O Prólogo da Jornada de Nariomono

O pequeno riacho que descia das colinas cheias de árvores passava furtivamente pela clareira dos al-u-bu-u-na e entrava novamente na mata. Nariomono, que todos ali conheciam por Narion, seguiu o curso d’água até avistar o que procurava: A sombra de uma árvore cheia de histórias. Naquele momento, ela significava apenas um lugar afastado da reunião, onde poderia refletir em paz.

Agachou-se, acomodando os pés na terra escura até descobrir o lugar ideal para eles. Ouvia ao falso silêncio da mata, permitindo que aquilo lhe trouxesse harmonia. Ficara um pouco inquieto na presença dos magos, não sabia bem o porquê. Não confiava neles, embora sentisse uma espécie de simpatia que ele tratava de abafar.

Narion era o tradutor da aldeia, responsável por qualquer comunicação com “o mundo do lado de fora”. Sabia falar a língua moderna — que nunca ouvira ser designada como uma língua diferente, o que o irritava consideravelmente — porque passara cerca de quatro rosanos em Ia-u-jambu. Saíra, vira o mundo em toda sua exótica glória, e retornara incólume.

Olhou para o alto, com as negras pupilas dançando ao focalizar diferentes folhas, galhos e tons de verde. Não voltara incólume da viagem, ao contrário do conceito popular que o transformava pouco a pouco em quase mito.

***

Narion era um guerreiro com um inimigo particular. Na floresta Al-u-bu, lugar que o coração jamais abandonou, estava tudo que ele aprendera a amar, mas também dois dos maiores perigo que conhecera. Um deles era um perigo que vinha de dentro. Algo que nunca ia embora; apenas repousava, suspenso no ar.

Desde pequeno experimentava aquilo que não ousava nomear. Sensação forte e quente que o envolvia e o embebia pouco a pouco em insanidade — e vontade.

Lembrava-se com nitidez do dia em que ele e três amigos brincavam na mata, cansando-se por esporte em uma dança chamada treneor. Os passos de treneor eram simples, mas ficavam mais complicados, já que a ideia era que a velocidade crescesse com o tempo. Encaixados pelos quadris, as duplas pisavam para frente e para trás, seguindo o ritmo que todos cantarolavam com vozes ribombantes.

— U… Bi, Tro, U… Bi, Tro, U…

Não deviam ter mais de doze rosanos; os garotos, Nariomono e Kanmono, e as garotas, Kamoni e Barmoni — ou simplesmente Narion, Kan, Kami e Bari. Cada afastamento por parte de um dos integrantes da dupla significava uma chance de fazer algo diferente. Narion dançava com Bari e, levando os braços à frente, a jogou para trás, para depois puxá-la novamente em um giro rápido, que terminou com um giro dele mesmo. Logo estavam de volta à mesma posição de antes.

Dançar era divertido, mas não deixava de ser um jogo — um dos mais complexos, no qual Kan e Kami eram melhores. Conheciam mais movimentos. Com uma sutil indicação de Kami, Kan girou, mas logo foi travado pelo braço direito dela, que o girou na direção oposta. Ela então girou pelas costas, agachou-se para depois subir rapidamente, e os dois acabavam de frente um para o outro de novo. Com suavidade uniam-se, voltando para a dinâmica mais simples da dança, que ficava ainda mais rápida.

— U… Bi, Tro, U… Bi, Tro, U… Bi, Tro, U…

Dançar exigia coordenação e intimidade. Qualquer parceiro poderia tomar a iniciativa de se afastar, dando início a uma série de passos em que os dançarinos precisavam indicar o que podiam e queriam fazer. Entender os limites, as intenções e as vontades do outro era uma capacidade vital para não sair do ritmo ou estragar a dança com um movimento que não poderia ser desfeito, levanto inevitavelmente à confusão dos parceiros e à derrota.

— U… Bi, Tro, U… Bi, Tro, U… Bi, Tro, U…

Narion suava e ofegava, tomando a dianteira: olhara para o que Kan fazia e tentava duplicar aquilo tudo. Não ia em frente por receber intenções contrárias de Bari, que não se sentia segura de acompanhá-lo. Narion acabava tendo que fazer o que a parceira podia, embora ele sabia que podia fazer o que o amigo podia.

O ritmo não dava trégua. Cantado por eles mesmos, parecia que ficava rápido mais rápido; Bari começava a ficar nervosa com o que Narion fazia, completamente absorto na dança.

Narion — Chamava ela, com a mão doendo da força que fazia para tentar controlar o amigo. — Narion!

Ele não estava mais ouvindo.

— U, Bi, Tro, U, Bi, Tro, U, Bi, Tro, U…

Ignorava a força contrária que a parceira fazia, e não perdia um compasso sem a afastar para tentar algo novo. Os pés dela já estavam fora das batidas.

Narion!

Foi o fim. Quando ele tentou empurrá-la para um giro por detrás dele, ambos se desequilibraram com os próprios pés e caíram no chão, um de cada lado. Kami viu e parou a dança com Kan, e os dois pulavam, felizes, rindo dos perdedores.

— O que tem de errado contigo? Seu idiota! — Ralhou Bari, na própria língua.

Narion permaneceu sentado no chão, sem conseguir olhar para ninguém. Era pequeno demais para entender o que quis fazer. Bari se afastava, quase aos prantos de tanta raiva, e Kami olhava para ele com um jeito assustado que ele teve pouco tempo para assimilar; ela logo saiu dali com Kan.

***

No cair da noite do mesmo dia Narion não tinha nenhum lugar onde ficar para evitar a reprimenda do desconforto. Os irmãos e irmãs de casa recolhiam-se a olhares de pena. Narion tinha vontade de gritar que não estava doente, mas controlava-se, balançando para frente e pra trás no abraçar das pernas e no dedilhar dos pés.

Narion olhou para o progenitor e, em seus rudimentos de intelecto, identificou raiva. Raiva nos descontentes traços bem marcados em volta da boca, fazendo limite com bochechas infladas. Na sua mãe, Simoni, em pé logo ao lado do pai na parede curva da cabana, pensou ver apenas tristeza estampada em um rosto fino e descolorido. Não entendia por que tinha deixado o pai irritado e a mãe triste.

— Por que você fez aquilo? — Perguntou o pai, Bormono.

— Eu não sei…

Bormono desviou o olhar. Caminhou mais para o lado, para onde Narion não queria olhar. O pai logo voltou, agachando-se para ficar de frente para ele enquanto as luzes da fogueira tremeluziam na incômoda ausência de som.

— Você não pode querer essas coisas. — Disse ele. — Se você quiser essas coisas vai trazer muita tristeza para todos.

Nós só estávamos brincando, pensou Narion. Talvez devesse pedir desculpas a Bari por ter se esforçado tanto para ganhar.

— Bari está aqui. — Disse a mãe.

Narion olhou para ela, que estava ao lado da portinhola da cabana por onde Bari entrou, olhando primeiro para ela com um sorriso atravancado e então para ele, que se desviou, abraçando as pernas com ainda mais força. Ela trazia uma larga vasilha com água, e cuidadosamente, para que nenhuma gota fosse derramada, sentou-se ao lado do garoto.

— Quer brincar, Narion?

Enquanto o pai sorria, encorajador, para a menina que parecia não saber exatamente o que estava fazendo, a mãe tentava pescar os olhos de Narion.

Quando mais velho, Narion precisaria se acostumar cada vez mais com a cerimônia noturna de água e de fogo em que se envolvia sempre depois de uma briga. Quanto mais crescia, menos parecia aos outros que ele queria realmente pertencer aos al-u-bu-u-na — pensar e agir como eles. Todos brigavam, e se reconciliavam com as mãos juntas na dor do fogo e no alívio da água, mas elas pareciam aprender a lição. Narion batalhava contra a própria opinião de que talvez a lição não fosse importante. Mas, mesmo não sendo, os olhares passivos e silêncios ativos batiam com dureza em sua consciência.

***

As noites eram um período do dia complicado para os al-u-bu-u-na. Eles cercavam as fronteiras da clareira com tochas, e mantinham seus arqueiros a postos, preparados para se defender de qualquer ameaça. Mesmo que animais pudessem atacá-los, eles não eram a maior causa de medo. O que todos realmente temiam era o aparecimento de Lato-u-nau, o estranho das mil faces e dos mil nomes.

Na maior parte das vezes, antes de o dia se transformar completamente em noite, grupos se sentavam ao redor de fogueiras para aproveitar o jantar. Costumavam dividir histórias do passado ou casos do dia; lamúrias do futuro e aventuras que talvez nunca aconteceram.

A maioria delas girava em torno de Lato-u-nau e de Al-u-bu. Dos heróis que haviam escapado das tramas do ser feio — com ou sem a ajuda da dama da natureza — ou dos valorosos guerreiros que haviam perdido ao longo do caminho.

Todo tipo de pessoa era ali retratado: covardes e corajosos, fortes e fracos, espertos e estúpidos. Sucumbiam ou venciam, muitas vezes arrastando consigo o destino da aldeia. Às vezes a história provocava risos. Às vezes, impressionava. Depois, fazia chorar, espalhando o medo pela madrugada e impedindo metade da tribo — a metade mais jovem, principalmente — de dormir.

Com o tempo Narion teve também sua própria experiência, mas uma que nunca compartilhara nas rodas noturnas. Era um dia nublado em que, já bem mais velho, banhava-se, solitário, no córrego mais próximo à clareira. Com o passar do tempo gostava mais e mais das horas solitárias que conseguia ter de vez em quando; era quando podia ser ele mesmo. Ou pelo menos a parte de si que não causava problemas, brigas ou mágoas.

Foi quando a avistou. Uma alta figura feminina, sentada em uma pedra baixa e lisa na outra margem do córrego, em uma região mais distante.

Nua, a mulher de longos e ondulados cabelos castanhos apoiava-se sobre os braços, com o pescoço voltado para cima, relaxado. Esbelta, deixava um pé encostado ao fluxo de água, e o outro erguia-se por sobre a pedra, com a perna dobrada.

Narion sentiu-se imediatamente encantado por ela. Soube imediatamente quem ela era. Não poderia ser mais ninguém, e disso ele tinha certeza, mesmo que nunca a houvesse visto antes onde quer que fosse. Ela era tão diferente deles; marcante e singular, com uma difusa luz azul-clara saindo de seu entorno, parecendo prenunciar o chamado que viera a seguir.

Ela chamara por seu nome, sem se mover. Narion se sobressaltou com a voz clara e limpa, que ressoava como se viesse de dentro da própria garganta. Aproxime-se, pediu ela.

Ele chegou mais perto, receoso. Cruzou as águas em um ponto em que se estreitavam. Deu a volta na pedra e prostrou-se de joelhos, virado para as costas da mulher. Elas eram uniformes e regulares; negras, lisas, sem manchas ou sinais. Os braços eram finos, carregando os cotovelos mais graciosos e firmes que Narion já havia analisado.

— V-você é Al-u-bu? — Perguntou ele.

Mais veloz que o queixo de Narion, que caía em estupefação, Al-u-bu levou as mãos ao rosto do rapaz. Estava agora de frente para ele, nariz a nariz. Ele fazia força com a cabeça, tentando livrar-se daquilo: descobrira no momento em que a olhou de tão perto que não conseguia suportar o peso daquela íris negra profunda, em que folhas de árvores imaginárias caíam em um riacho muito mais sereno que aquele em que estavam. As folhas eram levadas pela correnteza vagarosa, e perdiam-se em um mundo sem fim, do qual era impossível apartar-se sem continuar se perguntando o que mais haveria nele que não a perfeição de uma planta de viço, do curso que não se interrompe, da vida que não cessa por desastre.

Por mais intrigante que ele fosse, o olhar do mistério era vazio e impreciso, já que Al-u-bu era cega.

— Nariomono, meu menino… — Disse ela, tentando tranquilizá-lo. Ele, tomando involuntariamente o caminho inverso, sentiu-se mais tenso. — Por que você diz não a mim?

A voz terminou com uma interrogação grave. Ele reconheceu aquela sensação. Atingia-o em seu estômago, enchia seus pulmões de algo que não era ar e fazia suas articulações pesarem como chumbo.

Levantou-se num pulo, sentindo o calor familiar; afastou-se de Al-u-bu, que continuava olhando para a frente como se ele ainda estivesse ali. Arrebatou-lhe uma onda de pânico mais forte que tudo, e ele a abandonou, correndo para longe dali o mais rápido que pôde.

***

Pesquisadores de Ia-u-jambu quebraram a rotina quando visitaram os al-u-bu-u-na muitos rosanos depois do incidente entre Narion e Al-u-bu. Termono, o mestre, fora chamado para uma conversa, conjecturando com preocupação o que aquilo poderia significar para o tratado entre o povo da floresta e o Conselho dos magos, mas ficou em paz ao saber que a investida nada tinha a ver com minérios. Os universitários perguntaram se alguém ali estava interessado em ajudá-los com a própria língua, a na-u-min — aprendendo, em troca, a língua moderna.

Narion ficou interessado. Já tinha quase trinta e oito rosanos quando a ouvira, junto a muitos companheiros. A maioria não via nada de bom na oportunidade. Era arriscado sair da proteção dos demais, pois Lato-u-nau estava à espreita. Além do mais, iriam demorar até aprender uma nova língua, e até então (ou mesmo depois) amargariam uma existência solitária na Universidade; seriam presença incompreendida numa cidade estranha.

Narion, contudo, não via problema algum nisso. Acostumara-se tanto aos momentos de solidão que preferiria o quanto pudesse alargá-los. Já não era compreendido ali dentro de qualquer forma, e perguntava-se o quanto o mundo do lado de fora poderia ser diferente. Talvez fosse melhor apreciado , já que seria distinto, experiente em coisas dos quais aquelas pessoas faziam pouca ideia.

E, pensou, olhando em volta ao procurar por olhares cruzados, deveria haver ali quem o considerasse um candidato perfeito para ir embora de vez.

Tomou sua decisão. Da família mais próxima recebeu palavras de apoio, carinho e coragem, ainda que ele percebesse um abismo entre todos: ele e seu pai, ele e sua mãe (que chorava copiosamente), ele e seus irmãos, que pareciam buscar um no outro sinais de que o manto de ofício já se havia desprendido e eles pudessem comemorar a partida do mau elemento. Depois das conversas monossilábicas de despedida que teve com tantos outros colegas, pensou que provavelmente superestimava viver ali. Por outro lado, não conhecia nada além. Era chegada a hora.

Narion ainda precisava pedir uma permissão final para Termono; uma espécie de última conversa, um acerto de contas entre ele e todos os outros que acontecia por intermédio do líder. Entrou na cabana, localizada nas bordas da floresta e guardando a maior distância possível das outras casas, sem imaginar o que poderia encontrar. A chefia, como era conhecida, era a residência vitalícia dos mestres dos al-u-bu-u-na. Eles viviam lá, um novo após a morte do outro, reclusos, justamente por causa da função que o mestre exercia: saía apenas em ocasiões especiais, em que sua presença era absolutamente requerida. Aquilo, Narion nunca entendera. Por que o admiravam tanto? Em suas aparições, nunca fazia o que Narion faria. Decidir, demandar. Exigir. Resolver. Era um mediador carente de recursos, um mero conciliador superestimado, conversador que por vezes prolongava problemas que poderiam ser resolvidos de forma simples. Bastava que fossem mais práticos, que entregassem logo o cetro de juiz a quem fosse mais sábio. Mas os mestres nunca agiam como sábios. Não com aquela sabedoria.

Termono estava sentado no chão, ao lado de uma garrafa de barro. Dentro dela, um líquido de cheiro adocicado e insinuante que Narion não reconhecia.

— Sente-se. — Ofertou Termono, com um amistoso sorriso velho.

Narion obedeceu, sem abrir a boca. Mantinha a cabeça abaixada, mas lançava olhares furtivos às paredes do minúsculo lugar. Eram vazias, tanto quanto o chão. Não havia nada ali dentro. A passagem coberta com folhagens amalgamadas atrás do mestre deveria abrir caminho para uma espécie de depósito.

— Quer um pouco de chá? — Indagou Termono.

— Não, obrigado, mestre.

— Não precisa falar assim comigo, garoto. — Bebericou um pouco do líquido verde e quente.

— D-desculpe. Eu não conheço este chá.

— É feito com as folhas de uma pequena flor amarela, que se chama rounalver.

Narion tentou buscar aquilo na memória, mas não se lembrava de algum dia ter ouvido aquele nome.

— Nunca ouvi falar, mestre.

— É claro que não. É proibida para vocês! — Respondeu ele, com um travesso entortar da boca.

Bebeu outro gole, segurando a garrafa de forma desajeitada nas mãos — era grande demais — e a pôs de lado.

— Então você vai viver em Ia-u-jambu…

— Sim. — Respondeu Narion.

— Você sabe — Continuou o mestre. — que há quem queira ver você longe daqui.

Narion pigarreou, tomado por um agudo sentimento de exclusão. Não esperava ouvir aquilo.

— Mas você deve entender… O que você tem aí dentro é algo que evitamos. Não é assim que vivemos. Nós, al-u-bu-u-na, temos medo do poder que foge do controle. Mas nós, todos nós, somos sua família, e esta floresta é a sua casa. A luz não está mais entre nós, mas nós a fazemos existir. Não fique triste, sim?

— Está certo, mestre.

— Pode partir, Nariomono.

Narion se levantou, e de alguma forma estava grato por aquela conversa. Era como se, mesmo que não conseguisse resolver nada na prática, tivesse desfeito parte do nó que era entender por que não conseguia se relacionar bem com ninguém.

— Mestre? — Chamou ele, antes de partir.

— Sim?

— Por que o senhor vive desse jeito? Por que os mestres têm que viver assim?

Termono fechou os olhos miúdos, deu um sorriso discreto em que a pouca quantia de dentes se protuberou e balançou a cabeça. Narion estava começando a achá-lo cômico, com seu jeito despojado de exalar uma autoridade que não exercia.

— Sou o poder que eles podem controlar.

***

A Universidade e o Exército — duas instituições de que nunca ouvira falar na curta vida em meio aos al-u-bu-u-na. Elas, no entanto, não podiam ser maiores exemplos daquilo que passou a lhe inspirar admiração. Disciplina e hierarquia, respeito e ordem. Tudo aquilo o fascinara enormemente. Guerreiro que era, pleiteou fazer parte do exército, mas não podia por não ser da cidade. O lenço vermelho que usava no pescoço o denunciava, e aquela era, aliás, uma das coisas que mais o incomodava: as vestimentas grandes, cobrindo quase o corpo todo, além do lenço que não podia em hipótese alguma deixar de usar. Tinha muito contato com pessoas, o que era bom e ruim: se antes previra muito tempo sozinho, não imaginara que esse tempo fosse majoritariamente a hora de dormir. Aprendera a língua moderna com rapidez, e logo ia se tornando capaz de explicar algumas coisas, traduzindo do na-u-min, fazendo o serviço ao qual se dispusera.

Apesar de precisar se repreender nos hábitos, via como era possível (e até mesmo desejável) viver em meio a tudo aquilo. Ele não precisava ter dúvidas sobre o que sentia ou pensava. Aceitava-se por completo, sua parte mais obscura, sem ninguém que o refreasse. Sua escuridão ali não era menos comum e desejável que o amarelo das nuvens.

Se em alguns aspectos, entretanto, sentia-se enfim livre, longe do alcance de regras e amarras, olhares de estranheza e incompreensão; se por vezes considerava-se um homem de sorte por estar longe da floresta que, embora sem limites de concreto ou corvônia, fazia dele prisioneiro, com seus postes vivos pronunciando sentenças de eternidade, não havia um dia em que não contorcia os dedos do pé ao sentir falta das raízes. Sua vida não era Ia-u-jambu. Com o tempo a rotina tornou-se maçante, e a cidade das novidades não oferecia nada de novo. Narion não se interessava por nada que pudesse aprender (para estrangeiros a Universidade, diferentemente do Exército, estava de portas abertas) e intuiu que viajar para descobrir lugares novos não valia a pena; eram todos similares. Saciara uma fome que ele não sabia que podia ser vencida. Estava mais velho, mais forte, mais inteligente e mais experiente — era o que qualquer um diria. Ainda assim, quando sentava-se diante do Lago do Meio, ao longo do qual a cidade do saber nascera grudada, o al-u-bu-u-na suspirava, querendo voltar.

Ele não era o mesmo sem aquela clareira no meio de lugar nenhum. Era como se o próprio corpo pedisse por aquilo: pedisse para estar de novo em contato com o chão daquela floresta, localizando-se de novo pela sutileza dos odores e a geometria irregular dos bosques. Os músculos do braço estavam murchados: precisava caçar. Precisava praticar o arco e a lança. Precisava dançar de novo, comer e beber como um al-u-bu-u-na de novo, e ver as estrelas do chão iluminado por fogo, sentindo a proteção dos seus, ao invés de uma cidade de minérios austeros e uma polícia que fazia dos visitantes, inimigos. Seus quatro rosanos de atividade acabariam em breve, e ele não queria estendê-los. Voltaria para casa.

Saíram da Universidade bem cedo na manhã do segundo dia de torn-u-sana; um dia em que o ar parecia ferver a pele, mesmo o céu estando nublado. Voltava de charrete com um condutor que falava pouco. Sorte, pois ainda que estivesse ansioso como quase nunca na vida, não gostaria de conversar com quem quer que fosse; pelo menos não até chegar à tribo.

Eram quase quatro horas da tarde quando enfim Narion avistou os teixos, as oliveiras e os pinheiros da floresta Al-u-bu, e sentiu um arrepio. Surpreendeu-se com a própria alegria, já que explodira em um sorriso quando a estrada deixou os vastos campos de onde a cidade de Ia-u-jambu tirara seu nome.

Um vulto negro passou pela frente da charrete sem que Narion conseguisse ver de onde viera ou para onde fora. Cortara a estrada, assustando os yutsis, que esganiçavam-se, completamente enlouquecidos. Passaram a correr mais e mais rapidamente, com o condutor incapaz de fazê-los parar, até que mais uma vez a volumosa sombra passou diante dos animais que, tão assustados quanto os homens, empinaram, perderam o equilíbrio e caíram para trás, destruindo a parte frontal da charrete com o brutal peso.

Narion estava caído na porção traseira da charrete, com as pernas jogadas para a direita. A porta lateral estava quebrada, já semiaberta. Na confusão, o al-u-bu-u-na apenas protegeu o rosto com os antebraços e esperou pelo pior, que não aconteceu. Saiu da charrete tentando recuperar os reflexos, que não pareciam mais tão atrofiados. Olhou para todos os lados; não via nada fora do comum.

Foi verificar como estava o condutor do veículo. Parou ao dar de cara com um homem de idade encostado em uma árvore à beira do caminho, vestindo uma esvoaçante capa negra. Seu rosto era torto, limpo e elástico.

— Bem-vindo de volta, Nariomono. — Disse ele, em na-u-min.

A partir do momento em que Narion prestou atenção ao jeito como o senhor falava, parecia estar vendo outra pessoa diante de si. Alguém certamente não menos velho — pelo contrário, já que tinha agora uma quantidade muito maior de rugas — mas com um rosto bem mais regular.

— F-fique longe.

— É assim que me recebe? Depois de todo esse tempo?

Logo depois de o homem se aproximar, rasteiro, o condutor tossiu, tentando rolar para fora das estacas quebradas da charrete.

— Você só mata al-u-bu-u-na, e ele não é um!

— E é por isso que ele não está morto…

— E eu, por que não estou?

O velho senhor o olhou como se estranhasse a pergunta.

— Humpf… Você parece nunca ter ouvido falar de mim! Como se não me conhecesse!

— Sei que você mata. Eu ainda sei lutar, Lato-u-nau!

CALE-SE! — Ordenou o velho, furioso à menção do nome. Quase fez os olhos saltarem das órbitas ao tossir violentamente depois do berro. — Há pessoas que eu preservo, meu pequeno garoto, porque gosto delas.

— Não quero nada de você. Nem seu apreço nem sua simpatia! — Disse Narion, com o sangue correndo loucamente pelo corpo. — As coisas vão ser diferentes quando eu voltar. Eu sei quem eu sou e o que eu quero fazer. Vou lidar melhor com tudo o que…

— Então aceitou que deve ser o novo mestre?

Narion travou, indeciso quanto a como interpretar aquilo.

— Você é ingênuo se acredita que pode voltar e mudar as coisas. — Continuou ele, parecendo envelhecer dez rosanos em alguns instantes. Deu mais um passo à frente, começando a contornar os yutsis estirados no chão, que ainda faziam barulhos estridentes de dor e confusão. — Eles te odeiam porque querem que você se adeque, Narion… Você é diferente, e nós dois sabemos disso… Você não vai mudar. O único jeito de eles te terem por perto é te castrando. — Narion estremeceu à menção da palavra, que ecoou por um tempo desmedido em sua cabeça. — Eles vão te fazer mestre, Narion. Te dar todo poder que você sempre sonhou para que com ele não faça nada!

— Isso n-não vai acontecer.

— Se você aceitar o que quer fazer… Agir como quer agir… — Ele apontava, com o dedo tremendo, para o peito do al-u-bu-u-na. Narion desviou o olhar do dedo para o rosto barbudo e de claros olhos próximos — Tenho certeza de que vai acontecer. E, se quer minha sincera opinião, é o que deveria fazer.

Não!

Narion afastou com violência o dedo de Lato-u-nau, recuando até encostar nos ramos baixos de uma árvore próxima. Sentiu-se mais do que nunca um al-u-bu-u-na por considerá-lo seu adversário mortal; alguém com quem jamais faria um pacto ou um acordo. Arqui-inimigo de quem jamais aceitaria ajuda.

— Agora que você voltou, deve trazer de onde veio o que aprendeu. Deve aceitar quem você é!

— Eu não quero…

— Sim, sim, nada que venha de você… — Interrompeu, zombeteiro. — Eu entendi. Até logo, guerreiro.

Seria agora? Seria aquele o momento? Esperava por algo a mais; estava tenso até os dedos das mãos, o corpo pronto para lutar ou correr, para qualquer coisa — já havia aceitado a morte como possível fim. Seria digno. Falariam sobre ele à noite, diante da fogueira. Seria o herói que ninguém acreditava que pudesse ser.

Mas nada aconteceu. Lato-u-nau apenas deu uma lenta meia-volta e partiu, passo por passo, até não ser mais visível.

***

Narion não conseguia dizer quanto tempo ficou ali, sob o abrigo das próprias recordações. Resolveu caminhar de volta, mesmo sabendo que ao fazer isso perderia seu benefício de tradutor. Teria que assumir uma posição no círculo e, com o arco pronto em uma posição fixa e supostamente imutável, ameaçar os magos — mas era melhor que ficar remoendo seu passado. Sempre se torna mais difícil, com o passar do tempo, acreditar em redenção.