O contrato

O tempo passava a machadadas no escritório ao mesmo tempo interessante e falecido. Sobre as paredes de um vermelho hipnotizante ficavam, pendurados em molduras escuras, documentos que descreviam sucintamente bandas que já passaram pelas mãos de Seimor. Serviam muito mais como borda para as assinaturas dos músicos em peças que deveriam orgulhar, mas conseguiam apenas assombrar de um jeito bastante peculiar.

Leila olhava para a frente, séria, enquanto esfregava a concavidade do braço esquerdo com a mão direita. Leo piscava, quase no ritmo dos segundos, pensando com desilusão no que acontecera na outra noite. Fjor cruzava os braços, isolado, largado, mal-dormido; Beneditt o acompanhava com misantrópico estilo, rançoso do mais prontificado sarcasmo.

Seimor entrou na sala, provocando uma série de pequenas comoções. Olhou criticamente para os artistas enquanto passava ao largo deles. Sentou-se, enfim, na poltrona confortável por detrás da mesa na qual tão displicentemente Leila prestava atenção. Uma vez em repouso, Seimor não ocultou que pretendia transformar seu olhar em instrumento de dor.

— Eu entendo que temos uma briga aqui dentro.

O agente procurou por confirmação, mas ela não surgiu nos longos segundos que se seguiram.

— O que está acontecendo? — Insistiu ele.

— Brigamos sim. Foi só isso. — Respondeu Fjor.

Seimor, que vestia uma espécie de capa marrom mal cortada, pôs os cotovelos em cima da mesa, afastando um bloco de goma escura bom de apertar. Assumiu uma posição pensativa, quase tão distante quanto os músicos — o que os trouxe mais para perto.

— Nós não esperávamos por isso. — Disse Beneditt.

Seimor concordou, torcendo os lábios.

— Vocês vão melhorar.

— Melhorar como? — Perguntou Fjor, arrumando-se na cadeira. Cruzou as pernas e, jogando-se para trás, sentia-se de alguma forma em um momento privilegiado. — O que você vai fazer com a gente?

Seimor lançou um olhar duro ao baixista.

— Vocês treinarão mais. Vou fazer mais ajustes em vocês.

— Eu não quero nada disso, sabe.

— É mesmo? Quer sair por aí, dançar? Se divertir?

— Não… — Respondeu ele, irritado. A pergunta atraíra olhares tortos. — Eu quero voltar a ser da banda Buscando. Quero voltar a fazer o rock pelo qual nós éramos respeitados.

— Você assinou um contrato, Fjor. — Alertou Seimor.

Eu não assinei. Leo assinou.

— Em nome de vocês, e portanto você tente nos abandonar e veja o que acontece!

— O que acontece? — Perguntou Beneditt.

Leila engoliu em seco. Leo girava o pescoço com frequência, acompanhando o debate. A conversa ficou suspensa pela pergunta de Beneditt; Seimor só se pronunciou depois de um tempo que serviu para acalmar os ânimos de todos.

Era como se inalassem camomila.

— Vocês… A banda Ponte Alta… Não podem… Abandonar a banda. A cidade. A vida que escolheram.

Beneditt ia a seu modo compreendendo, juntando pedaços que se encaixavam bem uns nos outros. Sentiu uma lufada inesperada de gratidão. Acompanhava bem a passividade em que mergulhava.

Franziu o cenho ao pensar naquilo. Por que deveria se sentir daquele jeito, se tudo estava dando errado? Os planos, a realidade; não sobrava nem um nem outro. A ideia de que tudo estava sob controle era falsa, e falso era também o sentimento que Seimor queria transmitir com atitudes medidas e palavras brandas. Não estava tudo sob controle. Estava tudo caindo aos pedaços.

Estranhamente, um olhar em volta revelou cabeças balançantes, conformadas com a aparência das coisas e com uma morna certeza de justiça. Em algum lugar no futuro.

— Agora… Quanto à apresentação. Vamos ter mais uma.

— Onde? — Perguntou Leo, parecendo mais animado.

— Em um lugar em uma jir no sul. Temos que ensaiar mais, então estou pensando que vamos ensaiar todos os dias, e…

— Seimor, por que… — Disse Fjor, inclinando-se para a frente.— … Você não desiste de nós de uma vez?

Leo e Leila se olharam, neutros, enquanto Seimor tentava entender a pergunta.

— Somos um fracasso. — Argumentou Fjor, com simplicidade. — Nós não fazemos o que você quer, resistimos ao que você manda. Não é mais fácil trabalhar com quem queira fazer isso?

— E vocês não querem?

— Queremos, Seimor… — Começou a dizer Leo o mais rápido que pôde.

— Não! — Interrompeu Fjor, lutando para ser ouvido. — Eu quero poder viver de música, mas da minha música!

— Então você acha — Seimor teve que mostrar a palma da mão a Leo, pedindo que parasse de tentar se explicar — que nada que eu falo tem valor, Fjor?

— Não, não é… Isso. — Fjor colocou a mão na cabeça, sentindo-se preso em um labirinto de palavras.

— Olhe à sua volta, Fjor. — Recomendou Seimor. Beneditt pensou que aquela era uma expressão retórica, mas mesmo assim olhou. — Esta sala está repleta de artistas que confiaram em mim, e hoje estão muito bem.

Crescia dentro de Fjor uma raiva — de si e de Seimor — que só tinha por par a quietude que sobre ele se abatia, abafando o fogo como se tentasse sufocar um ser imortal; uma luta da qual este não podia fugir, mas aquele não podia ganhar.

— Se eu preferia trabalhar com alguém menos arrogante que você? É claro. — Fjor teve sucesso em converter aguda irritação em sorriso culpado. — Mas vocês têm talento. Isso, acredite ou não… — Seimor virou-se para Leila, que desviou-se na direção de Leo. — É difícil de encontrar.

***

Era fim da apressada tarde quando Beneditt finalmente achou o que procurava. A casa de documentos não era muito distante do hotel, para onde foram logo depois da reunião. Ainda assim foi preciso pedir por direções para vários comerciantes até encontrar o antigo prédio amarelo e laranja.

A porta estava aberta, mas as janelas estavam fechadas. Minérios verdes pendurados em pedestais próximos ao teto eram os responsáveis por complementar a luz que vinha do lado de fora, já não muito útil perto do balcão. Por detrás dele duas mulheres trabalhavam, e uma delas ouvia o requerimento de um elegante homem negro, alto e de roupas azuis. Beneditt abordou a outra mulher, que nada fazia; loira, de envidraçados olhos azuis e um sorriso prestativo.

— Oi. — Disse Beneditt.

— Olá. Procura alguma coisa?

— Sim… Na verdade, e-eu não sei se você vai poder achar.

— O que é?

— É um contrato.

— De que tipo?

— Um contrato musical. Um que os músicos assinam com um agente.

— É um contrato de agenciamento. — Explicou ela, balançando a cabeça. — Se ele estiver em valência, ele está aqui.

— É mesmo? Eu não sei como isso funciona…

— É assim: se está tudo assinado como deveria colocamos o contrato aqui. Enquanto ele estiver aqui, ele é válido. Está em valência, como se diz. Se todos concordarem em acabar com ele, todos que assinaram têm que vir aqui e então ele é destruído. Então se o seu contrato for válido eu ainda vou poder achá-lo.

— Certo… — Beneditt pensou em algo que pudesse identificá-lo. Não sabia como catalogavam os contratos. — O que eu preciso te dizer para você achá-lo?

— Nesse caso, o nome do agente. — Respondeu ela, com o sorriso infinito. — E se ele tiver vários contratos, o nome dos músicos.

— O nome do agente é Seimor. E eu não sei como está no nome dos músicos.

— Por quê? — Perguntou ela, levantando-se da cadeira e girando o corpo levemente para trás.

— É uma banda, mas quem assinou foi o vocalista, ou… Ex-vocalista, então…

— Qual é o nome dele?

— É Leo.

— Leo. Volto já.

Ela passou por um batente sem porta a alguns pés de distância do balcão e fez uma curva, embrenhando-se no que parecia ser uma das muitas salas do lugar repletas de estantes nas quais papeis empilhavam-se, brotando e ramificando-se loucamente por seções, subseções e trechos que, ao crescer, tornavam-se selvagens e ininteligíveis.

Pensou, ao ver que alguns segundos depois ela voltava com um papel na mão, que talvez as estantes fossem mais bem cuidadas.

— Aqui está.

— Obrigado. — Disse Beneditt, pegando-o nas mãos com um apreensivo suspiro.

As folhas estavam unidas por um pregador metálico que o baterista arrancou em primeiro lugar. Contou rapidamente os papeis, e observou que havia mais folhas do que ele havia contado no dia em que vira o contrato. Olhou para a atendente, que levantou as sobrancelhas.

— Algum problema? — Perguntou ela.

— N-não. — Disse ele, voltando a atenção para o papel.

Passou os olhos por cima do texto. A primeira página era bastante similar àquilo que ele se lembrava de ter lido. A segunda também lembrava a primeira com bastante acuidade, mas a terceira fez da pulsação do músico um instrumento audível.

Em letras normais, misturadas entre os parágrafos normativos de praxe, estavam linhas que Beneditt jamais havia lido:

Os músicos não podem se separar da banda.

Os músicos não têm a palavra final quanto à produção musical.

O agente tem o direito de interferir na produção musical dos músicos.

— Você está bem? — Perguntou a mulher, preocupada.

Como Beneditt não respondia, ela com um olhar discreto chamou a outra, mais velha e menos sorridente, que pediu licença a uma mulher que estava prestes a atender.

— Qual é o problema, senhor? — Perguntou ela.

— N-nenhum, eu só… — Beneditt não conseguiu terminar de responder. Foi imediatamente até a última página para verificar a assinatura, e lá estavam as duas: a de Seimor e a de Leo, lado a lado como ele se lembrava de tê-las visto.

— O que foi? Há algo errado neste documento, senhor?

Não. — Respondeu ele, veemente. — Eu só estou… Olhando.

— … C-creio que o senhor já achou o que procurava, não é mesmo? — Sugeriu a primeira mulher, amedrontada.

— Não, espera…

Beneditt voltou a folhear o contrato, procurando por outras diferenças. Na oitava página, a penúltima, encontrou outras frases que não lhe eram familiares. Duas gritaram por sua atenção, fazendo com que seus ouvidos doessem em uma sintonia que logo o atingiria por inteiro, tirando-lhe as palavras para reagir às mulheres. O documento foi preso e, depois de um olhar protetor da funcionária loira, levado novamente para os escombros em que se escondera a liberdade da banda Buscando. Onde a própria banda se enterrara, deixando de existir para dar vida à Ponte Alta.

Enquanto a mulher mais velha pedia para que Beneditt se afastasse com um olhar acuado e uma grande palma da mão aberta, o artista só conseguia pensar nas duas frases que lera. Lera e ficaram gravadas em sua mente como símbolos e ícones; ele não conseguira sequer ler as determinações legais para si mesmo, imaginando o vulgar vozerio de Seimor reprimindo-o com elas.

Saiu da casa sentindo que estava no pior lugar para se estar. O som aos poucos lhe voltava, e então tudo fez sentido. Dos narizes dos guardas ao fedor árido das charretes, passando pelas roupas das mulheres aos olhares dos homens, sem curvas nem sombras.

Estavam proibidos de lutar. Proibidos de reagir. Desrespeitar qualquer cláusula do contrato lhes levaria à cadeia, mas Beneditt sentia que aquela não era mais uma consequência possível: era uma realidade que ele sentia na pele, no vento e na textura — na textura vertical daquele balcão onde o som se perdera.