Refém

A charrete, simplíssima, descia as colinas suaves e convidativas a pequena distância do Rio da Discórdia. Os viajantes vestiam roupas ainda mais longas do que as esperadas na baixa temperatura: casacões negros e calças pardas, além de panos que cobriam a cabeça, deixando espaço para o nariz e os olhos.

Retornar à cidade de origem pela segunda vez era algo surpreendentemente novo. Desde quando voltara da vida que vivera em Kerlz-u-een já não via Prima-u-jir com os mesmos olhos. Não tinha os mesmos olhos; eles ficaram para trás. Tudo havia mudado. Da primeira vez, voltara com uma companheira e um filho, com um propósito oculto e com mais experiência. Era um ser novo em pele antiga.

Dessa vez era diferente. Voltava sem a mulher e o filho, mas com a ciência de que logo os sentiria mais próximos que nunca. Tinha também outros olhos, outra mente e um coração razoavelmente mais fibroso. Seu propósito era um só: sair daquela cidade e morar onde fosse aceito. Tinha que conhecer seus limites antes que pagasse um preço alto demais. Não tinha mais a família para a qual uma vez voltou — aquela se foi, decomposta por julgamentos e medos de toda sorte. Todo aquele bosque, todas aquelas jirs; toda aquela gente pouco significava agora.

— Para onde vamos? — Perguntou ele.

— Primeiro vamos fazer uma visita. — Respondeu o condutor, falando mais alto para que a voz ultrapassasse os panos ao redor da boca. — Descobrir se está tudo bem.

— Certo.

Lamar virou o pescoço para o norte, que expressava promessas e desafios com a ousadia dos invencíveis — como se, querendo pôr-se como prova à coragem do alorfo, punha-se entre ele e aqueles que ele amava. Roun, o sol, menos provocador, estava no topo dos céus, de onde logo desceria com moribundo conforto; entregava-se a Nauimior para que Heelum pudesse existir, e Lamar sentia-se grato. Em apenas cinco dias Inasi-u-sana chegaria ao fim e Roun se tornaria mais forte. A força não o impediria de sucumbir no fim do dia, é claro, todos os dias. Lamar esperava adquirir com o tempo aquele tipo de sabedoria, que ele não sabia explicar e dissecar, mas silenciosamente admirava.

***

A parte preocupante era estar no centro: Lamar poderia ser reconhecido e todo o plano cair por terra. Tornero e Byron poderiam aparecer a qualquer momento.

Mas isso não aconteceu. Cortaram caminho o quanto puderam por ruelas de pedra e às vezes mesmo puro chão batido: estranhos, certamente que poderiam chamar a atenção. A paranoia crescia, e alcançou um pico particular quando chegaram a uma esquina entre duas largas ruas. Kerinu parou a charrete em frente a uma pequena casa baixa, e os pelos de Lamar se eriçaram.

— Quem mora aqui? — Perguntou Lamar.

Kerinu desceu da charrete, e Lamar logo fez o mesmo. Checaram duas ou três vezes a retaguarda. Ninguém parecia particularmente interessado neles.

— Nosso contato. — Respondeu Kerinu, baixinho.

Seu castelo estava ali desde que chegaram, e a cada passo tornava-se mais vivo e presente. Lamar o enxergara rapidamente, logo voltando a se concentrar na curta caminhada até a soleira da porta. Demorou um pouco mais do que eles secretamente desejavam, mas alguém abriu caminho para dentro da residência.

Lamar a olhou como pôde com o rosto coberto. A mulher de cabelos castanho-escuros deixou-os entrar sem precisar pedir por segredos. Deslizou o corpo com pesada suavidade e fez um gesto bruto com a mão. Não os encarou; preferiu o chão.

Os visitantes ficaram parados na entrada da pequena sala. Havia apenas duas poltronas, e nenhum dos homens avançou sobre um assento. Não foi problema para Caterina, que sentou-se virando para eles.

— Caterina. — Disse Kerinu. — Este é Lamar.

Ela olhou para ele com muda e bela gravidade. Os barulhos da rua, que já não eram muitos, abafavam-se completamente dentro da casa. A poeira sonora começava a incomodar Kerinu, que olhou para o teto por um instante.

— Caterina… Quem está aqui?

— Ele está comigo. — Respondeu ela, fechando os olhos. Abriu-os novamente e, pondo os pulsos sobre os braços da poltrona verde-clara, balançou a cabeça negativamente. — Não quero envolvê-lo em nada disso.

— É justo. — Concordou Kerinu. — Aconteceu alguma coisa?

— Sim.

Lamar engoliu em seco, não sabendo se falavam em símbolos e expressões internas ou se havia realmente acontecido alguma coisa. Sabia que aquela mulher, que agora parecia tão abalada e inerte, ficara responsável por cuidar de Myrthes e Ramon por alguns dias antes de eles viajarem.

— O quê?

— Eu fui falar com ela porque um homem foi falar com ela antes. Um homem estranho, que eu não conhecia.

Kerinu levantou uma sobrancelha.

— Você sabe que não devia. Agora ela sabe quem você é.

— Não mais.

Foi a vez dela de engolir, voltando as atenções para Lamar.

— O que… — Começou ele, buscando confirmação em Kerinu. — O que está… ?

— Ela morreu, Lamar. Me desculpe.

— Caterina… — Interveio Kerinu, como se ela tivesse dito algo fora de contexto.

— Ela se foi. — Insistiu ela, com simplicidade.

Kerinu arqueou as sobrancelhas. Ela não voltou atrás.

— Mas… — Disse Kerinu, estupefato — C-como, o-o que…

Pouco a pouco sentia a falta de resposta à pergunta que não foi feita, e uma revolta contra aquele silêncio maldito crescia em seu estômago como um turbilhão enquanto Caterina batia nervosamente com os dedos indicadores na poltrona.

Lamar estava paralisado, sem fazer qualquer esforço que não fosse o de se manter em pé. O que foi que tinha acabado de ouvir? Era o barulho dos passos nervosos de Kerinu no espaço diminuto atrás de si ou o olhar cirúrgico daquela mulher odiosa à sua frente?

— Caterina, o que… Quem… — Dizia Kerinu, alternando perguntas e respirações. — Quem fez isso, Caterina?

— Foi Tornero. Ele pôs fogo à casa na noite anterior à viagem deles.

Caterina não mexia mais os dedos. Olhava incisivamente para Lamar, que mantinha os braços presos ao tronco e nada mais.

— Caterina… — Começou Kerinu, parecendo mais controlado. — Eu… Eu preciso de um… Preciso ir ao banheiro. Pode me dizer onde fica?

Caterina moveu os olhos, brusca. Balançou a cabeça efusivamente e apontou com o dedo indicador uma porta à direita.

Kerinu observou o caminho. Pediu a Lamar, quase sem olhar para ele, que não saísse dali. Também ouvia pouco além das próprias batidas aceleradas no peito.

O corredor que Kerinu adentrava era baixo e pouco largo. Amarelo do início ao fim, perdera a única esperança de transmitir alegria ao invés de repulsa quando foi projetado sem janelas. Logo no início uma porta singela dava para o banheiro.

Sem querer apostar no acaso, vasculhou-o; não encontrou nada. Havia ali um pequeno baú de roupas, duas jarras de água feitas de barro, um minúsculo espelho torto em cima de um prato fundo sobre um suporte metálico e a tampa cinzenta de uma latrina. Mais ao fundo, uma enorme tina metálica que não conseguiria esconder ninguém.

Kerinu deixara a porta aberta, segurando-a com a mão enquanto investigava o cômodo. O banheiro tinha apenas duas aberturas — a própria porta e uma para cima, o que fazia com que a luz dourada invadisse indiretamente o recinto. Curioso, o alorfo esticou o pescoço para conseguir ver algo do telhado, mas nada viu de concreto.

Sabia que o castelo estranho não estava tão perto, de qualquer maneira.

Fechou o banheiro e voltou ao corredor, avançando sem pudores em direção à última porta. Por ali entrava outra porção de claridade, fragmentada e lúcida.

Virou-se de pronto, jogando o corpo contra a porta aberta encostada à parede. Os cantos do quarto, de corvônia, enquadravam de maneira bizarra paredes de madeira pintadas de azul-bebê. O armário, logo à direita, e a armação da cama, logo à frente, eram puro marrom. O juiz do jogo horrendo de cores era a janela pastel de comum paradigma quadriculado voltada para a cama. Sem cortinas, deixava ver um estreito corredor sem teto que fora bloqueado pela casa ao lado, uma construção muito maior. Do outro lado da área aberta, uma porta para a cozinha.

Kerinu, com os olhos vidrados em adrenalina, não conseguia ver nenhum movimento estranho, sombra suspeita ou respiração abafada. Afinava todos os sentidos. Não deixava o saguão de seu castelo, e adicionava mais trancas ao portão principal, fazendo-o balançar com leves estrépitos.

Deu um passo para trás e agachou-se, olhando por debaixo da cama. Não havia ninguém. Levantou-se, ligeiro, e permitiu-se olhar para fora da janela. O outro castelo, de tamanho mediano, continuava ali. Logo à frente. Tão próximo que seria um erro considerar aquilo um acaso.

Tinha que ser a janela.

Kerinu avançou; um, dois, três passos, a cada um deles virando o pescoço. Nada se movia, nada vivia; nada era tão ameaçador quanto aquela presença estranha, aquele corpo incômodo, a única chance de explicar aquela loucura.

Ao chegar aos pés da cama e ser capaz de enxergar a maior parte do pequeno pátio externo, viu o castelo se afastar levemente.

Virou-se tarde; a porta do guarda-roupa se abriu com um grito comprido e de lá saiu uma espada que, passando rente ao corpo esquivante de Kerinu, quase lhe tirou o dedo.

Tudo agitou-se dentro do castelo, com os limites e os tijolos misturando-se em um flácido baque. O alorfo rolou para o centro do saguão, assustado com a força do impacto sobre o portão; viu o mundo todo inclinar-se tortuosamente enquanto era encurralado no quarto de Caterina, onde a ponta da lâmina aproximava-se do peito de Kerinu enquanto os olhos encaixotados do inimigo faiscavam.

Kerinu avançou à direita para tentar escapar ao golpe, mas sofreu um longo e ardido corte nas costelas; caiu com um giro por sobre a cama. Um segundo mais tarde via a mesma lâmina, sedenta, preparada para descer-lhe outro golpe.

Com um gemido retesou o corpo e chutou o homem para o canto. Rolou para o chão, sentindo os cortes se abrirem mais um pouco quando agachado; o inimigo ficou desorientado ao bater na parede. A espada pingava sangue no chão, desleixada.

Kerinu levantou-se em uma explosão de raiva e prensou o nêmesis na parede. Voltou a Neborum, onde percebeu a pressão que a porta recebia. Correu para lá e encostou as palmas das mãos na parede à esquerda da entrada sob ataque; optava por uma tática arriscada.

Num momento de confusão e medo os corpos tontos digladiaram-se; um queria libertar-se de um julgo pífio para usar a vantagem da espada, enquanto o outro tentava ganhar tempo, sem estratégia. Kerinu afastara-se o mais rápido que pôde com o tronco para dar um soco no rosto do outro mago. Dois socos depois e já o segurava com a mão esquerda pelo ombro. Um soco depois e ficou lento demais; o ferimento e o despreparo atingindo-o com força.

Abriu os olho para Neborum, e viu que integrava-se com sucesso à parede do próprio castelo, o corpo derretendo-se nas extremidades e deslizando para o muro obscuro que o envolvia em frio, grandiosidade e onisciência. As pancadas e chutes decididos que o invasor lançava aos portões do castelo passaram a ser verdadeiras estacas no abdômen; resistiu ao contrair-se por inteiro.

Via agora a face do inimigo. Os lábios tremiam, deixando a boca entreaberta; sua barba suja se projetava, sua sobrancelha desalinhada arrepiava-se e as notórias orelhas permaneciam ali, fazendo nada. Kerinu estava preso à imagem deplorável do agressor que lhe cortara parte das costas com a espada na mão direita.

Rouguer arrancou a espada com rispidez para trás, fazendo Kerinu cambalear. Chutou o alorfo, que caiu de costas.

Kerinu entrou em pânico ao pensar que não podia respirar daquele jeito. Devia se controlar, acima de tudo se controlar. As costas ficavam cada vez mais molhadas em rubro desespero, passando a palpitar em contrações fora de ritmo quando a cabeça de Rouguer apareceu em meio ao teto negro e alaranjado. Kerinu balançava a cabeça, sentindo frio, agonia, ódio; raiva, tristeza, incerteza; acima de tudo, seus braços.

Rouguer levantou a espada e tentou enterrá-la sem misericórdia no peito do mago caído, que reuniu o que lhe restava de força e jogou os antebraços para a esquerda, defendendo-se da espada. Rouguer, bufando de raiva, logo se arrumou para terminar a tarefa, mas Kerinu aproveitou a deixa e, num esforço, chutou a canela firme do inimigo.

Rouguer caiu por completo, perdendo o equilíbrio; cego de raiva, ficou no chão por tempo demais. Expulsando o ar dos pulmões com força, Kerinu tateou pela guarda da espada que caíra entre eles.

Rouguer se aprumava mas, de cócoras, conseguiu apenas se esquivar de um ataque aleatório do alorfo. Kerinu não conseguiu se levantar quando tentou se apoiar no cotovelo esquerdo, com a espada na mão direita voltada para o chão, e ao cair viu que Rouguer já se avolumava junto a ele para recuperar a arma.

Em um suspiro que julgou ser seu último esforço, usou a espada como uma adaga.

Arregalou os olhos enquanto assistia, com a mandíbula suspensa, a vida quente verter do pescoço torto de Rouguer. Ele tremia, desfalecendo por etapas. Kerinu viu o tempo perder o sentido dentro de olhos cheios de rancor e desespero. Ainda apertava o cabo da espada com força quando pensou que já não olhava para pupilas animadas.

A dor aumentou, vingando-se de Kerinu por tê-la ignorado. Quando julgou não sentir mais resistência alguma deixou tudo de lado, caindo em cima do peito do corpo morno.

Sentia ainda os batimentos fracos e frementes de um coração abatido. Seu castelo devia estar desaparecendo em chamas ou na bruma, mas também o próprio devia estar. Não tinha certeza, uma vez que não conseguia ver Neborum. Nem desejava.

Ouviu passos. Revigorou-se com os sons, mas não conseguiu reunir forças para ver quem estava ali.

Não!

Ele sentiu a mão de Caterina tocar-lhe o rosto e virá-lo; engoliu e sorriu, ignorando todas as dores que o atacavam como unhas escavando suas entranhas.

Caterina olhou por alto o ferimento que Kerinu não conseguia avaliar e foi embora. Kerinu fechou os olhos, começando a sentir uma quantidade confusa de pontadas e repuxões.

Fechava os olhos para não abri-los mais. Pensava em Myrthes. Em Ramon, que há tempos não via — deveria estar muito maior, já. Do tamanho de uma árvore velha. Ou não… Menor, um pouco menor que isso. Sorriu.

Pensou em outros amigos e companheiros, de luta e de vida, de infância e de amor, de casa e de família. Dos pais aos primos, dos próximos aos distantes. Tentou revisitar cada lugar que um dia importou. Sentiu o pescoço tremer, e o sorriso foi vencido pelo medo.

Relembrava cada momento de solidão e decisão. Cada vez em que se questionara se estava fazendo a coisa certa, e cada desagradável momento que, se não destruía a dúvida, aplacava-a com ponderação equilibrada que tornou-se, um dia, insuportável de ignorar. Aquilo não podia ser só uma opinião guardada e escondida. Seria sua vida ou não seria nada; foi sua vida e agora era sua morte.

***

Lamar chegara enfim ao topo. Mesmo sendo a colina mais alta da cidade, aquele não era um percurso por demais exigente. Era o justo, não mais que o necessário; aquele era o lugar certo para a mansão bege do homem mais poderoso que já conhecera. O homem que tentara lhe dar tudo — tudo que Lamar não queria — e, por despeito e orgulho, destruíra sua vida.

Ali estava o decadente e patético mago alorfo que quase tornou-se um grande bomin. Praticamente nu por dentro. Despira-se, fora despido; despiram-lhe todos os sonhos e medos, todas as rotas de fuga e planos auxiliares. Tornara-se casca, abandonado à sorte de ser só alguém, sem ninguém nem nada.

Estavam ali todos os jovens rosanos de angústia.

A mão vacilante girou a maçaneta da porta principal. Não esperava que estivesse aberta, apesar do gesto, mas se enganou.

Fechando-se no covil dos bomins, admirou a suntuosidade rubra dos móveis e atapetamentos que cobriam o largo cômodo. Minérios vermelhos, verdes e amarelos iluminavam o ambiente com nobreza por detrás de empoeirados prismas de vidro afixados às paredes. Lançavam raios surpreendentemente harmoniosos por sobre o tampo envernizado de uma longa mesa no centro deslocado do ambiente.

Segurando-se com uma das mãos na parede esquerda, Lamar arriscou um olhar pela janela do próprio castelo em Neborum. Via um outro longínquo e indiscernível, mais ao longe. Movendo-se em uma linha de frente bem mais próxima estava um outro, com um gramado que misturava-se ao da paisagem geral, convidando o desavisado a passear por um corredor que cingia o conjunto mais vigilante e sombrio de torres que Lamar jamais vira.

***

Kerinu ouviu um estalo distante e, instantes depois, foi tomado por um formigamento intenso na pele das costas e da barriga. A sensação, que no começo só provocou um mórbido sorriso, foi convergindo para suas feridas e cortes, e passou a borbulhar numa mistura misteriosamente fugaz de calor e frio. Sentiu com aguda clareza um puxão violento que Caterina deu em seu corpo para afastá-lo do de Rouguer, e começou a perceber que ela apertava um objeto duro e levemente áspero nos machucados que antes lhe afligiam.

Lentamente abriu os olhos. Caterina, visivelmente aliviada, o envolvia nos braços. Kerinu experimentou se levantar e, para sua surpresa, conseguiu sentar sem problemas ou dores. Virou o corpo para Caterina, encostada aos pés da cama, e ela lhe mostrou o que trazia na mão direita: metade de um minério dourado de seis lados.

Kerinu balançou a cabeça, olhando para o próprio corpo; suas roupas estavam encharcadas, com apenas partes do braço, da gola e dos tornozelos intocados por sangue. Levantou o casaco e a camisa para poder ver do que fora curado, e tanto a grande perfuração como o longo corte, todos do lado esquerdo, pareciam machucados simples e superficiais há muito cicatrizados. A pele estava rosada e árida, mas completamente reconstituída.

— Isso é… Incrível. — Disse ele, voltando a olhar para a dona da casa. — … Obrigado, Caterina.

Ela pôs a pedra opaca sobre a cama, sorrindo com leveza para o nada da memória.

— Desde antes de entrar no Parlamento eu carregava esse minério para onde quer que eu fosse. Achei que ele… Poderia me salvar um dia. Achava que podiam tentar me matar a qualquer hora. Depois de um tempo guardei ele no banheiro. Se eu o levasse para todos os lugares poderia ser roubada, ou poderia perdê-lo de vez… — Balançando a cabeça, voltou a olhar para Kerinu. — De qualquer forma… Você também me salvou.

— Quanto a isso… — Disse ele, assumindo um tom preocupado. — Ela está viva, não está?

— Sim. Me perdoe, Kerinu, eu estava sendo controlada. Eu não quis dizer nada daquilo, você sa…

— Está tudo bem, Caterina. Eu entendi a sua mensagem. Sabia que era mentira.

— Sim, uma mentira de Rouguer. Ela foi para Imiorina, eu mesma a vi partir… Mas ele conversou com ela.

Kerinu olhou para o corpo a apenas dois pés de distância.

— Este é Rouguer. Quem é ele?

— Um espólico que trabalha com documentos. Eu não faço ideia do que ele fazia falando com Myrthes, Kerinu, mas eu sei que tudo correu como o planejado, eu tenho certeza…

— E quando começou a dar errado?

— Tornero ateou fogo à casa. Não sei se ele sabia que não havia mais ninguém ali, mas ele não fez nada para capturar alguém do lado de dentro. Simplesmente cobriu o lugar em chamas e foi embora.

— E depois Rouguer veio?

— Sim, ele veio aqui. Me controlou… E o resto você sabe. — Contou ela, com um quê de impaciência na voz.

Levantou-se, finalmente, apoiando-se na borda da cama. Ofereceu prontamente a mão para Kerinu, que destacou-se das próprias paredes, saindo pelo lado de fora do castelo em passos trôpegos. Reconheceu por alguns felizes instantes o majoritariamente vazio terreno ensolarado ao seu redor: via apenas o castelo da amiga nas redondezas.

Voltou ao quarto, percebendo que Caterina olhava com abjeção o corpo de Rouguer. Kerinu ficava cada vez menos à vontade naquele lugar.

— Temos outro problema. — Disse ela.

***

Lamar tirou a mão da parede, assustado, quando viu que Tornero o observava do outro lado da sala. Vestia uma capa laranja e trazia no rosto sua austeridade carregada; desceu do nível do corredor e os dois se olharam por alguns instantes.

— Como você quer que eu o mate, Lamar? — Perguntou Tornero, dando um passo à frente. — Narrando cada passo que dou de acordo com a sua atenção ou… O que é um privilégio… Silenciosamente?

Visitou Neborum e encostou o punho na madeira torta da própria porta, agora cheia de travas e cadeados. Voltou a observar Tornero, percebendo que perdera por pouco o surgimento de um sorriso malicioso.

Pensou no garoto que conhecera. Um garoto presunçoso, é claro, mas Lamar chegara a duvidar que ele guardasse em si a mais fria das vocações. Por outro lado, desde que aquele garoto se transformara em um bomin Lamar não podia mais dizer que o conhecia.

O que é que eu quero, afinal?, pensou Lamar. Que propósito teria aquilo? Deixou as mãos caírem, saindo de perto da porta em seu castelo. O que Tornero fez não tinha um nome certo.

— O que foi, Lamar? — Perguntou ele, com os braços abertos. Tornero dava passos curtos à frente e Lamar dava outros para trás, fazendo a curva em direção à grande mesa da sala.

Queria brigar com ele. Sair do castelo e fazer o que achava que seria capaz de fazer; sem controle, sem regras, sem estratégia. Queria dar socos naquele rosto intrometido, arrogante e pretensioso. Arrancar dentes com as mãos fechadas.

Secou uma lágrima na bochecha direita com uma mão desgovernada. Todo aquele trabalho foi por eles. Tudo o que ele passou foi para poder voltar e ir embora com eles. Eles eram mais importantes — tinham sido mais importantes, tinham se tornado mais importantes, definitivamente — qualquer coisa por eles. Não valeria à pena se ele acabaria preso ou morto. Não, queria viver com eles. Eles foram mais importantes.

— Byron quer você morto por que você nos desafiou. Ele não se importa com você. Você foi para a cadeia porque isso era mais fácil, mas agora todos pensam que você fugiu. Se te matarmos agora ninguém vai saber. Mesmo assim, é pra que você vem. Você é… — Ele não conseguiu segurar o sorriso dentro da boca. — Ah, Lamar

Tornero ainda disse algo que Lamar ouviu pela metade, em um som abafado. Prestou atenção por um momento no saguão de seu castelo, ainda inabalado e silencioso, e logo voltou a olhar para Tornero, que se aproximou mais. Lamar andou para trás, ficando no final do espaço entre as cadeiras e a parede decorada com um grande espelho emoldurado em corvônia.

— Você parece ter medo. — Disse Tornero, analítico. — … Mesmo sem ter nada a temer…

Lamar permaneceu quieto, segurando com desproporcional força o encosto de uma das cadeiras. O olhar de Tornero era o de um monstro. Era um monstro que ele enfrentava. Não um garoto, não um homem.

— Você quer vingança… Mas não sabe se vai conseguir.

O céu continuava claro e cristalino em Neborum, mas Lamar podia sentir uma mudança no tempo. O vento reunia-se em tufos, assoprando timidamente as janelas; as torres de Tornero estavam por perto, mas não havia nenhum sinal de seu iaumo.

— Tem razão, Lamar. Você não vai conseguir.

Desvencilhando-se do sorriso, Tornero puxou com rapidez a espada por debaixo da capa e avançou com golpes ágeis, mas displicentes. Lamar sabia que tinham a função de deixá-lo ocupado, e conseguiam. Cortavam o ar, faziam o alorfo fugir, esquivando-se pelos espaços limitados da sala.

Correu como pôde e conseguiu ficar do outro lado da mesa. Olhou para o próprio castelo, sem saber como socorrê-lo; baques explosivos traziam a fumaça para dentro do saguão. Duas trancas já estavam no chão do lado de dentro, estouradas, e a ventania fazia uma crônica premonição; focos de negra fuligem chegavam aos céus, espalhando a escuridão por todo o cenário.

— Pode ficar o quanto quiser, Lamar! — Disse Tornero, interrompendo os golpes.

Você não PRECISAVA, Tornero! Não PRECISAVA!

— Não precisava, Lamar, mas eu fiz. Você não precisava voltar a Prima-u-jir, MAS VOCÊ VOLTOU!

Isso não é MOTIVO!

— PARA MIM É!

A porta foi enfim arrebentada, caindo em chamas à frente de Lamar. O cenário do lado de fora estava arrasado; um campo de brasas com o qual Tornero cercara o castelo.

— Nada aqui mudou. — Comentou ele, invadindo triunfalmente o castelo. Olhava para o teto e as paredes, pensativo. — Mas lá — apontou para um canto atrás do iaumo de Lamar. — havia terra.

Lamar voltou à sala de Byron, com medo do que podia estar acontecendo, mas Tornero sorria com a espada embainhada novamente.

— Vamos lá, Lamar, volte! VOLTE! Eu quero que veja tudo!

Lamar voltou. Não perdeu mais tempo e, concentrando-se, reuniu toda a repulsa trancada em cada músculo do corpo.

Virou as palmas das mãos para cima. Tornero observou com curiosidade o surgimento das chamas por todo o chão do castelo. Lamar aos poucos juntava as mãos à altura do peito, aproximando-as como se apertasse algum objeto no ar até reduzi-lo a nada. As labaredas tornavam-se mais intensas e, bruxuleando com violência ao redor dos magos, fez brotar um sorriso no rosto mágico de Tornero. Seu olhar enviesado durou pouco; só o tempo que custou a Lamar, com as pernas tremendo com a pressão e o calor que provocara, libertar toda a fúria que conjurara com um berro de dor e ódio criado no fundo da garganta.

O fogo juntou-se numa torrente horizontal que voou em direção a Tornero. O alvo não se moveu; o fogo o atravessava, consumindo-o, mas Lamar nada via; o deslocamento das chamas produzia tanta fumaça que todo o castelo encheu-se de uma densa neblina.

As mãos de Lamar caíram, formigando de uma forma inédita para ele. Caiu de joelhos, com a planta dos pés em frangalhos.

A névoa invadiu Lamar ao mesmo tempo em que, assumindo um borrão de cores quentes, transformava-se em uma pancada. Atordoado, percebeu que fora buscado do outro lado da mesa e jogado no chão. Ouvia os passos da bota de Tornero aproximando-se. Apoiou-se sobre os cotovelos e viu o sorriso debochado do inimigo, que o levou à bruma cinza do próprio saguão.

O fogo se extinguira, e só as nuvens baixas sobraram. Lamar conseguia distinguir a luz azul escura vinda das janelas, e também a luz amarela dos minérios perto do teto do saguão. Todos os focos de luz estavam borrados e distantes, e não colaboravam muito com a visibilidade do lugar, cujas colunas continuavam ocultas sob o manto da poeira. Ao olhar para a frente, onde antes estava Tornero, uma sombra humanoide projetava-se imóvel e tranquila.

Lamar tremeu instantes antes de ter toda aquela vista despedaçada. Viu-se novamente na mansão, caído para o lado direito. Seu rosto ardia, e ele instintivamente levou a mão à bochecha esquerda. Voltou o pescoço para trás e viu um Tornero serenamente psicótico. Arrastou-se como pôde para longe dele, mas parou ao alcançar o desnível que levava ao corredor.

— Eu treinei muito com fogo, Lamar. — Elucidou ele. — Nenhum fogo me machuca.

Sons do lado de fora chamaram a atenção dos combatentes, que se viraram para a porta de entrada. Kerinu e Caterina subiram correndo as escadarias e quase derrubaram a porta ao abri-la com violência.

— NÃO! — Bradou Lamar. — Vão EMBORA! Não ERA pra vocês estarem aqui, NÃO, NÃO, N-

— Eles não estão mortos, Lamar! — Cortou Caterina.

Tornero fechou os olhos, bufando em impaciência. Lamar olhou para a feição cheia de culpa e urgência de Caterina, e por alguns segundos seu coração adquiriu uma leveza que fez o mundo suspender-se em um só momento de salvação.

Porque ele sabia que ela dizia a verdade.

— Lamar — Chamou Kerinu, que olhava fixamente para Tornero — Você tem que ir embora. Agora.

Lamar levantou-se sem coordenação e juntou-se ao grupo de alorfos na entrada da casa. Tornero parecia estranhamente conformado com o resgate, parado em frente aos sofás tintos da sala.

— Vocês dois vão. — Disse Kerinu, dando um passo à frente. — Eu cuido dele.

— Kerinu…

Não discuta, Lamar. — Respondeu o reconhecível mestre. — … Vá embora.

— Vamos… — Disse Caterina, decidida, puxando o braço de Lamar.

Kerinu esperou que os dois descessem os últimos pétreos degraus e fechou a porta atrás de si.

— Seu grande erro… Kerinu — Disse Tornero, com nojo espumando na boca — foi achar que você pode cuidar de mim.

Kerinu balançou a cabeça, respirando fundo.

— Vamos ver.

Sacaram a espada ao mesmo tempo e correram ao encontro um do outro, chocando-se no ar e trocando de posições na sala. Seus castelos moviam-se na terra, criando tremores no círculo onde as duas almas se encaravam, furiosas.

Lamar e Caterina começavam o declive que os levaria de volta à cidade quando a maga estancou.

— O que foi? — Perguntou Lamar.

Caterina olhava para ele com uma expressão de puro terror. Ela não precisou responder, tampouco ele precisou voltar a Neborum para entender. O som dos yutsis anunciava a chegada da charrete laranja, que subiu a uma velocidade espantosamente desesperada a última parte do morro. De dentro do veículo saiu Byron, que dirigiu-se à dupla com tranquilidade.

— Vocês não vão a lugar algum. — Disse ele, arrumando a capa negra que alongava-se até os pés.

Tornero e Kerinu continuavam lutando na sala, com o alorfo golpeando-o com rapidez; Tornero escapou a um ataque por baixo, quase acertando as costas de Kerinu num contra-ataque; Kerinu defendeu-se ao conseguir pôr força na espada para empurrar o inimigo, os dois trocando de posições novamente. Continuaram medindo forças enquanto Tornero corria em direção a Kerinu com as mãos flamejantes em Neborum.

Kerinu correu em direção a ele também, e no choque os dois foram jogados para longe, caindo de bruços no chão. Kerinu levantou-se prontamente, mas não tão rápido quanto Tornero, que já lançava chamas contra ele.

Kerinu desviou do fogo ao jogar-se para a direita e, em uma cambalhota que lhe colocou de pé de novo, correu até sentir que não estava mais perto do inimigo. Olhou ao longe e o avistou em frente aos castelos que tremiam e ziguezagueavam no entorno do céu cada vez mais lilás.

Tornero levantou o braço direito e uma linha fogo surgiu no chão, provocando explosões cada vez maiores ao atravessar os ares, agora cheios da perigosa infusão de vermelho e amarelo que tanto agradava ao bomin. Com um outro gesto, as chamas preguiçosas que lambiam e sujavam ainda mais o céu organizaram-se e voaram, ainda mais cheias de vida e combustível, na direção de Kerinu.

Tornero encurralava Kerinu com a espada, que passara a receber impactos mais do que atacar; num descuido abriu demais a guarda, foi lento, e Tornero avançou contra o peito do alorfo, que precisou atacar a lâmina inimiga para o alto, tirando-a do caminho. Tornero voltou a golpeá-lo com ainda mais força e, escorregando na ponta do tapete, Kerinu perdeu o equilíbrio e recuou ainda mais, por pouco não conseguindo se defender de mais uma investida de Tornero, definitivamente um melhor espadachim.

O fogo estava chegando perigosamente perto quando Kerinu cruzou os dois antebraços em frente à cabeça baixa. Uma fina parede de vidro ergueu-se a partir dele, dividindo o mundo em duas partes do chão ao céu. O fogo chocou-se com a muralha parcamente visível, desaparecendo imediatamente.

— Lamar, não…

— Tarde deAAAAAAAHHHHH!

Lamar caiu no chão de joelhos, pondo as mãos na cabeça; logo todo seu corpo estava no chão, contorcendo-se em uma posição cada vez mais fetal.

Caterina saiu de seu castelo e encontrou Byron esperando por ela. Uma lufada de vento a jogou, imobilizada, de volta contra a própria porta trancada.

— LAMAR, LUTE! — Gritava ela para o corpo desesperado no chão, que espremia lágrimas dos olhos. Byron recebia, impassível, os olhares de esguelha da maga.

Ela bateu com as duas mãos nas portas do próprio castelo, que se abriram. O vento a empurrou para o fundo do saguão de entrada, e de sua mão direita esticou-se um negro e longo chicote que ela lançou contra uma coluna, enroscando-se. O vento a levou, mas a pressão da corda a catapultou para fora, jogando-a contra o corpo de um Byron despreparado.

O vidro que Kerinu construía pegava fogo, derretendo ao mesmo tempo que se decompunha, com a chama se alastrando por toda a extensão mais e mais rápido. Quando ele deixou que os braços caíssem, o fogo desapareceu por completo. Tornero olhou em volta em antecipação.

No instante seguinte o vidro se estilhaçou com um estrondo ensurdecedor, e milhares de cacos voaram, indefensáveis, contra o corpo em acelerada fuga de Tornero.

Lamar cambaleava pelos corredores do próprio castelo, vendo neles formas geométricas de todas as cores, sons e texturas. Seu castelo tremia, saía de sintonia e ele, sentindo ora as dores de cabeça ora o próprio corpo sem membros, monolítico, tentava subir até a torre mais alta do próprio castelo frágil, cheio de obras e alas inacabadas.

Byron empurrou Caterina para longe; os dois se levantaram juntos e ela, ligeira, chicoteou o mago, que se esquivou do golpe. Quando ela tentou atacá-lo pela esquerda, foi atingida por uma onda que a fez cair para trás. A água rapidamente desapareceu na terra, que começou a amontoar-se por cima da maga, lamacenta.

Kerinu perdia a força e a concentração necessárias para manejar a espada. Tornero atacou-o com especial força ao ser atingido pelos pedaços de vidro nas costas, e o alorfo caiu sentado no sofá. Fechou os olhos no susto, mas logo abriu-os, alerta, e bloqueou um ataque definidor de Tornero. Girou a espada para fora, empurrando o bomin; num salto que misturava coragem e fuga, jogou-se no chão e girou com o auxílio do punho livre, alçando a espada contra as pernas de Tornero, que recuou.

Tornero estava de pé, cambaleante. Kerinu lançou a negra e viscosa corda espólica em direção a seu pescoço, mas ela foi interrompida por chamas que Tornero, rugindo de raiva, conjurou ao inutilmente se afastar. Kerinu chegou mais perto e o chutou, sem misericórdia. Tornero caiu, com longos cortes abertos no corpo inteiro, e Kerinu o dominou por completo.

Tornero recuou até uma das cadeiras. Controlou sua respiração e pôs a mão sobre o peito. Olhava para o chão, piscando compulsivamente. Kerinu, ainda se equilibrando, olhava com desprezo para o discípulo bomin. Fez questão de fazê-lo olhar em seus olhos. Sob novas ordens, Tornero pôs a espada sobre a mesa.

Lamar chegou num cômodo ao fim de uma feia e suja escada circular com os sentidos divididos entre a psicodélica visão de Neborum e o cheiro de terra quente do chão no qual se amontoava de punhos cerrados, esperando poder resistir à dor. O lugar ardia com um fogo traiçoeiro, que ele sabia — se conseguisse — como apagar.

Caterina lutou contra o solo que parara de se erguer sobre ela. Conseguiu sair de baixo do amontoado de terra e corria em direção ao castelo de portas escancaradas quando o céu clareou-se e ela, sentindo-se tropeçar e rolar sem ver isso acontecendo, soube estar olhando para o céu pacífico de Prima-u-jir.

Era a vez dela de cair no chão e ter vontade de arrancar cada fio de cabelo com as próprias unhas.

Deitou-se de qualquer jeito ao lado de Lamar. Byron assistia impassível ao conjunto de gritos, gemidos e prantos dos dois alorfos. Olhou então para a porta da própria casa.

Kerinu saía à frente. Não tinha uma espada, e andava com a cabeça baixa e as mãos para trás. Logo atrás vinha Tornero, carregando duas armas.

— Lamar é meu. — Disse Tornero, caminhando em direção ao nêmesis.

Kerinu engoliu em seco. Tentava não fazer movimento algum.

Quando olhou para o lado em Neborum, de pé em frente à massa escura que encobria Tornero no chão, viu um sorridente Byron de braços cruzados.

— Não sou facilmente enganado.

Byron avançou contra ele, que desfez o encordoamento negro na mão. Fechando o punho, jogou-se para trás e no momento em que Byron estava à sua frente, pronto para queimar por completo seu iaumo, e abriu a palma da mão em um violento e perfeito tapa na testa do velho mago, que desapareceu no mesmo instante.

Tornero parou no meio do caminho. Olhou para Kerinu com o canto do olho e, sem dizer nada, prosseguiu o caminho como se ainda estivesse sob controle do alorfo.

TORNERO! — Disse Byron, cujo discípulo lhe entregou uma das espadas e continuou seu caminho.

Com a outra, preparou-se para atravessar o peito de Lamar que, com um ar extenuado, abria-se em entorpecido êxtase para o céu.

Kerinu retomou o controle do debilitado Tornero no momento em que Byron passou a atacá-lo em frente às escadas cinzas da mansão. Ele estava mais nervoso que o aprendiz, e atacava rápido e com força; Kerinu contentava-se em recuar, esquivando o quanto podia da busca incessante do inimigo por um bom golpe.

Tornero estava parado acima de Lamar, imóvel como uma estátua. A espada apontava para baixo, e seus olhos ignoravam as ordens de Kerinu, que os queria fechados. Os punhos, acima da cabeça, estavam prontos para fincar a estaca de metal no homem que reconhecia pouco a pouco o perigo em que estava.

Caterina via que ele ajustava a ponta da espada de acordo com os espasmos esparsos de Lamar, que diminuíam cada vez mais. Percebeu que a dor desaparecia, e agarrou como pôde Lamar para tirá-lo de baixo do bomin.

— Lamar… Lamar… Lamar, por favor…

— Ca… Caterina… Meu… — Lamar tossiu duas ou três vezes. — … Filho…

— Ele precisa de você, Lamar… Nós temos que ir embora

Os dois ouviram um curto gemido de dor após um estrépito metálico. Lamar sentia os efeitos colaterais do dano que Byron lhe causara, mas virou-se na direção do chamado e assistiu Byron apontar a espada para o queixo de Kerinu, caído e desarmado.

— CORRAM! — Berrou ele, soando como se aquelas fossem suas últimas energias. — CORRAM!

— Vamos, Lamar, VAMOS! — Disse Caterina, forçando-o a se levantar.

SAIAM DAQUI!

Byron recolheu a mão e num gesto irritado fez um corte transversal no rosto do alorfo, ao que Lamar respondeu com um urro lacrimejado de pesar.

— LAMAR! LAMAR!

Caterina venceu a resistência do mago e os dois correram colina abaixo. Byron observou-os sair de seu campo de influência. Olhava pela janela de seu castelo para Kerinu, que, inabalável, continuava alimentando o domínio sobre Tornero.

— Solte-o. — Disse Byron.

Kerinu, exausto e com o rosto sangrando do canto do nariz à base da orelha, balançou a cabeça afirmativamente. Fechou os olhos, e ouviu a expressão de ódio e frustração de Tornero quando ele fincou a espada na terra seca.

— Tornero. — Chamou Byron. — Ajude-me a levá-lo para dentro.

— NÃO! — Resmungou ele. — NÃO! Eu posso ir atrás deles, eles não foram muito…

TORNERO! — Ralhou Byron. Kerinu observou uma profunda frustração crescer no rosto do subordinado, tomado por suor, vermelhidão e vergonha. — … Em instantes poderei sair de meu castelo de novo. Preciso que me ajude a levá-lo para dentro. Isto é uma ordem.