A charrete dos cinco yutsis

A palavra rosano vinha da língua antiga, a na-u-min. Roun, o nome em na-u-min para o sol, juntava-se à palavra sana, de tempo. Um rosano se passava ao final do ciclo das quatro estações — cada uma com cinquenta e quatro dias: inasi-u-sana, a mais fria, na qual estavam já quase pela metade; kerlz-u-sana, a seguinte, mais bela e primorosa; torn-u-sana, a mais quente, e gargsel-u-sana, a cinzenta. Era comum que uma pessoa chegasse aos noventa rosanos de vida, embora algumas conseguissem viver com paz e estabilidade para além dos cento e vinte.

Lamar aprendera quase tudo que sabia sobre o mundo em um livro velho e puído, que ele conservava até hoje, embora nas mãos de um novo e ávido leitor. O livro, Registro Geral, foi um presente de um amigo que fizera em Kerlz-u-een, cidade em que passou a morar com a ajuda da família quando tinha cerca de trinta rosanos. O mesmo amigo fez com que esquecesse tudo que tinha conseguido aprender sobre magia. Na verdade, fez com que rejeitasse tudo aquilo, e visse as coisas de um jeito bastante diferente. O resto de seu pequeno arcabouço de sabedoria vinha das músicas de sua terra natal, cheias de histórias vivas.

Lamar sabia também sobre minérios, os fenomenais objetos de vários formatos, cores e propriedades. Lamar sabia que os minérios pentagonais, discos razoavelmente espessos — mas ao invés de circulares, contendo cinco lados retos e iguais — geravam luz. Sabia que a corvônia, material extremamente resistente e invariavelmente negro, era obtida através de um minério octogonal — o único com este formato, roxo e translúcido. Sabia que por aquela estrada passava, de hora em hora, uma charrete controlada por um condutor carrancudo, e levada adiante por cinco yutsis. Ele não sabia que horas eram, então esperava que ela não demorasse muito, pois ele não queria mais ter que lembrar de detalhes da história de Heelum para se distrair do pesadelo em que sua aula se transformara. Queria logo chegar em casa e receber, na medida do possível, o carinho e o cuidado de Myrthes e de Ramon, e depois, se conseguisse, dormir como um minério.

A trilha era sinuosa e estreita, uma estradinha que circundava o lado leste de Prima-u-jir, ligando terras mais distantes a outras mais próximas do centro. Já estava quase completamente escuro, e ali apenas um minério no topo de um alto poste de corvônia iluminava a região com uma fria luz azul. Para além do distante foco ficavam as estrelas.

Por mais que tentasse pensar em histórias e pedras, nada que ele pudesse imaginar o deixaria imune a memórias. Ao calcular horas, dias e rosanos, lembrava-se do passado que queria ignorar. Ao pensar em trilhas, refazia em sua mente o caminho que fazia, quando era menor, até uma mansão na colina mais alta do centro de Prima-u-jir. Dias mais cinzentos que aquele tomavam conta de suas sensações, como se ele estivesse lá, e pudesse sentir de novo a grandeza de um mundo além de sua imaginação. Um mundo grande, grande demais para sua pequenez.

Barulhos e vento o despertaram da nostalgia às avessas. O chão estava sendo pisoteado com violência, e as vibrações faziam qualquer coração bater mais forte.

Ninguém ficava indiferente diante da beleza bestial de um yutsi, um ser absurdamente grande. Quadrúpede, com no mínimo oito pés de altura e dezessete de comprimento, era todo coberto por um exoesqueleto duro e levemente áspero, cingido em pequenas partes curvas, encaixando-se em seu corpo como a armadura mais perfeita já vista. Sua respiração pesada e seus movimentos do tórax eram vibrantes e ritmados como tambores de guerra, e de seu torso roliço saía por um pescoço curto uma também protegida cabeça. Seus olhos eram tortos como fendas, e de um vermelho irritadiço. A boca, menor do que se poderia esperar, carregava os dentes mais resistentes dentre os animais de Heelum, e havia também dois chifres tortos, sempre assimétricos. A cauda era sólida e hostil como o corpo e, articulada, normalmente apontava para o céu. Ao invés de ser o ponto fraco do animal, era na verdade uma arma por vezes mais poderosa que o próprio galope determinado.

Os cinco yutsis pararam, obedientes, diante do único homem parado na estrada. Suas cabeças continuaram viradas para a frente, prontas para partir a qualquer sinal de impaciência do condutor, que virou o rosto para Lamar.

— Vai entrar ou não vai?

Lamar mais uma vez reuniu suas forças e se levantou. Subiu na espaçosa carroceria, ocupada também por outro homem, e acomodou-se no canto direito de trás, apoiando os dois braços sobre a madeira que compunha o comboio.

O outro que viajava parecia ser mais velho. A charrete seguiu viagem, e logo ficou rápida novamente. O que a luz dos minérios esparsamente distribuídos por aquela região permitia ver era que o companheiro de viagem ostentava uma longa barba escura, longa, aparentemente dura e áspera. Rugas pareciam correr para as orelhas como rios abundantes. Logo passaram perto de um outro poste, e dessa vez uma luz amarela revelou mais de si mesmo e de seu colega. Ele tinha uma pele mais escura, e os olhos negros e diminutos, quase ocultos debaixo de um chapéu, demonstravam um tímido interesse no novo passageiro. Suas roupas eram simples e estavam rasgadas em vários lugares; seus pés, completamente descalços e bastante sujos. Lamar se surpreendeu por ele não estar encolhido, considerando o frio da noite.

— É… — Começou ele com uma voz arrastada. — … É o senhor que é o mago, não é não?

Lamar respirou fundo, aproveitando o retorno da escuridão para esperar que isso passasse despercebido. Pergunta difícil. Em Prima-u-jir, cidade em que a magia era proibida para os parlamentares, era impossível adivinhar a reação que as pessoas teriam ao se confrontarem com um mago. Aquele homem parecia ser experiente, mas isso não significava muito. Olhando na direção dele, Lamar quase podia ver seus olhos brilhando, suspensos pela pergunta. O professor tinha a sensação de que um sorriso estava sendo preparado com cuidado e paciência, a fogo brando. Empatia ou ameaça?

A ligação entre os olhos se quebrou, mesmo agora que um pouco de luz poderia possibilitá-la. Lamar a desfez. Mentiras e verdades pareciam tão irrelevantes naquele momento; afinal de contas, ainda que não corresse risco em contar a verdade, qual era a verdade? Poderia se considerar um mago? Que tipo de mago ele era? Certamente não um daqueles que podiam ser tidos como responsáveis, no fim das contas, pela situação daquele pobre homem e de tantos como ele. No fundo, não sabia qual situação era a mais desesperadora. A perda diária daquilo que nunca se teve ou a perda constante de identidade.

— Sou sim.

— Ah, sim! — ele disse, e o sorriso veio, como esperado. Os dentes, poucos, espalhados e manchados, contrastavam com o coração que parecia estar mais leve. — Meu filho faz aula com o senhor! O senhor é o mestre, não é não?

— Sim, sou sim. — Ele conseguiu responder com um sorriso.

— É bom… É muito bom! Sonho que ele seja um grande mago, sabe. É assim que a gente vence na vida! — disse ele, levantando o dedo indicador e destacando os olhos.

— É… É mesmo.

Coitado, pensou Lamar. Seu filho muito provavelmente não seria um grande mago. Talvez, se revelasse talento para a magia — ou vontade de participar de seu projeto de transformação — ele pudesse se tornar um alorfo, como o professor. Os ataques mágicos que ensinaria primeiro seriam os mais simples dos bomins. Causar sensações. Manipular sentimentos. Mas apenas coisas muito básicas.

Até porque não vou muito além disso…

E, depois, o que viria? Pretendia conscientizar todo aquele povo acerca do modo como a magia operava. Pretendia contar-lhes histórias. Histórias sobre os governores — os governores e os monstros, e a luta do povo contra a opressão; a luta deles contra a dominação e as injustiças. Quem sabe eles não abririam os ouvidos e o coração para uma voz que viesse com palavras de mudança e de melhoria?

Talvez aquele senhor não pudesse mudar, refletia Lamar. Talvez ele não concordaria com coisa alguma — muito menos com algo perigoso e incerto como isso. Talvez não tivesse mais forças para isso. Mas alguns… Alguns ele conseguiria influenciar. Alguns ele conseguiria aliciar, e então teriam em Prima-u-jir pessoas dedicadas à causa, que se expandia cada vez mais para o sudoeste.

Prima-u-jir era uma cidade tradicional, sem grandes pretensões. Parecia não ter vícios ou máculas. Ao contrário de Kerlz-u-een, potente, imponente e complexa, Prima-u-jir era como uma grande vila camponesa. Dentro das jirs — os aglomerados de casas em que as pessoas de fora do centro moravam e trabalhavam — havia grandes casas, em geral redondas, que abrigavam irmãos, irmãs, e por vezes amigos. Casas pequenas, em que cabiam apenas os pais e um filho (como a de Lamar), eram raras, assim como nunca fora comum um alorfo na cidade. Depois que voltou de Kerlz-u-een, demorou até tomar coragem de contar suas intenções para a família. O resultado foi particularmente desolador.

Lamar olhou para o homem e pensou, assaltado pela cortante realidade: “eles sabem”. Pôs a mão na testa. “Eles sabem”. Eles, os magos de Prima-u-jir, e um — dois — em especial. “Sabem que estou aqui de novo, sabem que estou lecionando e que quero causar problemas. Vão querer me causar problemas antes disso. Não demorará até que achem minha casa e ameacem minha mulher — até que ameacem meu filho. Não demorará muito para que os tomem de mim e exijam que eu pare. Ou que me prendam, inventando uma acusação qualquer e tornando o julgamento silencioso e repentino… Não demorará para que eu morra, ou para que eu seja torturado em nome de uma macabra mistura de diversão e vingança.”

Myrthes abriu a porta. Lamar já tinha saído da charrete, andado até sua casa e não havia se dado conta; a escuridão que o envolvia era mais do que literal. Nada mais parecia estar chegando a seus sentidos como deveria, mas foi capaz de identificar sua mulher e sorrir. Myrthes era uma mulher de rosto fino, alongado e corado. Vestia um largo roupão laranja, já desbotado, e um pano azul ajudando a prender o cabelo escuro. Quando seus olhos encontraram os de Lamar, ela soube que algo de ruim aconteceu.

Ele ficou parado, estancado à frente da porta. Apoiou a mão no batente para ajudar a controlar tudo que havia dentro de si. Sabia que deveria entrar, sorrir e abraçar sua mulher. Ir ver como estava o filho. Sabia que não deveria fazer o que estava fazendo, mas estava farto — do dia, dos pensamentos que não conseguia evitar. Continuou lá, incapaz de se mover. Movia os olhos, mudando-os de direção sem parar, alternando entre regiões variadas do pescoço da mulher. Ela, por sua vez, segurava firme a porta, apertando-a cada vez mais. A outra mão balançava em penosa ociosidade, esperando por alguma reação.

— Querido… ?

— É, eu…

Parou. Teve vontade de coçar o nariz, mas não o fez. Olhava agora para o chão atrás de Myrthes; o estado letárgico fora apenas trincado, recebendo um golpe fraco demais para se levar a sério, mas forte o suficiente para que ele praticamente desabasse na cadeira da cozinha. Mais que ligeira, Myrthes buscou numa jarra um pouco de água. A luz azul escura e forte da cozinha o deixava ainda mais frio por dentro, incomodado pelas grandes sombras que ele e a mulher projetavam na mesa e no chão.

— O que foi que aconteceu, querido, diga pra mim… O que foi?

— Meu bem, a… A aula foi… — Balançou a cabeça enquanto ela massageava seu braço de leve por cima da roupa. — Um desastre.

— Por quê? O que aconteceu?

— A aula foi boa, na verdade… — Ele começou, voltando a recobrar uma melhor consciência dos atos e das palavras. Olhava para ela enquanto falava. Queria dizer que a maioria dos alunos da aula passada voltou para esta, e que treinaram um ataque simples, mas o jeito certo de formar as frases foi sendo esquecida à medida que era pensado. — E… Deu tudo certo, até… Mas eu não fui capaz de ver, Myrthes, porque eu estava cego, eu… Atacado. Derrotado. Desde o começo, desde o início, o começo da aula… Tornero estava lá. Estava usando uma capa pra cobrir o rosto, eu não vi que era ele. Teria reconhecido se tivesse visto o rosto dele.

— E quem é Tornero?

— Eu nunca falei dele. — Voltou os olhos para o chão numa brevidade; Myrthes começou a dizer que não havia problema algum nisso, mas parou para que ele pudesse ir em frente. — Ele é… Quando meu ex-mestre se recusou a continuar tentando me ensinar e… Eu não fui em frente… Ele adotou Tornero. Como novo aluno, entende?

— Ele te fez alguma coisa?

— Não me bateu, ou… Me feriu com a espada. — Ela pouco se tranquilizou. Sabia que isso não era o pior que ele podia fazer. — Mas me disse umas coisas… Me ameaçou… Disse que eu deveria parar de ensinar. E me atacou.

— E o que ele fez?

— É-é impossível saber… Alguns alunos riram, eu… Eu me irritei com eles. Mas me manipulou, e eu permiti que ele me manipulasse, porque eu sou fraco, e… Sou fraco, Myrthes, sou fraco! — Ele aumentava tanto o volume quanto o tom de lamúria na voz cansada. Ela, preocupada, tentava dissuadi-lo da autopiedade. — Sou um mago, um mestre, um professor, mas o quê que eu tenho pra ensinar? Não consigo me… Me defender, então e-eu sou uma vergonha… Ele mesmo disse isso, e… Não consigo me defender. Não vou conseguir defender vocês se…

— Escuta… — Ela usou as palmas das mãos para fixar seu rosto, forçando-o a olhar para ela. — Você voltou para cá muito mais forte. Você é um alorfo! E se não conseguiu se defender é porque renegou a magia, e com consciência, com mente feita! Você é muito mais corajoso do que esse covarde. Você está acima deles, e o que nós viemos fazer aqui é… Uma coisa que nós não podemos parar! Que nós não podemos acabar!

Ele a olhou entristecido, mesmo sabendo que aquelas eram palavras doces de razão.

— Você me ouviu?

— Sim… É verdade.

— Sim, é claro que é! — Ela sorriu um sorriso simples de triunfo. — Ele atacou e intimidou porque queria que você desistisse! Talvez, se isso for possível… Até agora ele estava aí dentro ainda.

Ele a olhou mais uma vez, pensando o quanto de razão tinha o que ela dizia. Ele ainda estava ali, influenciando tudo o que sentia com suas ofensas e chantagens. Mas ele precisava ir embora, e Lamar sentia que estava pronto para expulsá-lo.

O silêncio foi rompido por uma voz infantil que vinha de um dos cômodos da casa.

— Papai?

Lamar e Myrthes sorriram um para o outro, em cumplicidade; um sorriso rápido, sobre o qual Lamar não teve tempo de refletir.

— Sim, eu acho que sim… Eu tenho medo por você. Tenho medo por ele.

— Se você teme por nós, então não tema. Ele precisa de um pai forte.

— Papaaaai… ?

Myrthes deu um rápido beijo em Lamar e aproximou-se da porta do quarto.

— Mamãe, o papai chegou?

— Será? Vai ali ver! — brincou ela, dando um sorriso que entregou a presença do professor na casa.

— Ebaaaaaa! Papaaaai… — Sua voz foi abafada por um abraço forte e completo instantes depois.

O calor encheu novamente a casa. O mestre alorfo pôs o filho no chão e deu uma boa olhada no rebento de pouco mais de dez rosanos, que tinha uma cabeleira negra e espessa como a da mãe. Mirrado, mas já alto para a idade, tinha o sorriso e os olhos do pai. Mesmo orgulhoso com a semelhança, Lamar podia apenas ter esperanças de que ele fosse mais corajoso.