Infiltrado

Dois dias haviam se passado desde que Dalki estivera na casa de Hourin, e a filha do falecido parlamentar ainda não estava bem. Continuava na casa de saúde, num estado delicado. Sem poder contar com ela, Dalki fez o usual: refez os traços que compunham a vida de Hourin e chegou a um número de pessoas com as quais deveria conversar. Aquilo ia levar algum tempo.

A primeira visita seria justamente aquela da qual o chefe de polícia esperava obter menos informações úteis. Ianni já estava próxima aos cem rosanos, sendo mais jovem que o irmão Hourin. Vivia em uma jir ao oeste de Al-u-een, numa casa confortável e amistosa, que não parecia ter sido construída com muito dinheiro: tudo tinha um característico ar de segunda mão, desde o sofá cáqui ao vaso verde no corredor oblíquo, passando pela mesa bamba, as cadeiras consertadas com tiras grossas de goma escura e os borrados azulejos vermelhos da cozinha, de onde vinha o cheiro agridoce de um molho de tomate em fervura.

— Deve saber por que estou aqui, senhora Ianni.

— É claro. — Aquiesceu ela, fechando os olhos e sentando-se no sofá. — Meu irmão.

— Sinto muito.

— Ele não me fará falta, senhor Dalki. — Ela era uma senhora magra e baixa, com um ralo cabelo cinza escuro caindo do lado de um longo rosto. Sua voz era baixa, embalsamada em experiente aceitação. — Espero que o senhor encontre quem o matou, pois este é um crime lamentável, é claro… Mesmo se fosse outra pessoa. Mas meu irmão, ele… Infelizmente não era mais parte da minha vida.

— Por quê? O que houve?

— Bem, ele… — Ela parecia sobretudo cansada. — Ele deixou de participar da nossa família há muito tempo. Já era fechado antes disso, mas… Não há muito a dizer.

— Entendo. Quando foi a última vez que falou com ele?

— Já faz rosanos! Encontrei-o no centro da cidade. Trocamos algumas palavras, nada demais.

— Certamente a senhora sabe do que dizem a respeito dele.

— Sei, é claro.

— A senhora acaso sabe se ele era realmente um mago?

— É o tipo de coisa que ele mataria para encobrir, senhor Dalki. Eu não estaria aqui se soubesse desse tipo de coisa.

Dalki se limitou a concordar.

— Peço desculpas. — Retratou-se ela, respirando fundo. — É que o senhor não sabe o quanto têm me perguntado sobre isso. Eu só quero esquecer o meu irmão. Ele nunca me fez nada de bom e desde que morreu é só motivo de tormenta para mim.

— Quero acabar com isso para a senhora. Quanto mais cedo soubermos o que aconteceu, melhor. Ele tinha propriedades aqui por perto?

Ela negou.

— As terras que ele tinha ficavam no norte. Disso eu sei!

Dalki percebeu que ela passou a olhar para a cozinha. Talvez o molho no fogo estivesse quase queimando, ainda que o cheiro continuasse convidativo.

— … Bom, creio estar incomodando a senhora por tempo demais. — Disse ele, levantando-se. Ianni levantou-se ainda mais rapidamente, olhando-o com um belo par de olhos inocente. — Se houver algo que a senhora tenha para me dizer, saiba que posso ouvi-la a qualquer momento.

— Bem, na verdade… — Disse ela, lembrando-se de algo. — Não deve ser nada demais, é claro, mas talvez… Talvez meu filho possa saber de mais pessoas que tenham entrado em contato com o meu irmão nesses últimos dias.

— Seu filho. — Repetiu Dalki, intrigado.

— Lembro que Lenzo, este meu filho que falei, esteve aqui há algum tempo e… Durante a visita perguntou sobre Hourin. Queria saber onde ele morava. Acho que o senhor pode fazer algumas perguntas para ele. Alguém devia querer saber, não é? Por isso perguntou para ele, e ele perguntou para mim.

***

Alguns policiais foram designados para vasculhar a casa de Hourin a fim de encontrar novas informações, uma busca minuciosa e atenta para a qual Dalki não tinha paciência. Enquanto ele terminava a conversa com Ianni, Kenner acabava o andar de baixo da casa. O alto homem com negros cabelos de caracóis e um ar malandro que jamais o abandonava, mesmo quando vestia a farda de policial, foi encarregado da revista. Kenner passou os olhos por todo o escritório, cheio de registros de terras em Al-u-een, Al-u-ber e Karment-u-een, além de correspondências quanto a decisões financeiras e administrativas em cada uma das propriedades. Afora isso — coisas sem substância ou referência a quaisquer problemas; frias cartas com comunicados simples e impessoais — ficavam ali algumas barras de ouro que já haviam sido levadas para o prédio da polícia por Dalki, além de uma porção de roupas que não pareciam ser usadas há bastante tempo. Todas melhores que o uniforme azul-escuro que vestia.

Lumier, que nascera em Den-u-tenbergo, era um atlético garoto, no desabrochar da idade, que trabalhava com ele naquela operação. Acabara de entrar para a força policial de Al-u-een e, afoito por mostrar-se útil, investigara com esmerada dedicação o quarto de hóspedes da casa no segundo andar. Ele descia as escadas quando anunciou que terminou de vasculhar os pertences da filha do político.

— Qual é o nome dela mesmo?

— Não sei… Dalki não me disse. — Respondeu Kenner. — O que falta lá em cima?

— O quarto do próprio Hourin. Deixei por último… Vou lá agora.

— Não, Lumier, olha… — Kenner pensava em um jeito casual de dizer aquilo. — Você pode ir. Embora. Você trabalhou bastante, já. Eu cuido daquele quarto.

— Não, essa é a sua chance de descansar! Eu posso cuidar de lá, já cuidei do segundo andar todo mesmo, e…

Lumier sentiu-se estranho por um momento, com a visão turva seguida por uma visão de si mesmo descendo a escada, passando por Kenner.

— Eu… Tudo bem, então, chefe. — Disse ele, por fim.

Kenner não sorria, e seus penetrantes olhos verdes pareciam deixar clara a violência para a qual só faltava a agressão. Sem dizer mais nada, começou a subir as escadas.

Lumier achou aquilo um pouco estranho, mas seguiu em frente. Não sabia mais o que tinha visto, afinal; quando tinha aquelas dores de cabeça ficava mal-humorado e tendia a ver tudo com olhos maldosos. Kenner deve ter achado sua atitude esquisita; só isso. Descer a escada daquele jeito, com a mão na cabeça… Talvez tivesse passado tempo demais em contato com a poeira dos quartos de hóspedes. Já havia sentido aquelas sensações antes, em Den-u-tenbergo, mas achava que elas tivessem ficado no passado. Talvez fosse hora de procurar um médico. Chegou até mesmo a chamar Kenner de chefe, posição de autoridade que não lhe correspondia. Estranha confusão.

Kenner, do topo da varanda que o corredor do segundo andar formava, observava Lumier ir embora da residência bloqueada pela investigação. Estava sozinho na casa do político mais controverso da cidade, e agora era sua chance: se pudesse descobrir alguma coisa naquela casa…

A magia nem sempre funcionava maravilhosamente para todos os magos. Em Al-u-een, em particular, era difícil tentar alcançar tudo o que se quisesse sem se expor demais. Kenner era policial há bastante tempo; um sonho muito antigo. A ideia de ser o responsável por manter a ordem na cidade fazia com que ele se sentisse uma pessoa de valor. Sonhava com um maior reconhecimento para esse valor — “Isso é crime, por acaso?”, pensava.

Ainda assim, não conseguira subir de posto tanto quanto gostaria. Sendo um espólico, naturalmente conhecia outros magos, mas naquela cidade a influência precisava de tempo para agir. Para Kenner, estava demorando tempo demais. Tinha que encontrar algo. Algo irrefutável. Algo que fizesse surgir uma oferta — uma proposta, um pedido, uma demanda — irrecusável. Aquela era a oportunidade de ouro para descobrir algo que expusesse os magos de Al-u-een.

Ou Hourin era um mago, pensava Kenner, ou era um yutsi flamejante.

Procurou no armário. Nada encontrou entre as roupas, nas gavetas e portinholas. Procurou no banheiro. O baú de viagens estava vazio. Mas o que procurava jamais seria guardado de maneira tão óbvia. O que procurava estava em um lugar um pouco menos simples.

O chão da casa era de corvônia. Não havia uma parte que fosse móvel, visível, debaixo da cama ou em qualquer lugar acessível. Kenner costumava esconder moedas de ouro debaixo de um assoalho de madeira solto durante a infância. Aquilo não era possível naquela casa.

Não no chão, certamente… Mas as paredes do lugar eram todas de madeira.

As casas da rua, da vizinhança inteira eram assim, afinal: estruturadas em corvônia, mas cobertas com madeira. O quarto de Hourin era sóbrio e comum: os móveis eram marrons, nem muito escuros, nem muito claros, e as placas retas que formavam as paredes eram de um empalidecido amarelo solar.

A pintura era mantida em dia, mas se houvesse alguma brecha nas tábuas que compunham a parede — especialmente uma que tenha sido usada recente e regularmente — ela seria vista se o observador se aproximasse o bastante.

Com o rosto quase colado à parede, o policial espólico observou algo que parecia ser um desnível de luz na parede em frente à cama. Olhou por um ângulo menor, ao custo de um pouco menos da luz da tarde que entrava pela janela aberta. Deu um sorriso matreiro pensando no que estava prestes a fazer.

Deu um chute no lugar certo: com um forte rangido seco, a metade de baixo de uma tábua que ia até meia-altura da parede afundou para dentro, com a metade de cima saltando em direção a Kenner. Pó e partículas secas de tinta voavam sem rumo. A parte de baixo da tábua encostava na ponta do que parecia ser um pedaço de tecido, escondido mais à esquerda no compartimento que Kenner desvelara.

Era uma espécie de sacola de algodão. Com o tecido amontoado no topo, estava fechada com uma fina corda de couro de bufão num laço simples. Dentro havia uma série de papeis dobrados. Estavam bem dispostos, enchendo a sacola de maneira comportada.

Kenner pegou um dos papeis encaixados em um dos cantos. Leu o conteúdo com dificuldade: a letra não era das melhores, mas tampouco contribuía a pouca habilidade com a leitura.

Entusiasmado como há muito tempo não ficava, a ponto de ter finos calafrios de excitação, leu outra.

Perdeu cerca de meia hora ali, sentado na mesma posição de quando começou a primeira carta. Não havia mais dúvida quanto ao que achara. Não havia mais dúvida quanto ao lugar para onde ir a partir dali.

***

Kenner entrou no saguão principal do Parlamento de Al-u-een com um sorriso travesso. Aquele era um lugar de pouca luz, onde uma série de estátuas representando grandes momentos da cidade foi erigida ao longo da parede, construindo um abrangente arco em torno dos recém-chegados. No meio de coleções coesas de cidadãos, todos trabalhando em prol de algo, ficava uma bancada pétrea em que um homem loiro, de longos cílios e pele brilhante, informou a Kenner o caminho até o gabinete.

— Bom dia, Kenner.

— Bom dia, senhor Kent.

Kenner o conhecia de seus primeiros rosanos enquanto policial, fazendo trabalhos de segurança na instituição. Agora os dois se encontravam na escada para o terceiro andar; ele descendo, Kenner subindo. Nada que provocasse suspeitas, afinal.

Bateu à porta, o que era uma formalidade: sabia que a pessoa com quem queria conversar estava ali, e sabia que estava sozinho. Podia vê-lo, solitário, no topo de um grande e intricado castelo murado. Hideo, que não o conhecia pelo nome, abriu a porta do gabinete francamente surpreso com a visita de um oficial da ordem.

— Boa tarde.

— Boa tarde. Quero falar com o senhor.

— Quem é você?

— Meu nome é Kenner. Posso entrar ou não?

Seus olhos, bem empacotados num rosto achatado, acompanhavam uma boca e um nariz medianos; suas orelhas de aspecto retangular iam bem com a apresentação impecável da roupa, do cheiro, do seco cabelo preto bem aparado. O homem que, em suma, tinha tudo no lugar verificou o vazio do corredor antes de fechar a porta. Lidar com um policial não era exatamente preocupante, mas receber um policial mago

— Sente-se. Sobre o que se trata?

Kenner admirava a luxuosidade clássica da sala enquanto sentava-se à frente da mesa do político. Armários grandes no ambiente pequeno, uma janela fechada, um sofá planejado, uma planta podada e uma mesa de canto.

— Hideo, eu vim aqui porque…

— Perdão, mas nós por acaso nos conhecemos? — Perguntou Hideo.

— Ham… Não, não nos conhecemos. — Kenner ria, assumindo uma postura cada vez mais casual enquanto avançava. — Sou um dos policiais que está cuidando da casa do Hourin. O senhor deve ter ouvido falar.

— Do caso, é claro. Do senhor é que não. — Ele baixou os olhos por um momento, pensativo. — Achei que somente o chefe podia fazer entrevistas.

— Não estou aqui para entrevistar ninguém.

Hideo juntou as mãos, entrelaçando os dedos acima da superfície metálica presa ao tampo da escrivaninha. Arqueou-se para frente, ensaiando um sorriso, e desviou o olhar ao escolher as palavras da reprimenda.

— É que… Você continua me chamando pelo meu nome. Não entendo nossa proximidade, garoto, me desculpe.

— Você vai logo entender.

— Diga o que quer de uma vez. — Sugeriu ele, desfazendo-se em incômodo, cruzando os braços. — Pelo seu bem e o bem dessa cidade você sabe que eu não tenho tempo a perder.

Kenner tirou de dentro da longa jaqueta negra um papel, mais amarelado que o usual e um pouco amassado depois de ter sido irregularmente dobrado. Hideo o tomou nas mãos e o abriu, iniciando uma leitura descompromissada.

— … Talvez agora entenda, Hideo.

Kenner seguia a pupila de Hideo como um predador. Ela parou de se mover; sinal de entendimento. Ele estava refletindo. Seus dedos não se moviam; ele sequer ajustava a carta para poder ler a metade de baixo.

Em Neborum, nenhum movimento.

— Você não faz ideia do que está fazendo, seu moleque! — Vociferou em voz baixa Hideo.

— Faço sim.

Quanto você quer?

— Não quanto, o quê! — Consertou Kenner. — Somos criminosos, eu e você. Mas eu ainda sou leal à cidade. Leal de verdade.

— Você é um hipócrita. O que a cidade ganha se você me chantagear?

— Isso é você quem decide. O que eu sei é que eu quero ser chefe de polícia de Al-u-een. Nada demais.