Perdendo tudo

O dia de sol tornava mais suportável, até mesmo alegre, toda a rotina de trabalho com a qual a família se acostumara. O sol, que a tudo aquecia e tudo revelava, transformava também em esperançosa e promissora uma tarefa que até então só trouxera aflição à curta vida de Ramon: guardar os pertences importantes, preparando-os para uma longa viagem. Desta vez, uma muito mais difícil, percorrida por uma vasta região desértica e sem a presença do pai.

Myrthes e o filho entraram em casa. Metade do lugar estava virado de cabeça para baixo: a cozinha estava organizada como quase nunca antes esteve, e os incisivos raios amarelados deixavam a vista com ares de uma sensível organização. Os quartos, no entanto, quase nunca viram tamanha bagunça; as roupas estavam jogadas de qualquer forma em cima dos colchões, emboladas em uma grande tempestade mental de vestuário. Parte do bolo já havia sido retirada; roupas que não seriam mais úteis foram vendidas — convenientes pechinchas. Destino semelhante teve o minério azul da cozinha que os acompanhara desde a época em que moraram em casas maiores e melhores. Tempos de harmonia com os pais de Lamar — mas também de mentiras e segredos, e disso Myrthes não podia dizer que tinha saudades.

Vender tudo aquilo era necessário: precisavam guardar tudo o que pudessem, já que precisavam de comida, água e segurança em uma cidade cheia de desconhecidos.

— Vamos, filho. Está na hora de colocar as roupas nos sacos de viagem.

Desanimado, ele foi andando de um jeito estranho, com passadas duras e aborrecidas, em direção ao quarto. Myrthes sentiu dó do pequeno, tão desolado e fora de contexto.

— Ramon? — Chamou ela.

O filho virou-se, olhando para os joelhos da mãe.

— Vem cá…

Ela se agachou para recebê-lo. Ela não pôde evitar que as frases que construísse fossem interrompidas, já na origem, pela observação que fazia dos braços e das pernas do filho. Os trechos descobertos — as canelas, os antebraços, os cotovelos pontudos — mostravam, abrindo feridas no coração da mãe, o quanto eles não conseguiam se alimentar direito naqueles últimos tempos. Ela mesma já estava começando a se parecer com ele.

— Você sabe pra onde nós vamos, não é, filho?

— Iminorina. — Respondeu ele, baixinho.

Imiorina — Corrigiu ela, gentil. — E algum tempo depois que a gente chegar lá, vamos poder ver o papai de novo, está bem?

— E a gente vai ajudar o papai?

— Também, filho, também! — Concordou ela, sorrindo. — Vamos ajudar o papai a sair de uma situação muito ruim se formos para lá.

— O papai fez algo perigoso, mãe? — Perguntou ele, fazendo uma feição única que misturava medo e asco.

— Hmm… Mais ou menos. Um dia ele vai explicar pra você, está bem? Você vai sentir muito orgulho dele, filho. — Ela passou a mão pelos cabelos grossos do rebento. — Ele não merecia estar na prisão.

— O papai ainda está na prisão, mamãe?

Myrthes olhou para os lados, esticando-se para ver o mais longe possível para além da janela, e apurou os ouvidos.

— Provavelmente não, filho. Mas olha… Silêncio, viu? Shhhhh — fez ela, com o dedo sobre os lábios — Ninguém pode saber! Finge que ele ainda está preso!

— Tio Kerinu tirou ele de lá? — Ele dava pulos animados enquanto a mãe fazia sinais enérgicos para que ele ficasse quieto.

— Eu acho que sim, meu amor, mas silêncio! Confia na mamãe, você precisa ficar quietinho…

— Está bem! — Sussurrou ele.

O olhar dos dois se encontrou, leve, solto e espontâneo, em todos os longos momentos que antecederam um abraço forte e agitado.

— Agora vamos, faz o que a mamãe pediu.

Ele foi correndo para o próprio quarto, e começou a dispor ludicamente das roupas que estavam na ponta do colchão. Myrthes levantou-se devagar, lidando com a dor que surgiu nas pernas depois do tempo que passou agachada, e olhou em volta. Aquela casa não tinha um grande número de recordações positivas. Foi o pior lugar em que moraram, e também o lugar em que menos coisas boas aconteceram. Justiça seja feita, pensou ela, talvez não fora o lugar mais cheio de eventos negativos tampouco.

— Mãe! Posso levar meu dente que caiu? — Perguntou Ramon, berrando do quarto.

Ela riu, surpreendendo-se com um bom momento recente.

— Pode, filho!

Alguém bateu à porta. Myrthes virou-se, curiosa, e olhou para o quarto de Ramon: ele estava lá, seguro, ignorando o visitante.

Abriu a porta. Viu, do lado de fora, um homem magro e com orelhas excepcionalmente grandes. Todas as suas outras características eram — ou pareciam — diminutas, exceto por seu rosto grave e suas roupas oficiais: aquele azul misturado àquele preto só poderiam significar que aquele era um funcionário da cidade de Prima-u-jir. Para completar a situação, ainda que desnecessariamente, ele trazia nas mãos uma folha de papel.

— Pois não?

— Boa tarde. A senhora se chama… — Ele olhou rapidamente para o papel. — Myrthes?

— P-por quê?

— Perdão… Meu nome é Rouguer, eu trabalho no prédio de registros de Prima-u-jir. A senhora mora sozinha nesta casa?

— Se isto é sobre o aluguel, eu…

— Não, senhora, perdão… Por favor, a senhora mora sozinha?

— Eu… — Ela refletiu sobre qual seria a resposta mais apropriada. — Com o meu filho.

— Nenhum homem adulto?

Impaciente, Myrthes resolveu ir logo ao cerne da questão.

— Ele está preso.

O funcionário fez um breve “sim” com a cabeça, e olhou pra baixo. Não parecia estar lendo o papel.

— Senhora, eu… Lamento ter que informar isto, mas houve uma tentativa de fuga na noite passada.

Por um momento Myrthes sorriu — ou sentiu-se sorrindo, contente — com a notícia. O riso esfacelou-se logo depois.

— D-desculpe, tentativa? D-de fuga?

— Sim. O homem, é… — Rouguer tornou a ler o papel. — Lamar, estou certo?

— Sim, o que houve?

— Ele tentou fugir e foi capturado.

— E o senhor está aqui para… — Ela fez a pergunta, mas não esperava realmente por respostas. Olhou brevemente para o quarto, e sentiu seu coração bater mais rápido.

— Ele resistiu à prisão, senhora, e lutou. Ele foi mortalmente ferido.

— C-como?

— Ele está morto, senhora. Sinto muito.

Myrthes riu, mais por necessidade do que vontade. Era uma risada nervosa, como se os músculos do rosto precisassem se mexer para utilizar todo o sangue que o coração bombeava em um ritmo desumano. Vendo que Rouguer falava seriamente, engoliu, descobrindo o quão seca sua boca e garganta estavam.

— Não, isso… Isso não pode ser… Isso é um engano, isso…

— Ele era o único homem na prisão, senhora.

— Mas isso… Ele… Jamais lutaria, ele…

— Senhora…

— … Jamais resistiria à prisão, eu tenho certeza…

Senhora! — Disse ele, conseguindo falar mais alto. — Eu sei que é difícil…

Mais alguém? Mais alguém foi ferido?

Se Lamar foi capturado… Se ele foi…

Kerinu.

O mundo parecia desabar; a notícia ainda lhe soava mais do que irreal, e o mundo acompanhava o ambiente como se fosse cúmplice de uma mentira elaborada. O céu parecia uma cortina clara que, fragilizando-se com o tempo, despencava do bordo da janela, podre, destruindo-se por completo.

Rouguer vacilou diante da pergunta.

— Eu… Isso é algo que eu não posso lhe dizer, senhora. Mas sim, ele…, Teve ajuda na tentativa de fuga.

— E o que aconteceu?

— Senhora, eu… Não deveria dizer isso.

— Por favor… Por favor.

Ela se esforçou, barganhando com os olhos por mais informação.

— A pessoa que o ajudava foi morta também.

Ela fechou os olhos quando um soluço surgiu, pondo abaixo o que quer que a estava impedindo de chorar. Lágrimas rolavam em disparada pelo rosto, buscando o chão tanto quanto ela.

— Eu quero ver… Onde ele está?

Rouguer continuou quieto.

— Onde ele está, R-Rouguer, não é? Onde ele está? Onde? — Suplicou ela em meio a um pranto ainda mais forte.

— Senhora… Fomos informados de que não havia família, e infelizmente ele…

— Não… — Disse ela, cobrindo o rosto com a palma das mãos. — Não, isso não, não…

— Ele já foi cremado, senhora, me… Infelizmente, eu…

Myrthes achou que ia enlouquecer, mas sentiu que não tinha por quê. Olhou para o lado, para a vastidão do céu, e deixou que as mãos caíssem. Não tinham forças para apertar uma à outra, e ao invés disso acudiam inutilmente a barriga, que doía. Olhou mais uma vez para trás. Viu que o filho continuava brincando.

— Eu sinto muito, senhora. Aqui está.

Ela olhou para o papel que ele carregava, e agora oferecia.

— O que é isso?

— Um registro de óbito, senhora.

Ela olhou com ódio para o papel que ela negava a aceitar como verdadeiro.

— E o que é que eu devo fazer com isso? Hã? O QUÊ?

Myrthes tomou o papel das mãos de Rouguer e, com um puxão forte, rasgou o papel. Rouguer observou, incomodado, fechando e abrindo a boca várias vezes.

— M-Mais uma vez, eu… Sinto muito.

— Vá embora.

Ela fechou a porta em tempo de ver um último olhar de pena por parte dele. Trancou a porta em um estrondo descuidado que Ramon não pôde deixar de perceber, já em alerta desde os berros.

O que a criança viu foi uma mãe irreconhecível. Ao invés da figura decidida, que sempre tinha uma resposta tranquilizadora para tudo, viu uma mulher esquisita, sustentada por uma coluna torta, com ombros caídos e um vestido rosado que parecia um pano velho cilíndrico. Viu um rosto cheio de sombra, lavado por dois fluxos de lágrimas, e assombrado por uma força muito além de sua compreensão.

Mãe?

— Volta pro quarto, Ramon.

— Mas a gente tem que… A gente tem que arrumar os sacos, e…

— Vai pro quarto.

Demorou-se mais um tempo até obedecer a ordem, largando o blusão bordô de qualquer jeito e dedicando-se enfim à tarefa. Ela sentou em uma das cadeiras da cozinha. Cobriu a metade de baixo do rosto com uma das mãos, e não conseguiu impedir um outro soluço, que rompeu o silêncio crasso como um trovão atarantado. O barulho, fanho e dolorido, fez Ramon estancar no quarto, petrificado de medo.

Logo o que passou a sentir, por mais ininteligível que fosse, tornou-se palpável como o que fosse aquilo que a mãe sentia. Sentimento molhado, com gosto de sal e temor.