Sacrifícios

A chuva caía sem cuidados, desculpas ou não-me-toques em Jinsel. Batia sem misericórdia no chão, nos raros transeuntes, nos edifícios e nas charretes. Encharcava o que podia, invadia as aberturas do que não era sólido o bastante e ricocheteava no que era. Como resultado, o cinza das ruas virava o marrom alaranjado da lama e a escuridão tolerante das poças. Os toldos de goma escura vergavam-se um pouco para o chão, criando cachoeiras ruidosas, e as luzes e cores dos minérios provocavam um mar de reflexões nas paredes banhadas por caminhos d’água; veias vertendo para o chão o que não lhes era próprio, verdadeiros espelhos foscos aqui e acolá.

Era difícil dizer qual lado — o de dentro ou o de fora da charrete que cruzava a cidade, solitária, rumo a um hotel — estava mais soturno. Leo olhava para algum lugar entre a barriga e o pescoço de Beneditt, que estava coberto por uma grossa camisa azul real. Fjor tinha um semblante carregado, pendurado em uma cabeça inquieta. Beneditt olhava com frequência para Leila que, parecendo estar em algum tipo de choque, nunca o correspondia.

— Para a charrete! — Disse Beneditt, estimando a voz para que o cocheiro escutasse.

A charrete seguiu em frente. O ruído da chuva estava muito alta para o condutor, mas não o suficiente para todos os outros, que viraram-se para o baterista sem saber o que estava acontecendo. Beneditt abriu a pequena janela que dava para a parte da frente do veículo.

— PARA A CHARRETE!

Ele fechou a portinhola de novo, um pouco constrangido com o próprio berro e com o rosto ainda mais molhado. Leila observou os olhares dos irmãos quando os yutsis enfim descansaram e todos estabilizaram-se, parando de tremer. Por fim, Fjor virou o rosto enquanto Leo voltou a observar o nada.

— Nós temos que conversar.

— Não há nada pra dizer, Beni. — Disse Fjor, sem olhar para o amigo.

— Não, há muito pra dizer, Fjor!

— Fizemos um show ruim, é só isso.

— E quando é que fizemos um show ruim, Fjor? Ruim desse jeito?

— A culpa é minha. — Disse Leo, cortando os ânimos. — Eu vim pra cá prometendo que seríamos grandes, que daríamos certo… Mas talvez nenhuma banda seja assim, eu acho…

— Como assim? — Perguntou Beneditt.

— É… Toda banda tem problemas, tem… Coisas ruins e shows ruins antes de ficar boa.

— Nós já éramos bons, Leo… — Disse Fjor, tapando a fronte com a mão que massageava as têmporas.

Não, nós éramos bons pra o que a gente queria, e nós estávamos confortáveis demais… Acho que é bom a gente fazer algo diferente, e…

— E ficarmos ruins no processo? — Perguntou Beneditt, sarcástico.

— M-mas é isso, Beni, é um… Processo, entende? Estamos passando por um processo, é só isso!

— Nós éramos bons pra o que a gente queria. — Repetiu Fjor.

— Quê?

— Nós éramos bons pra o que a gente queria. Foi o que você disse. — Respondeu Fjor, encarando Leo. — Por que isso mudou, Leo? Por que temos que ficar aguentando o que esse agente diz para a gente fazer?

— Porque queremos viver disso, Fjor, e se a gente quer viver disso, temos que fazer o que as pessoas gostam!

— De novo falando do que a gente quer…

— O quê? — Perguntou Leo, remexendo-se como se quisesse levantar do banco. Não podia. — Você aceitou vir pra cá, você está colocando a culpa em mim de novo?

— Não, a culpa é minha também.

— E vocês ficam falando de culpa! Como se tudo tivesse sido um desastre!

— Desastre é estarmos falando disso, Beni — Rebateu Leo — porque nos sentimos mal, mas isso é normal!

— O nome da nossa banda agora é Ponte Alta, Leo. Isso não é normal. — Disse Fjor, fazendo as mãos levantadas de Leo caírem sobre as coxas, sem gestos para dizer coisa alguma.

— Eu só acho que… As coisas não têm sido como a gente esperava. — Disse Beneditt.

— É. — Concordou Fjor.

— É o quê, Fjor?

— Esquece, Leo.

— Esquece?

— Esquece.

— Você diz que as coisas não têm sido como você esperava, e espera que eu esqueça?

A chuva continuava a cair, imortalizando o momento em que Leo apontava para si mesmo. Naquele ínterim Fjor decidia se respondia com sinceridade ou com mais pedidos de desistência de assunto.

— Fala, Fjor. — Pediu Beneditt.

— É que está tudo horrível! Essa é a verdade! — Vociferou Fjor, engolindo a forte pulsação no meio de um discurso desembestado. — Tudo que aconteceu até agora foi a gente mudar isso, mudar aquilo, mudar isso, mudar aquilo e nunca se divertir tocando, nunca tocar o que nós queremos!

Beneditt e Leo estavam boquiabertos, ofendendo-se um pouco com com cada palavra que ouviram.

— Não é isso que eu queria, e… Era isso. Vocês pediram.

Leo olhou para frente, com um barulho que não vinha da chuva chamando sua atenção. Fjor viu o que estava acontecendo, mas manteve o olhar determinado. Beneditt foi o último a perceber, confuso que estava com tudo o que descobria dentro da banda.

Leila chorava, com os lábios trêmulos segurando como represas cheias de rachaduras as lágrimas salgadas.

— O que foi, Leila?

Ela continuava, apertando os olhos de onde saía mais e mais choro. Desviando o rosto e afastando-se para trás, evitou a aproximação de Leo. Com a palma da mão pediu que ele ficasse longe.

— Eu… Eu… — Começou ela, controlando-se ao começar a falar. — Eu quero saber… Por que vocês vieram.

— Eu vim porque achei boa a ideia de ganhar dinheiro fazendo o que eu gosto. — Respondeu Fjor, duro e direto. — E o que eu gosto é de rock. Do rock que a gente fazia.

Fjor… — Repreendeu Beneditt.

— Não, tudo bem… — Intercedeu Leila. — … Não tem problema.

— Eu acho que você está exagerando, Fjor. — Disse Leo.

— Eu já falei que está tudo bem, Leo, eu…

— Não estou falando disso, Leila. — Ele voltou-se para o irmão mais uma vez. — Você se faz de responsável e-e forte, e…

— … Se faz? Quer dizer que acha que eu não sou responsável?

— … E você acha que pode escolher tudo na sua vida, e fica reclamando quando as coisas não dão certo…

— … É claro, porque eu sempre fiz isso, não é, Leo?

— … Claro que fez, e ainda faz, você vive fazendo isso, Fjor!

— … Eu sempre fui atrás do que eu quero, mas eu reclamo quando eu não tenho o que eu quero por causa do que você quer!

— Por favor… — Implorava Beneditt, cansado das brigas.

— Mas é claro! Porque tudo o que importa é que você tenha o que você quer, não é mesmo?

— Para o que eu quero e o que eu preciso eu não preciso levar os outros junto comigo. Você é quem vive pensando que todo mundo quer a mesma coisa que você!

— Se você quisesse ter uma banda, então, não precisava ser com a gente, é isso que você quis dizer? — Beneditt tentava mediar a conversa enquanto Fjor rugia de estupefação ao ouvir, incrédulo, as conclusões retorcidas do irmão — Muito prático, isso, Fjor. Até me lembra o pai!

— Você não disse… — Falou Fjor, com os olhos ganhando um colorido louco. — VOCÊ se parece com o pai, abandonando TUDO pelos seus “sonhos”!

— Eu não abandonei ninguém, Fjor!

— Se o Seimor transformar mais a “Ponte Alta” — Conjecturou Fjor, com mais sarcástica intonação — vamos virar uma banda de rock de cidade.

— E qual é o problema?

— Você ficou louco… Quer envergonhar nossa vó. Nossa cidade. Quer abandonar tudo em que acreditamos…

— Você acha que eu penso em ficar agradando a , Fjor?! Você acha que eu ligo para o que “acreditamos”? E você me diz que eu falo dos outros por mim!

— Tanto faz, Leo. Você só quer o dinheiro.

— Seu HIPÓCRITA! — Berrou Leo. Leila levou as mãos aos ouvidos, ainda instável. — Você preferia estar aqui ou lá? Lá, em uma fazenda qualquer, ganhando só o que dava pro aluguel e pra comida?

— Leo… Por favor…

Fjor engoliu em seco. A mão em frente ao rosto fechava-se em um punho nervoso.

— Eu prefiro ir embora.

— Fjor, não!

Foi tarde. Beneditt não conseguiu agarrar nenhuma parte da vestimenta esverdeada do músico, que saiu da charrete em meio à chuva intensa, e fechou a porta com um estrondo que fez Leo fechar os olhos.

— … Por que você fez isso, Leo? — Perguntou Leila, baixinho.

— Leila, eu… Perdi a cabeça.

— Você não devia.

— Não me julga, Leila. Por favor.

Leo lançou um olhar chateado para Leila, seguido de um esgar de desapontamento para Beneditt. Os dois músicos que estavam no mesmo banco da charrete se olharam, sem entender.

— Leo?

— O quê?

— O que foi aquilo?

— O que foi aquilo o quê?

— Você olhou pra mim de um jeito estranho.

— Não olhei.

Leo. — Disse Leila, meneando a cabeça, clamando por sinceridade.

Ele respondeu com um olhar hostil que nenhum deles tinha jamais visto.

— O que foi, agora? Tudo é minha culpa?

— Se eu bem me lembro você começou essa conversa dizendo que era tudo culpa sua. — Disse Beneditt, sem entender o motivo daquela fúria repentina.

— E se eu bem me lembro, você disse que ninguém tinha culpa de nada.

— Não é sobre culpa, Leo! — Disse Leila, angustiada. — O que foi aquele olhar?

— O que é que você tem, Leila? — Soltou ele, parecendo instantaneamente aliviado, mesmo que nem um pouco menos nervoso. — Já faz uns dez dias que você está assim. Desde o Mina de Prata. Você me evita, você… Você parece sempre triste, ou… Ou sentindo… Dores. O que é que você tem?

— Não é nada, Leo…

— Você pensa como o Fjor? Quer ir embora, também?

— Leo, para com isso!

Beneditt, o conciliador! — Riu-se Leo, com olhos lacrimejados. — Talvez eu devesse perguntar pra você o que ela tem.

Beneditt parou, honestamente esperando por uma explicação. Leo se esforçava para transformar a contração do rosto, que insistia em provocar o choro, em um sorriso amarelo.

— O que isso quer dizer, Leo? Eu não…

— Pra quem mais eu perguntaria? Se não para o confidente e companheiro de Leila?

A guitarrista fechou os olhos, balançando a cabeça.

— Leo, não… Não fala isso. — Disse ela, dividida entre a incredulidade e a mágoa.

— Vocês ficam o tempo todo juntos, devem saber tudo um do outro!

— PARA, LEO!

Leo ofegava, esfregando num rompante uma única lágrima que ousou cair.

— Que foi, Leila? Está mandando em mim agora também? Ah, mas é assim mesmo, não é? Esqueci que você é a líder, agora!

— Não seja ridículo, Leo! — Bradou Beneditt.

— Leo, eu não… — Começava Leila, balbuciando explicações.

— Como eu pude não enxergar, Leila? É claro que você é a líder! Você é sempre a primeira a pedir calma quando o Seimor muda tudo que a gente faz!

— Há CINCO minutos atrás você disse que não se IMPORTAVA! — Brigou Leila, com a voz rouca, passando a mão pelo cabelo enquanto se extenuava falando.

— Eu RELEVO, Leila, eu IGNORO, mas é CLARO que eu não gosto!

Beneditt não havia percebido o quanto estava nervoso. Estava meio sentado, meio levantado dentro da charrete, assim como os outros dois passageiros. A chuva parecia ter diminuído.

— E eu te…

— Não. — Interrompeu Leila. — Você é um ingrato, Leo.

Leo ficou paralisado, com o cérebro começando a doer. Percebeu o quão zonzo estava. Olhou para frente para ver uma Leila que praticamente desconhecia: seu cabelo despenteado, seus olhos rudemente machucados, uma expressão de profundo e inextinguível descontentamento. Beneditt não estava muito longe de representar as mesmas coisas. Leo estava sozinho naquela charrete.

Leila deu um soco surdo na parede às suas costas, que ficavam atrás do condutor.

— Vamos embora!

E entraram em movimento de novo.

***

O salão, grandioso em todas as dimensões, estava propositalmente escuro. O teto não tinha cor, não uma que importasse; assim como as mulheres que falavam com ele não tinham nome; nem elas, nem as quase-salas criadas por cortinas semitransparentes, nem qualquer outra coisa. Escadas roxas levavam a um segundo andar que apenas circundava, em sacadas internas, a grande pista central da boate.

— Diretamente de Den-u-pra para Jinsel… — Anunciava um homem negro com uma aveludada e sorridente voz. — Clarissa… Camp!

Todos foram ao delírio, aplaudindo e urrando em direção ao palco — e como era massiva a participação daqueles todos, ocasionalmente iluminados mas certamente afins com a escuridão; sombras satisfeitas, pessoas cuja carne e osso enchiam o lugar de vida mas também de ausência.

Coberto com frias luzes azuis que desciam do teto oculto, um vulto feminino alto e esguio ascendeu. Luzes amarelas surgiram, e então outras laranjas, e enfim vermelhas. A tensão construía-se enquanto a sombra, cada vez melhor iluminada, desfazia a exagerada pose e aparecia por completo: uma mulher loira e brilhante, vestindo uma roupa quadriculada vermelha e púrpura, além de um torto chapéu prateado.

Com um sorriso oportuno e sofrivelmente charmoso, Clarissa começou a andar no palco ao ritmo de uma batida que parecia vir de uma bateria. Fjor logo percebeu que a batida estava sincronizada com uma série de rápidos flashes vermelhos que vinham do fundo do palco. Ao esticar o pescoço, viu que havia uma pequena esfera rubra girando e brilhando a intervalos regulares no palco à esquerda de Clarissa.

— Então… — Disse a garota de escorridos cabelos escuros que Fjor envolvia pela cintura. — Você parou de falar na parte que você… Dizia que era um músico… É verdade?

***

Viraram à direita e enfim entraram em uma rua completamente ocupada pelo bosque frontal do hotel, adornado com uma série de pinheiros e alguns exemplares admiráveis de sequoias. Comprido, ainda que pouco espesso, o prédio tinha cinco andares cheios de quartos com móveis confortáveis, uma jarra de água sempre disponível em cima de uma bem acabada estante e um conjunto amarelo de roupas de cama com cheiro de erva-doce.

A charrete parou logo à frente da entrada sem portas. A frente em si do hotel contava apenas com essa porta e pequenas janelas com grades, úteis apenas para a ventilação. A parede, de um rosa claro e verde-água aplicado à toda altura da construção, fora rebocada de um jeito diferente, com rasuras verticais ásperas. Em momentos parecia um trabalho inacabado. Em outros casos, uma verdadeira obra de arte.

Leila, Beneditt e Leo saíram do transporte e viram que Seimor esperava por eles, com as mãos para trás. Leila parou por um tempo; olhou para o agente, mas retomou a marcha em frente sem dizer nada. Leo escolheu o mesmo caminho. Beneditt, indeciso, seguiu os dois de cabeça baixa.

Parou no segundo degrau da escada em direção ao interior do hotel. Olhou para trás, no início movido por certa curiosidade, mas logo tomado por uma espécie de pena. Seimor continuava parado, mas agora olhava para o chão com o rosto voltado para onde Leila e Leo tinham ido. Beneditt não o tinha em alta conta, mas passou a considerar uma maldade ignorá-lo daquela forma.

— Seimor, eu… Peço desculpas.

— Não deveriam chegar tarde. — Disse ele, num tom seco. — Onde está Fjor?

— Ficou pelo caminho.

Seimor estreitou os olhos e balançou a cabeça num movimento rápido e curto, como se quisesse tirar algo estranho da fronte do rosto.

— Como “ficou pelo caminho”?

— Nós brigamos. O Leo falou umas coisas pra ele, ele falou umas coisas pro Leo… No final abriu as portas e foi embora.

— Ele saiu da banda? — Perguntou Seimor, aproximando-se e desconectando as mãos.

— Não… Não. — Beneditt sequer havia considerado aquela possibilidade. — Ele só está nervoso. Ele vai voltar.

— É claro que vai. Ele tem um contrato a cumprir. Vocês pararam perto de onde?

— N-não sei, eu não… Eu não conheço a cidade. Era uma rua cheia de casas, eu… Não vi nada especial.

— Humpf… Certo.

Seimor deu meia-volta. Beneditt ficou observando por um tempo enquanto ele começava a andar em direção ao condutor, que procurava por alguma coisa em uma das patas traseiras de um yutsi. Voltou-se também para ir embora, mas antes que completasse o giro Seimor virou-se e chamou por ele.

— Ah, e Beneditt… Obrigado.

Beneditt respondeu com um aceno de mão, e enfim entrou no hotel.

***

— É… Eu faço música! — Respondeu Fjor, quase berrando para poder ser ouvido.

Havia três esferas vermelhas atrás de Clarissa Camp, que cantava e dançava no palco. A da esquerda continuava brilhando no ritmo das fortes e estáveis batidas, enquanto que a do meio estava mais frenética, criando um som diferente de tudo o que Fjor já ouvira. Era incisivo, reverberante e abrasivo, lembrando uma forma sólida e ramificada da água do mar. A terceira era mais calma, criando com um som similar um ritmo de fundo.

— Que música? — Perguntou, com um sorriso solícito, ainda que transversal, a mulher loira ao lado do casal.

Rock! — Bradou ele, suspirando ao final da frase.

Seus olhos focaram com uma dose de estranheza as duas mulheres que o cercavam. Nunca nada tinha acontecido tão rápido com ele. Bonitas. Com a pele aparentemente saudável, lisa. Fjor gostava disso. Disso e dos vestidinhos.

— Eu gostava de rock, sabe? Mas aqui é mais divertido. — Diz a loira, com um riso tímido.

— Essa aí não sabe de nada! — Disse a morena, rindo alto. Mesmo não vendo graça, Fjor sentiu-se compelido a rir. Um segundo depois pensou que estava sendo artificial e ridículo. Para elas, de qualquer forma, não parecia fazer diferença.

— Devo dizer… É difícil… — Ressaltou Fjor, apertando os olhos e afinando a voz. — … Fazer rock nessa cidade!

— Mas por quê?

Fjor abriu a boca, puxando um pouco de ar, e parou para olhar com breve desconfiança para a garota. Ela havia perguntado aquilo de um jeito quase irônico de tão exagerado, mas ele resolveu ignorar aquilo. Ela sorria para ele, boba, esperando por uma resposta sincera com, assumia ele, semelhante sinceridade.

— Porque esse rock que eles querem enfiar garganta abaixo de todo mundo é um rock falso, chato… Estranho… Isso nunca foi o que eu sonhei.

— Meu querido… — Tirando uma das mãos das costas do músico, tocou seu rosto. Na tentativa de fazer um sutil carinho, acabou com uma grosseira pressão do polegar. — Essa conversa de sonho é muito estranha pra mim… Eu vou te dizer uma coisa… Sonhos são coisas que não existem.

— Isso é verdade! — Concordou a loira, balançando a cabeça afirmativamente.

— E se não existem, por que a gente tem que se preocupar com eles, não é mesmo, meu guitarrista?

— Eu sou baixista. — Disse Fjor, sério.

— Ah, tanto faz… — Clarissa acabou uma música, e o fim da melodia dançante revelou uma pequena dor de cabeça que ele não percebera que estava ali. Relevou, deixando-a facilmente em segundo plano, quando a mulher a quem abraçava segurou seu queixo. — Ouve só, outra dia a gente estava se perguntando… Qual é a melhor coisa do mundo?

— E eu disse sonhos… — Sussurrou a loira, com a mão à frente da boca para simular ludicamente um segredo.

— Mas ela estava errada, não é mesmo, Fjor? Eu lembrei ela que a melhor coisa do mundo são as mulheres!

— E isso é verdade, amiga…

— Você não concorda, Fjor?

— É… — Respondeu ele, começando a rir novamente. — … Acho que sim…

— Então eu só acho justo que quem goste da gente gaste um pouco com a gente, já que a gente é a melhor coisa do mundo. Você tem dinheiro aí, Fjor? A gente podia ir para outro lugar…

— Eu? Não… Saí correndo de uma briga com o meu irmão. — As duas imediatamente fizeram um rosto de típica pena. — Não tenho nada aqui comigo.

— Como você entrou aqui?

— Hmm… — Fjor se aproximou do ouvido esquerdo da garota, chamando a outra para mais perto também. — Acho que eu penetrei.

A loira cobriu a boca com as mãos enquanto a morena jogou a cabeça para trás, fascinada em histeria hilária.

— Ai, safado!

Fjor olhou para o palco, ao longe, com um riso mais que satisfeito. Clarissa, com um rosto confiante e poderoso, convidava todos a imitá-la ao bater palmas no ritmo incipiente da música. A esfera de fogo da direita começava a emitir um som chamativo e envolvente, e Fjor teve vontade de dançar por um breve momento que logo deixou existir.

A garota o puxou para um beijo ardente. Ele gostou, vendo com os olhos fechados a fraca luminosidade da festa alucinante ao redor. Quando os dois se separaram, sorrindo e respirando de um jeito que dava ainda mais material para risadas, a loira voltou com um copo de água na mão.

— Quem quer água?

Fjor tomou o copo da mão dela, tomando um gole. De pronto a porção frontal inteira da cabeça doeu em uma pontada que o fez pôr a mão no rosto.

— O que é isso, hein? Esse jeito que eu me sinto…

— Está tonto?

— Um pouco…

— Mas é bom, não é? — Perguntou baixinho a morena, já desfeito o abraço.

— É… Acho que sim. No geral…

— Você não conhece mesmo? — Disse a loira, surpresa. — É magia espontânea!

— Aqui a gente chama de esponta.

Esponta? — Perguntou Fjor. — É magia, é?

— Aham! Mas sem magos! — Disse a loira, maravilhada.

— Deixa a gente mais relaxada, mais engraçada… — Foi citando a morena — Mais bonita, até, não é amiga?

— Bota o mundo no lugar de novo, isso sim! — Falou a loira, voltando-se para o palco por um instante. — Uhul!

Fjor nem percebeu que sorria para a mulher à sua frente, cujos olhos negros já não brilhavam.

— É… Acho que isso vai ser bom pra mim. Botar o mundo no lugar.

— Então a gente vai ficar juntos? — Perguntou a morena, fazendo a loira virar o rosto, agora mais séria, para ouvir a conversa.

— Sim.

— Por causa do esponta ou por causa de mim?

— Os dois… — Fjor olhou para a mulher ao lado, e no encontro de olhares um acordo ia se desenhando, para a transparente felicidade de todos. — Pelos três…

***

— Então foi lá… — Disse Seimor, coçando o nariz. — Deve ter entrado no show da Camp… Não duvido que volte com alguém grudado no pescoço…

O condutor, um homem de sobrancelhas grossas acompanhadas por uma verruga no lado direito do rosto, o informara do lugar onde Beneditt pediu que ele parasse. Seimor, tendo a resposta que queria, começava a se afastar quando viu Leila saindo do hotel.

— Ei — disse, voltando-se mais uma vez para o cocheiro — vá até lá e espere ele sair. Não quero que ele arranje confusão lá.

O homem assentiu com um mexer singelo de cabeça e os olhos fechados. Voltou a andar rumo à última tarefa do dia.

— O quê? — Perguntou Leila, ouvindo parte do que Seimor dissera.

— O que quer?

— Por que você me fez líder, Seimor? — Perguntou ela, serenamente direta. — Você não me disse.

— O que você acha?

— Acho que está tentando me compensar. — Seimor desviou o rosto, desconsiderando a hipótese. — Se for isso, Seimor, eu…

— Não seja tola, Leila. — Interrompeu ele. — Acha que eu sinto remorso? Acha que eu me arrependo? — Ele gesticulava, apontando com as mãos abertas para cima em direção a si mesmo. — Você é muito dramática, Leila.

— Então por quê? Por que você me colocou como líder?

— Me responda você, Leila, até quando vai fingir que é só um apoio do Leo quando na verdade é a única que tem potencial pra muito mais nessa banda.

Leila, que percebera ter adotado uma postura ofensiva ao pressionar o agente, agora jogava o corpo para trás.

— C-como é?

— Boa noite, Leila. — Disse Seimor, passando por ela em direção ao hotel.