Ataque-me

— Eu já disse. Foi o Alex.

Galvino, Tadeu e Eva sentavam-se nas cadeiras prateadas, diminuindo a luz dos minérios vermelhos nelas cravejados. Tomavam desjejum em um quase-silêncio que se tornara regra nos últimos três dias. Tadeu suportou tudo pacientemente — não tinha outra escolha; o que quer que dissesse era encarado com desconfiança, e qualquer coisa a mais o denunciaria sem esperanças de recuperação.

Galvino abriu o pão de trigo e arrancou uma porção generosa do miolo amarelado com a mão, colocando no lugar um omelete laranja e verde, espalhando-o com uma colher. Tadeu balançou a cabeça para os lados; aquele era o dia em que deveria encontrar Amanda, mas ainda não podia sair de casa.

— Você não… Está nem ouvindo… — Reclamou Tadeu em baixo tom.

— Você viu o Alex? — Perguntou Galvino, ainda concentrado na refeição.

— Sim. Eu fui o único que vi porque vocês estavam preocupados em lutar

— E ele faria tudo isso apenas para irritar você. Correria tantos riscos, em um dia chuvoso, apenas para pregar uma peça.

— Ele já começou tudo mentindo pra você antes da chuva. Você não conhece ele, eu sei que ele faria isso.

— Eu conheço o pai dele. A família dele.

— Você é meu pai. — Comentou Tadeu, sem ter encostado um dedo em qualquer um dos alimentos à mesa. Eva comia pouco também, ouvindo a discussão com a já clássica apatia. — Se não confia em mim não deve ser confiável também…

Galvino não repreendeu o filho. Tadeu ainda pensara em perguntar por que o pai jantava com Barnabás antigamente de maneira tão frequente, mas concluiu que se o plano era desbancar a ideia de que tinha algum sentimento por Amanda, uma pergunta desse tipo não ajudaria.

Havia outras perguntas que ele preferia perguntar. Que provavelmente sairiam boca afora quer ele quisesse ou não.

— Para onde quer ir?

— Ninguém me disse como você estava dentro do meu castelo, mãe.

— Para onde quer ir, Tadeu? — Reforçou o pai, como se nada tivesse ouvido.

— O único jeito de entrar é pela porta, foi isso que você me disse, pai, e…

Galvino apontou para o filho com o dedo indicador firmemente ereto.

— Esta é a sua última chance. Para onde quer ir hoje à tarde?

Tadeu suspirou, evitando devolver o olhar frio do pai.

— Para a aula de cultivo.

Galvino voltou a se concentrar no pão, balançando a cabeça de um jeito sutil demais para que Tadeu entendesse a resposta.

***

A voz que pronunciava uma saudação elaborada morreu num abraço forte logo depois de surgir.

— … Você conseguiu vir! Eu fiquei com tanto medo, Tadeu…

— Eu também.

— Não sabia do que aconteceu com você depois, eu só…

— Eu estou bem. — Disse Tadeu, sugerindo que sentassem no chão. — Como você fez aquilo?

— Eu berrei. — Respondeu ela, rindo. — Eu não conheço nenhuma técnica, então… Eu só queria fazer alguma coisa louca para chamar a atenção.

— E conseguiu… Mas onde você estava?

— Do lado de fora, no lugar mais próximo da sala que vocês estavam, eu acho. Eu andei em torno da casa inteira até encontrar o seu castelo.

— E depois, você ficou… Normal?

— Não, claro que não! — Respondeu ela, enfatizando a afirmação com os olhos. — Eu acabei desmaiando, mas o condutor me achou e me trouxe de volta para casa.

— O que ele falou pro seu pai?

— Ele disse a verdade.

Tadeu continuou esperando.

— Bem, pra nossa sorte ele não sabia qual era a verdade, então… — Explicou ela.

— Mas e você, o que disse?

— Que eu fui atacada por um espólico, e que ele fez isso por diversão.

— Seu pai…

— … Ficou muito nervoso, é claro. Parece que ele fez uma ameaça para os espólicos que têm filhos em treinamento. Não sei ainda o que exatamente ele fez, mas… Ele ficou bem chateado.

— Deve ter achado que você não soube se defender.

Amanda deu de ombros, voltando-se para Nauimior com uma expressão menos divertida que antes.

— Obrigado. Você me salvou.

— Sim, mas e você? — Perguntou ela, chacoalhando a cabeça. — O que aconteceu?

— Eu disse que foi o Alex.

— Aquele idiota… — Comentou ela. Tadeu sentiu-se paradoxalmente bem ao ver o quanto ela parecia irritada. Afinal, ela havia se identificado com a raiva dele por um de seus amigos. — Seu pai acreditou?

— Não sei. Mas ele me deixou vir hoje. Não pude ir pra lugar nenhum desde aquele dia.

— Sério?

— Sim. Faltei a aula de tradição. — Amanda sorriu, querendo aproveitar para falar sobre uma das últimas aulas; ambos sabiam bem o quanto detestavam as horas gastas com os ortodoxos professores. No fim das contas, Tadeu já estava na próxima frase, e a ideia desvaneceu. — Nem para uma reunião que o meu pai marcou para mim ele me deixou ir.

— Que reunião?

— Parece que os bomins são responsáveis pela festa de Kerlz-u-sana.

— … A-acho que não… — Disse ela, estreitando os olhos. — Eu lembro de ter ajudado uma vez quando eu era menor. Só coisas pequenas, que eu podia fazer e quem era adulto não tinha mais paciência. Devem ser todas as tradições que são responsáveis. — Tadeu concordou com tímidas vocalizações. — Mas está um pouco cedo pra isso, não está?

Foi a vez de Tadeu dar de ombros, passando também a encarar o horizonte. Havia esperado por aquele momento, por aquela coleção inteira de momentos, que amarrava proximidade, carinho e intimidade. Mas algo o incomodava. Todas aquelas mentiras, todos aqueles segredos… Tadeu queria a calma do passado, mas conseguia no máximo ser tranquilizado por medidas cautelares no presente, e o futuro não era mais certo do que quando tinham apenas que se esconder sob a desculpa de plantas e raízes.

Amanda arrumou-se como se fosse deitar no colo de Tadeu, mas de última hora parou, olhando para o peito do namorado com uma expressão de incerteza. Ele, que esperava por ela, percebeu que havia algo fora do lugar.

— O que foi? — Perguntou ele.

— Tadeu… É que… Não, não é nada.

Desistindo de continuar aquela frase, Amanda se ajeitou de novo, ficando com os dois joelhos juntos em contato com o chão. Tadeu pressentiu que ela estava preparando-se para dizer algo importante — potencialmente polêmico — e, portanto, arrumou-se também, mais inquieto que ela.

— Amanda?

Estava vindo. Ele quase podia senti-la tremer.

— … É que… Não é porque o que eu fiz é necessário, que… Que tenha sido… Certo.

Mesmo depois de alguns segundos processando a mensagem Tadeu não havia entendido o propósito.

— T-tudo bem…

— Não, não está tudo bem, Tadeu. — Disse Amanda, com a postura desabando. — Eu te ataquei. Te invadi. Isso não é certo.

— Bom… As minhas portas já estavam abertas quando você entrou, então…

— Ainda estão, na verdade… — Comentou ela, baixinho, desviando o olhar.

Amanda! — Protestou Tadeu, chocado.

Desculpa! Desculpa, Tadeu! — Pediu ela, tão ou mais assustada que ele. — Desculpa…

Ele queria dizer que estava tudo bem, mas estava surpreso demais. Os dois continuaram se olhando, cobrindo-se com mantos de remorso. A cada segundo em que nenhum sorriso conseguia se libertar, parecia ser mais e mais difícil relaxar de novo.

— Tadeu, eu… Eu só quero que saiba que eu não vou mais fazer isso e que… Que eu quero que você me invada.

O mago bomin piscou uma ou duas vezes; balançou a cabeça a esmo, abriu a boca apenas o suficiente para que um quase som dela saísse, mas mesmo assim não conseguiu afastar a estupefação que o atacara.

— Amanda, isso não…

— É isso que eu quero.

— Amanda, eu não quero.

— Mas não é justo, Tadeu! — Argumentou ela. — Eu te invadi, você tem que ter a mesma chance!

Não! Você fez o q-que tinha que fazer, e eu faria o mesmo no seu lugar, e-e eu não quero te atacar!

Amanda desistiu de discutir, bufando com as mãos apoiadas nas coxas.

— E depois… O que é que eu faria com você? Eu não sei fazer nada.

— Sim, mas… — Amanda levantou a mão direita, fazendo-a voar indeterminada pelo ar até pousá-la de novo na perna. — Deixa.

Ela não voltou a se encostar nele, preferindo a parede consideravelmente mais sólida. Encarou o sol com um rosto que Tadeu estava cansado de decodificar. Seria raiva? Ou era aquela péssima sensação indefinida que ele sentia em relação a si mesmo que o impedia de achar coerentes aqueles momentos de silêncio?

— Amanda. — Chamou ele. Ela passou a olhar para ele. — Estamos fazendo a coisa certa?

— Sobre o quê?

— Nada vai acontecer com a gente?

Amanda desviou os olhos para baixo, de leve.

— Eu não sei. O Alex te viu.

— Meu pai ainda não tem certeza se foi ele quem me atacou.

— É. Isso quer dizer que, se o Alex contar a mais alguém, o seu pai pode ficar do seu lado achando que ele está indo longe demais com uma brincadeira ou — Enfatizou ela, pondo a mão no braço dele. — Pode ficar do lado dele.

— É… — Tadeu desviou o olhar, triste com a perspectiva que tinha para o futuro. Talvez aquilo estivesse se tornando perigoso demais.

— Se eu já soubesse fazer isso… Eu podia fazer o seu pai acreditar em você.

Amanda trazia no rosto uma arquitetônica decepção.

— Você… Você faria mesmo isso? — Perguntou Tadeu, indeciso quanto ao que pensar.

Seria aquilo um confortante desejo de um futuro melhor ou uma frustrada vontade de dobrar alguém a ela?

— É claro. — Disse ela, achando a pergunta estranha. — Isso é por nós dois, Tadeu.

— E você ia invadir meu pai?

— Você está… Defendendo ele agora?

Os dois continuaram se olhando, percebendo o abismo de incompreensão que se abrira entre eles. Tadeu ainda se perguntava se ela estava magoada.

— É só que… Eu pensei que nenhum de nós gostasse de usar magia. Eu acho… Meio errado.

— Mas é necessário, Tadeu. — Disse ela, baixando o tom de voz sem quebrar um constrangedor contato entre os olhos. — Se…

— … Você viu, Amanda, isso tudo — interrompeu ele, exasperado — está tornando tudo mais difícil!

— Não é culpa nossa, Tadeu!

— Mas… — Ele parou, ficando sem palavras.

— Tadeu, não fica assim… Você conhece a magia agora, você sabe do que os magos são capazes… Nós temos que proteger o nosso segredo.

Tadeu a puxou para mais perto, beijou-a com romântica simplicidade e a encostou no próprio peito, acariciando seus cabelos, que já estavam um pouco mais compridos do que o normal. Perguntava-se se ela os cortaria logo, ou se os deixaria crescer, como a maioria das garotas fazia.

***

O recente bomin chegou em casa com o máximo cuidado para não se atrasar. Tampouco queria chamar atenção; fechou a porta silenciosamente e subiu as escadas com cuidado. Estava prestes a virar à direita, em direção ao quarto, quando sentiu que alguém o observava.

— Oi, filho. — Disse Eva, de braços cruzados na base da escada.

— Oi, mãe. O pai já está esperando por mim?

Ela balançou a cabeça.

— Será mais tarde hoje. Como foi a aula?

— Foi boa… Senti falta dela.

— O que aprendeu hoje? — Indagou ela, levantando as sobrancelhas em expectativa.

— É… — Ele olhou para o esquerda, controlando seu nervosismo repentino. Não esperava por aquilo. — É… Foi… Alcaçuz.

— Alcaçuz? — Perguntou Eva, balançando positivamente a cabeça.

— É, em Inasi-u-een, ela é boa para…

— Tosse?

Mesmo já estando parado, Tadeu sentiu cada músculo do corpo paralisar de medo. A memória voltava como ferro quente, marcando em toda a extensão de sua pele o ardor da miserável queda inevitável. Já havia usado aquele mesmo exemplo, que há muito tempo Amanda lhe ensinara. A mãe não havia esquecido.

— Filho… Venha aqui um instante.

— Mãe, eu…

— Filho. — Interrompeu ela, olhando-o com uma expressão firmemente indecifrável. — Venha aqui. Comigo. Por favor.

Ele desceu as escadas degrau por degrau, segurando-se ao corrimão. Era necessário; não sabia se poderia ou não cair. Não sabia pelo quê esperar; por uma surra, ou por uma repreensão que chegaria aos ouvidos do pai — o repúdio por parte da mãe, que também era maga? A lentidão era sua forma de tentar enganar a morte, que o espreitava no fim do caminho. Escondida, longínqua. Mas anunciada.

Por que ela parecia uma brincadeira? Uma coisa que não podia acontecer com ele?

Eva o levou até a mesa da sala e o fez sentar na cadeira da ponta. Ela sentou-se em outra, próxima à dele. Tadeu não conseguia olhar para ela, e adivinhava que estava provavelmente pálido — de qualquer forma tremia, e começava a sentir gotas de suor por detrás das orelhas, nas axilas e nas pernas, fazendo a calça parecer mais apertada. Assustou-se quando a mãe segurou sua mão em cima da mesa, com um olhar doce de uma situação como qualquer outra.

— Filho… Se isso for verdade… O que Alex disse de você…

— Não é, mãe, não é… — Suplicou ele, sendo interrompido pelos olhos fechados de Eva.

— … Tudo bem, filho, mas ouça. Se for… Eu quero que você entenda os riscos que está correndo.

— O pai já me disse, ele falou que…

— Seu pai, meu filho, não soube explicar direito. — Disse ela. — Eu quero explicar para você. Se você for pego, é possível que você não morra. Seu pai não vai querer isso. Eu não vou querer isso.

“Talvez por isso ela não pareça real”, pensou Tadeu.

— Mas é possível que Amanda morra. É possível que ela morra por sua causa.

— Mãe, eu…

— Tadeu, me escute. Eu entendo como é. Não conseguir pensar na eternidade. Em coisas que são “para sempre”. Humpf… — Riu-se ela, olhando para o lado por um momento. — Quando eu aprendi a ser uma maga, eu… Usei muito a magia. Eu consertava tudo. Fazia tudo ser do jeito como eu queria.

— Eu não sou assim.

— Não foi o que eu quis dizer. O que eu quero dizer, filho, é que para mim era difícil entender coisas que são para sempre. Sempre foi difícil. Até eu ter você.

Tadeu olhava para os olhos ligeiramente marejados da mãe com uma atenção renovada.

— Eu sou sua mãe, Tadeu. E isso… É permanente. Nada nunca vai mudar isso, entende? Consegue entender?

Ele fez que sim com a cabeça.

— Agora imagine um fato como este… Que você não pode mudar, e é para sempre. Mas que seja ruim. E você se culpa todos os dias por ele.

Ele pensou em Amanda, e surpreendeu-se com o peso que viu, afiado, afundar em seu peito. Era como se estivesse jogando na lareira da sala onde tinha aulas com o pai todas as memórias que os dois tinham juntos. Aquele era um sacrifício que ele precisava fazer; era libertador, antes de sofrível. Era necessário antes mesmo de desejável, mas ele não se sentia mal.

Ele estava errado, afinal. A morte não esperava por ele. A vida esperava por ele. E isso era irreversível.

— Então, filho… Se você realmente a ama… Deve deixá-la ir.

Por rosanos se encontraram no topo de um morro que para ambos tornar-se-ia logo sinônimo de perdição. Por quanto tempo aguentariam? Quanto tempo até alguém descobrir alguma coisa e eles serem condenados? De que forma morreriam? Jogados ao fogo, degolados, envenenados?

— Na verdade, deve fazê-la ir.

Tadeu encostou a mão no pescoço. Tornou a olhar para a mãe, que desenhava círculos com o polegar nas costas de sua mão esquerda.

— Você sabe que é o certo a fazer. E você sabe como.

— Obrigado, mãe. — Disse ele, tirando a mão da mesa e levantando-se em um salto. — Fica tranquila. N-não precisa. O que o Alex disse é mentira.

E, ainda debaixo do olhar da mãe, subiu as escadas e correu para o quarto, sentindo-se ao mesmo tempo devastado e reconstruído. Fechou a porta e, ao olhar ao redor, tomou a decisão que sentia ser a única que os salvaria — mesmo à expensa de si mesmo, deles dois, e de tudo que já havia sido.