dizer que me sinto honrada em representar Den-u-tenbergo nesta assembleia. — Continuava Gisell, dirigindo o olhar férreo a todos os presentes. — Há semanas vocês vêm discutindo o projeto. Ele foi aprovado em minha cidade. Lá, todos ficaram muito felizes com os óbvios benefícios desta troca. Garantiremos uma maior diversidade de alimentos, e vocês garantirão o progresso através de mais amplo acesso a minérios de toda sorte. Não vejo por que não assumir este compromisso que visa o benefício dos povos de Prima-u-jir e Den-u-tenbergo. Sem mais, espero pelo melhor resultado possível saindo desta escolha de hoje.

Ela se levantou novamente, sem delongas. Verônica e Caterina digeriam, em silêncio por razões diferentes, aquelas palavras; Leonardo e Alessandro cochicharam. Byron sorriu de leve, tentando não parecer tão confiante, enquanto Marco observava os movimentos esguios de Gisell. Frederico pigarreou e, sentindo que falar não era necessário, fez um sinal com os dedos para Alessandro, que logo ocupou o indistinto lugar de discurso.

Já tradicional no meio político, Alessandro herdara de seus pais a carreira, mas não o conhecimento mágico. Quando eles faleceram, vítimas de uma estranhamente forte epidemia de doenças da noite, passou a viver entre parentes não-magos. Cresceu para tornar-se um político que irritava grande parte da bancada de parlamentares, fazendo crescer uma afinidade com Caterina — ainda que ela não ousasse confessar-se maga a ninguém, nem mesmo a ele.

Alessandro sentou-se, mecânico, e começou um discurso em tom cortante e seco.

— Esse pacto entre as cidades traz benefícios pífios à população. É um acordo entre ricos e para ricos.

Voltando-se para o céu que via através das janelas altas do próprio castelo, Caterina ajoelhou-se. Fechou os olhos e abaixou a cabeça; quando voltou a abri-los, estavam cinzentos. As nuvens começaram a se dissipar, revelando mais acima delas um céu negro, sem estrelas.

Os magos passaram a olhar para o espetáculo com curiosidade, embora Byron estivesse alerta, preocupado. Marco olhou para as janelas do Parlamento, distraído do discurso, para ver se a chuva havia parado.

— Existem dois argumentos principais. Em primeiro lugar, que temos laranjas de sobra. Depois, que temos minérios faltando.

A luz que vinha dos castelos começava a ser abafada pela escuridão que descia à terra, como se uma densa neblina negra sugasse pouco a pouco toda luminosidade. Em alguns segundos apenas, surpreendentemente, o lugar estava escuro como breu.

— Tornero! — Conclamou Byron.

O discípulo bomin saltou da torre e caiu agachado no chão vários andares abaixo. Sem dores nas articulações, pôs-se logo de pé e começou a correr, percorrendo a borda interna do círculo de castelos. Ficou mais e mais veloz; o que via transformava-se em um borrão quase sem sentido.

Suas mãos começaram a queimar. No início um fogo suave e superficial alastrou-se timidamente pelos membros superiores, mas logo ele parecia carregar duas gigantescas tochas incandescentes nos braços. Curvou-se para baixo enquanto corria, e o fogo encostou-se à grama. Um incêndio circular alastrou-se pelo campo, iluminando as imediações. A névoa foi recuando para o alto, dissipando-se como um vapor acuado. Tão rápido quanto descera, subiu.

— O primeiro argumento é uma mentira, como procurei mostrar. Nossas laranjas são bem aproveitadas. O que temos é potencial. — Leonardo e Verônica balançavam a cabeça, compenetrados. Ângela e Luca os observavam com gélida condenação. — O que não precisamos é os trabalhadores sendo mais explorados, sendo pagos a menos pelas laranjas que colherem. Ou alguém aqui é ingênuo de acreditar que novos trabalhadores serão contratados?

Tornero voltou num pulo confiante para o lado de Byron. Ambos observaram, com a respiração suspensa, o campo iluminado.

O tempo em que nada enxergaram foi suficiente para que Caterina vestisse uma capa negra e chegasse a um castelo com grossas divisões entre os tijolos pretos de sua superfície. Piras com tochas roxas iluminavam as paredes externas de um bloco de cerca de três andares, dentro do qual saíam três torres alinhadas, também negras, com no mínimo o dobro da altura da base do castelo.

As trancas abriram-se para ela, que entrou o mais rápido que pôde. A porta se fechou com um estampido forte e ela se virou, sem saber como encontrar o que procurava.

Foi simples. Alice estava ali, no meio de um salão espaçoso cheio de arcos trilobados, descansando pernas e antebraços em uma velha e desbotada poltrona verde-escura.

Lançou um olhar curioso à frente. Parecia ofensiva ao chacoalhar de leve seu cabelo negro e espesso, mexendo os finos dedos como se quisesse mexer os fios do destino da inusitada convidada.

— Agora sei com certeza que você é uma alorfa. — Seus olhos se estreitavam, acompanhando uma traiçoeira inspiração.

— Já que você está falando comigo aqui — replicou Caterina, tirando a capa com displicência, que se desfez no ar — também sei que é uma maga. Você deve ser uma alorfa.

— Eu não faço o que você faz! — Sibilou Alice, irritada. — Como ousa ser tão…

— Como é aquela antiga canção mesmo? — Interrompeu ela, fingindo dificuldade em lembrar da letra. — Ah, claro…

Tão logo o yutsi vermelho

Ponha roupa de homem

Veja, veja, ali no meio

Toda gente some!

— O que você quer?

— Garantir a justiça.

— Humpf… — Desdenhou Alice, desviando o rosto por um instante. — Nós vamos vencer. Vamos aprovar esse projeto. Isso não tem nada a ver com justiça.

— Eu sei que vamos aprovar o projeto. — Alice condenou, com fogo nas entranhas, o uso da primeira pessoa do plural. Depois achou-o fatalmente curioso. — Estou falando de justiça com você, Alice.

— E quanto ao segundo? — Continuou Alessandro. Alice desviou o olhar. Caterina continuava alheia. — Sejamos francos. Minérios mais baratos não significam nada se ainda são caros. Minérios são caros. Nosso povo não tem condições de comprá-los.

— Justiça comigo? — Questionou Alice.

— É claro. Achei injusto quando soube que Byron não incluiu nenhum de vocês no plano dele.

— Não. — Disse Alice. — Você não vai conseguir nada do que quer.

— Me diga, Alice, por que é que Byron cuidou de tudo tão pessoalmente nesse caso? — Com mais um gesto, sem tirar os olhos da anfitriã, Caterina fez surgir um sofá marrom ainda mais sujo que o de Alice. Sentou-se e, sentindo a distância entre as duas diminuir, prosseguiu. — Por que vocês nunca falaram diretamente com Gisell? Como é que ele pretendia dividir o lucro do transporte com vocês?

Alice silenciou, tentando decifrar Caterina.

— Como é?

— Eu estou com Byron, Alice. Ele não conseguiria aprovar essa votação se eu não cuidasse de distrair os meus colegas da questão que realmente importa.

— É tudo o que tenho a dizer. — Alessandro terminava seu argumento. — Problemas novos demais que solucionam problemas imaginários. Prima-u-jir não precisa disso, mestre Frederico. — Deixou a cadeira para trás.

A mesa caiu em um silêncio desconfortável. Frederico pediu, baixinho, para que um assessor preparasse o sorteio da votação.

— Byron precisa de mim para saber o que meus colegas sabem. — Argumentou Caterina. — Eles tentam mudar a cabeça de Frederico, e a esperança deles é conseguir outra rodada de discussões.

— É o que vai acontecer… — Respondeu Alice, distante. — Cinco votos contra quatro garantem outra sessão…

— Mas se eu votar a decisão é de Frederico. E sabemos o que vai acontecer.

Alice olhava agora diretamente para ela. Seus olhos quase chamuscavam, mergulhados em um sentimento novo e irreverente, mas seu olhar parecia atravessar Caterina.

— Byron sempre disse que o transporte era um detalhe sem importância…

— Alice, acorde! Obrigados por um acordo entre as cidades, os fazendeiros aceitarão qualquer preço. É daí que vai sair o nosso ganho.

— Se você estiver mesmo metida nisso… — Ameaçava Alice, as palavras transbordando os lábios finos.

— Só vim avisá-la porque não acho justo. Pressione Byron. Ele deve lhes dar, a todos vocês, o que é de vocês por direito depois que esse acordo for aprovado.

As duas continuaram de frente uma para a outra por alguns momentos. Caterina sorriu, mais tranquila. Olhou para a porta e no momento seguinte não estava mais ali.

A Frederico foram entregues nove pedaços quadrados de papel numerados. Uma vez amassados, escolheu aleatoriamente um deles.

— Byron. Seu voto.

— Sou a favor. — Disse ele, sem sorrisos.

Em Neborum ele ralhava, baixinho, observando com um cuidado paranoico o gramado arrasado. O fogo já ia embora, morrendo aos poucos, mas ele ainda não vira sinal de movimentação fora dos castelos.

— Verônica.

— Sou contra. — Respondeu ela, altiva, olhando com um orgulhoso ar de vitória para Frederico como se os dois fossem os únicos na sala.

Caterina tinha os olhos blindados por um espelho d’água, brigando para se manter fria e indiferente. Logo isso seria mais difícil.

— Luca.

— A favor.

— Ângela.

— Sou a favor.

— Alessandro.

— Contra.

Frederico escolheu mais um papel.

— Caterina. — anunciou Frederico.

— A favor.

Alice arqueou as sobrancelhas. Byron sorria, mas não deixou de se preocupar; Tornero percorria o perímetro, olhando na parte de trás dos castelos. Alice voltou os olhos para Alessandro e Leonardo, que compartilhavam terror e raiva com olhares desesperados. Verônica parecia ainda mais chocada.

— Marco.

— A favor. — Disse ele, alternando olhares entre um e outro lado da mesa.

Cinco votos a favor e dois contrários.

— Alice.

— Contra.

Todos passaram a olhar para ela, como se sua escolha fosse ainda mais controversa que a de Caterina. Byron seguiu a direção das atenções por um instante, devastado de raiva. Percebeu logo o que tinha que fazer.

Ele e Tornero desceram a torre e correram por entre as chamas do gramado até o castelo oposto ao de Byron; logo viram de relance que Gisell os acompanhava, correndo ao lado.

— Leonardo. — chamou Frederico. — Seu voto.

Byron, ainda correndo, ergueu a mão aberta em direção aos portões do pequeno castelo. O cadeado explodiu. Tornero e Gisell pararam um pouco antes disso e, ajoelhados com as duas mãos no solo, abriam com tremores de terra um rasgo cada vez maior no chão. Byron atravessou a linha que lentamente separava o castelo de Leonardo dos outros; levantou o braço uma vez mais e a tranca cedeu. Uma lufada de vento escancarou a porta.

Gisell e Tornero levantaram-se e um terremoto de grande escala começou a balançar as estruturas daquele novo pedaço de terra que flutuava, cada vez mais distante, apartado deles mesmos por um literal abismo.

— Eu… — Disse o político, interrompendo a frase.

Leonardo sentiu-se zonzo e imediatamente caiu para frente, apoiando as palmas das duas mãos na mesa. Começou a tossir e a piscar os olhos compulsivamente, arqueando-se para a frente com traços de pânico na mandíbula trêmula.

— Ah, não, não, MALDITOS! — Berrou Alessandro, levantando-se e tentando controlar o colega. Caterina olhava para o lado, entendendo o que havia de errado. Engoliu a angústia e permaneceu sentada. Captou um sutil aceno de Alice do outro lado da sala. — PAREM!

— Ale… Ale… — Leonardo voltava sua cabeça para o lado; passava por uma crise de falta de ar, e segurava com desespero inútil a borda da mesa. A outra mão puxava com força o tecido da capa carmim de Alessandro.

Byron entrou no pequeno pátio interno do castelo. Não tinha problemas para se manter constante, ainda que um terremoto atacasse o prédio com violência. Parou na estreita passagem entre dois pilares de pedra, e rapidamente se esgueirou para o lado. Bateu com as costas em uma das paredes e olhou, assustado, para o objeto que por pouco não o cortara: uma faca. Viu Marco, flutuando no meio de toda a bagunça. Conseguiu distinguir seu olhar severo e o movimento de seus lábios, que formava um grande, lento e claro “NÃO”.

— Ág… Água… Um… — Leonardo tentava falar, choroso, virando-se para a esquerda e quase caindo de onde estava.

— Creio que ele não está em condições de continuar, Frederico! — Disse Byron, levantando-se com rispidez.

No subterrâneo azul mal-iluminado de um dos castelos, Alice procurava por algo em uma sala preenchida por várias colunas equidistantes. Ao brevemente deslizar a mão sobre um pilar, sorriu.

Frederico! — Insistiu Byron. Marco se levantou, interpondo-se entre ele e Frederico.

Com um suave empurrão a coluna caiu para trás, derrubando todas as outras na mesma linha em um levantar monumental de poeira e pedra.

Não! — Bradou o chefe político. Aquilo estava passando dos limites; era preciso respeitar uma cerimônia como aquela. — Não adiaremos nada, Byron.

Leonardo arfava, mergulhado no próprio suor com os olhos saltando às órbitas. Parecia mais controlado quando se abandonou de volta à cadeira.

— Leonardo, qual…

Contra! — Disse ele, enfim conseguindo se concentrar. — Contra…