O Massacre

Parados como estátuas, assumiam seus postos com tanta dignidade e servitude que Desmodes chegou a pensar que poderia haver um lugar para eles em Heelum. Um lugar em que poderiam ser felizes se apenas soubessem ser um trecho ao invés de rebelde mancha. Em seus olhos cheios de desconfiança, contudo, em que raras vezes se via um lampejar de descontentamento, descanso ou preguiça, constatava-se a força de um tipo diferente de ser. Diferente demais para Desmodes.

Tudo aconteceu em um mover de olhos do espólico. Cada um dos guerreiros virou o arco contra outro deles em precisa sincronia e afrouxaram os dedos, sem que houvesse tempo para que os berros e os gritos de que algo estava errado se desenvolvessem plenamente. O alto zunido seco de flechas cortando o ar prevaleceu, logo antes do rasgar de pele e abrir de carne.

Robin teve pouco tempo para ver a cena antes que ela acabasse; levantou-se num salto desbalanceado, esbaforido em seu soar surdo, apenas depois da saraivada e dos urros dos al-u-bu-u-na que se atacavam sem critério ou distinção, numa loucura coletiva em que flechadas atingiam bocas abertas, olhos desesperados, corações adornados e gargantas vibrantes.

Robin não sabia que barulho seguir, e primeiro voltou-se para um lugar onde uma criança não fora atingida completamente, mas perdera muito sangue no braço; a menina estava de pé, fragilizada, chorando de dor com os olhos estreitados e enxaguados. Seus olhos perderam-se em incompreensão quando se encontraram com os de um apoplético Robin. Foi empurrada pra trás com o forte impacto de uma outra flecha, disparada por um al-u-bu-u-na ainda de pé. Robin virou-se para ele, apenas para vê-lo também atingido, caindo por cima de uma mulher completamente avermelhada que ainda tentava se reerguer.

Há apenas um momento os magos tinham a vida por um dedo. Agora estavam envoltos por um círculo agonizante de sangue e madeira.

As flechadas foram diminuindo, assim como o número de pessoas de pé e os sons que os caídos faziam. Os que sobraram por último não tentavam fugir, esquivando-se de novas flechas; apenas esperavam, com o rosto sério e apático. Robin viu, com os olhos completamente abertos enquanto chegava mais perto, o último suspiro de um corpo feminino irregular e flácido, logo ao lado de um outro masculino, pouco atlético e com uma pequena cicatriz na bochecha direita, mais visível por causa do sangue ali depositado depois de cair pela orelha.

Os sons, as lamúrias e as pragas na língua antiga foram se esgotando aos poucos, fenecendo febrilmente, como água se afunilando por uma rachadura. Robin voltou-se para Desmodes, que permanecera exatamente onde estava o tempo inteiro.

O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ, SEU IDIOTA?

— Resolvi um futuro problema.

— VOCÊ NÃO O QUE FAZ?

Robin colocou as duas mãos na cabeça. Recomeçou a olhar em volta, e percebeu que ficava mais difícil encontrar qualquer sobrevivente.

Sentiu-se empurrado para frente, mas parou antes mesmo de começar a cair; fora atingido. Viu a ponta da espada de Desmodes, que atravessou seu tórax e, ao ser retirada, o fez finalmente cair para frente, de joelhos. Sua visão começou a ficar turva. Os sentidos, em alerta. O coração bombeava desesperadamente, já sem razão de ser.

O único sobrevivente da clareira olhou em volta. Viu que dos castelos sobravam ruínas que, pouco a pouco, desfaziam-se no ar como poeira no vento, nublando como um milhão de umenau esvoaçantes os campos em que uma rubra grama crescia indolentemente. No círculo de vítimas ficaram os al-u-bu-u-na, amontoados no chão. Alguns ainda apresentavam espasmos ocasionais; abriam os olhos, davam-se as mãos. Balbuciavam, os que ainda podiam falar, e choravam alguns outros, passando a mão por alguma tintaria no corpo.

Desmodes passou por uma parte do círculo menos densamente ocupada, o caminho por onde entrara na reunião, e entrou na floresta. Estava prestes a começar a caminhada de volta quando foi pego de surpresa; violentamente posto contra uma árvore, desembainhou a espada e virou-se, atrapalhado, para encarar o agressor. Não o reconhecia mais, mas certamente lembrava daquelas roupas.

Lato-u-nau.

— Não me CHAME pelo nome! E guarde essa espada que você brande com tanta covardia!

Desmodes obedeceu, acalmando-se, sem tirar os olhos do homem de capa negra.

— Então você achou que escaparia, não é? — Continuou ele. — Achou que faria tudo isso e iria embora, simplesmente caminhando?

— Enfrente-me, então. — Desafiou Desmodes.

— Ora, não seja tolo! Eu não enfrento, eu mato! — Rebateu ele, sibilando as palavras até que seus lábios tornaram-se finos e crispados.

O mago e o mistério continuaram se medindo.

— Mas não vou matá-lo agora… Não, não… Não agora. Mato quando for a hora certa. A hora em que você menos me querer por perto. Mas agora… Só vá embora daqui.

Desmodes não se moveu. Lato-u-nau passou a encará-lo mais firmemente, como se estivesse prestes a entrar em combustão.

VÁÁÁ! — Gritou ele, desafinado, cuspindo em seu afã hipertenso com os olhos lacrimejados e os punhos fechados.

Desmodes foi embora. Olhou uma única vez para trás, mas Lato-u-nau não estava mais lá.

***

Quando ele parou, foi como se o mundo parasse com ele. Como se tudo despencasse em absoluto silêncio, e nenhum movimento fosse permitido até que aquilo fosse declarado algum tipo de ilusão. Uma mentira, um mal-entendido, um jogo sádico e mórbido de Lato-u-nau. Para Narion, que forçou-se a fechar os olhos com força e abri-los com esperança, aquilo não tinha o direito de ser nada mais.

Dezenas e dezenas de pessoas no chão, amontoadas umas por cima das outras, embebidas em sangue, mortalmente feridas. Narion tremeu ao se aproximar. Virou o rosto bruscamente ao perceber duas silhuetas difusas de pé em meio à selvageria, perto à fogueira, que fumegava mais alto que nunca. Reconheceu o corpo irretocável de Al-u-bu olhando para algum ponto no chão, parada como uma estátua de corvônia.

— Nada vive… — Sussurrou ela. Ele, mesmo à distância, a ouviu como se ela tivesse lhe falado ao pé do ouvido.

O estômago de Narion se revirou, subitamente enojado; suas sobrancelhas arquearam-se, vencido. Jogou-se no chão, segurando-se com a palma das mãos. Controlou-se, e olhou à frente; conhecia todos que estavam ali.

Só o que via era destruição. O irremediável, incurável e irreversível fim da vida.

— … MaMa

A negação era tudo o que conseguia repetir, de novo e de novo e de novo.

Levantou-se e começou a passar pela massa de corpos. Achou que só depois de ver todos, cada um deles, podia ter certeza daquilo, mas depois de apenas alguns percebeu que não havia dúvida, não havia confusão. As lágrimas rolavam por suas bochechas tão rápido quanto suas passadas, que por vezes aterrissavam em cima de pedaços pontudos de flechas quebradas.

Viu seu pai. Aquele era definitivamente ele. Recebera uma flechada no peito. O irmão, o mais jovem e menor deles, estava logo ao lado, com uma estaca no pescoço. O sangue se espalhara em todas as direções, como estrelas com dúzias de pontas. Os dois não se mexiam, não falavam. Tinham os olhos fixos. Narion chegou mais perto, procurando pela respiração. O peito, que o al-u-bu-u-na vivo tocou com a ponta dos dedos apenas, não se movia. Não encontrara coisa alguma. Ali estava uma casca vazia e nada mais.

Sua mãe não estava por perto. Ao olhar mais à direita viu outro de seus irmãos com o rosto cravado por duas flechas. Narion não suportou olhar para aquilo. Constatou, com um horror que parecia espremer seus olhos como frutas, que não podia fugir. Para onde quer que se voltasse via mais e mais sangue, músculos e ossos em lugares impróprios.

Ouviu um barulho próximo à fogueira. Al-u-bu ainda estava lá, imóvel. Um homem de capa negra andava por ali.

— Você…

Narion correu ao centro. Talvez fosse outro deles. Ao chegar mais perto, viu o rosto do homem. Nunca tinha visto aquela face transversa e suja, mas ela o fez tremer dos pés à cabeça, parando imediatamente e caindo para trás. Logo se recompôs, machucando a mão esquerda com outra ponta de flecha.

— Seu… Seu MALDITO! — Acusou Narion, ofegante. — Seu maldito, seu maldito, odioso, mentiroso… — Quase tropeçando, ligou a dor da mão à dor que poderia infligir; recuou e pegou do chão um arco qualquer e a primeira flecha inteira que pôde encontrar. Armando-as rápido como há muito não fazia, seguiu sofrivelmente em direção ao mistério, que manteve forte seu olhar com uma raiva que não era contra o iminente inimigo. — SEU MALDITO!

Narion atirou. A flecha perdeu força ao chegar perto dele, vergando-se até cair no chão, mole e flexível como uma simples folha de árvore. Narion quase engasgou. Pegou outra flecha e atirou mais uma vez. Não conseguiu atingi-lo. Caiu, tateando em busca de outra flecha, mas só o que encontrava agora eram pedaços. Sua mão procurava por um projétil de forma cada vez mais alucinada até que ele desistiu, socando o chão com revolta. Seus pulmões rangiam.

Percebeu uma sombra acima dele. Ergueu-se e se viu frente a frente com o inimigo. Narion viu profundas olheiras debaixo dos olhos, ainda que ele não estivesse chorando. Quando Lato-u-nau se ajoelhou Narion tombou entre seus braços abertos.

— Acalme-se, Nariomono… — Pedia ele, dando desajeitados tapas nas costas do homem.

Narion desvencilhou-se do abraço com raiva. Caiu para trás, sentado, enxugando as lágrimas.

— Você conseguiu o q-que queria.

— Eu jamais quis isso.

— Você MATOU! TODOS ELES!

— Não fui eu.

Lato-u-nau levantou-se solenemente e foi para perto da fogueira. Narion o seguiu com o olhar até encontrar um corpo diferente no chão. Al-u-bu aproximava-se lentamente, com às mãos erguidas à frente. Um dos magos jazia ali, com os braços e pernas esticados, e uma larga mancha bordô sobre a capa laranja violada.

— Ele fugiu. — Disse Lato-u-nau.

Os dois se olharam. Narion demorou um tempo para entender. Lembrou-se de que havia dois magos.

— Você pode encontrá-lo, Nariomono.

Al-u-bu estava voltada para o sul, em absoluto silêncio. Narion esperava que ela dissesse algo, mesmo sem saber confiar nela nem pelo que esperar — além de, na abundância do silêncio, não saber o que retrucar.

— E-eu…

— O que é que você vai fazer daqui pra frente? — Perguntou Lato-u-nau. — Você é o único que sobrou, Nariomono. É o único. Não há mais nada que valha a pena.

— Eu posso… Posso…

A raiva que tinha de Lato-u-nau o cegava; tudo o que tinha para dizer vinha da necessidade automática de contradizê-lo. A verdade é que não sabia o que podia fazer, mas o fato de que começava a enxergar com mais clareza lhe abria os olhos para o fato de que, embora não houvesse razão para querer contradizê-lo, fazer o que ele lhe propunha parecia igualmente sem sentido.

— Eu odeio esse mago tanto quanto você. Mas é você quem pode fazer alguma coisa.

— Por que você não faz?

Não é o tipo de coisa que eu faço! — Respondeu ele, a voz saindo aos murros pela boca, o rosto parecendo crescer para cima de Narion.

— Porque é um covarde!

— Narion! — Disse Al-u-bu, engolindo em seco. — Você deve escolher. Isto não é mais sobre mim ou ele. É sua a escolha.

Ele queria, mas não tinha mais o que dizer. Não conseguia exprimir a indiferença que sentia em relação àquela tarefa. O quanto a achava inútil. Os al-u-bu-u-na se foram, e se apenas um sobrou, que diferença faria? Ele não conseguiria manter viva a chama daquela comunidade e de tudo que representavam. Narion estivera do outro lado, e viu como era diferente o mundo fora daquela floresta. Não havia mais ninguém como eles. Ninguém que quisesse viver como eles. Deveria era acabar com a própria vida de uma vez.

Narion sentiu o rosto quente e dolorido; viu-se repentinamente com os cotovelos apoiados no chão, e antes que pudesse entender o que aconteceu Lato-u-nau o levantou de novo e deu-lhe outro tapa. Desorientado, Narion tentou rastejar, mas sentiu uma força descomunal puxá-lo pelos pés e lançá-lo para longe. Caiu distante da fogueira, perto de outra parte do círculo de corpos, e apalpou as próprias costas e pernas doloridas.

— Para… PARA!

Não entendeu o que aconteceu, mas sentiu que revirava por completo no ar até que finalmente distinguiu um rosto enlouquecido acima do dele. Lato-u-nau o segurava pelos ombros, apertando-o brutalmente.

— Você pediu pra PARAR? — Berrou o mistério. — Agora PEDE pela própria vida? QUEM é o covarde aqui?

Narion estava tonto. Lato-u-nau o jogou de lado mais uma vez, olhando-o através de gélido julgamento.

— Não sei o que você vai fazer. Mas você tem uma dívida com estas pessoas. — Ele continuou, saindo do campo de visão do homem caído. — Você passou a sua vida tentando se impor sobre elas. Era sempre você contra eles! Como se Heelum inteira estivesse prestando atenção à sua vida. Você não vale nada, Nariomono. Nada. Mas você pode prestar ainda. — Narion fitava o céu azul, absorvendo com atenção a voz de Lato-u-nau. — Pode escolher fazer parte, e ser alguém por eles ao invés de pensar em você.

Demorou até que alguém falasse novamente. Lato-u-nau quebrou o silêncio, parecendo ter ido ainda mais longe de onde Narion estava.

— Se você quiser ir atrás dele, guerreiro… Saiba que ele foi para Enr-u-jir. E que seu nome é Desmodes.