De Enr-u-jir a Al-u-tengo

O centro de Al-u-tengo era tão parecido com todo o resto da cidade que seria fácil passar direto por ele sem percebê-lo. Mas o fim da estrada para o Norte, justamente em frente à união entre o Rio dos Roncos e o Rio Podre, deixava claro que eles chegaram às entranhas da cidade dos arqueiros.

A arquitetura baixa e despretensiosa construía um céu estranhamente amplo para um lugar populoso. Jen e Richard chegaram ao hotel na manhã do vigésimo-sétimo dia de inasi-u-sana, por perto das onze horas da manhã. O lugar tinha escandalosos dois pavimentos — uma verdadeira raridade — mas não era de qualquer maneira espetacular. Logo saíram para ir ao único lugar que os interessava: o Exército.

A viagem que terminaram fora rápida e tranquila — com a exceção, talvez, do desaparecimento do mapa. Ele seria útil, mas não era realmente necessário para chegar a Al-u-tengo. Seguiram em frente durante todo o dia anterior, passando a maior parte do tempo na Grande Floresta de Heelum, muitas vezes margeando o Rio dos Roncos.

Os roncos eram animais quadrúpedes de porte médio, com uma acinzentada pele enrugada e seca. Eram pesados para o tamanho que tinham e levemente assustadores — não apenas pelos sons que faziam, que deram nome aos animais, mas pelo rosto, que parecia exibir uma constante reprovação irritada. Tinham uma carne tenra e suculenta, o que dava forma à cidade: jirs pequenas, em sua maioria familiares, espalhavam-se pela floresta com criações do bicho herbívoro. Jen o achava bonito, o que provocava risadas em Richard.

— O que foi? — Dizia ela, alegre.

— Os roncos são muito feios, Jen! Você é louca!

— Você tem que olhar para eles sem procurar ver o rosto de uma pessoa. — Replicou ela. — Eu sei que eles parecem estar sempre mal-humorados.

— Olham para você como se você tivesse feito uma coisa muito, muito ruim. — Melhorou ele.

— Tudo bem. Mas os olhos deles são muito bonitos, na verdade.

— Ah, que romântico! — Bradou ele, rindo alto.

Não viram nenhum ronco pela estrada, seja porque os bichos realmente não estavam ali ou porque passaram rápido demais por eles. Jen sabia que só teria outra chance de vê-los no caminho de volta para Enr-u-jir, já que a jornada não os levaria a outra parte da floresta em que aqueles animais vivessem. Mas contentou-se, sabendo que teria muito tempo ainda para ver roncos selvagens.

— Você não pode me deixar esquecer do mapa. — Comentou Richard.

— Sim.

— É sério. Temos que comprar um assim que chegarmos lá.

— Ou podemos esperar para voltar pra Enr-u-jir, Richard. Lá eles devem ser até mais baratos…

Ele balançou a cabeça, ponderando a situação.

— É, acho que não precisamos de um até sair de lá de novo.

Jen deixou escapar um sorriso. Pensara em algo absurdo.

— Os magos não podem fazer isso, podem?

Richard olhou para ela, confuso.

— Fazer o quê?

— Sumir com o mapa.

Ele negou com um sorriso surpreso.

— É claro que não…

— Ah… Desculpa.

— Ah, Jen, por favor… Me desculpe. — Disse ele, arrependido. — Talvez p-possam… M-mas até onde eu sei os magos não mexem com as coisas, entende? Eles mexem com a gente.

— Certo.

— Sabia que dizem que Kinsley é um mago? — Perguntou Richard.

Ela voltou a olhar para ele, intrigada.

— É sério?

— Não sei. Quer dizer, dizem mesmo. Mas se é verdade eu não sei.

— Mas ele não usa o lenço!

Richard voltou a atenção para a estrada.

— É o que faz a acusação toda ficar bem séria.

***

O exército ficava do outro lado do Rio Podre, ao qual Richard e Jen logo chegaram: uma larga depressão pela qual passavam ondas e ondas calmas de água limpa e clara. Jen viu que havia várias pontes, não muito distantes umas das outras, continuando ao longo da cidade nas duas direções. Saindo da rota, admirou o rápido fluxo de cima da estreita, mas segura ponte de madeira em que estavam.

— Por que fizeram tantas pontes?

— Você não conhece a história do rio? — Perguntou Richard, juntando-se a ela.

— Não sei nem porque chamam de podre. É tão… — Ela não sabia como exatamente descrever aquilo que parecia ser simplesmente puro. — Claro

— Ele tem esse nome porque ninguém consegue atravessar o rio.

— Por quê? Ele é muito rápido?

— Não.

— Então por quê?

Richard deu de ombros.

— Simplesmente não conseguem. Não conseguem ir em frente. Ninguém consegue. Todos morrem tentando. A correnteza leva. Gente que sabe nadar muito bem se afoga, e… As histórias são muitas.

A pesquisadora de Ia-u-jambu olhou para baixo de novo; para as águas que pareciam tranquilas e amigáveis. Não conseguia acreditar naquilo. O rio não era tão rápido, nem tão largo. Também não devia ser muito profundo, e a transparência fazia de qualquer peixe mal intencionado um péssimo vilão no que diz respeito ao quesito surpresa. A não ser que ele fosse rápido demais. Rápido demais para que qualquer um, até quem se preparasse para ele. Por outro lado, Richard dizia que “a correnteza levava” as pessoas. Não era um peixe. É claro que não era um simples peixe.

— Ninguém que morreu acreditava nelas. — Reiterou ele, afastando-se da borda.

Em cima da ponte o vento parecia soprar mais forte, como numa voz de vento, mas inocente ao invés de bruta e disforme. Uma voz maliciosamente pura, como aquelas águas. E sedutora.

Seriam aquelas águas venenosas? Seria esse o segredo?

Jen tentou se concentrar, decifrar o que o rio parecia querer lhe dizer. Sentiu como se os ouvidos fossem libertados de uma bolha de ar quando enfim ouviu Richard quase berrar seu nome.

— Jen! — Ela olhou de volta para ele. Já era a terceira vez que a chamava. — Vamos ou não?

O rio não deixava ninguém atravessá-lo, mas aparentemente permitia a passagem pelas pontes. Era curioso como o perigo forçara aquele povo a construir uma infinidade de passarelas, muito parecidas umas com as outras — com a exceção de algumas maiores, estruturadas em corvônia — como se aquilo pudesse conter a força da natureza que erigiu aquele mistério. Era a força do humano que precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa que fosse, em face do inevitável.

Jen suspirou. Não podia controlar o rio, evitando que funcionasse como funcionava. Não sabia nem mesmo se desejaria fazê-lo se pudesse, ou ser capaz de fazê-lo, no mínimo. Nem mesmo entendê-lo, afinal, mistério de Heelum que era. Mas o que a cidade podia fazer era enchê-lo de desvios; lembretes de que deveria ser evitado. No final das contas, pensava Jen, as pontes nunca impediriam que alguém se jogasse, dali pulasse, que caísse. Não eram à prova de deliberada ignorância. Ou de bravura. Nem mesmo de estupidez ou desconhecimento. Ou de suicídio. Tudo que era possível fazer era estender uma mão benevolente, esperando que a oferta de ajuda fosse aceita.

Mas os monstros ela podia tentar entender. Talvez não fossem de forma alguma misteriosos. Mas como isso era relacionado àquele rio Jen não fazia ideia.

Passaram por ruas cada vez mais apertadas depois que saíram da avenida que margeava o curso d’água. O caminho era aconchegante de tão diminuto, e o cheiro de pães e biscoitos entrava nas narinas sem pedir licença — algo capaz de provocar sorrisos igualmente não requisitados. Por todo lado havia lojas de café e doces, todas muito similares, com portas e janelas de madeira subdivididas em quadrados envidraçados, balcões com minérios de luz e balconistas seguindo os forasteiros com o rosto entediado. Não havia muitos clientes, mas os poucos pareciam obstinadamente relaxados, sem compromissos de qualquer espécie esperando por eles. O segundo andar sobrado da maioria das padarias estava ocupado por salas em que as mais diversas profissões se exerciam. Havia ceramicistas, arquitetos, escribas, relojoeiros, tecelões e até mesmo professores de guitarras ou instrumentos tradicionais, agrupados tão próximos que tornava impressionante, algo beirando o esquisito, o relativo silêncio da feira sob a pele das paredes.

Desembocaram então em uma outra avenida, um pouco menos larga que a beira-rio. Uma charrete entrava, naquele momento, em um pequeno pátio em frente a uma casa de fachada comprida, pintada uniformemente com um verde pouco vivo — poder-se-ia dizer que já em seus últimos suspiros. As janelas pequenas eram mais próximas ao teto que o usual, e a porta principal era simples e velha, com uma aparência desgastada. Era o lugar que procuravam. O Exército de Al-u-tengo.

Passaram pelo portão sem que o homem dentro de uma pequena guarita à esquerda perguntasse qualquer coisa. A sala de entrada do prédio era escura; a parca iluminação vinha de alguns minérios amarelos, posicionados longe da entrada, perto de uma porta por detrás de um balcão. Tudo ali era marrom: o assoalho, de tábuas, e também as paredes, pintadas com um tom mais pálido da cor sisuda. O balcão, angular e simples como um gigante bloco sobre o chão, segurava alguns papeis rabiscados com coisas que Richard e Jen não tiveram tempo de ver, já que uma mulher com um cabelo loiro preso veio se apresentar.

— Bom dia. — Disse ela, com um sorriso surpreendentemente feliz para uma militar daquele porte. — O que desejam?

— Olá, meu nome é Richard. — Apresentou-se ele, com Jen logo apertando também a mão firme da anfitriã. — Está é Jen, uma pesquisadora de Ia-u-jambu. Estamos em viagem e precisamos de companhia.

— Meu nome é Anika. Bem-vindos ao Exército de Al-u-tengo. Que espécie de companhia?

— Obrigado… Hum… Bem, precisamos de alguém forte… Acostumado a viver em meio à floresta. De preferência um arqueiro. — Ele olhou para Jen, buscando apoio no que dizia.

— Vieram ao lugar certo, naturalmente. — Respondeu Anika, parecendo vasculhar a mente em busca de algo. — Sigam-me, por favor.

Ela deu as costas para os dois, que apressaram-se para seguir o passo marchado da mulher de ombros largos. Entraram na ala esquerda do prédio, atravessando um corredor lotado de portas de madeira iguais, básicas como a porta de entrada: sem detalhes ou identificação de qualquer tipo. Viraram à esquerda no final do corredor, depois de passar por quase trinta portas, e viraram à direita novamente para entrar em um pequeno escritório.

Jen e Richard pararam, um tanto acabrunhados, em frente a uma pequena mesinha no centro da mínima sala. Por dentro a sala era um trabalho em progresso: um jeito otimista de descrevê-la. Anika foi para detrás da mesa, abrindo uma gaveta cinzenta dentre uma série de outras parecidas, sem etiquetas ou papeis que ajudassem a categorizar o conteúdo. Jen se arrepiou; Richard percebeu, sem entender bem o que ela estava tendo. Anika leu um papel que a dupla não conseguia ler.

— Para onde estão indo?

— Pântano dos Furturos. — Respondeu Richard.

Anika voltou-se para os dois, solene.

— O que vão fazer lá?

Jen e Richard trocaram olhares.

— Eu não… Acho que você precisa perguntar isso para nos mostrar um arqueiro. — Disse Richard, tentando não fazer a frase soar muito rude.

— Perdão. — Disse Anika, recompondo-se. Fechou a gaveta. — Sigam-me, por favor.

Anika passou por entre eles sem olhar em seus olhos, como se fossem duas colunas próximas demais em uma passagem apertada, e os levou até uma das salas do corredor do qual saíram há pouco.

A sala era exígua; tinha o ausente luxo estimado para um cômodo em concordância com o resto do prédio: uma cama e um armário pequeno, com duas portas e uma gaveta. A parede não parecia ter sido pintada com o mesmo marrom, e na verdade parecia ter dado errado: a tinta era uma espécie de vermelho que cansava os olhos com apenas alguns segundos de observação.

Encostado ao pequeno armário estava o arco de aparência compacta, mas com curvas perfeitamente esculpidas: era letal como nenhum outro; uma genuína arma de Al-u-tengo. Em cima da cama estava a fáretra que carregava uma série volumosa de flechas, e ao lado dela um homem alto e forte, sentado com os pés no chão — o que deixava seus joelhos acima da linha da própria cintura. Ele lia um livro de capa negra felpuda, logo guardado quando o guerreiro percebeu que a porta se abrira. Levantou-se e olhou com firmeza para Jen e Richard, que o encararam de volta.

— Gregor. — Disse Anika. — Estas pessoas de Ia-u-jambu estão indo para o Pântano dos Furturos. Acredito que precisarão de você.

***

— Então todas as suas atribuições estão esclarecidas?

Gregor fez que sim, e sorriu. Jen e Richard descobriram — na maior parte do tempo adivinharam, fazendo estimativas baseadas em evidências — que ele era um homem experiente; certamente muito bem treinado. Tranquilo e monossilábico, apenas afirmava que faria todas as tarefas com excelência. Não fez nenhuma pergunta além do básico.

— Então pode subir e dormir. Partimos pela manhã.

Ele assentiu, e logo deixou a mesa murmurando um simpático e quase tímido “boa noite”. Jen o fitou com apreço enquanto ele carregava escada acima o corpo construído, a grande e larga face retangular e o cabelo negro seco e preguiçoso.

— Ele parece perfeito. — Disse Jen assim que ele estava longe o suficiente.

— É, é verdade. — Concordou Richard, bebendo o resto de água do copo.

— Acho que finalmente vou viver uma aventura. Vamos, q-quer dizer, nós dois. Nós três.

— É… Mas você que não vá viver uma aventura com ele, hum?

Jen se surpreendeu, fazendo Richard abrir um sorriso inquisidor.

— Que ideia é essa, Richard? É claro que não!

— Sei. — Ele fez uma voz fina para imitá-la. — “Ele parece perfeito!

— Não… Eu não quero nenhum tipo de envolvimento.

— É, eu também não. — Respondeu ele, recebendo um olhar curioso por parte dela. — E não se preocupe que você não corre risco.

— Ah, certo. Então eu que devo te alertar para você não viver uma aventura com ele, porque se vocês brigarem eu não vou ter forças para lutar com ele, obviamente…

— Ele é a nossa fonte de comida e nossa garantia de proteção. Eu não sou louco de mexer com isso… — Argumentou ele. — Mas me diga… Por que você não está procurando por alguém?

— Não sei. Penso que… Autoconhecimento, sabe? Penso que não é só por monstros que eu procuro nessa viagem…

Eles mantiveram um olhar firme, recíproco, por mais algum tempo. Jen pediu mais água para o copo de Richard e, tomando-o do colega, levantou-o.

— Bebo à nossa viagem e ao nosso futuro, meu caro Richard!

E ela bebeu um gole, entregando o copo de volta a ele, que sorriu.

— À nossa viagem e ao nosso futuro, Jen.