Feiura

Os al-u-bu-u-na se organizavam dentro de uma clareira larga e bem protegida no coração da floresta Al-u-bu, perto das encostas austrais da Cordilheira do Norte. Prometeram fidelidade aos magos desde os primeiros tempos do Conselho, recebendo em troca a garantia de que ninguém exploraria a região à procura de novos minérios — uma ideia de forma alguma impensável, já que aqueles troncos intocados poderiam esconder algum segredo.

Os representantes do Conselho partiram pela manhã. Uma viagem incômoda, em que atravessaram as colinas do centro tendo que se proteger da chuva com a cobertura da charrete. Desmodes silenciosamente observava, despreocupado, o caminho que os yutsis venciam com agilidade. Robin estudava, frio, sua frieza. Não precisavam chegar rápido, mas Robin quis ver até onde Desmodes iria sem dizer nada. Não perguntou pela parada para o almoço, aceitando que a viagem seguisse dia adentro. Viraram ao sul na estrada que cortava a porção leste das colinas, e só pararam mais adiante, em um ponto do trajeto que, parecendo aleatório, era na verdade o lugar certo para avançar na floresta até os al-u-bu-u-na.

Comeram à sombra de copas pouco largas, que deixavam cair gotas aqui e ali; resquícios da tempestade que ia embora em direção ao oeste. Preparavam-se para começar uma curta caminhada; isso era tudo que ainda lhes restava, já que dali a cerca de uma hora seria preciso parar de vez. Não valeria a pena encontrar o povoado à noite, já que os guerreiros não deixavam nenhum estranho se aproximar. Estariam mortos antes que pudessem averiguar os castelos dos sentinelas.

Desmodes comia voraz e rapidamente, sem cruzar olhares com Robin uma única vez. O homem mais experiente ficava imaginando no que aquela estranha nova adição ao Conselho estava pensando. Como era possível que não se preocupasse, já que de nada sabia, com o lugar onde deixariam a charrete para entrar na mata mais fechada? Foram em frente, de qualquer forma, deixando o veículo para trás.

Desmodes não questionou o caminho, embora parecesse coletar avidamente cada detalhe do trajeto, olhando em todas as direções a todo momento. Ou era isso ou estava com medo, mas Robin conhecia o medo — e torcia a boca ao desistir de procurar por traços dele em Desmodes. Por outro lado, ainda não havia motivo para isso. Não havia sobressaltos de qualquer espécie na caminhada.

Robin parou em um lugar mais espaçado entre as árvores, perfeito para descansar. Já era escuro demais, e o passo ficara lento. Tirou quatro minérios amarelos de um bolso interior na capa laranja, que começou a pendurar em galhos baixos das árvores. Ao se aproximar da última árvore, a luz foi enfraquecendo, e ao pestanejar de Robin a luz revelou um rosto masculino embrenhado no escuro.

Desmodes afastou-se para trás aos tropeços, assustado com aquele mimetismo, certificando-se imediatamente quanto à falta de castelo à vista. O estranho, vestindo capa e capuz negros, ria, entretido. Robin olhava para o chão, respirando devagar com o minério ainda suspenso à mão; as sombras ao redor da floresta mostrando o quanto ela tremia.

— Robin. Que prazer em revê-lo.

Tudo nele, da voz à cor da sombra, parecia falso. Desmodes o observava, lívido, e via, com pupilas já atentas, um rosto de tal maneira desproporcional que os olhos pareciam sair dos eixos a cada vez que os músculos da face contraíam. Sua pele era clara, mas ao mesmo tempo escura; talvez cinzenta, um tom pobre de verde. Foi apenas preciso que ele falasse para que seu rosto alongado ficasse mais largo. Seu sorriso era tão maligno quanto civilizado.

— Qual é o seu nome? — Perguntou Robin.

— Meu nome é… — Olhos esbugalhados voltaram-se para o canto superior esquerdo, pensativos. — Starcus.

Robin assentiu.

— Tire essa luz de cima de mim. — Robin abaixou o braço. — Que motivo traz você aqui para falar com o meu povo, Robin? E vejo que trouxe um amigo…

Você é um alorfo? — Perguntou Desmodes, irritado.

— Humpf… — Respondeu o homem, como se achasse a pergunta sarcástica. Ele foi circulando a dupla de magos até o próximo minério, a alguns pés de distância. Robin olhava torto para o outro mago. — Eu pareço aquilo que você quando olha para um. Mas não, não sou um alorfo. Nem um filinorfo.

— Mas não vejo você.

— Fique quieto, Desmodes! — Repreendeu Robin.

— Hmm… Talvez por que eu não exista? — Respondeu Starcus, estreitando os olhos para o interlocutor. Eles não voltaram ao formato anterior ao voltarem-se para Robin. — … E você não me respondeu ainda, Robin.

— Vim renovar o arranjo.

— Renovar? O que há de errado com ele?

O interesse em sua voz jamais deixava de soar falso. Era como se soubesse a resposta, mas perguntasse mesmo assim.

— Nada. Não há nada de errado. Vim garantir que continue em vigor.

Robin era mais imponente, alto e forte que Starcus, mas aquele parecia se encolher diante deste, com uma expressão corporal refreada, que suspirava “Por favor, deixe-nos em paz”. Starcus olhou de esguelha para Desmodes, que mantinha-se mais atrás exibindo a orgulhosa altivez.

— Não cuidarei da charrete dessa vez, Robin. Não gostei do seu amigo.

Starcus deu as costas e partiu. O minério mais próximo começou a brilhar mais forte, mas não se pôde ver muito mais do vulto negro, que logo misturou-se às plantas, sumindo na escuridão.

Robin voltou-se imediatamente para Desmodes.

— Você desconhece os mistérios de Heelum, seu insolente estúpido!

— Eu os conheço. — Respondia Desmodes com a mesma firmeza. — Sou um mago.

Robin bufou, pendurando o último minério de qualquer jeito e sentando no chão.

— Magia e minérios são processos… E coisas. — Explicou, tirando as botas. — Você não conhece os mistérios. Mistérios de verdade.

O que era ele? — Perguntou Desmodes, ainda de pé.

— Não ouviu o que ele disse? Ele é o Starcus. — Robin olhou brevemente para Desmodes, que ainda estava no mesmo lugar, antes de continuar. — Seu nome é Lato-u-nau. Ser feio, em na-u-min.

— Ele não…

— … Não parece feio, mas só porque jamais mostra a verdadeira forma. Todo dia tem uma aparência diferente. Escolhe um nome diferente.

Desmodes balançava a cabeça.

— Se sabe tanto sobre os mistérios, por que falou daquele jeito?

— Não sabia sobre ele.

— Ah… Sim.

Desmodes permaneceu em pé. Robin deitou de barriga para cima.

— Lato-u-nau é o inimigo de Al-u-bu. Al-u-bu é o mistério que cuida dos al-u-bu-u-na.

— O que Lato-u-nau quer?

— Não é o que quer, mas o que faz. — Robin já respondia de olhos fechados. — Armadilhas… Ele é ardiloso. Paciente. Brinca com os al-u-bu-u-na como se fossem caça. Al-u-bu os protege. Ele a vence, de vez em quando. Mas não sempre, já que ele é…

— … Parte dela. — Completou Desmodes.

Robin assentiu com um aceno que Desmodes, olhando para baixo com o queixo rente em direção ao horizonte, pôde apenas intuir. Ajoelhou-se à frente da cabeça de Robin e, com um golpe ligeiro, sacou a espada e encostou a lâmina sobre o pescoço do mago bomin, que limitou-se a abrir os olhos.

— O que está fazendo?

— Da próxima vez que pensar em me chamar de insolente estúpido, estará morto.

— Você é ambicioso. — Respondeu ele, levantando as sobrancelhas. — Mas se me matar, jamais sairá dessa floresta com vida. Ganhar a antipatia de Lato-u-nau não foi sábio, Desmodes.

O espólico sustentou o olhar para a vítima em potencial por algum tempo a mais antes de guardar a espada.

***

Quando Robin acordou, Desmodes já estava recolhendo os minérios depois de haver terminado o desjejum. Estava, em suma, pronto. Robin não recebeu uma palavra de explicação quanto àquilo, e tampouco o questionou. Desmodes parecia mais calmo; tão centrado quanto ficava na apatia que Robin já considerava seu normal. O fato de que já existia uma normalidade não tornava as coisas mais amenas: observava o companheiro com frequência, cuidando da distância entre eles.

Seguiram por cerca de uma hora e meia até que puderam ver os castelos murados e bem protegidos dos al-u-bu-u-na em Neborum — podiam vê-los ali, os três, rapidamente se aproximando, mesmo que não enxergassem mais ninguém na floresta Al-u-bu.

— Não faça nada precipitado. — Advertiu Robin, interrompendo a caminhada. — Não tente dominá-los.

Dois homens praticamente nus surgiram por detrás dos magos, surpreendendo-os.

Prima-u-na naufa ne! — Exclamou Robin, com as mãos erguidas. — Prima-u-na naufa ne!

Eles tinham a pele bronzeada e vestiam cangas de palha entrelaçada, trazendo tronco, braços e a metade de baixo da perna desnudos. Na barriga lisa havia inscrições em vermelho vivo, pintadas numa caligrafia cuidadosa e perfeccionista; pareciam as palavras “al-u-nauenago” e “revono”, embora as letras n eram mais compridas, e o g perigosamente próximo a um número oito. Carregavam arcos longos, feitos com um tipo dourado de madeira, que apontavam para os visitantes.

— Neornauene! — Resmungou um dos guerreiros.

— Ma! — Disse Robin em retorno. Desmodes continuava parado mais atrás, encarando os cidadãos daquele povo enquanto eles dirigiam olhares afiados para o outro mago. — Robin naufa naue, ka prima-u-na naufa ne!

— No naufa onmo? — Perguntou o outro guerreiro, que não estava tão agitado.

Desmodes naufa no. Prima-u-na naufa ne. Ne neor tun-u-jir.

Eles abaixaram as armas vagarosamente, ainda fitando-os de forma desconfiada.

— Eles nos entendem? — Perguntou Desmodes.

— Não.

— Podemos matá-los.

Não. — Robin lançou a ele um instantâneo olhar de reprovação. — Se eles não chegarem vivos à aldeia nós não entramos nem saímos.

***

Não demorou muito para que o comboio chegasse à aldeia, com os al-u-bu-u-na atrás dos magos, incentivando-os a seguir em frente. Estava ali um espaço enorme sem árvores, com uma fumaça ganhando a liberdade do céu a partir do centro de um círculo limítrofe de cabanas marrons.

A luz do sol, em seu monopólio de claridade, emprestava ao lugar inteiro arenoso sotaque. Um veio de água passava ao largo da clareira, descendo da Cordilheira do Norte, para a qual eles tinham uma privilegiada visão. As roças à frente e às vezes ao lado de cada cabana floresciam e quebravam o clima pálido com verdes e vermelhos mais vivos, logo neutralizados pelos pêlos sujos de capivaras e coelhos que corriam pela área. A fumaça vinha de uma fogueira de razoável tamanho, atrás da qual estavam um homem sentado no chão com as pernas cruzadas e um outro de pé. O resto da aldeia estava em torno dos visitantes, em cerrada formação redonda, com apenas uma brecha preparada para que os dois passassem para o lado de dentro da roda.

Robin e Desmodes entraram, sentando-se à frente da fogueira. Desmodes cuidava para imitar Robin, seus movimentos sempre atrasados. Percebeu que reproduziam a posição do raquítico senhor sentado à frente deles, que tinha um rosto enrugado e a boca trêmula, mesmo enquanto não falava. Seus olhos pequenos e lúdicos se fixaram sobre Robin, mas ele não sorria. O que estava em pé, com as mãos para trás, era mais jovem, e portava-se de maneira disciplinada e ascética, o rosto imperturbável, simétrico e limpo. Parecia esconder, por debaixo do escuro e curto cabelo seco, um tipo nobre de bravura.

Desmodes olhou em volta enquanto os outros homens, divididos pela fogueira, não começavam formalmente a conversa. Os componentes do círculo humano tinham a cor da pele e a dos olhos parecida — escura — com um formato do rosto bastante familiar entre todos. As palavras, por vezes duas ou três, em na-u-min, eram vistas em um festival majoritariamente rubro, negro e roxo ao longo de barrigas, braços e canelas; algumas expressões mais apagadas, outras mais orgulhosas. As mulheres vestiam a mesma saia de palha que os homens. Alguns usavam colares; outros, braceletes, e ainda havia duas ou três exceções que usavam vestes longas, geralmente azuis. Pessoas de todos os gêneros mantinham os cabelos curtos, à altura da orelha, e Desmodes não conseguia ver um único fio loiro, embora alguns fossem de um castanho que beirava o ruivo.

Uma última característica, desta vez mais circunstancial, fazia com que todos fossem bastante homogêneos aos olhos de recém-chegados: estavam armados com arcos, prontos para disparar flechas contra os estrangeiros.

De crianças a idosos, todos flexionavam a flecha contra o arco. Tensionados e virados de lado, não sorriam ou conversavam: como soldados, esperavam uma ordem para soltar a mão e dar início a uma morte inevitável. Os magos estavam com a vida por um fio, dependendo da mão firme de crianças que não deveriam ter sequer dezesseis rosanos.

— Por que fazem isso? — Perguntou Desmodes.

— Não somos de confiança. — Explicou Robin, sem desviar os olhos. — Se algum deles fizer algo inesperado, o resto dispara. É uma medida preventiva.

O velho homem falou algo em na-u-min. Robin estava acostumado com a língua, mas não a falava tão fluentemente a ponto de não precisar da tradução feita pelo homem mais novo.

— Os al-u-bu-u-na desejam saber o que os homens magos querem.

— Queremos saber se o acordo ainda é válido. — Disse Robin, olhando diretamente para o al-u-bu-u-na mais velho. O jovem traduziu a questão, e logo interpretou a resposta, que veio acompanhada de gestos com a mão, que veio de uma batida no peito do mestre ancião e viajou por uma demonstração abrangente de todo o entorno da aldeia.

— Enquanto nossas fronteiras estiverem protegidas eu, Termono, e nós, al-u-bu-u-na, seremos leais.

— Pedimos permissão para permanecer por algum tempo antes de retornar.

O rosto do homem mais velho se fechou ao entender o que Robin quis dizer. Parecia ressentido e até mesmo acuado enquanto resmungava algumas palavras no próprio idioma.

— Podem ficar, mas não são bem-vindos aqui.

— Obrigado. — Disse Robin, soando verdadeiramente agradecido.

Depois da tradução, o velho se levantou e, acompanhado pelo tradutor, juntou-se ao círculo de pessoas com os arcos prontos para o disparo. Não sendo mais exceção, serviu-se de uma arma e assumiu um posto. Todos amontoavam-se para conseguir, mesmo por de trás de uma grande quantidade de pessoas, um ângulo bom para atirar.

— Você pediu para ficar. — Comentou Desmodes.

— Para consertar a besteira que você fez. — Respondeu Robin. — Temos que encontrar Starcus de novo para que você se desculpe, e o dia não serve para isso. Só fique quieto desta vez.