Decepção

Depois que as aulas com os respectivos pais começaram, cada encontro parecia demorar o dobro do tempo para acontecer. A saudade apertava, porquanto a distância não estava só no tempo. Cada coisa que aprendiam os unia e os separava mais, já que cresciam, a passos seguros e largos, em um mundo que não podiam compartilhar, mesmo o frequentando todas as noites.

As memórias atacavam o garoto, famintas, sedentas por nova companhia no arcabouço do passado. Nos últimos dias, Tadeu repensava com frequência quase obsessiva cada uma das vezes em que viram o pôr do sol naquele lugar. O lugar secreto. Tentava se lembrar de tudo; das conversas, dos risos, dos beijos — muitas vezes detalhes que se perderam. Coisas que, mesmo não parecendo importantes na época, valiam agora mais que ouro para ele.

Eram quatro horas da tarde quando ele resolveu sair mais cedo. Esperaria por Amanda lá, no topo do morro, surpreendendo-a. Abriu a porta para sair, com um sorriso de aventura no rosto, mas parou logo depois.

— Então é aqui que você mora!

Anabel olhava para a casa com os olhos apertados debaixo da palma da mão; o sol incidia diretamente sobre o seu rosto. Vestia um suéter verde por cima de uma calça azul larga e elástica, e parecia estar de bom humor. Tadeu continuou no mesmo lugar, surpreso em frente ao curioso empecilho.

— Oi, Anabel. Por que você está aqui?

— Bem… Eu ia te perguntar isso, mas você obviamente mora aqui. — Ela continuava admirando o castelo. — É uma bela casa.

— É.

— Bela mesmo. — Depois de uma última olhada para a casa, indo da esquerda à direita, Anabel deixou cair a mão e deu um passou ou dois para trás. — Agora vem, vamos!

— Vem? — Repetiu ele.

— É. Você vem comigo à biblioteca, não vem? — Disse ela, com um rosto distendido em um sorriso esperançoso. — Eu queria alguém pra ir comigo, mas não tinha ninguém. Foi sorte ter encontrado você aqui!

— Não, mas eu não posso… — Respondeu ele, mecanicamente.

— Ah, por que não? Você está ocupado agora?

Agora não, mas…

Provocando o imediato arrependimento do menino sem cabelo, que concluiu que a mentira teria sido melhor, a ruiva o puxou pela mão, murmurando um autoritário “então… ” — ajustado com um sorriso doce, ainda que desajeitado.

Tadeu nunca tinha ido à biblioteca da cidade; sequer conhecia o caminho. Nunca precisou de um livro que o pai não tivesse em casa. Anabel precisou guiá-lo por entre algumas ruas largas e movimentadas até começar a avançar por ruas estreitas, com casas de alvenaria pintadas em cores claras e abetos longos nos jardins. Tadeu ficou surpreso ao passar pelo cartório da cidade naquela área — com seu roxo telhado pontudo por cima das pedras marrons que muito lembravam a própria casa.

Ela o levou então por uma série de escadas no meio de uma rua em que os prédios eram mais frequentes, e as pessoas, mais raras. Entraram por um úmido túnel, que revelou-se o sótão do cartório, e saíram à frente de uma praça que Tadeu às vezes visitara, quando era menor, mas nunca saindo do chão. Agora, no entanto, tinha uma vista privilegiada, atravessando uma das pontes que corriam de um lado a outro por cima da praça, ligando, apoiadas em numerosas colunas, o cartório a um hotel que funcionava em um antigo castelo com cerca de cinco andares. Lá embaixo algumas crianças, jogando fecha-roda, pareciam umenau carregando migalhas coloridas para debaixo da terra, correndo suadas ao sabor da tática.

Andaram por corredores e uma galeria alta até uma série quadrada de escadas que, espiralando, levava-os em direção ao andar térreo. Mas Anabel interrompeu a descida no terceiro andar e os levou por uma outra conexão com um prédio ao lado, mais austero e dividido em escritórios com portas de tábuas juntas de qualquer jeito, feias e provisórias.

Tadeu se perguntava, rindo, onde estavam.

Foram a outras praças, centros de bairros de nomes desconhecidos, atravessando mais um ou dois através de atalhos e ruelas pelas quais poucos passavam de pé em pleno dia, ainda que muitos relapsos de olhar torto faziam daquelas paragens suas casas. Passaram até mesmo por uma porta improvisada no canto de um muro, que os levou ao fim supostamente sem saída de um beco.

Tadeu respirava pesadamente porque estava cansado de tanto subir e descer por aqueles vãos da cidade, mas também porque estava exasperado com toda a selvageria urbana que ele, sempre acostumado a andar sob proteções e tutelas, com cascos e rodas ao invés de pernas, nunca havia experimentado. Agora admirava, ainda que vacilante e assim, só de passagem, a beleza daquele labirinto cheio de força e variedade. Anabel complementava o caminho com explicações pessoais e históricas de vários lugares pelos quais passavam. A primeira bela torre — a mais nova sendo ainda mais alta e muito mais próxima ao mar; a primeira casa em que morou quando chegou à cidade, ainda pequena; a melhor loja da cidade para se comprar guitarras — especialmente porque era possível experimentá-las sem de fato comprar o instrumento.

A biblioteca era um castelo comum visto pelo lado de fora. O único componente da construção era largo, com três andares e um teto cercado por uma murada denteada, cheio de mesas e decks de observação nos cantos, que não chegavam a formar torres.

Por dentro a visão era similar: bonita, mas nada espetacular. Havia pouca, mas suficiente luz que entrava por longas e finas janelas. As estantes eram grandes, aproveitando bem o espaço deixado por pavimentos altos, mas não cobriam horizontalmente nem mesmo a maior parte do que era possível cobrir, e muitas estantes tinham cerca de três ou quatro livros em exibição. Nenhuma estava cheia.

Sentaram-se em uma mesa no meio do primeiro andar, onde não havia ninguém por perto. Um senhor, exibindo galhardamente seus certeiros mais de oitenta rosanos, lia alguma coisa atrás do balcão principal, e além dele havia menos que meia-dúzia de cidadãos aleatórios espalhados pelo salão. Coincidentemente, a maioria deles de idade semelhante à de Anabel e Tadeu.

— Aqui não é uma biblioteca boa, mas é a melhor de Al-u-ber.

— Imagine a pior. — Comentou Tadeu, olhando em volta. — Uma biblioteca não deveria ser… Cheia de livros?

— Eu sei. Nem se compara às de Al-u-een, ou às da Cidade Arcaica. Muito menos às de Ia-u-jambu…

— E o que você vem fazer aqui?

— Vou te mostrar. — Disse ela.

Tadeu podia jurar ter visto um brilho incendiário nos olhos de Anabel enquanto ela se levantava. Na volta, trouxe um livro grosso com uma capa negra de goma escura e pequenos cortes na lombada.

— Esse livro — começou Anabel — está na seção sobre a história de Al-u-ber. Aqui ele fala sobre a construção da Torre Bela, a segunda delas.

— E por que eu estou aqui? — Perguntou Tadeu, confuso.

Anabel lhe lançou um olhar de decepção que o congelou por dentro.

— Pode ir embora se quiser…

— Não, não é isso… Desculpa, eu… É que eu não entendo. Se você vai ler, precisa estar sozinha, não é?

— É. Mais ou menos. — Respondeu ela. Agora Tadeu não sabia se ela sabia o que estava fazendo. — É que… Eu costumo fazer isso com alguém. A gente gosta muito de história, então pegamos uns livros. Vamos lendo, e contando um para o outro o que a gente vai vendo.

Tadeu balançava a cabeça, entendendo e incentivando.

— Parece bom.

Anabel parecia sentar no limiar de um sorriso, mas algo a segurava para trás. Quebrando a conexão entre os dois, ela olhou para baixo e respirou um pouco, tirando do ar coragem e inspiração.

— Tadeu, eu… — Disse ela, imprimindo calma a uma mensagem aparentemente importante. — Eu tenho que dizer… Você é legal.

“Ah, não”, pensou ele.

— … Mas é melhor dizer antes que isso acabe em confusão. É só amizade que eu quero de você. Entendeu? Eu já tenho alguém.

— Ótimo! — Disse ele, mais alto e rápido do que imaginava.

De tato Anabel passou a surpresa, quebrando a expressão cuidadosa com risadas.

— Você está complicado hoje, Tadeu…

— Não, é que… Eu entendo. Eu também tenho alguém, e… Eu entendo mesmo, Anabel. — Explicou ele, e os dois balançavam a cabeça, concordando no acordo de paz e amizade.

— Pode me chamar de Bel. Ou Ana, eu não ligo. Só acho meu nome muito grande.

— Tudo bem.

— É por isso que você não quis deixar eles te invadirem? — Perguntou ela.

— Sim. — Respondeu ele.

Tadeu sentiu vontade de falar mais, explicando que na época não sabia o quanto eles podiam saber sobre ele ao invadi-lo, e por que era perigoso que soubessem de qualquer coisa que fosse. Queria perguntar a ela o que ela sabia sobre a sala verde, se é que sabia. Mas conteve-se, afastando as intenções com rejeição.

— Tadeu, você sabe ler?

— Sim, é claro. — Respondeu ele, ainda que estatisticamente aquela fosse uma pergunta válida.

— Ah, que bom. Então pegue um livro. Vou te mostrar como isso aqui é legal…

***

Se Amanda olhasse por uma das seis janelas daquela sala empoeirada poderia ver o último corte transversal que a luz de Roun fazia sobre a Praça do Estuário, um bosque simples cercado por pedras que dividiam a paisagem das ruas circundantes. Se não fosse pela fortaleza logo do outro lado ela poderia estar olhando para o mar, mas tinha que se contentar com apenas uma vertente do Trojinsel, que se desgrudava do curso principal antes de ir parar no mesmo destino salino que o resto do rio.

— … Atenção, Amanda!

Ela voltou os olhos para Oscar, que a observava com a boca em um estranho formato; era como se ele tivesse acabado de comer algo amargo, mas não pudesse demonstrar sua insatisfação. Seus lábios sempre tremiam um pouco, e seu hálito era particularmente azedo e velho, mas Amanda achava que o aspecto mais detestável de seu professor eram as orelhas peludas, grandes a tal ponto desproporcional que seus ferozes olhos verdes, já escondidos por detrás de grossos óculos, não conseguiam consertar para ela a imagem do mestre de tradição.

— A festa mais importante de Al-u-ber, Amanda. — Recomeçou ele, andando pelo espaço livre à frente da sala com os olhos fixos na única aluna. — Qual é?

Amanda não sabia porque estudara, ou porque prestara atenção; sabia porque morava em Al-u-ber. Certamente nada lhe faria menos falta do que as aulas de tradição; do que sentar nas cadeiras bambas de uma sala modorrenta, cuja abóbada esverdeada descascava regularmente, fazendo com que quem quer que escolhesse ter ou dar aulas ali vivesse com medo de que um pedaço de alguma coisa vindo do céu esmeraldino atingisse alguém.

— É a festa de Torn-u-sana.

Oscar não confirmou, mas tampouco lhe disse que ela estava errada. Juntou as mãos atrás das costas e, com seus passos ecoando, foi abrindo caminho pelas filas e colunas de assentos até estar a apenas alguns espaços de Amanda. Ela, por sua vez, esperava por alguma reação. Qualquer que fosse — só deveria se controlar e não olhar para o bosque. Não olhar para a praça.

— Muito bem, Amanda.

Ele finalmente deu meia-volta, mas mesmo que a jovem maga sentisse que podia piscar livremente de novo, não era sua intenção descansar.

— Para os próximos dias…

— Professor. — Interrompeu ela.

Ela entrou em seu campo de visão novamente. Ele esperou. Ela não queria esperar mais. Precisava descobrir o que pudesse. Quais eram suas chances.

— É sobre as tradições mágicas.

Oscar desviou-se, e num passo acelerado continuou a rota anterior em direção à mesa, bege como o resto das cadeiras, para arranjar seus livros e papeis dentro da bolsa que trouxera.

— Professor? — Disse Amanda, levantando-se.

— Seu pai deve lhe ensinar quanto a isso. — Respondeu ele, sem olhar de volta para ela. — Eu não sou…

— Mas eu quero ouvir do senhor!

Ele bateu com um livro na mesa, criando um baque que se espalhou pela sala com vivacidade. Virando-se, mostrou que balançava a cabeça negativamente. Amanda sentia-se irritada, mas ao mesmo tempo estimulada — sem nem ao menos saber por quê.

— E-essas tradições. Elas m-mudam com o tempo, não mudam? Elas podem mudar, não podem?

Seus olhos se estreitaram de uma maneira peculiar. Amanda seguiu, preocupada.

— E-eu me lembro que o senhor disse que…

— Lembra errado. As tradições não mudam. As tradições permanecem.

— Sim, mas…

— É impossível. — Completou ele. — Agora, me dê licença…

Amanda viu as sobrancelhas grossas do velho homem se virarem para a parede frontal. A bolsa dele estava praticamente pronta para partir; com um novo olhar para trás colocou as alças por sobre a cabeça, e enfim partiu.

Amanda sentou-se de novo. É claro que ele iria afirmar que a tradição nunca pode mudar, pensou ela. Se ela mudasse do jeito que ela desejava, ele provavelmente teria menos coisas pra ensinar.

***

— Ei, Ana, escuta isso… — Dizia Tadeu, apontando para um parágrafo no livro à sua frente. — “Al-u-ber foi a primeira cidade a mandar guerreiros contra Al-u-tengo. A maioria deles tinha menos que vinte e cinco rosanos. Depois do fim da guerra, a cidade não quis jovens de outras cidades. Ao invés disso, muitas mulheres com mais de setenta rosanos deram à luz uma nova geração na cidade”. Qual é o problema com isso?

— Por que você acha que tem um problema? — Disse Anabel, inclinando-se para examinar a página.

— Porque tem tinta vermelha em volta, e é um trecho de texto meio… Separado do resto.

— Ah, é claro… — Riu ela, lembrando de algo. — Porque mulheres com mais de setenta rosanos não deveriam ficar grávidas. Os bebês podem nascer com doenças, ou… Nascer mortos.

— Certo. — Respondeu ele, brincando com os pensamentos. — Mas… Elas não sabiam disso?

— Sabiam. Mas Al-u-ber é orgulhosa. — Explicou ela, fazendo um muxoxo de desconsideração. — Sempre foi. Eles se apegam a tradições idiotas. Coisas tolas. Bem, não só eles, mas… Ah! — Ela disse, mudando instantaneamente de humor. — Lembrei de algo que eu preciso ler pra você! Já volto.

Anabel levantou-se e, quase correndo, foi parar na estante mais abastecida da biblioteca. Tadeu tinha que dar o braço a torcer; aquilo era mesmo empolgante.

Voltou-se para frente, observando as outras pessoas. Um jovem barbudo abria a porta, saindo da empobrecida casa dos livros com um rosto compenetrado.

Tadeu se retesou na cadeira. A porta já se fechara, mas na fração de segundo em que ficou aberta ele percebeu que já devia ser a hora de um evento importante. Um evento que tingia o céu daquela mesma cor que acabara de ver, e que por um breve momento se mesclara com força em todos os objetos ao alcance da visão.

Anabel voltou, falando alguma coisa que Tadeu não entendia. Um zumbido surdo estourou em seus ouvidos; ele pediu desculpas, correndo para fora da biblioteca. Não parou, nem olhou para trás, pois sabia que lutava contra o tempo. Consumia todas as suas energias naquele esforço, mas tinha o terrível pressentimento de que seu suor não seria o suficiente.

Quando chegou à entrada para a trilha, depois de perceber que o lugar por onde passara era só um borrão em sua memória, olhou em volta, preocupado. Não via ninguém. Subiu, correndo por onde antes andava, tropeçando por onde antes era cauteloso. Chegou ao topo segurando-se com a palma da mão na torta parede de terra na qual ele esperava se encostar com Amanda naquele fim de tarde.

O sol se punha. Amanda não estava mais ali.