A sala verde

Gustavo morava em uma região ao norte de Al-u-ber. Era preciso atravessar uma ponte de corvônia por sobre o Rio Trojinsel e continuar andando por alguns minutos em uma rua parcialmente sustentada por grossas colunas antigas. Abaixo da avenida elevada ficavam casas mais próximas à margem do rio, que descia abruptamente naquele ponto ao ficar mais próximo do mar revolto.

Amanda seguiu em frente, passando por restaurantes alojados em prédios de arquitetura semelhante à da ponte; blocos dourados constituíam as paredes e as colunas que, ao redor de todo um quarteirão, serviam como passagens sem portas. Entrou em uma rua à direita, logo depois de uma praça pela qual algumas pessoas de idade passeavam, com os olhares caídos e o andar precário. Amanda não se demorou ao observá-los, mas o fez por tempo suficiente para que um homem sem cabelo ou barba, com roupas azuis por cima da fina pele, balançasse a cabeça. Estava de braços abertos, os cotovelos enganchados em um banco de tiras de madeira. A maga apertou o passo.

Logo avistou a casa de Gustavo, uma residência que, embora simples, transbordava classe — elegante até mesmo no modo como humilhava a vizinhança com janelas meticulosamente pintadas de um vivo vermelho e uma bem arranjada alvenaria marrom.

Amanda abriu o portão de ferro, que deslizou suavemente pelas dobradiças negras. A frente da casa não era muito larga, e a proteção parecia meramente decorativa; as barras eram espaçadas e finas, sem pontas no topo que pudessem machucar um intruso. Ainda assim, havia um portão, e Amanda sorriu levemente ao terminar a divagação fechando-o novamente.

Aproximou-se da porta. Era escura e escovada, levemente envernizada, com uma maçaneta cúbica que fez Amanda levantar as sobrancelhas, impressionada. O único detalhe encravado na madeira com precisão e majestade era um opaco minério hexagonal — símbolo da medicina. Aquele era azul, e Amanda sabia o que ele fazia. Aproximou a mão dele, esperando que o frio daquele quase fim de tarde de céu sépia passasse, pelo menos em uma parte do corpo. Nada aconteceu, e ela voltou a cruzar os braços ao se lembrar de que o minério precisava ser rachado.

Vasculhou a área rapidamente, percebendo dois castelos ao todo: um próximo ao dela, que parecia ser o que ela vagamente lembrava do castelo de Gustavo. Outro, muito menor e mais longínquo, movia-se vagarosamente, quase saindo de vista no horizonte alaranjado. Olhou em volta e não viu coisa alguma se mexendo. Devia ser um transeunte; talvez até mesmo um dos idosos da esquina passada.

Amanda sentiu-se um pouco nervosa ao pensar que poderia acabar encontrando o pai de Gustavo mais uma vez. Balançou a cabeça, tentando fazer cair a própria agonia. Não havia por que ficar nervosa, afinal. Gustavo apareceu à porta depois que Amanda se anunciou.

— Oi. — Disse ele, apertando os olhos. — Não esperava ver você aqui.

— E você não viu meu castelo antes de abrir a porta? — Perguntou ela, sorrindo.

— Bem, na verdade… Na verdade sim. Mesmo assim não esperava ver seu castelo por detrás da porta.

— É, bem… Eu vim de surpresa.

— Como sabe onde eu moro? — Perguntou ele, em uma mistura de curiosidade e desconfiança. — Perguntou ao seu pai?

— É, perguntei. — Ela olhou para o lado de dentro, pensando que provavelmente admiraria mais o interior da casa do que o exterior. Contraiu os lábios e olhou para o mago com outro sorriso melindroso. — Não vai me convidar para entrar?

— Ah… Claro. Entra.

Amanda viu-se dentro de um cômodo que combinava com artística maestria luz e escuridão. A base de todas as paredes era coberta por tábuas uniformes de madeira escura; na parte de cima um amarelo decidido era adornado por pares de minérios verdes e beges que enchiam o teto com uma dança estática de paz. Havia uma lareira de corvônia que se destacava de uma das paredes, sem fogo. De frente para ela ficava um sofá da mesma cor da madeira nas paredes, e um tapete vermelho e caramelo seco e raso, mas cheio de motivos circulares e espirais.

— Esta é minha casa. — Disse Gustavo. — Eu gosto do teto.

— Eu também. — Respondeu Amanda, voltando-se para ele. — O que você estava fazendo?

— Ah… Lendo. Nada demais.

— Eu atrapalhei você? — Perguntou ela, preocupada.

— Não, não, de modo algum. — Respondeu ele, apressado. — Sente-se, por favor. Ângela vai trazer água para você…

— Não, não é preciso! — Disse ela, rapidamente, enquanto encaminhava-se ao sofá. — Ângela é… O outro castelo?

— Sim, se chamar aquilo de castelo… — Disse ele, com um sorriso de deboche que Amanda não conseguiu acompanhar. — Ela trabalha para nós.

— Não estou com sede, Gustavo, não precisa tra…

Era tarde demais, denotava o sorriso do anfitrião. Passos macios pelo corredor denunciavam a presença da Ângela, mulher magra cujo rosto de olhos e lábios grandes empalideceu assim que viu Amanda.

A empregada estancou no limiar da sala, surpresa como se visse um animal selvagem estirado no sofá, morto e dissecado. Amanda ficou apenas alguns segundos sem compreender que aquele profundo olhar castanho estava espantado. Uma onda de vergonha varreu seu corpo dos pés à cabeça, e ela se virou para a parede, analisando os minérios de luz com uma estranha sensação no peito.

Amanda ouviu Gustavo respirar pesadamente. Virou-se e, passando reto pelo olhar incômodo de Ângela, viu que ele a encarava de modo parecido, mas preenchido com uma espécie de indignada fúria. A empregada enfim despertou da própria expressão, largou o copo no sofá entre os dois e saiu da sala num passo apurado. Amanda teve que segurar o copo negro para que a água não fosse derramada quando Gustavo levantou-se de supetão, fazendo menção de ir atrás da empregada.

— Gustavo! — Chamou Amanda, fazendo-o parar e olhar para trás. — Não tem problema, olha, eu…

— Ela é uma IDIOTA! — Berrou ele, fora de si, passando a andar pela sala a passos largos. — IDIOTA se pensa que vai ficar assim!

Gustavo! — Amanda levantou-se e pôs o copo no console da lareira. Puxou o preculgo pelo braço e segurou-o, forçando-o a olhar em seus olhos. — Gustavo, deixa isso, não foi nada!

— Amanda… Me desculpe. — Disse ele, bufando para recuperar o equilíbrio. — Me desculpe…

— Tudo bem… Senta comigo no sofá.

Ele aquiesceu com um balançar de cabeça, apesar de olhares sugestivos que ainda lançava em direção ao corredor.

— Bem… Me desculpe mesmo, Amanda.

— Tudo bem.

— … Ahm… Já está ficando tarde, e eu não ouvi barulho de yutsis. Você veio a pé?

— N-na verdade vim.

— Por quê?

— Porque… — Ela parou, sem saber como dizer aos olhos prestativos de Gustavo que por alguma razão precisava falar com ele sem que seu pai ficasse sabendo. Sem que ninguém ficasse sabendo. — Eu não sei.

— Você está bem? É sobre aquele dia em que você estava mal?

— Sim, eu… Quer dizer, não… Tem algo que eu preciso pedir para você.

— O que é?

Amanda ajeitou-se no sofá. Queria poder bebericar um pouco da água, mas não quis levantar-se e ir até a lareira.

— Eu quero que entre no meu castelo.

Gustavo a olhou com surpresa similar à de Ângela, terminando a inspeção momentânea com uma risada seca.

— Você não está bem…

— Não, eu estou sim, é que… Eu posso explicar.

— Por favor, explique. — Disse ele, angulando o rosto em desconfiança.

— É que você é um mago mais experiente, e… Desde ontem eu me sinto realmente estranha. Eu deixei que um outro mago me invadisse, e ele me disse que não fez nada em mim, mas… Eu realmente me sinto estranha. Tenho pensamentos que não tinha antes.

— Que tipo de pensamentos?

— Eu… Não devo dizer. — Disse ela, fechando os olhos enquanto Gustavo começava a balançar a cabeça. — Mas por favor, Gustavo, você está nisso há mais tempo que eu. Não sei se eu poderia ver alguma coisa mesmo que estivesse na frente do meu nariz…

Eles se olharam por mais um tempo, e ele agora balançava a cabeça em uma direção diferente.

— É verdade. Não acho que conseguiria se tentasse.

— Por quê? — Perguntou Amanda, pega de surpresa.

— Veja, Amanda, seu pai provavelmente não te disse… Ainda… Mas nós não podemos fazer magia em nós mesmos.

— Sim, foi uma das primeiras coisas que ele me disse, na verdade…

— Sim, é claro, é claro, mas isso não é tudo. Mesmo quando nós olhamos dentro do nosso castelo, nós não vemos as mesmas coisas que outras pessoas.

— C-como assim?

— Você pode ver uma coisa, e eu posso ver outra. Você pode acabar identificando uma magia que eu não veria, mas eu também posso ver algo que você não veria.

— Entendo. — Confirmou Amanda, olhando para o tapete ao organizar as ideias. — Mas… Tudo bem. Eu ainda iria me sentir mais segura se você olhasse o meu castelo.

— Amanda… — Disse ele, com tom e olhar repressivos. —Você não pode sair por aí convidando magos para te invadir, o que aconteceu com você?

— Eu sei! — Disse ela, engolindo em seco. Seu coração estava prestes a pular da boca com aquele pensamento que não parava de lhe atravessar, cortando a própria liberdade pelos lábios. — Eu convidei você porque somos amigos!

Ele recebeu as palavras com mudo e contundente abalo; pasmo que não queria ser descoberto. Amanda sentiu fundo aqueles duros momentos em que ele nada disse. Ainda assim, foi ele o primeiro a quebrar o próprio silêncio.

— … Eu… Ah, tudo bem.

— … Mesmo? — Indagou ela, num quase sussurro.

— Sim.

O subsequente sorriso de Gustavo causou um sorriso duas vezes maior em Amanda, que inclinou-se para frente em rejubilante familiaridade.

— Posso? — Perguntou ele.

— Claro. Vou abrir as… Portas.

— Amanda… — Disse ele, antes que ela começasse a se concentrar. — Eu fico feliz de saber que nós somos amigos. Desculpe meu… Pequeno…

— Não tem problema. — Respondeu ela, fechando os olhos e perdendo, assim, um olhar contente do jovem mago.

Gustavo saiu de seu castelo, uma construção preta e de interior obscuro cujos muros, de similar negrume, eram quase tão altos quanto a própria torre principal, grosseiramente genérica e de sujas telhas vermelhas. Vestindo uma sedosa roupa verde, passava por um bosque onde esparsas árvores o impediam de ver com clareza os contornos do castelo de Ângela, à direita. Ao voltar-se para a esquerda, parou no meio do caminho ao ver um outro castelo.

Amanda abriu os olhos ao sentir que Gustavo saíra do sofá, indo até a janela que dava para a parte da frente de casa. Abriu as cortinas com violência, e do outro lado da rua viu um homem idoso de roupas azuis. Amanda, esticando-se por curiosidade, percebeu que era o mesmo homem que ela vira na praça.

— Quem é ele? — Perguntou Amanda.

— Ninguém. — Respondeu Gustavo, fechando as cortinas com outro movimento descuidado.

***

Aquilo tinha que funcionar.

Assim que viu o preculgo fechar as cortinas, Tadeu correu para a frente da casa. O senhor para o qual pediu ajuda continuava lá, encostado ao muro da casa à frente como se esperasse por alguém.

— Muito obrigado, senhor. — Disse Tadeu.

— Espero que ajude, meu rapaz. — Respondeu ele, com uma voz gentil e rouca.

O homem começou a se afastar, e Tadeu não parou de observá-lo até se dar conta, pela centésima vez, do que estava fazendo. Tinha certeza de que não podia abandonar a ideia, mas mesmo assim aquela era a coisa mais difícil que já fizera.

Pôs um pé em frente ao outro, quase esquecendo-se de como andar. Já era difícil o suficiente, afinal, controlar aquele batimento cardíaco.

Encostou-se com peso à murada acinzentada do vizinho da esquerda, longe do olhar da janela. Passou por um calafrio que o levou a uma terra ainda mais congelante do que a Heelum daquele quase fim de inasi-u-sana; via-se já fora do próprio castelo, escorado atrás de uma árvore retorcida.

Não perdeu tempo; calculando o cenário, correu por entre as plantas e chegou à porta do castelo que sabia não ser o de Amanda. Sem olhar para trás, viu que precisaria de muita força para derrubar a porta de mais de treze pés de altura.

Olhou para a própria mão. Sabia que o calor que sentia vinha da própria determinação, mas por um segundo conspiratório pensou estar sendo observado; olhou para trás, procurando nos agora mais esparsos carvalhos sinal de outro mago. Nada viu, e assim que constatou-se sozinho observou fragmentos do castelo de Amanda.

Concentrou-se no inimigo imediato. Sua mão logo incendiou-se, ardendo como ferida cortante. A dor logo passou e a chama trêmula construiu corpo, ficando cada vez maior e mais cheia. O bomin esticou o braço, impedindo que o fogo chegasse ao rosto — e ele diminuiu, acuado.

Tadeu suava demais; quis olhar para trás, mas concentrou-se na tarefa: não podia deixar que o medo vencesse.

Logo o fogo chegou ao nível que ele desejava. Estava pesado, difícil de manter, mas ele estava dando tudo de si para gerar aquilo — uma chance; uma solução acima de tudo. Por um momento achou que ia desmaiar, ou pelo menos cair para trás, mas conseguiu se equilibrar com passos vacilantes e, arcando o corpo para trás o quanto podia, jogou-se para frente, lançando a labareda contra a muralha.

A porta recebeu o impacto com dificuldade; as estruturas pareceram balançar e o fogo não se dissipou sem causar danos colaterais: porções cada vez maiores do portão viravam lenha, crepitando em estalos de absoluta rendição. Tadeu ria, neurótico, do espetáculo. Enquanto esperava que alguma brecha fosse aberta, olhou mais uma vez para trás.

Ninguém.

Agora não havia mais volta.

Avançou sobre a porta, já completamente em chamas, e chutou algumas largas tábuas. Abriu um buraco grande o suficiente para que ele se esgueirasse para dentro. Não esperou para se localizar ou entender o lugar; viu árvores em um pequeno bosque interno, e uma pobre porta entreaberta na qual Tadeu esbarrou ao entrar na torre principal.

Subiu as primeiras escadas que encontrou, que eram curtas e sem corrimãos. Chegou ao terceiro e último andar por instinto; suas pernas corriam usando seu cérebro para farejar o que procurava. Podia sentir a textura do papel novo, bem organizado e dobrado, e das molduras com cheiro de serragem.

Estava em frente à porta.

Tremeu para estender a mão até a maçaneta redonda e envernizada. Apertou-a com desproporcional força e jogou a porta para frente, abrindo-a com um empurrão nervoso.

Paralisou de susto. O que deveria ser um grito abafado transformou-se em uma respiração mal-sucedida, uma espécie de soluço incompleto.

Apertou os olhos, abrindo-os já no conforto do próprio castelo e, instantes depois, na pujante escuridão da noite iminente. Sabia o que tinha que fazer.

***

Amanda e Gustavo caminhavam por um corredor no segundo andar de um dos prédios que formavam o castelo de Amanda. Ele parou em frente a uma porta clara, de maçaneta e batente dourados, e ela o olhou com lúdica curiosidade.

— Nós já não… Passamos por aqui?

— Na verdade sim, mas eu ignorei esta porta. — Respondeu Gustavo, olhando para ela com particular interesse. — Deixei por último.

— Que sala é essa?

— Qual sala ainda não visitamos?

O sorriso de Amanda foi lenta e gradualmente desaparecendo, e no lugar dele surgiu uma desesperada, ainda que silenciosa, preocupação.

— Já que não achamos nada nos outros lugares, acho que se você realmente se sente estranha…

— … Gustavo… — Disse ela, baixinho, tentando interrompê-lo.

— … Então o que procura está aqui.

— Gustavo, não entre.

Dividindo a atenção entre a porta fechada e Amanda, Gustavo reagiu ao pedido com um sorriso machucado.

— Achei que fôssemos amigos.

— E nós somos! — Disse Amanda, chegando mais perto dele para agarrar seus pulsos. — Mas… Para sua própria segurança, acredite em mim… Não entre. Você não quer saber o que… Você não quer entrar.

— E você? Não quer?

— Quero, mas… Nesse caso não posso envolver você. Não mais.

A boca aberta indicava que ele queria dizer algo a mais, mas ela fechou-se instantes depois, aliviando-a imensamente. Os dois sorriram, constrangidos, e Gustavo afastou-se da porta, olhando para uma janela que mostrava intermináveis campos gramados em um céu quase completamente escuro.

— Gustavo, está ficando tarde. Eu preciso ir embora.

— Tudo bem. — Disse ele e, com um último sorriso, sumiu do castelo.

Amanda suspirou uma última vez ainda, olhando de relance para a própria sala verde antes de tornar a prestar integral atenção na sala da casa de Gustavo.

— Bem… — Disse ele num tom mais sério, já de pé em frente à lareira. — Já está ficando escuro mesmo. Você tem que ir.

— Sim.

Ela se levantou e, aproximando-se do anfitrião, não sabia o que deveria fazer. Não poderia abraçá-lo, embora certamente tinha vontade de fazê-lo. Queria pedir desculpas, mas não sabia se ele estava chateado. Como não tinha nenhuma resposta àquelas inquietações, apenas parou em frente a ele e, tentando ser clara quanto ao que sentia, seja com minúsculos vincos nas bochechas ou através da combinação entre posição das sobrancelhas e brilho nos olhos, sorriu antes de dirigir-se à porta.

— Amanda. — Chamou ele, antes que ela chegasse à saída. — Obrigado. Me desculpe.

— Não tem problema. — Respondeu ela. — Obrigada.

— Tenha cuidado.

— Terei.

E, com o clique da porta e o baque do portão, voltou às ruas de Al-u-ber, pensando que provavelmente chegaria atrasada para a aula com o pai. Apressou o passo, perguntando-se por que fora até lá em segredo. Respondeu a si mesma, com um calor simultaneamente reconfortante e amedrontador, que a resposta podia muito bem estar na própria sala verde.

***

Chegou enfim à mesma casa velha e deprimente em que estivera, para vergonha da moradora, há apenas alguns dias. Não ficava muito longe da modesta mansão de Gustavo, embora fosse necessário atravessar o rio de volta.

O bairro todo era feito de casas pouco caprichadas, mas aquela era diferente: memorável, mesmo em face de todos os problemas. Pequena e de estrutura torta, contava com dezenas de rachaduras na alvenaria coberta com uma forte tinta vermelha. As trincas tornavam-se ainda mais evidentes e grossas à luz de um minério verde-escuro do lado de fora, à esquerda da porta de madeira mal trabalhada.

Não foi preciso que Tadeu batesse nela. Enquanto pensava se deveria realmente fazer aquilo, Anabel a abriu.

— O que está fazendo aqui? — Perguntou ela, irritadiça.

Tadeu notou que ela vestia uma espécie de roupão felpudo esverdeado. Rendia-se a uma noite em casa — coisa que ele deveria estar fazendo ao ter aulas de magia com o pai. Já estava prestes a se atrasar. Não se importava mais.

— Eu sei do Gustavo.

O rosto da maga tornou-se impassível, e Tadeu sorriu com o susto que conseguira aplicar, ainda que involuntariamente.

— E-eu não sei de nenhum…

— Eu vi os retratos, Anabel.

Ela continuava com uma das mãos no batente da porta. Com o olhar vago e levemente lacrimejado, recuou um pouco para dentro de casa.

— Tadeu… — Sussurrou ela, triste.

— Você não precisa se preocupar. Eu posso ajudar.

Aquelas palavras foram acordando-a como água fria, com uma vivacidade que fez Tadeu ter certeza de que haviam finalmente entrado em sintonia um com o outro.

— Me ajudar?

— Sim. Eu posso explicar tudo. Me deixa entrar!

Olhando furtivamente para a rua, Anabel puxou o visitante para dentro de casa e trancou a porta.

***

— Gustavo! — Dizia Jorge, numa voz cheia de urgência.

O filho irritava-se com a demanda, nervoso como já estava. Andava de um lado para o outro no quarto de cortinas azul-claras fechadas, cheio de compartimentos, gavetas e portas de armários. Fizera algumas besteiras. Brigar com Ângela foi uma delas, certamente, e uma da qual poderia vir a se arrepender. Mas confiar em Amanda foi muito pior: deveria ter percebido que só havia um segredo do qual ele não pudesse participar em segurança. Uma porta que ele não pudesse abrir sem se arriscar.

Maldita.

Ainda não sabia, como se o resto não bastasse, como consertar a porta do próprio castelo. Via apenas pedaços cinzas largados ao chão, frangalhos do que antes era um grande e resistente obstáculo. Viu a porta resistir a algumas tentativas de invasão durante sua vida. Nenhum deles veio de alguém realmente competente, mas aquele incêndio deveria ter sido realmente grande.

— Gustavo! — Chamou o pai novamente.

Gustavo bufou e, batendo a porta ao sair, deu passadas ruidosas pela escada. Chegou na sala, e viu uma cena que denunciava o que estava para acontecer. O pai provavelmente passara algum tempo conversando com Ângela — que estava de pé ao lado dele, com rosto de quem foi ameaçado e sofreu a ameaça prometida. A mala que o pai carregava durante o dia inteiro ainda estava jogada no sofá, coisa que nunca acontecia.

— Que foi?

Jorge levantou-se e aproximou-se do filho, silencioso. Arranjou o punho da camisa que vestia; a capa já estava jogada no sofá, ao lado da maleta. Olhou para o rebento durante um segundo de terror e raiva, e esbofeteou-lhe na bochecha esquerda instantes depois de Gustavo ter visto nos olhos vidrados, cheios de pequenas veias ao longo do espaço amarelado, o desejo ardente de severamente punir.

Gustavo se desequilibrou, chocando-se com a madeira na parede. Seu rosto ardia ao ponto de fazê-lo gemer, e ele olhou com absoluta incompreensão para o pai.

— Seu idiota. — Disse o pai, impiedoso.

— Pai… — Disse Gustavo, conseguindo soltar-se da parede. Olhou para Ângela, que de cabeça abaixa simplesmente permaneceu em seu lugar.

— Sabe, filho… — Começou Jorge, voltando a se sentar. Gustavo não sabia o que fazer ou pelo quê esperar; permaneceu de pé, olhando para o braço do pai. — Se há uma coisa que eu sempre fiz é atacar meus empregados, ou quem quer que me servisse, para que eles acreditassem que me servir bem traria recompensas. E funciona, Gustavo! Não era sempre preciso dar uma recompensa, mas eu era tratado da melhor das maneiras.

— Pai, por…

— Calado. — Cortou Jorge. — Agora, filho, eu não sou como a maioria dos preculgos. Eles querem resultados rápidos. Mais eficientes. Mas, é engraçado, filho, são os que deixam mais rastros, e, no final das contas, é o que gera uma série de problemas, me entende? — Ele falava cada vez mais rápido, cortando fonema ou outro. Gustavo podia sentir seus pulmões contraindo no ritmo das palavras, sabendo que o pai estava apenas se aquecendo. — A maioria dos preculgos faz o empregado pensar que se não obedecer vai ser mandado embora.

— Ela estava sendo impertinente com uma convidada! — Disse Gustavo, empurrando a frase por entre os dentes, incapaz de entender por que o pai lhe batera em nome de uma mera serva.

— Que convidada, Gustavo? Anabel?

Gustavo engoliu em seco, esperando passar a tontura de entender o que se passava. Ângela levantou-se e, correndo tanto quanto podia, saiu da sala em direção à cozinha.

— Pai…

— Não apenas descobri que meu filho é um péssimo preculgo, mas através de minha cara Ângela — levantou a mão para ela, com um sorriso — descobri também que você anda compartilhando conhecimento com uma bomin.

— É mais do que isso, pai, você não entende…

— Não ENTENDO? — Descontrolou-se ele, levantando-se lentamente, num ritmo diferente do tom de voz bárbaro. — NÃO ENTENDO, GUSTAVO?

— NÃO, NÃO ENTENDE!

— Vamos VER se não entendo, Gustavo!

Jorge foi até o filho como uma charrete com a intenção de atropelar e agarrou-o pela camisa. Jogou-o contra a parede, apertando a palma da mão aberta contra seu peito. Gustava ofegava, confuso; logo viu que o pai havia laçado seu corpo no pequeno bosque do castelo sem defesa. Jorge, com um puxão de uma longa corda, jogou-o para o alto.

Gustavo viu o horizonte descer enquanto o vento passeava pelos seus ouvidos. Depois, começou a cair e, antes que entendesse onde estava, quebrou vidro e madeira. Embolou-se no chão, aterrissando sobre estilhaços e farpas. Procurou por um lugar seguro para apoiar as mãos e se levantar, mas o pai já o jogava para dentro de uma sala que ele acabara de abrir com um chute.

Não, pai! — Dizia Gustavo, choroso, enquanto o pai mantinha suas costas pressionadas contra a parede ao lado da porta.

— OLHE! OLHE para isso, Gustavo! — Dizia Jorge.

Estavam na sala verde de Gustavo, e ele podia ver agora toda a glória do trabalho que Anabel havia feito. Retratos dela, coloridos e precisos, por todo o lugar: mesas e mais mesas cheias de retratos entulhados sobre o tampo e por debaixo delas. Nenhuma luz poderia entrar pelas janelas, pois estavam cobertas por retratos. Apenas os minérios alaranjados nas paredes foram poupados da cobertura dos desenhos emoldurados em rosada madeira.

Jorge tirou a mão do peito do filho, que caiu para frente antes de voltar a se apoiar nos móveis da casa.

— Eu a amava, pai… Eu a amo…

— Não. Ela ama os magos preculgos. Ela precisava que você a amasse também.

***

— Eu e Amanda podemos continuar nos encontrando — explicava Tadeu — e você e Gustavo também. Nós temos um lugar que ninguém nunca descobriu, e se fingirmos estar juntos ninguém vai desconfiar de nada.

Era difícil para o jovem bomin entender o que Anabel sentia. Seu rosto estava estático, como se o choque da descoberta do amigo ainda não tivesse passado. Seus olhos, que o ouviam sempre de lado, não mostravam confiança. As mãos juntas sobre as pernas, paradas como se ela estivesse morta, tampouco ajudavam a entender o humor da menina.

— Podemos ficar juntos, então. Eu e Gustavo.

— Sim. Eu não sei se concordo com o seu método, Ana, mas… Eu vi que havia molduras que não eram rosas ali. Havia molduras de outros tipos também, d-devem ser as genuínas…

— S-sim. — Respondeu ela, com um curto e frenético balançar de cabeça.

— … Então vocês se amam também. Vocês merecem isso tanto quanto nós.

Anabel esfregou o roupão por um momento e, olhando para baixo, confirmou com um aceno tímido de cabeça.

— Tudo bem.

Ótimo!

— Mas deixe que eu falo com Gustavo. — Pediu ela, firme.

— Sim. É-é claro.

— Você tem que ir, agora.

Tadeu concordou e levantou-se num salto. Anabel o acompanhou até a porta, e o silêncio dos segredos perigosos que agora guardavam juntos estourava entre os dois. Despediram-se simplesmente ao trocar olhares cúmplices.

***

— Eu sempre expliquei, Gustavo, sempre disse o quanto devemos nos controlar. Tentei enfiar isso nessa sua cabeça. — Ralhava Jorge, andando de um lado para outro na sala. Gustavo sentava no sofá, as canelas cruzadas perto do chão, a cabeça pendendo em direção a elas. — Você tem muito a aprender, mas quero que saiba o quão desapontado estou com você… Você nem mesmo viu que esta bomin destroçou a sua porta!

— Não foi ela.

Jorge interrompeu a mão, que levava um copo até a boca, e olhou com preocupação para o filho.

— Quem foi?

— Hoje à tarde a filha de Barnabás veio aqui. Amanda. Eu confiei nela… Mas ela me disse que tinha um segredo perigoso na sala verde dela.

— Não… — Sussurrou Jorge, com o olhar perdido.

— Foi ela, pai. Ela pôs fogo à minha porta. Deve saber se duplicar, essa é a única forma, pai. Ela também está com um bomin, também tem aprendido coisas com eles…

Gustavo foi interrompido pelo som de Jorge chutando com força um dos pés do sofá.

— É a SEGUNDA pessoa que você confia e que não DEVERIA, Gustavo! Amanhã você vai até ela e vai forçá-la a dizer o que sabe. Entendeu?
— Ele fez que sim. — Temos que garantir que ela não vai dizer nada. Vamos fazer isso antes de partir.

Jorge amontoou mais um copo no console da lareira ainda sem fogo. Gustavo precisou de algum tempo para entender o que o pai dizia.

Partir?

— Vamos embora. De volta pra Den-u-pra.

NÃO! — Berrou ele, quase tropeçando ao levantar-se do sofá. Pretendia pedir ao pai que ficassem, mas Jorge virou-se completamente para o filho com um olhar do mais puro repúdio. — E… E Anabel?

— A essa hora… — Disse ele, com a sincera voz de quem não se importava. — Deve estar presa.