Vida bandida

A prisão de Prima-u-jir era um anexo apodrecido do exército da cidade, que por sua vez era um grande prédio verde-claro, notavelmente bem administrado. As paredes da cadeia eram vermelhas, tanto do lado de dentro quanto de fora, e recebiam externamente a iluminação de tochas acopladas à laje do andar único, que pressionava com um amarelo sujo e mofado as cabeças dos prisioneiros. Do lado de dentro, cada cela era uma versão menos luxuosa dos cômodos mais miseráveis da cidade; um grupo de trapos, uma espécie de prato côncavo acobreado e uma latrina rasa, fétida mesmo quando vazia.

Nade de anormal havia acontecido naquela aula até então, com a exceção, talvez, da chuva, que ameaçava cair com força nas próximas horas. Lamar percebera que menos pessoas vieram, e nesse cenário isso era perfeitamente compreensível.

Começara a aula ao propor, em luz de acontecimentos que ele considerou prudente guardar para si, que as aulas fossem transferidas para outro lugar. Logo alguns alunos aventaram possibilidades. Algumas bastante ruins, envolvendo espaços completamente desconexos da rede de estradas — o que poderia significar uma verdadeira viagem de duas ou três horas a pé até o local. Outras eram interessantes, mas poderiam chamar muita atenção. Lamar percebera que a sugestão deixara os alunos inquietos. Nada anormal tampouco.

Começaram a aula de fato, deixando a discussão para depois. Apenas alguns minutos haviam se passado quando o professor ouviu um barulho incômodo. Num reflexo automático lembrou-se dos risos histéricos que Tornero provocara em uma das aulas, mas não eram risos que ele ouvia. Era algo de todo tímido e contido; um choro pequeno.

As duplas começaram a se dar conta do pranto, e Lamar correra para alcançar uma mulher de pele escura e olhos grandes. Agarrou-a pelos ombros, num gesto bruto, mas preocupado. O vento cada vez mais forte entortava o caminho de lágrimas no rosto da moça de vestes esmeraldinas. Ela ocupara suas têmporas com as palmas das mãos, retas, e não parecia disposta a dizer qualquer coisa.

Ouviram outra voz feminina chorar, e um homem próximo a ela na prática que faziam também começou a estreitar os olhos e soluçar, ajoelhando-se ao chão.

Os alunos, atordoados, pensavam se seriam os próximos na inexplicável sinfonia, e olhavam em volta como se um monstro estivesse à espreita. Lamar tentava pensar no que fazer quando ouviu uma voz masculina, que reconheceu ser trazida até a aula por um minério de som.

“Esta é a polícia de Prima-u-jir.”

A voz veio de um lugar atrás da colina, mas não parecia muito longe.

CORRAM!

Os alunos dispersaram-se o quanto antes para todos os lados, descoordenados, e logo os policiais surgiram. Vestindo grossas capas negras e brandindo espadas, avançaram contra alguns alunos que tentaram escapar, inutilmente, pelo lugar por onde vieram. Outros conseguiram fugir. Estavam em maior número e muitos, mais jovens, corriam mais rápido.

Lamar lamentava a cena com um misto de raiva e desespero desde o instante em que começou. Ainda assim, tudo aquilo parecia surreal; aquelas pessoas correndo, fugindo, e ele ficando para trás. Uma brincadeira, uma interrupção sem sentido, uma encenação que estava se prolongando demais.

— Deixem! Deixem! — Dizia Tornero, ordenando que os perseguidores não se preocupassem com os alunos.

Lamar sentiu um agudo arrepio, e o dia pareceu ter escurecido ainda mais. Deu meia-volta, engolindo em seco. Os policiais se aproximavam. Tinham a boca leve e mecanicamente curvada para baixo, verdadeiras estátuas de guerreiros que eram, donos de uma legítima força sem misericórdia.

— Não p-p…

Lamar tentou falar, mas um dos guardas o interrompeu com um soco na bochecha esquerda.

Lamar queria dizer que iria cooperar, mas o discurso sequer começou. Caiu com o rosto no chão, tingindo a grama com um pouco de sangue. Foi posto de pé novamente; não viu quem torceu suas mãos para trás das costas. Contou pelo menos dez agentes da lei de Prima-u-jir, que se reuniram em torno dele.

— Então nos encontramos. — Disse Tornero, sorridente. — Tem alguma coisa a dizer, Lamar?

Não conseguia pensar. Ainda tremia com o impacto que recebera, e a sensação em seu rosto era esquisita, os músculos ainda procurando por uma forma de se rearticular. Foi logo levado para um grupo de charretes, que avançaram para o centro da cidade num turbilhão.

Incrédulo, envergonhado, por fim esperando que aquilo tudo fosse um pesadelo, Lamar era arrastado de um lado para outro, quase inconsciente do que lhe acontecia. Foi recuperar parte do autocontrole quando foi jogado na cela por dois brutos soldados.

Lamar não dormiu naquela noite. Sua cabeça formigava com culpa, raiva, frustração — nunca se sentira tão mal, dentro de um jogo tão sórdido. Sentado, apoiava as costas na parede da janela; o cubículo em que fora colocado fazia fronteira com outros dois. Uma parede separava os cômodos, vazios. À frente havia barras de ferro sujas e arranhadas, e para além delas o pequeno corredor que dividia as celas do lugar. Depois disso, mais e mais celas, iguais umas às outras, vazias como as expectativas de Lamar.

Myrthes e Ramon ficaram para trás. Esse era o fato mais aterrador, do qual não conseguia se livrar. Gastava boa parte do tempo imaginando como eles estavam. Se o governo da cidade conseguiu pôr as mãos neles de alguma forma ou se estavam em casa, preocupados com seu sumiço.

Logo após pensar em algo, encontrava argumentos para defender o cenário. Quando ele era muito preocupante, logo se punha a procurar por motivos que fariam tudo aquilo perder o sentido.

Aquilo que deveria fazer o deixava ainda mais angustiado. Era nesses momentos da reflexão que o cansaço era brevemente vencido, e Lamar acabava precisando andar dentro da cela. Não podia se comunicar com Kerinu. Não podia se comunicar com a família. O problema era, afinal, o quanto Tornero sabia sobre ele. Será que teria ido até Kerlz-u-een para buscar informações? Teria se dado a esse trabalho? Se ele sabia da existência de Myrthes e de Ramon — e nesse caso, ainda, onde encontrá-los — então seria inteligente barganhar pela segurança da família. Daria qualquer coisa. Faria qualquer coisa.

Por outro lado, sabia que não podia fazer ou dar qualquer coisa a ele. Se Tornero queria apenas vingança, punição, prazer — o que tudo indicava, afinal — então a única coisa que teria a oferecer era justamente a separação em relação à família, ou coisas ainda piores. Pensou em cenários absurdos, que o fizeram segurar-se à parede por alguns instantes de vertigem. Uma onda de calor passou por seu corpo, alertando-o de que uma barganha não seria nada inteligente. Ele precisava ser prudente. Precisava estar seguro e colocá-los em segurança. Não podia mencioná-los. Não podia se preocupar com eles.

Lágrimas de impotência enchiam os olhos de Lamar enquanto ele percebia quão pouco ele podia fazer.

Um dia se passara. Lamar deveria ter voltado para casa. Myrthes deveria ter começado a procurar por ele. E certamente o faria na cadeia primeiro. Ou, no máximo, na casa de saúde, na esperança de que fosse antes uma doença do que a prisão.

Ele deveria ter pressentido aquilo. Coisas assim não simplesmente acontecem. Quanto mais pensava mais ele chegava à conclusão de que aquilo era inevitável.

Ainda que tivesse sido evitável.

Estava cansado daquele jeito, preso ao mundo da lucidez. Ao mundo do que escolheu e do que fez. Pensava nisso enquanto percebia, ao longe, o som de uma porta próxima. Tentou se arrumar no chão, mas desistiu ao sentir dor nas articulações.

— Já está pensando que foi uma má ideia ter começado a dar aulas, Lamar? — Perguntou Tornero, aparecendo no corredor por detrás das barras de ferro.

Lamar tentou dar a ele um olhar cheio de desprezo. Respirou fundo, pensando que devia evitar até mesmo esse tipo de sentimento.

— Não.

Tornero pôs os cotovelos em alguns dos espaços entre barras, apoiando-os em um cano transversal, e encaixou o rosto em outra reentrância. Lamar recostou-se ainda mais à parede.

— Eu não vou parar… — sussurrou o homem do lado de fora — Entenda bem… Até que você sinta, Lamar, que foi uma má ideia ter nascido.

— E é isso que eu mereço? P-por ensinar as pessoas o que acontece em Prima-u-jir?

Tornero distanciou-se, parecendo mais soturno com o olho esquerdo por detrás de uma séria sombra vertical.

— Talvez. Talvez mereça mais.

Lamar olhou para o chão, balançando a cabeça. Não fazia sentido olhar para Tornero.

— Por que você me odeia? Foi porque eu fui escolhido primeiro?

EU era pra estar lá! EU! — Vociferou ele, prontamente apontando para o próprio peito.

— E eu não queria nada daquilo… — Replicou Lamar, voltando-se para o inimigo por momento. Viu de relance que Tornero ainda tinha os olhos bem abertos, em uma postura exaltada. — Eu não entendo. Você conseguiu o que você queria… Você conseguiu tudo.

— Escute bem, Lamar… Nós temos o que temos porque merecemos. Não vamos deixar ninguém se meter nisso. Não vamos deixar ninguém tirar isso de nós.

Lamar não respondeu. Ficou um pouco tonto, mas sabia que não estava sendo controlado. Sentia-se, de certa forma, protegido pelas barras da cadeia. Tornero podia vir insultá-lo e prometer que ele sofreria; poderia até torturá-lo enquanto isso não acontecia, mas enquanto Lamar estivesse ali nada de pior lhe aconteceria.

— Você, Lamar, não deveria ter voltado.

Com um olhar de quem confere pela terceira última vez se o alvo fora mesmo atingido, foi embora.

***

Qualquer acontecimento demorava um tempo longo demais para acontecer. Entre os horários em que recebia alguma comida — arroz e pão, secos; água; por vezes uma porção de uvas roxas, a maioria podre ou batida — sofria com a solidão e a incerteza quanto ao que estaria acontecendo no mundo de que fora excluído.

Passou a dormir mais, aproveitando ao máximo o débil pano azul bordado com motivos vermelhos. Era feio e gasto, mas servia; ora como colchão, ora como cobertor. Não podia usá-lo com os dois propósitos sem torná-lo inútil para ambos. Seu sono era agitado e inconstante, descontinuado por fome, sede ou por momentos de vigília em que ele não sabia se estava verdadeiramente acordado.

Houve um momento em que pensou ter ouvido a voz da mulher; talvez o choro do filho. Não deu muita importância, já que ouvira também a voz do próprio pai, a voz de um Byron muitos rosanos menos velho, e imagens de si mesmo mais jovem — de todo tipo de experiência que tivera — assaltavam sua mente, aleatórias e tingidas com uma espécie de dor que não costumava estar lá. Não daquele jeito.

No terceiro dia de clausura fora avisado que seria levado mais tarde para um banho. Ele esperou, tentando novamente lembrar-se do que significava o tempo, e como contá-lo. Ele não deveria ser muito grande, nem muito dolorido de ver passar.

No entanto, a próxima pessoa a aparecer não foi um guarda. Um homem de meia-idade, alto e vestindo uma elegante capa azul, abriu a porta de barras de ferro com a chave da cela. Lamar não entendia o que estava acontecendo. O homem não sorria, mas tampouco demonstrava qualquer emoção hostil. Olhou para o lado e chamou, com chiados discretos, um garoto.

Ele devia ter vinte e cinco rosanos, com certeza não mais que isso; baixo, vestia uma versão menor e mais fechada da capa azul do misterioso homem. Reconheceu as mesmas feições nos dois: o mesmo formato do rosto, a mesma inexpressividade.

O homem de azul olhou para o menino e fez um sinal para o lado de dentro. O garoto obedeceu, de braços cruzados, parecendo levemente acuado por alguma espécie de louca novidade que o prisioneiro representava. Olhou diretamente para Lamar, que sentiu uma curiosidade hesitante crescer em um olhar que, antes de temeroso — notava ele agora — declarava-se decididamente fascinado.

Lamar levantou-se, devagar. Percebeu que o homem estava tenso, olhando ora para ele, ora para o garoto. As pernas de Lamar doíam, e os braços por pouco não excediam os membros inferiores em desconforto. Curvado e praticamente manco, Lamar avançou lentamente em direção às barras da própria cela, para se apoiar e voltar ao normal. O menino acompanhara seus passos com um interesse que beirava o macabro.

— Quem são vocês?

Lamar apoiou-se na barra de ferro horizontal à frente quando começou a sentir frio; um frio incomum, surgindo como se uma pedra de gelo tivesse se materializado dentro do próprio tronco. Uma pontada o fez fechar os olhos. Sua perna tremia, mas o que antes eram movimentos rápidos transformaram-se em uma contração de músculos cheia de intenção. Como num reflexo, a perna direita queria dar a volta em direção à parede.

Lamar olhou para o menino, que apertava os dentes com força ao fixar um olhar raivoso no peito de Lamar. O suor começava a encharcar seu pescoço.

Lamar começou a ser puxado para trás. Deixou de se segurar por um momento, enlouquecido pela surrealidade daquele momento: o mestre trouxera o discípulo para treinar. Para treinar nele.

Deu dois passos para trás e se desequilibrou, mas não caiu; as coxas doeram ainda mais. Seus ombros gritavam por socorro. Tentava manter o pé direito no chão, mas o esquerdo começava a tremer loucamente. Tentava manter a mão direita sobre o próprio quadril, impedindo-a de fazer qualquer outra coisa, mas sentia a esquerda dormente. Desistira de tentar prevenir uma queda que parecia inevitável.

Não… — Murmurou ele, instantes antes de sentir-se vencido.

Deu uma desastrada meia-volta e, tomando um impulso que não sabia que tinha, jogou-se com força contra a parede.

Caiu de costas no chão, tonto e gemendo de dor. Sua visão ficou turva, mas levantou-se como se alguém o estivesse puxando.

Depois de ficar em pé foi até as barras. Virou-se e correu como pôde em direção à parede. Estatelou-se no chão com a cabeça latejando, os lábios arrebentados e o corpo desconjuntado como um saco de ossos desconexos.

Lamar sentiu os braços livres de uma pressão que não tinha percebido que sofriam. Fechou os olhos e tentou respirar fundo; seu rosto estava molhado de suor e sangue. Ouviu algo indistinto, e então sentiu uma presença quente e sorrateira ao lado. Não teve coragem de abrir os olhos e ver o rosto genuinamente impressionado do menino.

— Você é um alorfo, não é? — Disse ele, sem precisar da resposta para seguir adiante. — Quer ensinar magia para todo mundo? Você acha que eu quero todo mundo fazendo isso comigo? Seu idiota!

E partiram, trancando a porta ao sair.