O papel do agente

A banda entrou sem demora em uma charrete espaçosa e confortável. Vermelha por fora e por dentro, tinha janelas diminutas cobertas por uma fina cortina azulada, depois da qual era possível ver, de uma forma borrada e imprecisa, a grande montanha aos pés da qual a cidade havia crescido. Circundavam-na devagar, com o transporte movendo-se lentamente pelas estradas cheias de irregularidades. A montanha não era inspiradora, bela ou mesmo a mais alta de Heelum — era, contudo, notável baluarte de força bruta, intimidante.

A guitarrista permitiu que Beneditt, que sentava ao seu lado, segurasse sua mão. Leo conversava com Fjor, mas sua mente já pouco presente absteve-se ainda mais quando viu aquela cena. Tentando fingir que não vira nada, voltou-se para Fjor o tempo inteiro.

A paisagem mudou sem que percebessem; viam-se não mais envolvidos pela ambiguidade do centro, e sim por uma região de casas espremidas umas nas outras, compartilhando paredes e segredos. Crianças sem muitas roupas quentes ou, coincidentemente, muitos dentes, caminhavam nas sombras magras nas ruas, virando o rosto para a charrete com expressões retas, bocas mudas abertas para o lado. Na densa jir, arranjada em torno de uma praça, ficava um galpão amarelo de dois andares. A parede à direita da porta metálica, que parecia um improviso, estava suja e remendada com amontoados de madeira e pregos, mas nenhum deles se importou o suficiente para comentar em voz alta. O condutor da charrete confirmou o lugar, e avisou que estaria de volta para pegá-los no pôr do sol.

Leo foi o primeiro a entrar. Por dentro, o galpão era cinza com muitos minérios de luz azuis. Era alto o bastante para conter dois andares, mas tinha apenas um. O teto curvo era sustentado por colunas de corvônia distribuídas mais lateralmente, deixando um grande espaço central no qual estavam dispostos, em um círculo, os instrumentos musicais.

Um homem estava ajoelhado sobre o baixo de Fjor, terminando de afiná-lo. Vestia roupas simples, de sólidas cores neutras, e um gorro negro. Ele havia percebido que os músicos chegaram, mas nada disse. Levantou a cabeça, e então viram seu rosto cheio de dobras, marcado por um escuro bigode desalinhado e pequenos olhos escuros. Tornou a baixá-la. Os músicos se olharam, dando de ombros, mas terminada a tarefa o empregado levantou-se e veio, com um sorriso estanque, cumprimentá-los com apertos de mão.

— Boa tarde! Meu nome é Mumba. Vou ser o técnico de som de vocês. Qual é o nome da banda?

— Buscando, senhor. — Respondeu Leo.

— Ah, excelente, excelente! — Respondeu ele, parecendo ansioso ao tentar olhar para os quatro ao mesmo tempo, sem sucesso. — A maioria das bandas c-como vocês fica meio chateada quando ganha um técnico de som. Estão acostumadas a lidar com os próprios instrumentos. Vocês não se incomodam, não?

Leo balançou a cabeça, sem saber se deveria responder tão rapidamente pelos colegas. Beneditt vira de relance o rosto de Fjor enquanto Mumba arrumava o baixo e resolveu logo aplacar as coisas.

— A-acho que não.

— Ah, ótimo! — Os dentes cheios de contraste se mostravam agora em seu sorriso quase frenético. — Ótimo, ótimo… — Ele fez um rosto de estupefação, como se agora se lembrasse de algo, e um abrangente gesto para trás com a mão. — Querem tocar alguma coisa enquanto o senhor Seimor não chega?

— Por favor… — Murmurou Leila enquanto avançava com a cabeça baixa em direção à guitarra vermelha.

***

Já estavam na metade da quinta música quando Seimor chegou, fechando a porta e fazendo um sinal para que fossem até o final. Mumba ficara o tempo todo encostado em uma das colunas, observando-os sem sinais de reprovação — mas sem, contudo, se entusiasmar muito. Viam sua cabeça balançar no ritmo da bateria, e só.

Terminaram de cantar e tocar. Fjor estava de costas para Seimor, mas logo se virou, abrindo o círculo. Beneditt sorria e olhava para Leo e Leila, estes também ofegantes e alegres no calor do momento. Seimor chamou atenção ao bater palmas duas ou três vezes, entrando na roda com notável falta de desenvoltura.

— Muito bem! Muito bem…

O silêncio foi aos poucos conquistando o som das guitarras, que morriam nos cantos do prédio. Reverberaram ainda por um tempo, resistentes, centelhas daquilo em que Leila preferia continuar se concentrando.

— Eu estive pensando… — Seimor baixou a cabeça, aproximando-se deles. — E acho que tenho um bom nome para vocês.

Leo parou de alisar sua guitarra, levantando o olhar.

— Nome? Pra banda?

— Sim.

— Mas… Nós já temos um nome, senhor.

— Sim. E agora terão um novo.

— O que ele quer dizer — começou Fjor — é que gostamos do nosso nome.

— Não quer dizer que ele seja bom. — Retrucou Seimor. Fjor ia dizer alguma coisa, mas Leila o alcançou e, segurando-o pelo braço, pediu baixinho para que parasse. — Mumba, o que acha?

— Que foi, senhor? — disse ele, do outro lado da banda.

— O que pensa do nome “Buscando”?

Ele meneou a cabeça, jogando-a para a esquerda e a direita várias vezes, formando a resposta aos poucos a partir de um som fino e especulativo.

— … É… Não é bem o melhor nome…

— Ele representa a busca por perfeição, que é uma busca que nunca termina! — Disse Leo, virando-se para Seimor novamente.

— É bom vocês se sentirem assim. Mas se esse é o caso, devem reconhecer que o nome não é perfeito… E buscar um novo.

— Qual é a sua ideia, então, Seimor? — Perguntou Beneditt.

Ele deu um sorriso para o baterista, pondo as mãos para trás.

— Ponte Alta.

Leo e Fjor tiveram reações parecidas: fecharam os olhos, virando o rosto como se quisessem a chance de ignorar um comentário ignorante, uma atitude estúpida. Leila continuou olhando para o chão, tentando descobrir o que pensar — e também o que fazer. Não achava que tinha muita escolha.

— Ponte Alta? — Perguntou Leo.

— Ponte Alta.

— Ponte Alta.

— Não parece ruim… — Murmurou Leila.

Leila! — Disse Fjor, chamando a atenção da amiga.

— Não gostaram? — Perguntou Seimor.

— É que… — Disse Leo, voltando a olhar para a guitarra. Estimava, por alto, quão inútil seria o que ele estava prestes a dizer. — É que realmente gostamos desse nome, senhor. Buscando. Só isso.

— Vão gostar mais deste. Todos os outros. E quando eles gostarem, vocês vão gostar. Vamos, toquem outra.

Seimor, com as sobrancelhas ainda um tanto levantadas, deu as costas e foi se encostar em uma das colunas. Leo evitou o olhar irado de Fjor, que tocou uma nota no baixo, displicente, apenas para poder puxar a corda mais grossa com tanta força que ela quase encostou na mais fina. Leila e Beneditt trocaram olhares de compreensão.

— Vamos tocar a do Mina de Prata. Bem daquele jeito. — Disse Fjor, com uma voz decidida.

— Por quê? — Perguntou Leo.

— Porque eu quero, Leo.

Fjor começou sozinho com sua linha de baixo, e Beneditt logo o acompanhou. As guitarras entraram por último, com entusiasmo e inegável raiva.

Leila olhou para Leo e este olhou de volta, indicando uma discreta desistência. Leila entendeu e começou com o solo enquanto ele apenas a acompanhava.

Não demorou muito para que Seimor interrompesse o treino.

— Espera, para um pouco… Isto está bom. Tem vitalidade… Eu gosto. — Seimor olhava para todos, um a um. Leila virou o rosto quando chegou sua vez. — Mas Leila, você… Você deve tocar o que o Leo toca, e tanto você quanto o Leo tem que transformar as notas-chave em acordes.

Leo e Leila imediatamente se olharam, confundidos.

— C-como, senhor? — Perguntou Leo.

— Vocês entenderam o que eu disse? — Perguntou Seimor, olhando agora para o vocalista.

— S-Sim, mas por que fazer isso?

— Façam. — Explicou Seimor, mais didático do que esperavam que ele fosse ser. — Vamos ver o resultado.

Recomeçaram a música. Depois do trecho inicial, que nada mudaram, tiveram que fazer um som que parecia mais um paredão musical caindo aos pedaços a partir de uma série de marretadas sônicas sem sentido. A música tornou-se barulhenta e até mesmo irritante com as palhetadas coalhadas de duas guitarras com acordes contínuos.

Eles pararam sem que Seimor precisasse pedir, embora o agente já estivesse vindo a eles novamente.

— Não ficou bom. Precisamos de mais ajustes.

— É, pra ficar bom desse jeito temos que deixar essa música mais lenta, eu acho. — Opinou Leo.

— Ou que tal deixá-la como está? — Indagou Fjor, tricotando com ousadia a ênfase da última palavra.

— Escute aqui, garoto. — Seimor chegou mais perto, e Beneditt se levantou. Leo aproximou-se num movimento automático. Seimor virou-se novamente, passando a encarar a todos. — Escutem todos vocês. Eu não estou aqui para facilitar a vida de ninguém. Meu trabalho não é ver quão bons vocês são, mas o quanto vocês podem ser. Eu sei o que dá certo e o que não dá. Se vocês querem ser alguma coisa, vão ter que confiar em mim.

Seimor terminou o discurso com o dedo em riste. Fjor olhava para baixo, com algum estranho tipo de frustração resignada. Leo, que já balançava a cabeça desde a metade do discurso, olhava na mesma direção. Beneditt olhava para o agente com um rosto impassível. Leila mantivera a distância, cruzando os braços.

— Ou, como alternativa, vocês podem ir embora.

— Não, senhor, é… — As palavras esbarravam em pensamentos fora do lugar. — Vamos ficar bem, vai… Vai dar tudo certo. Vamos confiar no senhor.

Seimor pareceu ter sido satisfeito parcialmente, apenas. Com os punhos fechados ao lado de seu corpanzil aviltante, girou mais uma vez a cabeça, procurando olhar para todos e assertar a dominação. Leila gostaria de ter a coragem de lhe dar um soco. Mas aí a humilhação de Leo, não tendo nem esfriado, perderia o sentido. A dele e a própria.

— Então vamos lá. De novo, com tempo menor. Leila será a líder.

Pararam todos, antes de voltar aos instrumentos, e olharam para a única mulher no ensaio. Leila sentiu o rosto ruborizar; algo dentro de si afundava lentamente. Buscou apoio nas feições dos colegas, mas só encontrou pupilas vingativas, ressentidas, cansadas. Seimor virou-se assim que chegou ao final da caminhada.

— O que foi que eu acabei de falar?

Fjor soltou uma risada de incredulidade e balançou a cabeça. Com um olhar de esguelha solto antes de arranjar o baixo no corpo, ativou uma espécie de válvula pela qual Leila não pode deixar de expressar fúria.

— O que foi, Fjor?

— Nada, Leila, nada. — Respondeu o baixista, dando as costas para ela. — Canta. Pode ser uma boa ideia.

Beneditt começou a marcação prévia, e quando Leila entrou na música, largou o braço na palhetada da maneira mais descuidada de toda sua vida.