Impensável

Desmodes parou a charrete um pouco antes da entrada do castelo do Conselho dos magos. Encontrou dois companheiros se preparando para deixar o lugar no meio da tarde nublada.

— Desmodes? — Perguntou Elton, ligeiramente surpreso. — Onde está Robin?

— Não veio. Voltou para cuidar de negócios.

— Ele não avisou que faria isso. — Elton lançou um olhar interrogatório ao mago que chegava. Janar, que viajaria com o bomin, levantou as grossas sobrancelhas, acompanhando com leve curiosidade a conversa.

— Houve um imprevisto.

— Como ele soube do imprevisto se estava entre os al-u-bu-u-na?

— Ele esqueceu. Foi um imprevisto para mim.

— Desmodes… Nós não fazemos isto por aqui. — Disse Elton, em tom de sermão. — Se temos algo a fazer, algo que determinamos em uma reunião, nós vamos e nós voltamos. Quando um mago não volta assumimos que algo aconteceu.

— Nada aconteceu, Elton. Duvida de mim?

Os dois mediam-se, um tentando parecer menos desafiado que o outro. Janar pigarreou, tentando lembrar Elton de que queria ir embora.

— Para onde ele foi, Desmodes?

— Eu já disse.

— Você não disse o nome da cidade. De onde Robin é, Desmodes?

— O que faz você pensar que ele tenha me dito isso?

Elton balançou a cabeça afirmativamente. Estreitou os olhos um pouco, passou a língua pelos lábios, e murmurou um inaudível “está certo”.

— Vamos de uma vez, Elton, que eu estou farto daqui… — Disse Janar, subindo a bordo.

Elton concordou com um aceno rápido e, despedindo-se de Desmodes com outro balançar esguio de cabeça, entrou também na negra charrete. Partiram, apressados, e Desmodes observou o transporte virar a curva da passagem entre as montanhas.

Os magos geralmente permaneciam no Conselho por algum tempo após uma congregação. Já se passavam seis dias desde a última, e muitos deles já haviam partido — especialmente os que viviam em cidades distantes. Outros partiriam dali a pouco, e alguns aproveitavam o lugar para descansar mais antes de retornar às atividades do lugar onde viviam.

Desmodes subiu por uma das escadas, indo direto ao próprio quarto. Tudo estava como ele havia deixado; apenas um pouco mais limpo.

— Desmodes? — Perguntou Dresden, passando pelo corredor. — Quando chegaram?

— Nesse instante. — Respondeu ele, virando-se para o mago-rei. — Cheguei sozinho.

— O que houve?

— Robin lembrou-se de que tinha algo urgente a fazer, e então partiu.

— Foi para onde?

— Para a cidade dele. — Desmodes tentou respirar fundo sem tornar o ato óbvio. — Quem ainda está aqui?

— Não sei ao certo… Eu parto amanhã. Poucas pessoas ainda estão aqui, temos… Sylvie e Anke. Cássio, também. Como foi com os al-u-bu-u-na?

— Foi bem. Nosso acordo ainda é válido.

— Bom saber disso. Quanto ao que disse na reunião, Desmodes… — Dresden pareceu estar tocando em um assunto que o incomodava. Olhou para os lados, certificando-se de que estavam sozinhos, e prosseguiu. — Não tive a chance de te dizer, mas… Há extremistas aqui, Desmodes. Pessoas como você. — Desmodes assumiu feições de surpresa quando Dresden o repreendeu de leve com a centelha de perspicácia que faiscava em seus olhos. — Pessoas que acham que poderíamos fazer mais, e que isso significa ir lá fora e caçar todo mundo. Não seja mais um, Desmodes. Ou pelo menos não os incentive. Devemos estar juntos agora, e precisamos ter cuidado. Este conselho já sobreviveu a guerras demais sem ser descoberto. Nós já passamos muito tempo sem sermos contestados. A hora chegou, e se lutarmos de frente será o nosso fim.

Desmodes confirmava, resignado, as palavras do rei. Apertaram as mãos.

— Minha charrete está esperando por mim. Preciso falar com o general e então irei embora. Ficará aqui?

— Sim. Penso em ficar até a próxima reunião.

— Vejo-o na reunião, então.

Dirigiu-se às escadas que levavam ao térreo depois de dispensar um sorriso. Desmodes o seguia com os olhos.

***

— Entre.

Desmodes sabia que ela estava no quarto, e ela sabia que era ele do lado de fora. Já haviam se cumprimentado do alto das torres dos castelos, o dela consistindo em seis altas e delgadas torres, agrupadas de maneira irregular dentro de uma pequena área murada. O dele era mais baixo, porém mais extenso. Possuía compartimentos de alturas diferentes, que formavam uma espécie de pirâmide de prédios. As torres de Anke eram douradas, e por entre os blocos floresciam trepadeiras claras como os olhos da maga. O complexo de Desmodes era uniforme e reto, cada prédio um bloco regular e com janelas finas. Militarmente ornado, era feito de uma espécie de pedra negra que era mais arenosa que corvônia, mas ainda assim parecia escurecer a atmosfera circundante em Neborum.

— Vejo que está de volta. A viagem foi agradável?

— Sim. — Respondeu Desmodes, fechando a porta atrás de si.

— Espero que tenha boas notícias.

— Está tudo conforme o esperado.

— Ótimo.

Anke vestia um felpudo roupão verde-escuro, cruzando os braços enquanto estudava o visitante. Corria com os olhos cada parte de seu corpo, querendo encontrar aquilo que não sabia o que era, mas procurava; algo que a despertava, que a interessava, e que ele por cuidado ou ignorância não revelava.

— Pois bem… Por que veio falar comigo, Desmodes? — Perguntou ela, mostrando o sofá verde com um abrangente gesto da mão.

— Tenho uma ideia. Gostaria que ouvisse.

Ambos sentaram-se, ele seguindo o exemplo dela, que estreitou os olhos.

— Uma ideia sobre o que, exatamente?

— Nós sabemos como as coisas estão, Anke. Não estão nada fáceis.

Ela mudou de posição no sofá, mostrando-se desconfortável. Passou a olhar para o chão.

— Você precisou de muito treino e muita dedicação para ser a maga que é. — Continuou Desmodes em um ritmo mecânico. — E Heelum há muito sofre com as disputas entre cidades e entre as pessoas, que estão desorientadas…

— Aonde quer chegar, Desmodes?

Ela notou que ele nunca falava como se estivesse realmente prestando atenção na conversa. Era como se alguém lhe dissesse ao ouvido o que dizer, e ele apenas repetisse.

— Precisamos nos unir, Anke.

Ela se levantou, evitando que ele visse seus olhos cansados daquele tipo de discurso. Foi até a janela buscar serenidade para suportar aquela chateação, embora pensasse consigo que o mandaria embora assim que pudesse.

— Eu já ouvi isso, Desmodes. Há muito tempo ouvimos isso de Dresden.

— Dresden quer um tipo de união. Eu quero outro.

— Que outro tipo? — Indagou ela, virando-se para ele de novo.

***

— Deixe-me ver se eu entendi…

Cássio era um bomin que agia como se fosse mais alto do que realmente era. Com um atopetado cabelo escuro e um rosto pontudo e obtuso, andava pelo tapete do próprio quarto — cheio de cores das obras de arte que entulhavam o lugar — carregando uma taça de água meio-cheia.

— Você está me dizendo que sua ideia é… Basicamente — Dizia ele, gesticulando. — fazer do Conselho um governo para Heelum inteira.

— É um jeito de frasear a ideia. — Respondeu Desmodes, colocando o punho fechado contra a mesa no canto do quarto.

— E então poderemos… — Cássio ia reduzindo a voz a cada palavra, passando para a ironia com uma ambiguidade simples, porém efetiva. — Governar Heelum e fazer as coisas do nosso jeito…

Desmodes voltou-se para ele, assentindo com a cabeça.

— Desmodes, me desculpe, mas isto não é aceitável.

— Você está dizendo que não é direito nosso liderarmos este mundo?

Cássio abriu um sorriso amarelo. Atravessou a sala e pôs a taça em cima da mesa, ao lado da mão de Desmodes. Suspirou e olhou para o teto, como se tivesse de lidar com um terrível inconveniente. Olhou para Desmodes novamente, tão próximos que não podiam ver o corpo um do outro ao olhar para a frente. Focavam-se um no rosto do outro, defendendo suas posições em uma batalha verbal que começara antes dos verbos.

— Desmodes, Desmodes… Como dizer… Devo admitir que você me deixa intrigado. Você é assim ingênuo ou está se fazendo de idiota mesmo? — Cássio pôs as mãos na cintura, encarando o companheiro de Conselho sem ressalvas. — Se fôssemos fazer isso mesmo Heelum se levantaria contra nós. Em peso, Desmodes. As piores, mais… Asquerosas cidades viriam aqui atravessar uma lança que nos partiria ao meio!

— Só perderemos se não estivermos juntos, e ao invés disso estivermos discutindo qual cidade ou tradição é a melhor.

Cássio riu de soslaio, e Desmodes saiu do diminuto espaço pela lateral.

— Eu não acabei, Desmodes!

— Obrigado por seu tempo.

— Me escute aqui! — Ralhou Cássio. Desmodes estava parado, de costas, já perto da porta. — Eu já sei o que você guarda aí dentro… Essa, essa confiança arrogante. Você acha que é bom o bastante para ser um governor. Olha aqui, espólico, é melhor você ficar quieto. Você não vai sequer propôr um absurdo desses ao rei!

O silêncio tomou conta da sala, largo e denso como o espaço entre o dedo levantado de Cássio e as costas imóveis de Desmodes.

— E se você tentar alguma gracinha… — Continuou, pegando a taça novamente na mão esquerda. — Eu vou acabar com AAAII!

Num estouro estilhaçante, a taça quebrou na mão de Cássio. Quando o mago percebeu, sua mão, que agora sangrava, apertava com força a haste do cálice. À frente, viu que Desmodes dava-lhe um sorriso contido como despedida, fechando suavemente a porta do quarto. Seu castelo se afastava rapidamente, levando consigo as últimas nuvens da tarde.