Eleição

Os soldados foram organizados em filas, ainda que necessariamente tortas, já que de outra maneira não desviariam das barracas. As linhas de homens e mulheres sérios, com as mãos para trás e a postura ereta, convergiam para uma grande fogueira no meio do acampamento. O corpo de Dresden queimava sobre toras de madeira, e uma negra fumaça subia aos céus, rápida como neurótica fugitiva, juntando-se às nuvens amarelas que já populavam o firmamento e empesteando o ar ao redor. Dezenove magos estavam de pé em frente ao corpo, comportados enquanto a silenciosa cerimônia prosseguia. O calor das altas labaredas, no entanto, não impedia as reuniões que aconteciam a céu aberto em Neborum.

As quase duas dezenas de castelos estavam dispostas em duas fileiras, formando uma espécie de avenida. Para além de bosques cheios de flores esparsas e escurecidas ficavam os contornos difusos de centenas de outros prédios, formando a silhueta de uma gigantesca cidade da qual os magos se afastavam, preferindo aquele simulacro de uma pequena vila rural. Como sinal de respeito, não falavam enquanto o corpo queimava, mas como prova e requerimento de sincera abertura, conversavam entre si em pequenos grupos na terra em que não havia luto.

— Precisamos nos coordenar — Dizia Maya, em frente a seu castelo. — Onde está Elton?

— Resolveu ficar no castelo. — Respondeu Peri. — Disse que não estava se sentindo bem.

— Será que está envenenado também?

— Não, não é assim que funciona, Sylvie. — Disse Saana, olhando para o chão. — Quem morre por um minério morre sem dor. Morre rápido. Sem esperança de saber que precisa de uma cura.

— Não é tão ruim morrer assim, com calma. — Opinou Peri.

— E ela existe? — Perguntou Sylvie. — Há uma cura?

Saana voltou a sentir o calor da fogueira por alguns momentos, incomodada.

— Não.

O silêncio caiu sobre eles, num desconforto que queriam evitar a qualquer custo. Tinham braços cruzados e olhares vazios, desviados, que viraram-se ao mesmo tempo para a sombra que chegava rapidamente, transformando-se num segundo em Cássio.

— Olá. — Disse ele, não menos sério que os outros. — Estou aqui para tratar do nosso futuro.

— O agora já não é complicado o bastante? — Perguntou Sylvie, levantando as sobrancelhas.

— Infelizmente… Não. — Respondeu Cássio, chamando a atenção dos magos novamente. — Vocês têm que me ouvir… Desmodes não é minério que se esfregue.

— Acha que não percebemos isso? — Indagou Maya, olhando para os companheiros.

— Na verdade eu não percebi, não. Qual é o problema com ele? — Disse Peri, frustrando a maga que contava com o consenso.

— Ele veio me procurar, faz uns dias já. — Contou Cássio. — Disse que tinha um plano que ele ia apresentar a Dresden. Um plano para que nós nos declarássemos a Heelum, exigindo a obediência delas.

— Por que ele faria isso? — Questionou Eiji, fazendo a cabeça tremer em um balançar de confusão.

— Isto é estupidez, me perdoem, mas… Isso nos destruiria. — Disse Peri, pondo a mão no pescoço.

— Ele não acha. Olhem…

Cássio fez um sinal para trás com a cabeça e abriu um pouco de caminho. Os seis magos passaram a observar um grupo em frente a um castelo intensamente decorado com minérios de luz vermelhos. Era o castelo de Valeri. Além dela estavam lá Duglas, Janar, Kevin, Souta e Brunno; dispunham-se como numa mesa retangular, e em uma das pontas estava Desmodes, que falava com sua calma assertividade usual.

— Com aquele tom de voz… — Comentou Saana, atraindo olhares inquisidores.

— Ele é um espólico, então não temos que nos preocupar com ele alterando nosso julgamento. — Disse Cássio. — Precisamos votar em uma pessoa só. Nos concentrar e mostrar para os outros uma opção viável.

— E quem seria essa opção viável? — Perguntou Maya.

— Bem… Eu gostaria de sê-la.

Todos passaram se concentrar em Cássio, que devolveu gentilmente cada um dos olhares que buscavam vislumbrar nele um líder, como se perguntassem honestamente e sem ofensas se aquela imagem era factível. Antes que algum deles dissesse algo, Cássio abriu a boca, puxando ar para o que viria a seguir.

— Eu sei… Sei que é repentino. Mas isto é tudo repentino, não é?

— Cássio, não se faça de herói… — Disse Maya, entortando o olhar. Alguns seguiram seu exemplo, enfim expressando a desconfiança que por educação preferiram guardar. — Se formos lutar contra alguém, pode ser qualquer um de nós. Mostre-nos o que você quer fazer.

Cássio segurou uma mão com a outra, mexendo as bochechas enquanto pensava. Sentia a pressão de sessenta dedos sobre seu peito e doze olhares sobre seu rosto, todos prestes a julgá-lo por suas ideias.

— Bem, eu… Aumentarei a representatividade de cada cidade.

Maya estreitou os olhos. Eiji soltou uma risada que beirou perigosamente o sarcasmo, certamente adentrando o terreno da descrença.

— Está dizendo que vai trazer quantos magos para cá por cidade?

Cássio abriu as mãos para o alto, sinalizando indeterminação.

— Vamos discutir, meus caros… Quantos vocês querem?

— Não temos estrutura para isso… — Comentou Peri, preocupado.

— Sempre podemos reformar o prédio, não é? — Sugeriu Cássio. Olhou para Desmodes por um instante. — Não é como se fôssemos usá-lo como quartel general ou coisa parecida…

***

Na outra ponta do conjunto de prédios ficava um terceiro grupo de magos; reuniam-se em frente ao castelo de Anke, em que cada uma das torres parecia brigar com as outras por supremacia.

— Nunca gostei dessas reuniões em dias solenes. — Disse Ramos, caminhando até o círculo e assumindo um lugar entre Lucy e Igor. — Sempre achei um desrespeito, mesmo que os outros não vejam.

— Acredite, Ramos, isto é importante. — Ressaltou Anke, persuasiva. Olhou para Sandra, que se mostrava desanimada ao dirigir os olhos de brasa para o chão, pondo as mãos nos bolsos externos da longa capa alaranjada que vestia.

— Isto é sobre as eleições? — Perguntou Igor.

— Não… Não totalmente. Eu quero lhes dizer que eu tenho um conhecimento que pertence aos alorfos e aos filinorfos.

Sandra pareceu ficar imediatamente mais inquieta; Ramos, Lucy e Igor franziram seus cenhos de maneiras particulares, cada um deles ao mesmo tempo maravilhado e estupefato por aquilo.

— C-como você…

— Isto não é importante. — Interrompeu Anke. — O que é relevante é que eu consigo deixar os castelos de vocês invisíveis.

— E você quer fazer isso? — Perguntou Lucy, olhando para as redondezas primeiro.

— Eu acredito que consigo expor o assassino de Dresden.

Igor estancou seu olhar, não sabendo se deveria confiar na maga. O que ela propunha era difícil de acreditar para Ramos também, que não conseguia encontrar uma posição confortável para as pernas enquanto permanecia parado de pé. Sandra estava tão atônita quanto Lucy, que aproximou-se de Anke ao invadir o centro do círculo, fechando a mão ao redor do pulso da preculga.

— Você tem certeza? — Perguntou ela.

— Não. Estou sendo sincera. — Sublinhou ela ao ver os rostos de meia decepção. — Mas não posso fazê-lo falar se ele souber que está sendo vigiado. Preciso escondê-los.

— Quando quer fazer isso? — Indagou Sandra.

— Daqui a pouco.

— Acho que sei de quem estamos falando… — Disse Ramos, num tom de monólogo interno. Igor concordou com a cabeça e olhou para Anke, confirmando o plano. Depois foi a vez de as magas à direita, com a mesma ausência de palavras, dizerem sim.

***

A cerimônia há muito já acabara, e a tarde caía com peso. A eleição fora marcada para a noite, e Desmodes se preparava com cuidados que beiravam o ritual. Pôs a capa azul escura, a peça de roupa que faltava, e começava a abotoá-la em frente ao espelho quando Anke bateu à porta.

— Entre.

A maga esgueirou-se pela porta, fechando-a de novo em seguida. Vestia uma bela capa azul curta por sobre calças negras, chamando a atenção do espólico quando colocou-se em um ângulo em que podia ser vista.

— Você está usando azul.

— É. — Disse ela, com um suave dar de ombros. — Eu não me importo com as cores, na verdade.

Desmodes terminou e, considerando-se perfeitamente pronto para aquela noite, virou-se para a visitante.

— O que veio fazer aqui?

— Vim fazer uma pergunta.

— O que quer?

— Por que você matou Dresden?

Desmodes continuou olhando para ela, impassível, deixando o silêncio ditar a inação.

— Por que acredita que eu o matei?

— Eu sei, Desmodes. Não minta. O que pretende?

— O que você sabe eu também sei.

Um barulho à esquerda chamou a atenção da maga, que viu a porta se abrir. Ramos, Igor, Lucy e Sandra entravam na sala, enfileirados, sem qualquer expressão facial que denotasse medo ou pavor.

Anke viu, ao visitar Neborum, os castelos dos magos controlados aparecerem, um a um, como se um lençol invisível estivesse sendo puxado pelo ar, misturando-se ao belicoso céu arroxeado.

— Então você acha que é páreo para mim. — Disse Desmodes, começando a andar em direção aos magos, que se encostaram à parede em frente à cama.

— Desmodes, eu não sou… — Anke tentou correr em direção aos castelos, mas tudo o que viu foi uma grossa escuridão, impedindo-a de se mover. — Eu não…

Ele a impedia de falar. Anke sentiu um calor de revolta subir a garganta, uma coceira impertinente, mas não conseguia transformar aquilo em coisa alguma. Desmodes dava passos lentos com as mãos para trás. Parou quando chegou a Ramos, que olhava para frente sem parecer sentir coisa alguma.

— Você pode se juntar a mim, Anke. Me ajudar a construir esta Heelum que nós sabemos ser a certa. A Heelum que nós merecemos.

Anke não estava mais nervosa, nem mais sob o efeito da proibição de Desmodes. Sentindo que podia falar, recuperara a postura, tentando não se deixar abalar por ter sido desmascarada.

— Eu ainda penso que isto é loucura, mas… Posso colaborar com você.

Desmodes começou a fazer o caminho inverso. Começou a sorrir quando chegou perto de Anke o suficiente para encostar em seu ombro. Ela virou o rosto, apreensiva com o toque mecânico e sem vida, e quis que aquele pesadelo terminasse.

— Como você consegue controlar… Cinco magos… Como nós?

O sorriso de Desmodes transformou-se em uma expressão sonora de arrogante superioridade. Quando ele se virou para a porta a impaciência e a tranquilidade tomaram conta de Anke; um de cada vez, dividindo o segundo em que a paz perturbada durou. Num movimento ríspido e seco, Desmodes estapeou o rosto da maga.

Anke caiu na cama; não gritou, mas ouviu alguém grunhir, a solidariedade escapando ao domínio de Desmodes por outro segundo de liberdade. A bochecha ardia quando ela fixou-se de novo ao chão.

Mentirosa. — Disse Desmodes, olhando para ela com um ódio cheio de profundas raízes. — Você não terá opções. Não vou confiar em você. Em nenhum de vocês. — Completou, voltando-se para os outros. — Já está na hora.

Desmodes saiu do quarto em um passo apressado, e logo Anke começou a andar com as pernas que não mais obedeciam ao seu desejo de ficar.

***

A maioria dos magos já estava em seus lugares na sala de reuniões. Jogavam conversa fora: estavam preocupados com a alarmante proximidade dos seis magos que ainda não estavam ali. Cássio, em especial, visitou Saana em Neborum, que andava nervosamente no saguão de seu castelo. Perguntou se ela havia conversado com algum deles a respeito da eleição. Ela negou, também consternada. A espera continuou.

Os castelos começaram a se mover instantes depois . Desmodes chegou, sentando-se em seu lugar sem maior alarde. Logo depois veio Anke, e então todos os outros em um compacto grupo.

— Vamos, Ramos. Dê início à cerimônia. — Disse Elton, com uma voz de quase monotonia.

Ramos olhou para a mesa, parecendo desorientado. Tão sério e compenetrado quanto os outros que chegaram, espalhou pela mesa, com a hesitação, a insegurança da solenidade. Sentou-se no lugar de Dresden e, entrelaçando os dedos das mãos por sobre a mesa, olhou para o centro da longa tábua.

— Iniciemos a eleição. Quem deseja se candidatar?

Alguns segundos de silêncio contiveram o olhar que Cássio lançou a Desmodes, desafiador e imerso em despeito.

— Eu, Ramos. — Disse ele, bradando as palavras. — E acredito que Desmodes também.

— Você está certo, Cássio.

— O que aconteceu com o seu plano de fazer uma proposta a Dresden? — Perguntou Cássio, pendendo a cabeça para um lado ao fingir curiosidade. — Com todo o discurso de que matá-lo não seria útil para você?

— Dresden ter morrido foi uma fatalidade. — Respondeu Brunno, sentado à diagonal do primeiro candidato. — Mas nós não precisamos que outra pessoa implemente uma boa ideia para Heelum. Desmodes pode fazer isso.

Cássio balançou a cabeça afirmativamente, voltando a olhar para o oponente.

— Já vejo que fez boas alianças.

— Chega, Cássio. — Alertou Ramos. — Na condição de membro mais antigo e de maior idade, presidirei a eleição. Saana… Seu voto.

— Cássio. — Disse ela, sem pestanejar.

— Muito bem. — Confirmou Ramos, com a voz distante e cansada. Anke mordiscava a própria boca ao olhar para Desmodes. — Duglas.

— Desmodes. — Disse ele, sorrindo para a outra ponta da mesa.

— Igor.

— Desmodes. — Respondeu ele, tão desapaixonadamente quanto Saana.

Cássio esfregava os próprios joelhos por debaixo da mesa, respirando pesadamente.

— Souta. — Conclamou Ramos.

— Desmodes.

— Eiji.

— Cássio.

O candidato bomin comemorou com uma inspiração tranquila e um sorriso confiante, que Eiji devolveu de forma mais singela.

— Brunno.

— Desmodes.

— É claro… — Cássio ironizou, em voz baixa.

— Lucy.

— Desmodes.

Quando Ramos chegou à própria cadeira, que estava vazia, fixou toda a raiva, angústia e promessa de vingança que poderia fazer em Desmodes, pela primeira vez tirando o foco da mesa. Momentos depois engoliu em seco e, voltando a olhar para frente, simplesmente ditou o nome de Desmodes.

— Janar. — Prosseguiu ele.

— Desmodes.

— Desmodes.

— Voto em mim.

Cássio via-se em uma situação difícil. Com nove votos a favor do adversário e apenas dezenove votantes, precisava que todos votassem a seu favor. Naquele momento, sentia que seu estômago dava voltas aflitivas em torno da perspectiva de que teria Desmodes como mago-rei.

— Maya.

— Cássio.

— Anke.

Anke levantou os punhos cerrados mas não os bateu na mesa como dera a entender. Cássio fechou os olhos, pensando que aquela certamente não estava sendo uma votação justa.

— Eu… — Depois de um balançar de cabeça e um acalmar de mãos, olhou para o nada à sua frente e votou. — Desmodes.

— Sylvie.

— Cássio.

— Elton.

— Desmodes.

— Peri.

— Cássio. — Disse ele, abrindo as mãos. Via que alguns magos, de Brunno a Janar, passando por Duglas e Souta, sorriam, regozijando-se com o resultado e congratulando-se da maneira mais discreta que podiam.

— Kevin.

— Desmodes.

— Cássio.

— Em mim…

— Sandra.

— Desmodes.

— Valeri.

— Desmodes.

A partir da última resposta Cássio expirou, irritado. Não ousava olhar para Desmodes, mas não podia evitar os olhares vitoriosos de metade dos magos daquela mesa. Tinha a forte impressão de que nada ali havia sido justo ou positivo, e que aquela escolha lhe custaria caro — que custaria caro, na verdade, a todos eles.

— Robin não se juntou a nós nesta reunião. — Anunciou Ramos, finalizando a votação. — Como ela estava marcada, de qualquer maneira, ele perde o direito ao voto. Desmodes… — Ramos titubeou antes de terminar a frase. — … Você é o novo mago-rei do Conselho dos Magos.