Planos

Já eram mais de duas horas da manhã quando bateram à porta do simplório casebre. Saíram das entranhas da cidade logo depois que Lenzo partiu; uma fuga que Hiram entendera. Lenzo era um neófito assustado. Não vivera o suficiente para entender o quão necessário era salvaguardar Heelum dos magos. Ele deveria descobrir a si mesmo — não podia ser forçado a nada, afinal.

Kan guardou para si o conselho que lhe dera.

O percurso foi cansativo e um tanto quanto inseguro, especialmente durante a noite, quando abandonaram a charrete e seguiram por passagens inabitadas entre as colinas ao sul do Rio Ia. Estavam em uma afastada jir próxima aos gêiseres de goma escura em que aquela população trabalhava, amontoada em casas. Algumas eram pintadas; outras ficavam só na madeira, despidas de vaidade pelos donos quase desprovidos de coisas mais importantes.

Ouviram um estalido metálico. As trancas da porta se abriram, e um homem do lado de dentro se revelou na luz do minério vermelho que Hiram trazia consigo. Tinha no corpo e no rosto marcas indeléveis de labuta e idade. Com barba e cabelo desorganizados, estava com o maxilar inchado.

— Vocês demoraram… — Disse ele, parecendo mal-humorado.

Entravam rapidamente, procurando em outras casas sinais de indesejável vigília.

— O que aconteceu com você? — Perguntou Hiram, apertando os olhos em frente ao rosto do dono da casa.

— Ah, nada. Um problema na boca. — Falava como se estivesse com a boca cheia. — O que você fez dessa vez, Hiram?

— Você não soube, então…

— Ah, aqui tudo chega tarde. — Ele fechou os olhos e balançou a cabeça, desgostoso. — Diga!

— Pegamos Hourin. — Disparou Raquel.

Os olhos do homem vidraram-se nela, que sentava-se em uma cadeira no canto da pequena sala. Gagé estava alerta, de olho no lado de fora através de uma pequena abertura na janela esquelética. Kan e Hiram permaneciam de pé enquanto o homem sentava-se lentamente, quase em estado de choque, próximo à parede que dividia a sala da cozinha. Uma, decorada com cores quentes; a outra, com uma pintura azul-clara mal acabada.

— Hourin? Aquele Hourin?

Até o Hourin? — Perguntou Kan, confuso.

Aquele Hourin? — Repetiu o homem.

— Sim. O parlamentar, Toroko.

Um tenso silêncio seguiu-se. Kan, habituado com a casa, foi servir-se de água. Raquel parecia esperar que Hiram se virasse para ela. Queria poder apressá-lo.

— Você… Ah, Hiram… — Dizia Toroko, soando ao mesmo tempo compreensivo e triste.

— Não precisa, meu amigo. Não precisa. — Interrompeu Hiram, sorridente, colocando a mão por sobre o ombro de Toroko.

— Bem… Aquele homem mereceu. Já conheci muita gente boa que trabalhou pra ele… Ele é um monstro!

Kan não havia entendido direito o que Toroko disse, mas preferiu não perguntar.

— Queremos saber se pode nos ajudar com alguma coisa, Toroko. — Disse Raquel.

— Já deixamos a charrete no meio do caminho, como você pode ver. — Hiram fez um aceno com a cabeça para a bagagem que Gagé carregava nas costas. Kan voltava da cozinha com o copo à mão. — Qualquer coisa nos ajudaria. De verdade.

— Para onde vocês vão?

— Para Roun-u-joss.

— Certo… — Disse Toroko, inquieto. — Não se preocupem, que eu não vou dizer nada a ninguém.

— Não tem problema. — Disse Kan. — Eles vão saber que fomos pra lá.

— Kan… — Advertiu Hiram.

— Como?

— Lenzo. Um dos nossos que… Desistiu de fugir.

— Não! Gente detestável que não se pode confiar! — Toroko pôs a mão no queixo depois de uma pontada de dor no rosto.

— Ele diz que nós o atacamos para forçá-lo a nos ajudar. Piamente acredita nisso, e é o que ele vai dizer à polícia.

— E vocês fizeram isso?

— É claro que não.

Novamente a quietude desceu sobre a casa. Gagé prosseguia, quase imóvel, parado em frente à janela. Ninguém queria apressar Toroko, mas quase sentiam que precisavam. Ele levantou-se e entrou na cozinha, passando por Hiram e Kan. Estes se olhavam, um sem conseguir fazer sentido do que o outro queria dizer. Era apenas um medo; velado, escondido, calado.

Os barulhos de portas abrindo e fechando com estrondos lembravam Kan, que dera uma rápida olhada no que havia na cozinha além da água, que não podiam contar com muito mais que um pedaço mordido de pão e alguns tomates. Toroko voltava do cômodo carregando dois deles.

— É o que tenho… — Disse ele, sério. Hiram os entregou a Gagé, que começou a arranjar espaço para eles. — Você sabe que eu estou do seu lado, Hiram. É difícil não ter muita comida… Mas deve ser mais difícil não ter uma casa para morar!

Raquel levantou-se, andando ansiosamente por perto de Kan. Pensou que pareciam bandoleiros, roubando no meio da noite comida de quem já tinha pouco.

— É difícil, Toroko, é verdade que é difícil. — Disse Hiram, respirando fundo. — E você também sabe como é. Eu não me sinto em casa em lugar nenhum. Não me sinto em casa no meu próprio corpo, sejamos honestos. Nesse mundo não existe mais autonomia, meu amigo. Não existe mais liberdade.

Toroko parecia quase prestes a chorar quando aceitou de Hiram um abraço cheio de energia vacilante. Tiveram todos uma vigorosa despedida, seguida de desejos de boa viagem na escuridão.