Desastre

Não havia um olhar que não vagasse pela sala sem rumo, sem porto seguro, evitando ao máximo o contato ao preparar-se em Neborum para o que viesse a acontecer — uma batalha de proporções inimagináveis ou um saudável acordo entre damas e cavalheiros, para o bem de todos.

Ramos, possivelmente por ser um dos magos mais velhos e mais antigos no Conselho, foi o votado para ir visitar o quarto de Dresden. Há horas que o castelo dele não estava mais visível, e tanto os sentinelas do centro de Heelum quanto os próprios funcionários do castelo do Conselho disseram não tê-lo visto sair. Preocupados, os magos se reuniram um dia antes do que foi combinado para a segunda reunião de Inasi-u-een e, votando por uma inspeção forçada do quarto do mago-rei, um deveria ser escolhido para ser o invasor.

A quietude sepulcral só perdia em tensão para o intenso barulho de vento do lado de fora dos castelos, trancados nos portões do pé à ponta com cadeados e trincos os mais sofisticados. Olhares cruzaram-se ainda mais assiduamente quando perceberam que o castelo de Ramos se aproximava, remexendo a grama apodrecida. Ramos entrou na sala de reunião com um semblante de paciente surpresa.

— … Ele está morto.

Silenciosamente exaltados, os magos aprumaram-se em suas cadeiras enquanto restabeleciam os pensamentos.

— O que fazer, agora? — Perguntou Saana.

— Primeiro temos que saber quem foi. — Disse o loiro e despojado espólico de Den-u-pra, Brunno. — Isso foi obviamente obra de um mago.

— Mas como aconteceu? — Perguntou Janar.

— Bem… — Disse Ramos, lembrando-se do que vira no quarto. — Eu não sei, ele… Estava deitado na cama. Não havia sangue. Ele não parecia ferido de modo algum.

— Ele já não era tão jovem… Podem ter sido causas naturais — Pensou alto Saana.

— A quem estamos enganando ou querendo enganar aqui, hã? — Disse Souta, ao lado de Igor. — Vocês sabem como ele foi morto. Ouviram a história também, não ouviram?

— Do que é que você está falando? — Perguntou Sylvie, de frente para ele.

— O roubo. Maxim, o vendedor de minérios da Cidade Arcaica, que foi morto também. — Alguns balançaram a cabeça, confirmando conhecer o caso perante o olhar inquisidor do espólico e seu escuro bigode de cerdas pontiagudas. — Pelo que encontraram quando o viram na loja dele, alguém deve ter levado alguns minérios de sete lados de lá…

— Achava que ele não os vendia mais… — Comentou Anke, passando as costas da mão pelo queixo.

— Então procurou por eles, Anke? — Cutucou Duglas.

— Você sabe… Temos inimigos. — Respondeu ela, levantando uma sobrancelha para o preculgo de Den-u-pra.

Ninguém mais falou. Ao longe, nenhum deles podia ouvir o som da carruagem, que se aproximava rapidamente. O condutor fez uma parada repentina em frente ao castelo, e Elton saiu de dentro do reboque, andando a passos rápidos em direção à porta do Conselho.

Passou por entre dezenas de castelos no idílico cenário de Neborum com uma velocidade tamanha que nenhum dos magos, intocados dentro dos respectivos saguões de entrada, puderam ver quem era. No entanto, sentiram quando um amontoado de terra elevou-se do terreno em frente a um dos castelos e forçou a porta para dentro com gigântica força, derrubando-a definitivamente.

Elton passou pelo pequeno morro de terra, parando em cima de seu cume no limite do castelo que estava invadindo, procurando pela alma adversária em um saguão escuro, iluminado por minérios de luz dourados em colunas cilíndricas. Estas abriam um corredor largo até uma outra porta, também dotada de trincos e cadeados.

O monte de terra no qual pisava revoltou-se e, num movimento surpreendentemente rápido, abriu-se e o soterrou, recebendo a adição de mais terra que vinha em lufadas sub-reptícias pela porta, fazendo-o rolar enquanto era englobado por todos os lados, impedindo-o de respirar. Quando ele abriu os olhos novamente, sentindo como se apenas um segundo tivesse se passado, irritou-se com toda a terra que permanecera nas pálpebras e cílios. Zonzo, viu que todo o solo que manipulou estava dividido em dois pequenos morros dos dois lados do saguão, no espaço obscuro para além das colunas.

Não teve tempo de considerar que o mago que ele invadia não deveria ser capaz de fazer aquilo. Tudo o que sentiu antes de ter seu corpo unido ao chão em uma simbiose gelatinosa foi a fria substância preta que emanava da mão de Desmodes.

— O que foi isso? — Perguntou Duglas.

— Entrou no seu castelo, Desmodes… — Disse Anke, com olhos fixos no mago de Jinsel.

Saiu de meu castelo. — Corrigiu Desmodes, devolvendo os olhares dos companheiros. — Fui me certificar de que não era um invasor.

— Isto pode ter sido obra de um filinorfo, não podemos descartar isso. — Disse Janar, apoiando Desmodes.

— Cerca de vinte magos como nós nesse prédio e ninguém viu um filinorfo?

— Não significa muito, já que eles podem tornar seus castelos invisíveis…

A porta se abriu e Elton entrou, com um rosto suado e duro como pedra em que desgosto e repulsa foram esculpidos.

— Chegou em má hora.

— O que houve? — Perguntou ele.

— Dresden faleceu. — Informou Ramos, em pé ao lado do recém-chegado.

— Não… — Disse ele, rapidamente, olhando para o chão. — Ora… Uma lástima, sem dúvida.

Depois do comentário minimalista e aparvalhado, foi sentar-se entre Sylvie e Peri, do lado da mesa voltado para o fundo do castelo.

— Se ele tiver sido assassinado, apenas um de nós pode ter feito isso. — Reiterou Brunno.

— Alguém pode ter adicionado o minério a um cantil fechado. Ele tinha um? — Perguntou Souta.

— Isso ainda não explicaria como esse alguém passou despercebido por nós todos. — Rebateu Duglas.

— Nossos funcionários estão sob rígido controle, mas quem sabe? — Prosseguiu Brunno.

— Eles nunca teriam acesso a um minério heptagonal… — Complementou Anke, distante. — Seria difícil…

— Desmodes pode ter tido interesse. — Disse Cássio.

Os pescoços voltaram-se novamente para a ponta da mesa oposta à vaga vazia do mago-rei.

— Por que eu teria? — Questionou Desmodes.

— Você tinha ideias de transformação bem radicais. Ideias que a gente sabe que Dresden nunca ia aceitar.

— Esse é um conselho deliberativo, Cássio. — Respondeu prontamente Desmodes. — Dresden escolhe, mas ele tem que nos ouvir. Eu iria apresentar a ideia à mesa. Seria estúpido assassiná-lo. Atrasaria meus planos.

— Que planos são esses? — Perguntou Brunno, debruçando-se sobre a mesa.

— Não é hora de falar de propostas. — Intrometeu-se Elton. — Temos que pensar na cremação e em eleições.

A sugestão pegou muitos de surpresa. A pergunta que surgia para muitos era qual seria, em tempos assíncronos, a real necessidade de pressa para as eleições.

— Dresden estava preocupado com o papel do Conselho. — Explicou Elton, olhando cada um dos magos nos olhos. — Hoje mais do que nunca precisamos estar unidos e organizados contra a ameaça que nos cerca todos os dias. Uma eleição rápida e a reunião de Inasi-u-een é o que Dresden iria querer se soubesse que seu tempo estava chegando ao fim. Depois podemos reiniciar as investigações quanto à morte dele. Amanhã mesmo podemos entrevistar os empregados. E não se esqueçam dos soldados lá embaixo.

Os magos deliberaram em implícita harmonia, murmurando concordâncias sem que alguém se arriscasse a dizer em voz alta o que fazer. Desmodes balançava a cabeça, comungando com a opinião geral. Olhou para Elton, que desviou-se para voltar a falar.

— Sugiro que votemos amanhã mesmo.