Hostilidade urbana

A cidade do comércio adormecia, abraçada por sombras compridas. Muitos sonhavam que viviam na cidade do ouro, mas aquela era a cidade do esforço e do reforço, não do oásis da recompensa. Voltavam a dormir logo depois de despertar. Pela manhã já se esqueciam de tudo.

Uma figura passeava pelas estreitas ruas, observando, impaciente, os estandes fechados. Vislumbrava vez por outra os produtos soltos, esquecidos ou negligenciados do lado de fora das travas e trancas, mas nada lhe interessava. Deteve-se ao virar uma esquina, observando do canto o homem que, vestindo um grosso sobretudo azul-marinho, andava em círculos, sem pressa. Era como se esperasse por alguém com a consciência serena de que ninguém viria. Não parecia ter metas a cumprir ou lugar para ir. As mãos para trás, que encostavam nas costas dedos doídos de frio, indicavam calma. O gorro azul com o reconhecível símbolo de duas tochas acesas cruzadas em “X” sinalizava sua profissão.

O homem, por sua vez, viu um sujeito moreno de peito nu e rosto jovial — os primeiros detalhes a emergirem nas luzes rosadas e anis dos postes — sair das sombras e rapidamente armar um arco, apontando-o com firmeza contra ele.

— O que… — Começou o policial, confuso, pondo as mãos para o alto.

— Fique quieto. — Disse friamente o agressor. — Você conhece o Desmodes?

— Quem?

Desmodes!

— Não conheço ninguém com esse nome, rapaz. Por que não abaixa essa, es-esse arco — A arma era de um vermelho tão orgânico que por um momento duvidou que fosse mesmo de verdade. — e vamos conversar?

Nariomono abaixou o arco e num rápido movimento o pôs nas costas.

Surpreso com a audácia daquele desconhecido, o homem da lei respirou fundo e meneou a cabeça, sentindo um leve formigamento nas mãos. Um forasteiro não podia simplesmente fazer o que quisesse com o comandante da polícia de Enr-u-jir.

Narion estancou depois de dar alguns passos, tentando ir embora. Seus pés pareciam ter se grudado ao chão, mas por mais que fizesse força não conseguia tirar o calcanhar dos blocos e da terra. Achou estranho, já que não sentia nada minimamente grudento na sola do pé descalço.

Olhou para trás, e o policial exibia um sorriso cheio de satisfação, de braços cruzados, se aproximando. Narion percebeu que os dois eram os únicos homens na rua.

— Você não pode fazer isso, sabe? Apontar um arco pra mim. — Os músculos do pescoço de Narion se contraíram. Sua cabeça virou para frente com um duro movimento espásmico. — Quem é você?

Narion não respondeu. O policial continuou dando a volta no guerreiro preso ao solo.

— Hein, rapaz? Quem é você?

Narion movia os olhos, sentindo como se fossem as únicas partes do corpo das quais ainda era dono, percebendo em detalhes a ignomínia feliz daquele rosto fino de dentes tortos e olhos um tanto fora do lugar. Tentava se libertar da prisão sem ferro de todas as maneiras que concebia. Forçou as pernas, os braços, o tórax — mas ele estava completamente enrijecido.

— Não vai responder? — O oficial estava de novo atrás dele, bem próximo, falando baixinho. Narion podia sentir o quente bafo do homem passando pelos ombros, acompanhando a cinzenta fumaça que ganhava os céus nos dias frios a cada expiração. — Vai ou não vai? Eu posso fazer você falar, mas eu queria ouvir você. Ande, rapaz, diga.

— Eu procuro por Desmodes.

O policial fez que sim com a cabeça.

— Bem… Acho que você não vai fazer falta, então.

O policial desembainhou a espada e deu um passo para trás. Narion sentiu-se ainda mais apertado, como se dezenas de cordas de aço o prendessem e o tentassem matar por estrangulamento antes mesmo que a lâmina o atravessasse.

Sentiu cãimbras no braço e uma espécie de vertigem enquanto a mão esquerda alcançava o arco. A mão direita puxou pela ponta uma flecha e, com duas pressões sutis de ambos os polegares, o arco girou e a flecha contornou o pescoço do dono; encaixando-se no arco com perfeição, disparou com uma mínima tensão que o al-u-bu-u-na conseguiu imprimir antes que a mão parecesse ter sido atravessada por uma espada em chamas.

A impressão foi real, mas a espada do policial despencou sem ter sido usada. Narion atirou-se no chão, de joelhos, perdendo a força que o mantinha tensionado de pé; sentiu tremores violentos nos braços e nas coxas, e caiu mais, rolando para o lado até ficar de barriga para cima. Logo sentiu-se normal novamente, e pôde se levantar.

Viu que a flecha atingira a garganta daquele homem com uma força inimaginável. O sangue, viscoso, se espalhava em volta da cabeça do comandante, preenchendo as divisórias entre os blocos de pedra no chão. Narion não sabia se o arco havia funcionado como Al-u-bu prometera, mas intuía que fosse mesmo o caso.

Não queria ter feito aquilo. Na floresta, nunca teve de matar um outro homem — muito menos em Ia-u-jambu. Olhou para o policial, pedindo silenciosas desculpas, relembrando todas as mortes semelhantes que vira não fazia muitos dias.

Captou algo com o canto do olho, e então viu que debaixo de um poste mais largo e mais baixo, na esquina com outra rua, estavam um homem e uma mulher vestindo trajes semelhantes aos do homem que deixara a vida para trás. Narion conseguiu discernir rostos horrorizados embaixo de uma fraquejada luz salmão.

A surpresa e o choque logo desapareceram. Começaram a perseguir Narion.

A fuga durou um bom tempo, atravessando diversas partes da cidade, e embora cada um dos pitorescos cenários tivesse sua particularidade todos tinham coisas em comum. Feiras ao ar livre, lojas com fachadas claras e janelas largas, protegidas por grades metálicas retráteis, casas com pinturas estranhas e improvisações de todos os tipos. Não se via avenidas, embora algumas ruas parecessem mais largas que outras, com casas maiores e mais bem arrumadas.

Narion virou à direita ao perceber um espaço com um pouco menos de luz. Atraía atenção dos poucos cidadãos que encontrava pelo caminho, alguns passeando tranquilamente sob o bonito céu, outros que tinham alguma função noturna — parte destes, função duvidosa.

Os policiais continuavam atrás dele, parecendo cada vez mais próximos; sempre presentes, emboscavam-no, forçavam-no a mudar de direção, faziam barulho. Pareciam trazer reforços a cada nova região pela qual passavam.

Viu então que foi um erro ter escolhido aquele caminho: tinha menos luz porque as árvores da primeira praça que encontrara, no fim da rua, escondiam-na; ela ainda estava lá, vindo forte de um numeroso grupo de minérios verdes no centro do parque. Não estava distanciando-se do centro. Embrenhava-se mais nele.

Suado, acabou parando, arcando-se para frente e pondo as mãos nos joelhos. Os policiais não estavam naquela rua, mas Narion sentia-se observado. Aquela oportunidade de tomar uma decisão lhe trouxe, em péssima hora, uma renovada consciência corporal. Estava cansado. Mais cansado do que se sentira em toda a longa viagem até aquela cidade.

Erigiu o tronco e, olhando em volta, pensou melhor: a verdade é que não tinha chances contra a polícia de Enr-u-jir. Eles conheciam a cidade. Sabiam o caminho que ele estava tomando, até onde podia chegar. Se eles não estavam ali ainda, é porque o esperavam na frente. Aquela seria a última das armadilhas.

Enquanto olhava para trás, viu algo que lhe chamou atenção. Uma casa de três andares, tijolos vermelhos à vista e janelas fechadas. A porta, grande e marrom, envernizada e amigável, estava semiaberta.

***

Narion não conseguia ver um palmo à frente do nariz. Entrou naquilo que julgava ser uma sala, avistando apenas um vaso escuro, com flores quase mortas dentro, ao lado de uma estreita escadaria de madeira. Fechou a porta suavemente, e esperou, imóvel.

Ouviu passos do lado de fora. Chegavam mais perto rapidamente, e Narion tentava se acalmar, retornando ao normal depois de uma intensa corrida. Enfim o silêncio reinou, do lado de dentro e do lado de fora.

— Vai, vai… — Disse uma preocupada voz feminina. Os passos recomeçaram, agora se afastando.

Narion fechou os olhos, pensando que poderia enfim relaxar. Mas antes de poder dormir tinha que se certificar de que a casa estava abandonada, ou que houvesse algum lugar em que podia ficar sem ser notado.

— F-fique parado. Eu posso ver no escuro!

Narion teria ficado horrorizado com a afirmação, se não fosse pela voz do interlocutor oculto — jovial e insegura — e pela dúvida considerável que o al-u-bu-u-na tinha de que alguém possuía mesmo aquela habilidade.

— Quem é você?

— Eu disse pra ficar parado!

— Eu estou parado.

— Ah, é… Fique quieto também!

Narion levantou os braços, abrindo um sorriso. Calculava uns vinte e cinco rosanos para o garoto, no máximo.

— O que eu devo fazer agora? — Perguntou.

— Eu não sei… S-saia da minha casa!

— Esta casa é sua?

— Para de falar comigo… E saia já daqui!

— Eu não posso. Eles vão me matar.

— Eu não me importo.

— Por favor?

Por favor saia

— Não, eu não… — Narion balançou a cabeça, irritado com a confusão. — Não pedi para você me pedir com educação. Eu estou pedindo para você. Eu posso ficar?

Narion podia enxergar melhor agora que os olhos se acostumaram à escuridão, aproveitando ao máximo a escassa luz que conseguia atravessar a grossa cortina da janela semicerrada. Ainda assim, não via com quem estava falando.

A voz parecia vir da frente; estando em um pequeno corredor, avistava um portal à esquerda que conduzia para algum lugar com armários altos — poderia ser um escritório, mas também uma cozinha. À direita havia uma porta fechada, e o caminho paralelo ao primeiro lance de escada, cujo canto era marcado pelo vaso de duvidoso gosto, levava a um lugar do qual Narion nada sabia. Não via os movimentos que vinham de lá, mas ouvia coisas: transferências de peso nas pernas, o tecido das provavelmente numerosas roupas mudando de posição, esfregando a pele de leve, o estalar de articulações — burburinhos e farfalhares que Narion poderia provavelmente usar para atacar aquele incauto morador, não fosse ele inofensivo.

— Quem é você?

— Meu nome é Nariomono. Você tem luz?

— Não. — Mentiu ele.

— Sabe como conseguir?

— Por que você quer?

— Qual é o seu nome, menino?

— P-por que menino?

— Quantos rosanos você tem?

Para com isso! — Disse ele, veemente.

— Como posso chamar você? — Parecia estar em Ia-u-jambu de novo. Sempre tinha que perguntar isso.

— … Meu nome é Ralf.

— Ralf… Eu não vou fazer mal.

— Quem me garante?

Eu. Por favor, você pode buscar um pouco de luz?

Contornos moviam-se por entre as folhagens murchas; Ralf ia mais para dentro do corredor. Logo voltou, desembrulhando de dentro de um pano grosso cor de sujeira um minério azul-piscina, que brilhava fracamente.

Narion imaginara o garoto de um jeito bastante realista; só não esperava as sardas e a ainda menor idade. Não devendo ter mais de vinte rosanos, era bochechudo. Tinha olhos fundos e vacilantes, e a parte do cabelo que escapava por debaixo do gorro negro era de um loiro acobreado.

— Você é esquisito. — Disse Ralf, fazendo Narion se lembrar de que tinha que lidar com o estranhamento do garoto, que não era desmerecido: ele provavelmente nunca vira um al-u-bu-u-na, afinal. — Por que você está sem camisa? Você… — Ele arregalou os olhos, mudando de posição no corredor. — Você é um al-u-bu-u-na?

— Sim.

Narion examinou a casa enquanto o menino ficava boquiaberto. A sala à esquerda era uma cozinha, com frutas e panelas nos armários inferiores. As paredes foram cobertas com um papel de parede caramelo, em que rosadas linhas verticais davam um tom quase infantil, apesar de organizado, ao lugar. A mesma ideia fora aplicada no assoalho da escada, embora o corrimão fosse da mesma cor que o piso, todo feito de lustrosas tábuas. Narion percebeu que não gostava da sensação de seu pé em contato com aquele chão.

— Por que você entrou aqui? — Perguntou ele.

— Estou… Fugindo.

— De quem?

— Da polícia. De Enr-u-jir.

Ralf franziu o cenho.

— O que você fez?

— É uma história complicada.

Ralf abaixou o olhar, como se não tivesse gostado daquela situação. Sabia que não podia ganhar, de qualquer forma. Não poderia mandá-lo embora pela força, e Narion parecia bastante disposto a ficar ali.

— Meus pais vão me matar se virem você aqui…

Narion achou aquilo estranho.

— Por quê?

— Porque eles dizem pra nunca entrar em problemas com a polícia…

Narion esqueceu por um momento o que veio fazer naquela cidade, provavelmente o lugar mais longínquo que ele já visitara. Desfez-se da postura quase paternal em que, sem perceber, investira até aquele momento. Lembrou-se dos próprios pais, e com eles vieram toneladas de recordações indesejadas, amontoando-se em um negrume cada vez maior. No topo da pilha de memórias que vinha tentando reprimir estava a de todos aqueles ícones deitados no chão, mutilados, feridos, mortos.

— O que foi? — Perguntou Ralf, preocupado.

Narion chegou mais perto do jovem, que se afastou um pouco antes de aceitar a aproximação. Narion ajoelhou, ficando um pouco mais baixo que o garoto.

— Um homem matou todas as pessoas que importavam para mim.

Ralf não sabia como reagir àquilo. Deveria acreditar nele?

Ele era quem dizia ser; sequer sabia quem era?

— Todos eles se foram. Só eu sobrei.

— Sério? — Perguntou Ralf.

— Sim.

— Então os al-u-bu-u-na não existem mais?

— Não. Não existem mais.

Para Narion, foi como se a cidade tivesse parado para que ele pudesse fazer aquela declaração. Levantou-se, respirando fundo pela boca, e encostou-se à parede contrária à escada. Não havia dito para ninguém ainda o que acontecera, assim, em voz alta, e acabou se abrindo pela primeira vez desde a solidão a que se submeteu para um menino qualquer. Não que falar adiantasse, de qualquer forma.

— E por que você veio para cá?

— Eu acho que esse homem está aqui. Nessa cidade.

— E você quer pegar ele?

— Quero. — A vingança parecia apropriada. — … Mas é-é mais complicado que isso.

— E quem é o homem?

— Ele se chama Desmodes. É um mago.

— Um mago… — Disse Ralf, baixinho, repetindo a frase para si mesmo.

O garoto contraiu os lábios, pensativo, e andou em direção à porta. Narion ficou preocupado por um momento, mas ele se virou ao invés de abri-la, e parecia querer dizer alguma coisa sem saber como.

— Você está dizendo a verdade mesmo?

Os olhos espetados em brilho do al-u-bu-u-na encontraram os receosos anseios do garoto.

— Sim.

— Então… Então eu acho que eu posso ajudar.