Mal educados

— Pare.

Byron e Tornero estavam do lado de dentro da carruagem laranja do mestre. O silêncio, quente e nervoso, atravessava as paredes, as portas e as janelas vedadas por cortinas cor-de-lavanda. Estavam em um lugar ao leste da cidade, com algumas baixas colinas separando-os do Rio da Discórdia.

— Chame um deles aqui.

— Acredito que sim, mestre, mas se eles não estiverem…

CHAME UM DELES AQUI, Tornero! — Ralhou Byron, furioso.

Tornero gostava dos riscos e sabia que não seria realmente difícil conseguir aquilo, mas o problema naquele momento era o fino equilíbrio que a relação entre Byron e ele sempre exigira. Um era tipicamente o homem da estratégia, enquanto o outro jamais se cansaria de ser aquele a sentir o fogo da batalha arder à frente do próprio rosto. Mas Tornero sentia-se terrivelmente amedrontado quando convivia com o lado perturbado do mestre, que vinha à tona quando ele era contrariado. Sentia-se pego pelos calcanhares com um golpe rápido e indefensável, e tudo o que podia fazer era se balançar como um peixe. Odiava se sentir daquele jeito.

Logo ouviram passos acelerados na grama, que acabaram quando a porta lateral da charrete se abriu bruscamente com um estalido fino. Uma mulher com cabelos longos, de um loiro sem brilho, olhou para o interior da charrete com olhos curvados, como se permanentemente cansados.

Byron tomou conta da situação, expulsando-o do castelo dela com as próprias mãos. Há um segundo estava próximo à alma daquela mulher, girando-a rudemente em uma ventania que ele não tinha paciência de moldar. A próxima coisa que percebera foi que estava rolando na grama, indo parar a vários pés da porta principal do castelo que invadira, dolorido e sujo. Fechou os olhos e esmurrou a grama.

A mulher entrou na charrete, sentando-se ao lado de Tornero cheia de reservas.

— Quem é você? — Perguntou Byron.

— Enrita… — Ela respondeu, distraída.

— O que estão aprendendo?

Ela olhou para ele com as pupilas tremendo e o corpo acuado, que deixava claro sua vontade de fugir dali o quanto antes.

Agora, por outro lado, queria ficar.

— Lamar contou histórias… — Respondeu ela.

— O que estão aprendendo a fazer, sua ignorante! — Respondeu ele. Ela desviou o rosto, assustada, enquanto ele gesticulava grosseiramente, entortando a boca ao falar. — Em magia!

— E-eu não sei, não é nada não, nós só… Fazemos uma s-sensação nos outros, d-de… De conforto, eu…

O rosto de Byron começou a se transformar.

Conforto? Vocês andam por Neborum normalmente?

A confusão no rosto da entrevistada se acentuou de forma aguda. Olhou por um instante para Tornero, que ainda estava arqueado para frente, pondo os cotovelos nos joelhos.

Neborum? O que é isso?

A consternação sumiu da face de Byron tão rapidamente quanto surgira, e um riso dormente tomou seu lugar.

— Ouviu isso, Tornero? — O pupilo assentiu discretamente. — Eles não sabem o que é Neborum, Tornero.

Sua risada ficou cada vez mais cheia e satisfeita, mas nem por isso menos trôpega. Enrita o encarava com um tipo peculiar de vergonha. Não estava entendendo quase nada do que acontecia.

— Pode ir, mulher. — Disse Byron.

Sem pensar duas vezes, Enrita abriu a porta da charrete e saiu correndo para longe. A porta foi voltando devagar, sem ranger, ocultando para Tornero a visão da fugitiva.

— Tranquilize-a, Tornero.

— Estou fazendo isso.

— Faça mais. — Ordenou ele. — … Você estava certo, Tornero. Arranje tudo como quiser. Isto é uma permissão e uma ordem.

***

Antes do encontro parcialmente espontâneo com Enrita, Byron visitara Caterina. Pediu a Tornero que permanecesse na charrete, cuidando de qualquer atenção que lhe fosse dirigida. Andou decisivamente até a porta da alorfa, que a abriu antes mesmo que ele se anunciasse. Eles se viram, então. Em Neborum e ali, a um braço e meio de distância um do outro. Ela marcara sua posição como uma fortaleza do lado de dentro. Ele, do lado de fora, não fez menção de entrar.

— Você me deve uma explicação.

— Você está surpreendentemente alterado para um bomin, Byron. — Afirmou Caterina, tão assertiva quanto ele, cruzando os braços.

— Sei usar o que sinto contra quem merece.

— Você deve estar falando de Alice. — Cortou Caterina. — Ela foi o problema, não eu. Eu votei com você.

Quieta! — Disse ele, num impulso.

— Ou suas intenções são fáceis de descobrir — continuou ela, desafiadora — ou pensamos de forma parecida.

Ele deu um passo à frente. Ela bateu a porta à parede depois de uma leve recuada, afirmando-se com postura. Os dois se olhavam também, frente a frente, do lado de fora do castelo de cada um. Ele saíra primeiro, com mãos quentes de onde saía uma volumosa fumaça de fuligem; ela, com um longo chicote negro nas mãos, tentava disfarçar as pernas trêmulas ao regularmente trocar de lado o peso corporal.

— É exatamente por isso — replicou ele — que nós dois não podemos ocupar a mesma cidade.

— Você não pode me derrubar, Byron. E isso não é um desafio. É um fato.

Um vento seco atingia insidiosamente Neborum ao redor dos dois castelos.

— Muitos me colocaram onde eu estou e eu não vou desistir de lutar esta luta. — Continuou ela. — Uma luta que muitos deles nem sabem que existe ou o que é.

— Você não tem condições de ganhar essa luta. — Ele abaixou o tom de voz, copiando o jeito passivo-agressivo da parlamentar. — Prima-u-jir não é o seu lugar.

— O meu lugar é onde eu estou.

— Não. Você ainda não está no seu lugar.

Byron virou-se e começou a ir embora, desaparecendo de cena também em Neborum. O pulso de Caterina disparava, e ela sentiu uma onda de ousadia que não conseguiu impedir de explodir.

— As pessoas estão acordando, Byron! — Ele parou, ouvindo de costas. — Você não pode controlar tantos por tanto tempo! As pessoas estão começando a entender como tudo funciona, Byron!

Ele recomeçou a andar. Caterina controlou a vontade de perguntar se ele havia entendido o que ela dissera, e entrou de novo no próprio castelo e na própria casa. Trancou ambas as portas.