Isolados

As nuvens passeavam pelo céu, estufadas e lúdicas, impedindo o sol de aquecer a terra tanto quanto poderia. Flutuavam devagar, amarelas como campos de trigo, atravessadas por serenos raios de luz já levemente alaranjados em um firmamento que insistia em permanecer azul.

Em pé diante do Rio da Discórdia, que seguia lépido seu curso, ele olhava além. Não conseguia discernir sequer contornos, grosseiros que fossem, das Montanhas do Céu — o limite do deserto de Imiorina, que se estendia impiedoso e seco num horizonte a perder de vista. Atrás de si ficava a pálida colina que ele contornou pra chegar àquelas paragens aos pés d’água, afastadas do centro da cidade mas nem por isso difíceis de encontrar; apenas o suficiente para que ele e seus alunos ficassem distantes, isolados.

Estava em pé porque não gostava de se sentar. Não ali, não naquele momento; não pensando em quem deveria ser. Não quando não se continha em si mesmo de nervoso entusiasmo. Juntava as mãos inquietas atrás das costas, sentindo a aspereza rude das vestes marrons, andando de um lado para o outro de vez em quando.

— Mestre? — Disse uma distante voz feminina à esquerda.

— Estou aqui! — Respondeu ele, pigarreando em seguida. Logo viu surgir por detrás da colina uma mulher de rosto abatido e um longo vestido roxo. Apressou os passos abertos, andando até ele com um corpo largo e cabelos dourados sem brilho.

— Boa tarde, mestre!

— Boa tarde, Enrita.

O professor baixo e calvo, com um rosto que a escassez emagreceu mas não tornou menos redondo, voltou a olhar para o rio enquanto a aprendiz sentava ao pé do morro. Outros alunos foram chegando; sozinhos ou em grupos. Serenos e sorridentes, heterogêneos e simpáticos, juntaram-se em uma pequena multidão de vinte e seis pessoas. A quantidade de homens e mulheres era bastante igual, com tantos jovens quanto adultos, mas sem nenhuma pessoa mais velha.

Lamar, desfazendo a posição dos braços, passou a segurar as duas mãos à frente do corpo, como se uma precisasse acalmar a outra. Tudo tinha dado certo na última vez em que estiveram naquele lugar — isto é, considerando quão errado tudo poderia ter dado. Fazer aquilo era arriscar muito, como ele já havia, a seu modo, amargamente aprendido.

— Bom… — Começou ele, esfregando as mãos. — Já que todos estão aqui, então… Podemos começar.

Lamar girava o pescoço, tentando captar num só olhar todos aqueles rostos obstinadamente curiosos. Sorriu, o nervosismo escapando pelas narinas, e logo inspirou a certeza de que todos ali estavam sedentos pelo saber que lhes era proibido.

— Hoje nós vamos começar a treinar um ataque. Um ataque bastante simples. — A mudança de postura e os inibidos murmúrios de excitação indicavam interesse. — Na verdade, eu penso que essa é a técnica mais simples de todas.

Alguns homens realmente jovens, vestindo coletes de couro por cima de largas camisas azuis, o observavam ainda mais suspensos em expectativa, à esquerda. Lamar fez um esforço mental para se lembrar do nome deles, mas não conseguiu.

Aquilo não era realmente um problema — afinal, lembrava do nome de muitos outros. Havia alguém lá, porém, que não lhe era nem um pouco familiar. Parecia um homem, e confundia não apenas sua aparência como também a atitude; algo de todo incomum, sem dúvida, ainda que o parâmetro de comum não estivesse bem estabelecido ainda. Usava uma veste laranja, grossa, longa e chanfrada, e por cima uma grande capa negra, com um capuz em que o tecido sobrava. Lamar não conseguia ver o rosto por debaixo dos panos.

Então… — disse ele, num rompante, seguindo um impulso de continuar a aula. Poderia interpelar o aluno novo mais tarde; não havia tempo a perder. — Vamos formar pares, sim?

Os estudantes aquiesceram, começando o arranjo de duplas. Ficaram de frente um para o outro, de pé, a uma curta distância. Antes de passar a eles as instruções iniciais, Lamar sentiu-se um pouco cansado nas pernas. Era uma sensação incômoda; uma espécie estranha de dor nas articulações que crescia enquanto ele caminhava — Só podia ser o resultado de tanto andar para chegar até ali. Resolveu sentar no chão para ver se conseguia se sentir melhor.

Os aprendizes olharam para ele, confusos. Percebendo o pesado silêncio, Lamar concluiu que talvez não fosse um bom momento para sentar e descansar. Como que querendo desfazer o que havia acabado de fazer, rapidamente levantou-se e prosseguiu.

— Vocês lembram que… Do que falamos na aula passada? — Alguns murmuraram que sim. — Que, para praticar magia, a intenção é muito importante? Sentir a intenção e dirigi-la para alguém? — Mais cabeças balançando afirmativamente. — Bem, agora vocês vão fazer isso de novo, só que agora a intenção vai ser uma intenção em especial. Vocês vão se concentrar em enviar para o seu par um sentimento de conforto, c-como se vocês fossem… Dar um abraço nele, só que vão provocar essa mesma sensação a distância, entendem? — O ar que respirava enchia-lhe de um fôlego de urgência. — E lembrem-se, lembrem-se! Cada um por vez! Não ofereçam resistência ao outro! Deixem que o sentimento tome… Conta de vocês, caso ele estiver surgindo. É nisso que vocês têm que prestar atenção, sim?

Lamar começou a vagar pelas duplas para observá-las de perto, embora soubesse que nesse estágio do treinamento não precisaria fazê-lo. Os iniciantes eram fáceis de ler em suas tentativas; faziam caretas contorcidas, como se aquilo lhes drenasse todas as energias do corpo. Outros, mais centrados, fechavam os olhos em um semblante tranquilo. Provavelmente não conseguiriam nada, mas algo começou a acontecer, deixando-o pouco a pouco desconfortável. Era um murmúrio, que Lamar logo percebeu vir de dois alunos em uma dupla.

Eles riam.

A mente de Lamar imediatamente inundou-se com estimativas. Riam de quê? Talvez rissem um do outro, por escárnio ou lembranças… Ou talvez achassem que a aula era simples demais para eles. Algo de todo muito básico.

E eles riam; riam com cada vez mais liberdade.

Se achavam-na fácil, talvez já fossem magos. Lamar sentiu medo por um momento — que logo foi embora, como vento frio. Não, não eram magos. Se algum mago viesse à aula não seria imprudente de se revelar desta forma.

Sentia as bochechas pegarem fogo por dentro. O medo logo passou a irritação subindo-lhe a garganta, enchendo a cabeça como combustível para o que houvesse de mais negativo. Acaso achavam-se melhor que todos ali?

Não deveria pensar aquilo dos alunos. Não deveria principalmente repreendê-los assim, incentivando-os a abandonar a aula, não, isso ele não poderia fazer de maneira alguma… A raiva o sufocava. A situação, afinal, prejudicava a concentração dos outros aprendizes! A Lamar parecia, quando olhava em volta, que olhavam de volta para ele, não mais para os causadores de distúrbio. Procuravam seu olhar, guardando-lhe a repreensão mais dura, em que deixavam claro esperar dele uma atitude, por certo. Cobravam uma medida enérgica, repressiva — que se fazia necessária, é claro, já que as risadas prosseguiam, acintosamente sinceras e ruidosas. Pelo menos ninguém parecia entender do que riam.

Os garotos gargalhavam ainda mais abertamente. Quase caíram pra trás, desequilibrando-se por um momento. Certamente não estavam aprendendo, não estavam tentando — Por que estavam ali, então? Por que não ficaram em casa trabalhando, ou fazendo qualquer outra coisa? Por que vieram? Ou, se tinham alguma fazenda para estar, uma ocupação que fosse na cidade — se a vida estava fácil para eles, bem, certamente não estava para muitos. Para Lamar, para aqueles alunos, para…

— O que É tão engraçado? — explodiu Lamar, irritado.

A dureza quebrou a espinha dorsal da risada. Os alunos passaram a olhar para Lamar, que mantinha um olhar revoltoso. As bocas se fecharam; as bochechas, murchas, denunciavam a vergonha recém-adquirida.

— Não… N-Não sei.

— Não sabe?! — Ralhou Lamar, um pouco desconcertado com a resposta.

Esperava por alguma coisa. Qualquer coisa.

— Não, a gente… — Disse o outro, olhando para o chão. — Riu, só… Desculpa.

Lamar sustentou seu olhar contra o deles por mais alguns segundos. Ora… De fato fora duro demais. Mas eles mereceram. Estavam sendo… Abusivos, impertinentes… Foi necessário. Foi preciso.

Sem dizer nada que encerrasse o assunto, recomeçou a andar para longe deles. Sussurrava para outras duplas, já totalmente dispersas do exercício, que retornassem às atividades.

“Gritar com aprendizes… Perder a paciência… Isso não sou eu… “

Lamar caminhou pelo lugar, completamente alheio. Olhava para a grama com a cabeça no que havia feito e por que o fizera. O que adicionava ainda mais peso à culpa era o silêncio, que não era absoluto; era antes ritmado por sons variados que expressavam a esmerada tentativa e a desalentada frustração — com sorte era consequência da prática, e não de quase-mudos vereditos.

Um aluno chamou discretamente por Lamar, que perguntou o que ele sentiu. Tudo foi descrito conforme o esperado. Lamar estava quase zonzo, mas todos o viam com um sorriso no rosto; pelo menos tinha sucesso em parecer feliz por poder ser útil novamente. Enquanto ouvia coisas sobre calor, abraços e conforto, felicitava uma aluna pela magia praticada com êxito. Não sabia dizer quantos haviam ficado felizes e esperançosos, e quantos haviam visto aquilo como sinal de que estavam atrasados e não eram bons o suficiente. Lamar não tentou ajudá-los com aquilo. Não recordava mais o que havia acabado de dizer a quem quer que fosse.

Depois de um tempo, resolveu que já estava na hora de seguir com o plano para a aula.

— Bem, é… Escutem! — Chamou Lamar. — Se vocês fossem capazes de… De produzir essa sensação sem um olhar, sem expressões, sem… Movimentos; seria ótimo. Mas, se não, está tudo bem. Existe algo que pode ajudar vocês. É um movimento com o punho! — Ele agora voltara a ficar de frente para todos. Notou que havia se esquecido do homem de capa preta no fundo, à direita. — Um movimento simples, só… Observem. Observem primeiro e depois repitam.

Abriu os dedos das mãos duas vezes, e então girava os punhos. Era um movimento simples, mas devia ser delicado, e muitos dos aprendizes o faziam de um modo grosseiro e desleixado. Precisou de vários ajustes para ensinar uma porção específica da turma e, mesmo depois de passado muito tempo de prática, o movimento não ajudara ninguém a causar o efeito esperado.

Lamar se aproximou novamente de seu púlpito inexistente à margem do rio e olhou para o grupo. Percebeu que não dera atenção suficiente aos alunos mais à direita, que continuavam com alguns vícios que conseguira eliminar em outros. Poderia fazer isso na próxima aula, pensou, quando todos já estariam mais acostumados com o movimento.

— Atenção! Atenção, por favor! — Pediu Lamar.

Naquele momento percebeu, enfim, que o homem de laranja fazia o movimento. Movimento estranho, que por alguma razão não imediatamente óbvia chamava a atenção de Lamar. Percebeu, enfim, que o movimento era perfeito. Lamar podia comprovar aquilo mesmo de longe.

Como pôde se esquecer daquele homem?

— É… Bem, fizemos um… Bom trabalho hoje… — Começou ele. Como pôde simplesmente deixar que um estranho encapuzado assistisse à aula? — E… É um trabalho difícil. É difícil mesmo conseguir realizar essas movimentações, essas… Esses movimentos do jeito certo leva muito tempo, não é qualquer um que consegue. — Deu mais uma olhada de esguelha para ele. Como nem sequer pôde dar uma olhada no rosto do sujeito? — Espero que na próxima aula vamos ter algo mais… Mais concreto.

— Daqui a cinco dias?

— Isso, isso mesmo. — Confirmou Lamar, sem saber quem perguntava. — Isso mesmo… Obrigado e até a próxima aula.

Quase cuspindo as últimas palavras, voltou-se para o rio. O sol se aproximava de Nauimior, o horizonte, e o céu adquiria cada vez mais os tons alaranjados que deveriam ser alegres e quentes, mas agora eram apenas melancólicos — e nada disso o ajudava. Respirava devagar — forçava-se a isso — tentando se acalmar. Tinha quase certeza de que vira o homem de capa permanecer exatamente onde estava, mesmo em meio às conversas que foram enchendo o ar de balbúrdia. Alguns falavam sobre o frio, que começava a agir também sobre Lamar. Outros falavam sobre as coisas que deixaram incompletas quando vieram para a aula. Outros falavam sobre a própria aula.

Lamar não ouvia nada. Pensava em milhares de olhos o observando de cima com penúria e decepção; olhos de pessoas que ele não conhecia, mas que estiveram sempre ali. Vizinhos, parentes, concidadãos. Invisíveis, sem nome, julgando-o todos a cada fracasso.

Não conseguia dizer por quanto tempo havia ficado parado ali. Ao se virar, viu o capuz deslizado para as costas, os braços cruzados, a guarda da espada aparecendo na cintura. Viu um rosto que, sem dúvida, conhecia: claro, pacífico, até mesmo um pouco bobo, mas que já não parecia tão inocente por detrás da basta barba negra. O cabelo, também escuro, estava desvairado e cheio, dividido ao meio e caindo ao lado dos olhos como colunas enquadrando suas feições.

— Lamar. Lamar. Lamar. — Disse ele, resolvido a saborear cada sílaba. — Então quer dizer que virou mestre?

— Tornero. — Reagiu, engolindo em seco. — … É.

— Mestre de… O quê… Seriam… Trinta, trinta e cinco? Não parei para contar.

— Vinte e seis. Vinte e cinco sem você.

Tornero, que já exibia um sorriso minúsculo, deixando entrever apenas parcialmente seus dentes, abriu-se num riso ostensivo e ritmado.

— Você é um tolo.

Lamar engoliu mais uma vez.

— O que… O que foi que você disse?

— Que você é um tolo, Lamar, um tolo. Você não achou mesmo que poderia ensinar magia bomin em Prima-u-jir sem que ficássemos sabendo, não é?

Olhava nos olhos de Tornero, forçando-se a não quebrar a conexão; era como se ela fosse a única forma de resistência que podia opor. Desviar os olhos significaria perder.

Mais uma vez.

— O que é que você é, Lamar? Um alorfo?

— Sim.

— E onde você aprendeu essa bobagem?

— Não interessa.

Insolente. — Comentou Tornero, com os olhos repletos de desprezo ardendo em brasa. — ESCÓRIA dessa cidade e desse mundo, é ISSO que vocês são! Você é um fracasso, Lamar. Um fracassado. Sempre foi e sempre será. Não se contentou em ter dado errado quando mostrou que era um fraco para a magia… Quis continuar tentando, não é? É claro que encontrou um lugar entre aqueles que acham que todos deveriam ser magos.

— Você não entende, Tornero…

Você não entende! — disse ele, escancarando os olhos. — Você não entende e é isso que me preocupa.

— Preocupa?

— Sim, preocupa, Lamar. Quando Byron disse que você estava dando aulas eu não acreditei. Eu disse a ele. Disse que era mentira, disse que você era um inútil. Mas ele pediu que eu averiguasse… Então eu vim. E, de fato — Tornero permitiu-se um minúsculo riso — você não decepcionou minhas expectativas. Continua tão tolo e imprestável como julguei que fosse.

— E-Eu sei que você não aprendeu magia desse jeito, mas sei também que todos demoram pra aprender… Estou ensinando de um jeito mais fácil. Do jeito que eu aprendi.

— É verdade, Lamar? Então você se considera um grande mago?

Tornero deu dois passos para trás, como se quisesse ver aquele mestre noviço por uma perspectiva diferente. Lamar sabia que aquela era uma pergunta perniciosa. Não podia responder que sim, mas ao mesmo tempo não conseguia admitir — não, não para Tornero — que não era um bom mago.

Decidiu ficar quieto.

— Você sabe que não pode me atacar, não é? — Perguntou Tornero, com a voz baixa à nova distância. — Pois bem. Eu quero que pare.

— Não vou parar.

— Eu quero que você pare, Lamar… Eu vim mesmo pedir que pare. Você está ensinando coisas que não devem ser ensinadas. Você está nos agredindo, Lamar. E você sabe que nós não gostamos de ser agredidos. Mas… — Tornero fez um sinal com a mão, sinalizando para que Lamar não dissesse nada. — Também vim pedir que pare porque isto é vergonhoso. Sinceramente… Sinceramente… Você sabe que magia não é movimentos de mãos, Lamar. Sabe que não tem a ver com olhares. Com essas… Caras e bocas. Não é possível, Lamar, mesmo com sua inteligência limitada, que você tenha esquecido disso, não é?

Havia algo difícil de explicar na forma como Tornero falava. Um jeito cheio de penúria. Lamar começou a sentir como se aceitar aquelas palavras de salvação fosse a única forma de escapar da iminente destruição. Uma destruição por irrelevância e ostracismo; uma forma de irreversível encolhimento de si mesmo, ao invés de rápida consumação no fogo. Lamar conseguia prever todo o tipo de coisa que Tornero poderia fazer; todo tipo de estrago. Era como lentamente cair em uma espiralada torrente de desespero; uma corrente sem fim de consequências e mais consequências de seus atos, levando ao mais nefasto dos fins.

Tornero explodiu em risadas condescendentes.

— Você é mesmo patético, Lamar…

O mestre levantou os olhos, percebendo com os pelos da nuca uma verdade que vinha lentamente à tona.

— Sua tarefa foi fácil, Lamar. Seus alunos são uns incompetentes. Fazer aqueles dois imbecis rir foi fácil. Fazer com que você se indispusesse com eles. Que sentasse no chão…

“Não… Não…”

Não, não, não, não, não…

Soterrei você em seu próprio castelo tão rápido que você não sentiu nada. — Tornero recomeçou a caminhar, enquanto o alorfo continuou parado. — Você, Lamar — disse Tornero, voltando-se uma última vez para a conversa — é como… Hm, como dizer? — Levantando a mão, mostrou a ele a região em volta. — Como um passeio no campo para mim.

Quando estimou que ele já devia estar longe, Lamar caiu no chão, de joelhos, com todas as suas culpas o atacando como rochas que caíam em um abismo — ou como se ele próprio, na verdade, estivesse com elas, caindo. Despencava, podendo sentir cada palmo de sua inevitável morte no fundo de uma profunda fenda.

Enquanto lágrimas caíam pelo rosto, sua visão ficou turva. Sabia o que viria depois, e sentiu um tremor percorrer seu corpo; passou a intermitentemente contemplar uma espécie de escuridão espessa e seca, e sentiu-se apertado por todos os lados, em cada parte do corpo; sentia-se nauseado como toda vez que se deixava conduzir àquela terra estranha e, quase sufocando, sabia que pedir ajuda era inútil.

Na magia, mais do que em qualquer outra coisa, era verdade o que diziam: não se pode deixar de ver o que foi visto. Mas, ainda assim, ele não conseguia deixar de tentar.

Cada vez mais desesperado, levou a mão aos olhos úmidos. A escuridão se dissipava e se transformava, aos poucos, em uma espécie de claridade marrom-clara, com alguns focos de luz azul como os espaços deixados para as janelas em uma construção de madeira. Via Tornero. Via o céu e via luzes de velas, tudo em uma estranha dança da qual não queria ser espectador.

Começou a esfregar o rosto violentamente com as duas mãos. Apertava as pálpebras tão forte que a vertigem veio.

Viu-se, enfim, esticado entre os dois mundos.

Caiu pra trás, mas sentia-se em pé — ou deitado — e tonto. Perdeu a noção do tempo que passou massageando o rosto, ora mais calmamente, ora de forma mais nervosa. Apenas quando voltou a ver somente o negrume incompleto das próprias mãos sobre sua vista esfoliada, sentindo a grama fria roçando a nuca — só então sentiu-se seguro para abrir os olhos de novo. Contemplou o céu laranja e as pálidas nuvens com alívio. Convencendo-se de que o melhor a fazer era ir para casa, levantou-se e, com passadas lentas, foi embora.