Lutar por alguém

— Você… Quer?

Tadeu imaginou que Amanda fosse ter paz ao satisfazer qualquer senso de justiça que ela havia desenvolvido ao invadi-lo.

— Não é o que você queria?

— Não, é só que não é o que você queria… — Respondeu ela, diminuindo a velocidade ao longo da frase.

— Eu só… — Disse ele, segurando as duas mãos dela com um um carinho que quase o fez hesitar. — Percebi que é o certo a fazer.

— Tudo bem. — Disse ela, parecendo ainda procurar por uma centelha de novidade em seus olhos, que não hesitavam. — Eu vou abrir a porta para você.

***

Quando Galvino chegou, Tadeu andava de um lado para o outro, visivelmente perdido em pensamentos. Ele poderia apostar que ele estaria em Neborum, mas achou uma aposta muito arriscada.

— O que foi, Tadeu?

— Oi, pai. Eu quero perguntar uma coisa.

— Você não parece bem.

— Eu queria saber se…

— Acalme-se. — Galvino levantou a mão, interrompendo-o, e logo transformou o sinal de parada em um convite para que ele se sentasse. O fogo ardia na lareira; ele não podia estar daquele jeito por causa do frio. — Pergunte.

— Antes de começar a aula eu queria saber se existe alguma técnica para fazer alguém gostar de outra pessoa. E se você podia me ensinar.

Galvino sentou-se em frente ao filho e, sem tirar os olhos dele durante todo o processo, respirou pesadamente antes de começar a responder.

— Existem… Muitas técnicas quanto a isso, meu filho, mas não vou lhe ensinar nenhuma.

— Por que não? — Perguntou Tadeu, franzindo o cenho.

— Você não está pronto. — Disse ele, fazendo cair o olhar do aprendiz. — Sim, Tadeu, essa é a realidade. Técnicas dessa natureza são complexas demais.

— Por quê? O que é preciso para dar certo?

— Não vou lhe dizer, Tadeu, não insista. — Reforçou Galvino. — Mas posso explicar por que elas não são simples.

Tadeu não piscava enquanto apertava uma mão com a outra, com os dois antebraços sobre as pernas.

— Pessoas que não são magas, Tadeu, e até mesmo os magos que não sentem a sua presença no castelo deles… Eles podem não lutar contra você enquanto você os ataca, mas não significa que sua técnica terá o efeito que espera.

— C-como assim?

— Você pode controlar as pessoas de muitas formas, Tadeu. — Galvino ajeitou-se, voltando a encarar o filho com mais proximidade. — Mas elas também podem resistir. Você pode tentar fazer com que eu sinta vontade de me jogar na lareira, mas não significa que eu vá fazer isso.

— Mesmo que você tenha vontade…

— Sim, mesmo que eu tenha muita vontade, eu ainda posso vencer se acreditar naquilo que eu penso.

— Funciona com todas as tradições?

Galvino meneou a cabeça, calculando as palavras.

— Sim… Você pode resistir a uma técnica preculga se acreditar no que você sente, e tudo aquilo que você sente e pensa pode fazer você resistir ao que um espólico queira que você faça. Tudo depende de muitas coisas. Depende do mago também. Da força dele, no caso dos espólicos, mas também da discrição, por exemplo.

Tadeu concordou, olhando para o chão. Quais eram suas opções?

— E não é possível mesmo fazer magia em si mesmo?

— Não, isso não é possível. Você sabe disso, não é assim que magia funciona. Magia acontece quando uma pessoa ataca outra. Isso é magia.

***

Tadeu passou pela porta de uma das largas torres do castelo de Amanda. O iaumo da garota fechou a porta com suavidade, e Tadeu não pôde deixar de olhar para as costas dele. Amanda estava reconhecível, mas diferente. Em Neborum ela parecia brilhar; parecia ser mais alta, ter um cabelo mais claro e uma pele mais limpa.

O saguão, ocupando toda a extensão e forma da torre, estava bem iluminado pela luz do sol que entrava pelas paredes. Nelas desenhos rudimentares se formavam com as divisórias de pedra entre pedaços planejados de vidro. Enquanto animais e formas humanoides eram representados nas janelas, um mosaico gigantesco e colorido de formas geométricas cercava a área de uma escada circular de corvônia.

Agora era Amanda quem o via, atônito, analisando com a boca semiaberta o trabalho meticuloso no interior do castelo. Ele se voltou para ela, que sorria.

Os dois ainda estavam de mãos dadas e o sol ainda não começara a se pôr; Tadeu não resistiu e beijou-a de surpresa, demorada e calorosamente, apertando sua mão por volta da cintura dela.

— Seu bobo. — Disse ela, risonha, ao afastá-lo gentilmente. — Ficou tudo tremendo lá…

Tadeu abafou um riso e voltou a observar a companheira no castelo dela.

— Sobe! — Disse Amanda, apontando para a escada. — Dê uma olhada… Eu vou ficar esperando.

***

Tadeu reencontrou, com a ajuda do condutor da família, a biblioteca que tinha visitado com Anabel. Entrou e varreu o lugar com os olhos, encontrando quem procurava. Aproximou-se dela no fundo do primeiro andar ao sentar em uma cadeira livre na mesa. A jovem, sem se assustar, simplesmente virou uma página do livro que lia, sem entusiasmo. Logo fechou-o de todo, olhando para o visitante.

— Oi, Tadeu. — Saudou-o Anabel, com um sorriso tristonho. — Como vai?

— Bem. — Respondeu ele, sem a menor preocupação de esconder a urgência da voz. — Eu preciso de você.

— O quê?

— Eu preciso da sua ajuda. Quero saber s-se você consegue fazer uma coisa.

— Fazer o quê?

— Uma técnica bomin de…

Sshh! — Disse ela, automaticamente procurando por alguém que tivesse acidentalmente escutado àquilo. Não havia ninguém perto o suficiente. — Fala mais baixo!

— Desculpa… — Pediu Tadeu. — Quero saber se você consegue fazer alguém gostar de outra pessoa.

Anabel entreabriu a boca, olhando com curiosidade para Tadeu.

— Gostar… Gostar como?

— Eu quis dizer… Amar.

— Hm… Por que você está perguntando isso pra mim?

— Porque meu pai não quer me ensinar e… Eu sei que você é mais experiente, então…

— Eu… — Começou ela, sem conseguir terminar o que quer que pretendia dizer.

Tadeu a olhava fixamente, como se esperasse dela uma decisão que fosse salvá-lo de uma doença.

— É muito importante, Anabel. Por favor. Eu sei que magos não costumam compartilhar as coisas assim, mas eu não vou usar isso contra você.

— É claro que não. — Disse ela. — … Você quer fazer alguém gostar de você?

Tadeu negou, olhando cautelosamente para os lados.

— Quero fazer outras duas pessoas se gostarem.

Anabel parecia julgar a questão internamente. Passou os dedos pela grossa capa do livro sobre a mesa, que ela acabara de fechar.

— Vai haver consequências, Tadeu. Sempre vai.

— Eu sei. Eu quero as consequências.

***

Amanda abriu os olhos, mas Tadeu continuava com os seus fechados. Era estranho, pensava ela, que ele ainda não conseguia fazer algo tão simples quanto simplesmente andar por Neborum de olhos abertos. Apenas para se certificar de que ele já tinha subido as escadas, olhou para o saguão. Não encontrou mais ninguém ali.

Ela suspirou enquanto esperava o fim da visita. Pensou que era curioso que não sentisse nada, mesmo sabendo que alguém a invadia. Nenhuma dor ou sensação estranha. Nem mesmo cócegas. Ou cólicas.

Tadeu, por sua vez, parecia estranhamente compenetrado. Engolia com dificuldade, e por vezes apertava os olhos, como se tivesse um pesadelo. Pigarreou uma ou duas vezes, e começava a apertar fortemente as mãos dela.

— Ai! — Reclamou Amanda. — Cuidado, Tadeu…

— D-desculpa… — Pediu ele.

Ela não disse mais nada, temendo atrapalhar sua concentração. Por que ele precisava se concentrar tanto, afinal?

Deixou sua cabeça vagar para longe daquilo; não adiantava pensar muito naquele instante. Mais tarde teria outra aula com o pai — e aprenderia a lutar. Se houvera alguma aula que ela tinha esperado não ter era uma daquele tipo; jamais se dera bem com o corpo em movimento e nunca se interessara por armas. Era um grande azar que os preculgos lutassem justamente assim.

A imagem de Jorge, grandiloquente e levemente ameaçadora, surgiu em sua cabeça. É, talvez o pai tivesse alguma reunião com ele ou algo do gênero, e a deixasse sem uma aula por um dia. Mas que diferença faria? Algum dia teria que aprender aquilo de qualquer maneira, ou jamais seguiria adiante.

Pensou logo em Gustavo. Em quanta sorte tinha por encontrá-lo. Ou, talvez, nem tanta sorte; ele não a estava ajudando muito ultimamente. Mas, por outro lado, por que precisava de sua ajuda? Gostava dele, independente de o quanto ele fosse útil ou não — talvez ele até voltasse para a cidade da qual tanto sentia falta, mas… Mesmo se o fizesse, ela ainda gostaria dele. E sentiria sua falta. Que ótimo seria se não precisasse senti-la!

Voltou a se lembrar da primeira vez em que o viu. Como ele foi solícito, ainda que intrometido, e como a honestidade dela acabou ferindo-o um pouco. Será que ele já havia se recuperado daquilo, e agora confiava nela? Amanda não queria perder sua confiança. Não, definitivamente não queria.

Sorriu, pensando que era realmente algo ter começado a se importar tanto com ele.

Abriu os olhos, percebendo com um constrangido susto que os fechara.

— Tadeu? — Perguntou ela. Ele continuava de olhos fechados. — Tadeu?

— Acabei. — Disse ele, de supetão, abrindo os olhos. — V-voltei pro meu castelo.

— Acabou o quê? — Perguntou ela, afastando-se dele.

— Eu não fiz nada, Amanda. — Defendeu-se ele.

— Não é justo, Tadeu! Eu disse a você o que eu fiz, e-e você me invade e…

— Eu não fiz nada, eu juro! — Amanda sentiu um arrepio ao ver a imagem de um Tadeu assustado. Ela o havia deixado daquele jeito? — Só caminhei pelo castelo, mais nada!

— Mas… — Dizia ela, percebendo o quanto ofegava. — P-por que você estava de olhos fechados, então?

— Eu… Não sou tão bom quanto você.

Ele a olhava como se esperasse por alguma reação; uma que ela não sabia corresponder. Forçou um sorriso e avançou em direção a ele, abraçando-o forte. Pôs a mão na nuca quente do rapaz, revisando a estranha experiência.

— É só praticar, Tadeu. Você vai melhorar.

— Eu não sei se eu quero melhorar…

O sorriso desapareceu do rosto de Amanda, que sentiu como se uma âncora a puxasse para do mar, arrastando-a por toda a cidade em direção à praia.

— C-como assim?

— Eu não sei se gosto de ser um mago, Amanda.

— Tadeu, isso é o nosso futuro. — Disse ela, voltando a segurar as mãos do namorado. — Isso vai ajudar a gente a sermos o que a gente quiser, porque…

— Menos um casal, Amanda. — Disse ele, quebrando com crueldade o pensamento de Amanda, que passou a olhar para ele com olhos assustados. — Podemos ser qualquer coisa, menos estar juntos, então…

Tadeu!

— … Se eu tiver que escolher entre ser um mago e estar com você, eu…

— Tadeu, não dá pra voltar atrás! — Ela o segurava pelos pulsos, chacoalhando-o. — E-e você tem que… Tem que abraçar a magia e ficar o melhor que você puder para que não controlem a gente e-e…

— Amanda, você não faria o mesmo por mim?

Ela parou de agitá-lo, percebendo o quão nervosa ficara. Ele a olhava com um rosto deprimido. Ela viu-se desviando o olhar, envergonhada.

— Tadeu, eu… Heelum é dos magos. Você tem ideia de como os que não são magos vivem?

— Eu sei. Muitos são pobres.

— Mas você não sabe o que é ser pobre, Tadeu…

Você também não! — Argumentou ele, aumentando o tom de voz.

— Eu sei, mas o que eu sei é que eu não quero ser pobre… Se nós não usarmos a magia em nosso favor, vai haver outros magos que vão usar, e nós vamos ficar para trás. Nós temos que fazer isso.

Ele deixou de olhar para ela.

— Tadeu?

Engolindo o choro que se aproximava com uma força monstruosa, o mago bomin balançou a cabeça e esfregou o nariz. No silêncio, prevaleceram os signos; ele a trouxe pra perto e a apertou, barrando as lágrimas com uma determinação que ele nunca havia sentido. Ele certamente entendera. Ele tinha que fazer aquilo.