Vencedor

O silêncio, artificial, era um bloqueio surdo e opressor dos sons que a cada segundo apertavam-se contra as orelhas de Lamar naquela noite. Kerinu encostava a palma e os dedos da mão nas costas e no braço do mago, respectivamente, e se antes eram completamente percebidos agora queimavam como brasa, alastrando pelo corpo uma sensação de dormência que Lamar interrompeu, mais uma vez assustado. Arrepios assentaram Lamar em si mesmo; a dormência sumiu como capa que se despe, e ele pôde ouvir de novo a voz de Kerinu.

— Lamar… Lamar!

Ele ainda não havia percebido que Lamar voltara. Passou alguns segundos fingindo se concentrar antes de perceber que não conseguiria mais nada naquele momento. Soltou os ombros, enfim, murmurando desculpas.

Kerinu saiu de perto, bufando depois de um silêncio curto. Lamar sentia-se frio. Abraçou-se enquanto olhava para o assoalho de madeira, tremendo de desconforto e vergonha. Sentava no chão. Vestia roupas verdes e velhas de Kerinu, que nele ficavam apertadas; pensava, contudo, que o objetivo de fugir não era ter conforto.

— Está pronto? — Perguntou Kerinu, voltando com um tom de voz controlado.

— Estou.

Lamar fechou os olhos e baixou ainda mais o pescoço. Sentiu Kerinu apoiá-lo nas costas enquanto sua visão ficava vermelha.

Contraiu o tronco pra frente, sem querer ou saber; Kerinu forçou o peito do mago para trás, segurando-o num equilíbrio forçado e difícil. Luzes, tontura, sons de ferro e fogo tomaram seu crânio de assalto. Procurou a cabeça com as mãos; encontrou-as e sentiu tanto alívio quanto Kerinu permitiu que sentisse — o mestre logo arrancou as mãos de lá com violência, e os mundos oscilaram.

Ele abria os olhos, piscando, mas via apenas escuridão. Mesmo sem enxergar intuía uma sala em expansão, com as paredes para todos os lados tornando-se mais e mais distantes. Via-se em um mundo gigantesco, escuro e solitário.

Seu corpo enrijeceu; já não tinha mais certeza se sentia mesmo seu corpo ou se olhava para mãos que eram suas de fantasia; meros brinquedos de verdade. Não sentia Kerinu ao seu lado, mas de alguma forma sabia que ele estava ali. Foi criando uma consciência cada vez maior, recuperando os sentidos, e a dormência tomou conta de um envólucro que ele sentia unir-se mais e mais aos próprios pensamentos tristes. Entendeu que fechara os olhos. Ao abri-los, recuperou a audição.

Só então ouviu que berrava a intervalos regulares, num lamurio urgente. Sua barriga fremia em espasmos no mesmo ritmo tresloucado do peito.

Kerinu se levantou. Lamar, caindo de lado, não conseguia ver a expressão em seu rosto.

***

A casa ficava perto das copas das árvores mais altas que Lamar já vira em sua vida; sequoias eretas como soldados destemidos. Mesmo feita com uma madeira feia e irregular a casa dava uma suficiente impressão de solidez. No chão havia minúsculos buracos e frestas em que se podia vislumbrar o verdadeiro chão, distante e cheio de folhas.

Não havia portas ou janelas; apenas lugares em que tábuas não foram postas. A diferença entre os cômodos era marcada por tiras de folhagens que balançavam quando alguém passava, devolvendo o distúrbio em leves cócegas, e aquilo que convencionou-se ser o quarto era atravessado do chão ao teto por um tronco de espessura média e textura doce.

Kerinu estava sentado em um canto, olhando para cima enquanto os dedos de uma das mãos massageavam os da outra. Lamar estava em frente a ele, inerte. Já havia dois dias que estava ali e o resultado era sempre o mesmo; tentativas fracassadas de chegar a Neborum.

Lamar se assustou quando ouviu um som esganiçado vindo do céu, parecendo terrivelmente próximo a eles. Quando o eco se acabou e a sombra do onioto passou, Lamar olhou para Kerinu com um sorriso conciliatório, buscando naquilo uma fatia de humor que fosse.

— Eu tinha me esquecido de como eles eram grandes.

— Lamar… — Retorquiu Kerinu.

— Eu acho que você não precisa ficar as…

— Você tem que fazer isso, Lamar… — Interrompeu Kerinu, apertando a testa com os dedos.

Lamar não sabia para onde olhar. Suava como se precisasse contar uma notícia ruim.

— Por favor… Por favor, Lamar, você tem que fazer isso…

— Eu estou tentando, eu juro que tento, mas…

— Não está tentando o bastante.

— Eu estou, Kerinu, é que…

— Você não pode nem dizer que eu não sei como é, porque eu sei… Você só tem que se entregar

— … E depois começa o horror de viver naquele lugar…

— Enquanto você pensar assim…

— Não é fácil para mim, nunca foi, e…

— Não vai ser fácil quando eu me arrepender da decisão da Myrthes, Lamar! — disse Kerinu, levantando-se abruptamente.

Segundos vazios seguiram-se à hesitação de Lamar. Kerinu deu uma volta no quarto, como se precisasse dar vazão com as pernas ao que pensava.

— N-nós somos amigos, Kerinu — começou Lamar — c-como você pode se arrepender d-da decisão da…

— Porque ela é MINHA IRMÃ, Lamar! Ela é irmã de um alorfo, você não entende? As coisas… — Ele apontava para si mesmo com mais tristeza do que raiva. — As coisas que eu faria por ela, você… Se descobrissem quem eu sou e quem ela é de mim seria tão fácil machucá-la para me atingir!

— E você não acha que eu sinto isso? Eu me preocupo!

— Enquanto você não souber se defender, Lamar, minha irmã não vai ficar em segurança.

Os dois trocavam meias certezas com peculiar fatalismo. Kerinu estava irredutível, e Lamar rendia-se de coração ao alto àquelas palavras. Lembrou-se de tantos momentos ao mesmo tempo que soluçou, os olhos enchendo-se de lágrimas numa pancada só. Kerinu fechou os olhos, irritado com a reação.

— Eu… Eu juro, Kerinu, eu…

— Não jure, Lamar. Só faça… — Respondeu Kerinu, voltando a se sentar no canto. Virou a cabeça e fechou os olhos, ignorando os outros sons na sala.

***

O sol já não estava mais tão baixo no horizonte de folhas quando os dois acordaram.

Nenhum deles descansou o bastante. Lamar esfregava os olhos enquanto Kerinu já enchia uma tigela com cereais frios. Sentavam no chão, meio distantes, meio próximos. A luz amarela entrava no quarto através de raios irregularmente distribuídos; a árvore ao centro do cômodo fazia dos feixes verdadeiras espadas de fogo.

Kerinu comeu com velocidade, e Lamar apressou-se para acompanhá-lo. Não se olharam ou se falaram; os sons da floresta lhes fizeram companhia por um tempo que esticava-se, modorrento. Depois que percebeu, com o canto do olho, que Lamar acabara, Kerinu foi até ele para recolher os recipientes. Logo voltou, sentando-se ao lado do aprendiz.

— Vamos lá. — Murmurou com objetividade Kerinu.

Lamar sentiu o cauteloso toque do alorfo em seu ombro e fechou os olhos, sentindo arrepios que ele já não mais sabia de onde vinham. Já estava quase indiferente a eles, de qualquer forma. Respirou fundo e deixou os ombros caírem, tentando relaxar o quanto pudesse, preocupando-se pouco com o próprio corpo.

Deixou de ver a negritude dos olhos fechados e passou a enxergar a cor de sangue, viva e quente. A mesma pressão nos ouvidos do outro dia selou sua audição, e ele a sentiu em seu corpo todo, horrivelmente forte, como se fosse puxado por cinquenta correntes. Lamar sentia sua pele sendo tragada cada vez mais para o fundo. Sua garganta se fechava, e alguém parecia apertar algo em seu nariz e seus olhos. Tentou apertá-los; acabou respirando mais fundo e ouvindo de algum lugar acima de si uma cristalina mensagem de esperança. Precisava deixar acontecer.

Kerinu observava com preocupação a respiração apavorada de Lamar, que vergara-se para trás como se esperasse eternamente por um espirro. Uma mão espalmou-se contra o chão em uma contração súbita.

Sua cabeça foi atravessada por uma dor lancinante, como se as correntes que o puxavam se concentrassem ali — em pressionar sua cabeça; em apertá-la, puxá-la, torturá-la. Depois que a dor passou, era como se estivesse dentro de um corpo novamente. Um corpo que parecia muito o seu. Estável e sólido como o seu, e não etéreo como o que quer que tinha sido até então.

Quando abriu os olhos, sentiu-os queimando imediatamente. A vermelhidão intensificara, escurecendo, e era tudo o que ele via; ao abrir a boca para expressar sua dor começou a sufocar com uma ânsia de vômito que nunca se realizava. Ele dizia a si mesmo que devia deixar acontecer, mas nada acontecia. Nem as lágrimas ele sentia mais.

Agarrou o pulso de Kerinu, mesmo sem saber. Abriu bem os olhos e, arrastando a garganta para formar um arranhado sussurro, clamou:

— A… Ajuda

Kerinu engasgou.

Em dois segundos já estava atravessando o corredor estreito de gramíneas que separava os dois castelos. Explodiu o portão do muro decadente de Lamar, e fez o mesmo com facilidade na porta, mesmo sem ser preciso; estava entreaberta, e com um estrondo abriu caminho, irrelevante.

— ONDE? ONDE, LAMAR? — Berrava Kerinu para um corpo que já não respondia com palavras.

Kerinu examinou o saguão de entrada e estava tudo no seu lugar, como ele se recordava de ter visto há apenas algumas horas. O salão era cinzento e pequeno — o castelo de Lamar em geral não era espaçoso. As colunas eram as únicas coisas limpas em meio a um caos de poeira e abandono, e no canto direito havia um amontoado gigantesco de terra contra a parede. Kerinu estava prestes a começar a procurar por Lamar em uma das salas do primeiro andar quando um pouco da terra caiu, rolando até o chão a partir de um tremor em toda a estrutura da pirâmide de gleba.

Kerinu olhou de novo, incrédulo. Mexeu-se, enfim, passando rapidamente a cavar a terra. Achou um indício de tecido; passou a cavar ainda mais rápido, achando enfim o rosto de Lamar.

Kerinu sentiu algo estranho e voltou à casa na árvore. Percebeu que acompanhava Lamar, que se levantara e agora cambaleava no mesmo lugar.

Lamar começou a libertar-se da terra e de raízes persistentes, fazendo força para sair de dentro da terra. Kerinu começou a ajudar enquanto, de volta à casa na árvore, viu que Lamar começava a empurrá-lo para fora da sala.

— Lamar! Lamar!

Kerinu tentava resistir, mas dividia sua atenção entre o corpo e o iaumo de Lamar, que tossia e esfregava freneticamente os olhos.

— Calma… Lamar, CAL

Não chegou a terminar. Lamar o fez atravessar os dois cômodos. Chegaram até uma área completamente aberta; uma espécie de varanda sem apoios, usada como via de acesso através de um pequeno elevador lateral. Lamar, completamente alheio, só parou quando perdeu contato com Kerinu, que caiu.

— LAMAAAAAAR!

Kerinu berrou de dor quando conseguiu agarrar algumas tábuas sobressalentes, ficando suspenso pelas mãos. Os galhos embaixo eram finos e raros demais para salvá-lo de uma queda brusca.

— LAMAR, VOL… LAMAAAAR…

Lamar andava de um lado para o outro, absolutamente tonto e com os olhos marejados. Tudo o que via era formas e cores que não faziam sentido.

— Lamar… — Ofegou Kerinu, com o corpo perpassado por calafrios. — Perdão…

Ergueu a palma da mão direita, projetando uma corda negra que voou em direção ao pescoço do mago aturdido.

Kerinu continuava pendurado na sacada, suportando a dor nas mãos e nos braços; já não balançava mais, mas não sabia quanto tempo conseguiria aguentar.

A corda girou o iaumo de Lamar e o levou em direção à parede, transformando-se logo em uma massa que o cobriu por inteiro.

Lamar parou de zanzar sem rumo no primeiro cômodo da casa d’árvore e, recuperando o tino, correu até a varanda. Desprovido de expressões ou palavras, começou a puxar Kerinu de volta pelos pulsos. Ele não era muito forte, mas Kerinu o obrigou a dispor de toda sua força.

Depois de um momento de adrenalina, estavam ambos com todos os braços e pernas seguros, descansando ao léu. Kerinu dissipou a corda que prendia Lamar à parede do próprio castelo e saiu dali, deixando de prestar atenção a Neborum completamente. Deixou que a bochecha ficasse encostada na fria e úmida madeira do chão e fechou os olhos. Sentia a própria respiração em uníssono com a de Lamar, que simplesmente olhava para o céu.

— Kerinu… — Disse ele, voltando-se para o lado. — Kerinu, eu voltei… Está tudo bem?

— O que foi, Lamar? — Indagou ele, sem abrir os olhos.

— Eu te… Eu te levo para dentro…

Lamar observou o corpo, olhando para os membros com indecisa vontade de agir. Não sabia qual era a melhor forma de carregá-lo, mas preferiu tentar levantá-lo pelos braços. Não conseguiu nada além de puxá-lo um pouco, o que foi o suficiente para incentivá-lo a se mexer. Kerinu levantou-se sozinho e, com Lamar o acompanhando, sentou-se no chão da sala com um tom semimelancólico no rosto exausto.

— O que aconteceu no meu castelo, Kerinu? Eu vi que eu saí de dentro de… Alguma coisa.

— Eu não… Consigo imaginar o que você sentiu ou viu, Lamar, eu… Não imagino.

Kerinu balançou a cabeça antes de continuar, ainda se recompondo.

— Você estava debaixo de um monte de terra. Sua alma. Um monte de terra. Por isso foi tudo tão… Ou mais… Difícil para você.

— Um monte de terra? Dentro do castelo?

Kerinu confirmou com a cabeça.

— Não sei como, mas você estava lá. Soterrado.

Lamar franziu o cenho enquanto olhava para os próprios pés. Não prestava atenção aos pelos que cresciam, desgovernados, ou às unhas completamente rosadas.

— Foi Tornero.

— O quê?

— Foi Tornero, ele… Na minha segunda aula em Prima-u-jir ele me visitou, e… Foi à aula e me atacou para que eu não notasse quem ele era e depois veio pedir que eu parasse.

— Que parasse de dar aulas?

— Sim, e-ele contou que me atacou e atacou os meus alunos, e… Eu lembro que ele disse que me soterrou… No meu próprio castelo.

Kerinu inspirou lentamente, deixando as pálpebras caírem sobre os olhos.

— Eu fui atacado depois disso. — Continuou Lamar, comprimindo a memória. — Mas foi tudo arranjado por ele. Devo ter sido deixado debaixo da terra de novo…

— Sim, você estava debaixo da terra.

Os dois ponderaram a situação por mais alguns momentos de paz após a guerra. Aquilo mudava tudo; Kerinu pensava em como pedir desculpas ao amigo por ter sido tão duro — embora não duvidasse de que se não fosse por isso talvez jamais chegassem àquele ponto. Lamar parecia poder perceber o vento passando por dentro dele, como se toda aquela terra na qual estivera tivesse sido retirada, deixando-o oco.

Deixando-o finalmente pronto.

— Ainda não consigo ver direito em Neborum, Kerinu.

— Confie em mim. — Kerinu esboçou um sorriso tremeluzente, ainda de olhos fechados. — Você vai ver.