Principiante

De um lado para o outro os lábios e as línguas encontravam-se, furiosos, vívidos, ávidos. Separavam-se e uniam-se, digladiavam-se com sorrisos, entrechocavam-se indecisos, sem saber a hora de parar de celebrar o retorno de uma metade do beijo à outra.

Os magos principiantes reencontravam-se cinco dias depois do desastre que foi a catastrófica (falta de) memória de Tadeu, e olhavam-se a um palmo de distância um do outro no costumeiro covil.

— Eu nem sei o que dizer… — Disse ele, segurando o queixo de Amanda entre os dedos.

— Eu tenho algumas coisas pra dizer, mas você pode falar primeiro.

— Bem, quanto àquele dia… Eu fui horrível.

— É. — Ela riu, mas ele pouco fez para acompanhá-la.

— Eu fui realmente… Despreocupado, e…

— Não, Tadeu, desculpa. Eu exagerei. — Admitiu ela. — É só que nunca passamos por isso antes. Sempre conseguimos combinar quando vir ou não… Eu fiquei com medo.

— Eu sei, e-eu não vou fazer isso de novo.

— As duas coisas. — Repreendeu ela. — Aquilo foi muito arriscado, Tadeu.

— Ninguém me viu.

— Tem certeza?

Tadeu balançou a cabeça, confirmando.

— Onde você estava? — Perguntou ela.

Ele respirou fundo, molhando os lábios antes de olhar para o lado, construindo o que deveria dizer.

— Lembra que eu disse que eu ia a uma festa bomin?

— Sim.

— Eu fiz uma amiga lá.

— Uma amiga? — Disse ela, surpresa.

Amanda ouviu com atenção a narrativa que se seguiu. Tadeu falou tudo sobre a iniciação da qual não participou, e ela riu da coincidência, contando o que acontecera com ela. Falou sobre Gustavo e o novo médico do pai. Tadeu explicou o que estava fazendo na biblioteca com Anabel, e a conversa seguiu seu curso até o fim da tarde, preenchendo-a tão rápido que pareceu que falaram pouquíssimo.

***

Amanda passava pelas ruas do centro de Al-u-ber com um sorriso largo e adocicado na maior parte do tempo, sem prestar atenção ao que acontecia do lado de fora. As pedras e as pessoas provavam de sua alegre indiferença enquanto ela encostava a cabeça no apoio traseiro da carruagem. Havia manchas no que deveria ser imaculado: ela não pudia negar que pensava indecisivamente quanto a Anabel. Desejava ser uma maga boa o suficiente para substituí-la. Queria defender Tadeu — e esperava, simultaneamente condenando a si mesma, que Tadeu desejasse o mesmo.

A charrete parou, mas Amanda não precisou pedir por uma explicação. O cocheiro, um homem magro e de bom porte com um rosto tão antiquado quanto antigo, abriu o compartimento de comunicação com o vagão, olhou através da cortina puxada para o lado com os dedos, e avisou que iria ao mercado de frutas a pedido de Barnabás, e que não demoraria. Amanda fez que entendeu com um despreocupado aceno. Depois de um leve balançar de carruagem, sentiu-se sozinha. Sentiu-se também estúpida ao lembrar que estava duplamente no meio de uma aglomeração.

Passou a observar uma paisagem estonteante do alto da ponte entre os dois prédios de seu castelo. De uma forma surpreendentemente estável assistia ao ir e vir de castelos que moviam o chão em todas as direções, uma construção quase esbarrando em outra debaixo de um céu de nuvens carregadas — uma tempestade em Al-u-ber deveria estar por vir. Ao longe, colinas, árvores secas e arbustos faziam-se e desfaziam-se, e um desfile de muralhas, torres e colunas de todos os estilos e tamanhos acontecia diante dos olhos da jovem.

Um dos castelos parou bem em frente ao dela; era grande, exibindo uma trindade de torres idênticas. A frontal dentre elas exibia uma grande porta quadrada. Amanda parou de prestar atenção à porta quando uma das janelas nas grossas pontas das torres se abriu, e de lá surgiu alguém que ela imediatamente reconheceu.

Amanda quase não teve tempo de se jogar no chão; O fez instintivamente, mas não sabia ao certo por quê; é claro que ele já sabia ou supunha que ela estava aprendendo magia.

Aproximou-se da porta da charrete e ouviu duas vozes em contraste: a do pai de Tadeu, feita de experiência e belicosa completude, e a de um jovem garoto, repleta de audácia.

— … Qual é o seu nome mesmo? — Ela ouviu Galvino perguntar.

— É Alex, senhor.

— Alex… — Sussurrou Amanda, tentando se lembrar do nome. Era familiar.

— O que foi que disse, Alex?

— Estou apenas dizendo que acho uma iniciativa louvável a dele, senhor.

— Que iniciativa?

— Se aproximar de outras tradições. Eu o vi no outro dia. Ele estava tentando falar com a filha de Barnabás.

Tentando falar?

É… — Amanda podia sentir um sorriso vitorioso escapar do rosto de Alex. — Ele estava do lado de fora da casa dela, e tentou falar com ela por ali mesmo, pela janela. Acho que o nome dela é… Amanda, não é? Depois foi embora. Acho que ela não estava, ou… Não sei. Eu já ouvi dizer que os preculgos não eram amistosos, mas se ela estava lá mesmo isso foi uma falta de respeito, não acha, senhor?

***

Começou a chover forte, e Tadeu sentiu-se bem por já esperar o pai na sala apropriada para a aula quando ele chegou em casa, fazendo um barulho estranhamente alto com a porta de entrada. Tadeu pensou ser capaz de ver se algo esquisito estava acontecendo com o castelo do pai. Viu, através de todos os pingos d’água, que sua alma vinha em direção a ele com uma expressão de furor no rosto, como se uma decisão tivesse sido tomada em caráter de indiscutibilidade.

Galvino entrou na sala, parando à entrada.

— O que foi?

Amanda, já completamente encharcada, viu que Galvino se aproximava e deu a volta na torre principal do castelo de Tadeu. Contou com a falta de iluminação naquela área para escapar por pouco das vistas do experiente bomin, cujas roupas começaram a esvoaçar com violência quando ele parou em frente aos portões bem trancados do filho.

Tadeu olhou para o próprio tronco ao sentir um repentino frio na barriga. Foi até o saguão principal do próprio castelo, chegando no exato momento em que o local inteiro parecia ranger loucamente ao ritmo da ventania que tomara a noite de assalto. Algumas trancas já haviam voado para o chão do lado de dentro com um estalido surdo. Todas iam sendo desarmadas, uma a uma, pela intensa pressão que entortava cada vez mais a madeira da porta.

— Filho! — Chamou Eva atrás dele, olhando fixa e seriamente para a porta. — Suba!

Sem tempo para entender o que a mãe fazia dentro de seu castelo, obedeceu; correu para uma pequena sala onde havia uma escada, que circundava toda a torre até o topo. Tadeu não chegou ao segundo andar; tropeçou sozinho, mas não caiu nos degraus. Caiu em uma escuridão que logo se transformou, à medida que sua cambalhota se completava, na imagem do pai jogando-o contra o sofá.

— Você tem mentido para mim, Tadeu?

— Pai…

— TEM MENTIDO, TADEU? — Berrou ele, expulsando fúria dos pulmões.

As portas do castelo arrebentaram-se, e os pedaços voaram baixo com o vento e a água até caírem com estrondo no chão e se arrastarem adiante, suaves. Galvino entrou no saguão, sem nem mesmo olhar para os lados; encarou diretamente a mulher.

— Ele mentiu.

Saia do castelo dele.

— Você vai ter que me impedir.

— Farei isso quantas vezes for preciso.

Ela se agachou ao lançar a mão para frente; de seu punho saiu uma enorme labareda que Galvino desviou ao rolar para a direita. O vento recomeçou, trazendo com ele um pouco da chuva absurda do lado de fora e jogando Eva contra uma das paredes do castelo.

Amanda observava a luta, atônita; não havia outro jeito de entrar no castelo — precisava passar pela porta que Galvino abrira, mas a única esperança de seguir adiante seria andar despercebida pelo cenário do conflito, ou esperar até que ele continuasse em outra sala.

Um tufo de barro e vegetação rasteira em frente à porta do castelo ergueu-se do chão como se alguém houvesse chutado a terra, e a corrente de ar que Galvino controlava a trouxe diretamente para Eva.

A terra se reagrupou e num rápido movimento formou um paredão tenso que parecia tão sólido e inquebrantável quanto o próprio chão. O vento, impedido pelo solo recém-arranjado, parou de segurar Eva na parede. Caindo de pé, a mulher jogou o bloco de terra contra Galvino, que foi atingido com um baque surdo.

— Pai… Pai, o que está…

Quieto! — Respondeu ele, apontando o dedo para o filho.

Galvino se recuperava no chão quando Eva se aproximou.

— Saia daqui. — Exigiu ela.

— E o seu castelo, Eva? — Perguntou ele, passando o punho pelo canto da boca após uma cuspida. — Você está aqui por inteiro?

Amanda viu Eva dar uma olhada rápida para o lado de fora. A preculga se retraiu nos muros externos, tirando a cabeça da porta. Sentiu o céu enrolar-se de medo; tinha clara em mente a perspectiva de que tinha sido vista pelo menos pela mãe de Tadeu. Mas, segundos depois de fechar os olhos, forçando-se o autocontrole, só o que ouviu foi um sussurro que ela não pôde entender.

— Eu não menti, pai… — Dizia Tadeu na sala da lareira.

— Eu já disse pra ficar quieto, Tadeu! — Dizia Galvino, olhando fixamente para o filho, ainda que este soubesse que ele não estava presente. — Dessa vez não vou tomar sua palavra em vão.

Tadeu levantou os olhos lacrimejados para o rosto do pai, sentindo que o olhar era retribuído. Sentiu-se pela primeira vez de fato invadido. Virou a cabeça para o lado e viu que a mãe entrava na sala, com uma postura tão atordoada quanto a do pai.

Amanda viu que nem Galvino nem Eva estavam mais no saguão principal do castelo. Entrou, pisando com cuidado no chão cheio de terra e peças de ferrolho. Pensou que ou invadir castelos não lhe daria nenhuma sensação de diferença ou estava tão preocupada que não sentiu nada ao atravessar o portal violado.

Ficou parada, indecisa; percebeu que não havia muito que ela pudesse fazer. Podia fazer crescer uma adaga na própria mão, mas de que isso adiantaria? Sem uma técnica, não sabia ainda o que podia fazer.

Pensou que não havia muito tempo. Olhou para o teto relativamente baixo da sala em que estava e, pedindo omissas desculpas, começou a gritar.

No começo apenas fez de tudo para que seu berro fosse o mais alto que conseguisse produzir, mas logo pensou que não deveria se revelar tanto. Enrouqueceu a voz, perdendo um pouco de potência, mas conseguindo o que queria; via as luzes amarelas das paredes oscilarem como se a temperatura mudasse em frações de segundos, e pôde sentir a estrutura do castelo se abalar ao ritmo do corpo, que tremia de forma cada vez mais intensa. Sua visão ficava borrada, e mesmo depois de parar de tremer continuava vendo tudo daquela perspectiva. Tonta, cambaleou até apoiar-se naquilo que achava ser uma parede. Não seria a escolha mais inteligente continuar ali. Fechou os olhos e deixou-se levar para o próprio castelo.

Desabou, envolta pela noite chuvosa e hostil, batendo com as costas na fria corvônia. Estava encostada em uma reentrância do lado de fora da casa de Tadeu, e pestanejou enquanto escutava, ligeiramente desconfortável, um som que ainda não conseguia identificar. Não entendia por que, mas não gostava do que ouvia.

Arrastando-se com as vértebras pela parede, sua visão ficou turva, assim como a visão do próprio iaumo, até que ela enfim sentou-se, perdendo as forças. Desmaiou, empalidecida, vendo um rosto conhecido e amigável aproximando-se dela na escuridão.