Magnífico e fantástico

Novo-u-joss fica na região Norte de Heelum ou, mais precisamente, na região Noroeste. Há muito tempo, quando a música era feita de contrabaixos, flautas e instrumentos de percussão, descobriram na cidade o níquel, metal que fez os homens se perguntarem se não poderiam criar outro instrumento. A resposta a essa pergunta foi a guitarra, que logo se espalhou por todo o continente.

O som do instrumento de freixo era algo único, marcadamente diferente de tudo que qualquer um já havia ouvido. Pensou-se até que era mais um dos mistérios de Heelum. Era robusto, encorpado — e alto: enchia uma sala de som com pouco mais que um puxão em uma corda, e parecia ter um tipo de força gutural que arrepiava a todos que a ouviam pela primeira vez. Admiração, respeito, medo. As guitarras eram imponentes, mas sua altivez era diferente daquela de um yutsi: um impulso que fazia tremer de dentro pra fora, ao invés de o contrário; um impulso que fazia crescer ao invés de desejar encolher. A cidade cresceu em torno do estilo musical que a guitarra ajudou a inventar.

O quarto de Beneditt era pequeno, tanto quanto o dos outros homens da casa. Suas roupas, poucas e enegrecidas pelo tempo (de uso), ficavam amontoadas no único canto livre do dormitório. Com a janela acontecia o oposto da do corredor: não abria mais. As paredes eram azul-claro, mas a pintura, descascada e mal feita, tornava todo o ambiente ainda mais soturno do que se fosse apenas pálida, cinza ou marrom. Beneditt não gostava do próprio quarto, mas não porque queria um maior. Queria era poder morar em um lugar diferente a cada rosano. Mas tinha um quarto com dois amontoados de tecidos; um que vestia e outro no qual dormia. O resto do espaço era dedicado aos tambores, pratos e bastões que criavam, combinados, sua própria bateria.

— Quase pronto? — perguntou Fjor que, como Beneditt acabara de perceber, estava parado em frente à porta aberta.

— Quase sim.

Beneditt colocava suas coisas em uma mala feita de goma escura, um dos únicos luxos da casa em que moravam. Precisava de uma dessas para que nada molhasse. Olhou brevemente para Fjor, e mínimos sorrisos cordiais surgiram em ambos os rostos. Fjor, carregando seu baixo nas costas, partiu para o andar de baixo da casa.

Leo colocava sua guitarra na caixa. Era preta e velha, com um formato clássico: simples e eficiente. Ou, talvez, nem tão eficiente, já que uma das cordas estava produzindo um som diferente — como se ela estivesse perdendo a força e, arrastando-se com a ajuda das outras cinco amigas, ia sobrevivendo. Não foi a primeira guitarra de Leo, mas com certeza era a mais especial. Tinha pintado um “L” na borda de cima, que ele reforçava toda vez que a letra ameaçava se apagar. Todos pensavam que significava “Leo”. Quando perguntavam por que ele não desenhava na parte de frente, para que todos a vissem, ele simplesmente dizia que gostava da ideia de ter algo que somente ele poderia ver durante um show. Mas isso não importava muito para ele. Não olhava tanto para o “L” quanto para quem a letra representava.

A guitarra de Leila já era um pouco diferente. O formato era também clássico; nunca teve dinheiro o suficiente para comprar algo mais original, que definitivamente queria. Mas era vermelha, imaculadamente vermelha, e era tão perfeita em seu estado natural que Leila não ousava modificá-la de qualquer forma. A cabeça da guitarra tinha um desenho original que ela preservava com ainda maior devoção: um onioto, uma gigantesca ave da região montanhosa do centro de Heelum, com um bico longo e um olhar severo.

***

Leo desceu as escadas e, quando chegou ao primeiro andar, viu Beneditt encostado em uma parede e Fjor em outra.

— … Hoje tem muitos desses malandros que não tocam nada, mas querem tudo! Muitos! Quando eu era mais nova o povo daqui se recusava a ouvir uma coisa dessas! Aaah, é um absurdo!

Cordélia era a vó materna de Fjor e Leo. Já de idade avançada, não era mais tão capaz de trabalhar, e não conseguiria ganhar o suficiente para se manter se não passasse a dividir a casa com os netos e com os amigos de Leo, Beneditt e Leila.

Com pele e cabelo bem escuros, o rosto enrugado e o corpanzil lento não faziam jus à atividade da mente e a justeza do coração. Cordélia era ácida crítica de uma nova geração de músicos adeptos ao “rock de cidade”. Ortodoxa, ganhava a admiração de pelo menos um dos netos, que seguiam, ao ver dela, o caminho da boa música.

— Mas por que é que as pessoas gostam disso, então? — perguntou Beneditt.

— Porque esses jovens não têm nada na cabeça, meu querido…

— Não penso assim não, vó. — Interrompeu Fjor. — Eu sei bem o que acontece…

— Ah, claro… — disse Leo, entrando na conversa e atravessando a cozinha até ficar do lado de sua avó — Fjor e sua explicação “mágica” pra tudo…

— Leo, você sabe que eles têm poder pra fazer isso.

Claro… — dizia ele, extremamente irônico, para fugaz diversão de Cordélia.

— Não quer dizer que todos os agentes do ramo sejam magos, mas muitos devem ser. — disse Beneditt.

Obrigado, Beni — Disse Fjor, com um olhar duro, mas agradecido. Voltou-se para o irmão novamente. — Então você gosta de rock de cidade, querido irmão?

— Não acho a coisa mais bonita que inventaram, não, mas não vejo problema em gostar.

— Ah, sim. Temos músicos sem habilidade musical — Beni concordava, balançando a cabeça com as sobrancelhas levantadas — tocando instrumentos muito mal e cantando letras que sempre dizem a mesma coisa. Com certeza, não tem problema nenhum com esse tipo de música, não é mesmo, Beni?

— Sem falar da falta de solos.

Sim. Como eles conseguem?!

— Está vendo? É uma habilidade! — Contra-atacou Leo, risonho.

— É uma limitação! Se não houvessem pessoas muito empenhadas em fazer as outras se sentirem bem em relação a essa gente…

— Fjor, para de achar que tudo de ruim nesse mundo é culpa dos magos!

— Não, nem tudo, mas eles têm influência, Leo!

— Ei, vocês dois, parem já com isso! — disse Cordélia. — Vocês têm uma apresentação daqui a pouco e não podem ficar assim, não!

Beneditt sorriu olhando o vazio à frente, como se lembrasse de algo.

— Às vezes até ajuda, Cordélia.

Fjor e Leo ainda se olhavam como se tentassem dizer algo um ao outro sem usar a voz. Leo parecia querer mostrar ao irmão o quanto achava aquilo tudo uma bobagem. Para isso tinha que olhá-lo como se estivesse decepcionado. Fjor era o irmão menor, por uma pequena diferença de três rosanos, e Leo sabia que ele entenderia esse olhar mais do que ninguém. Já Fjor parecia querer fulminar o irmão com os olhos, pois essa era a forma mais definitiva de dizer que eles estavam em terrenos claramente opostos.

Beneditt direcionava para o chão seus amendoados olhos verdes, pensativo. Se o território fosse dividido da maneira como Fjor propunha, ele não saberia dizer de que lado estava. Rock de cidade nunca lhe agradou — e desconfiava que os magos tivessem alguma a coisa a ver com a “proliferação” do gênero; mas como, ele nunca entendeu.

Suspirou baixinho, coçando o curto cabelo loiro. Deixou aparecer seu sorriso largo, mas ocasional e, encostando a cabeça à parede, misturou raciocínio à memória. Quase tudo nele era diferente dos irmãos, mas nem por isso parecia estar a meio caminho dos dois. Como se fosse uma terceira alternativa, seguia sendo ele mesmo.

— Leila? — Chamou Leo, um pouco preocupado com a demora. Ele se sentia desconfortável com atrasos.

Alguns segundos depois veio a resposta. Um som melodioso e melindroso invadira a casa, balançando a escada, fazendo Cordélia abrir um sorriso e aproximar-se para ver mais de perto.

Eram acordes completos e harmoniosos, mas rápidos, esguios e ritmados. Leila descia as escadas usando um grosso vestido negro, largo e com espaçosas mangas. Botas velhas, mas talvez por isso mesmo bonitas, provocavam um barulho domesticado no ferro. À tiracolo vinha a guitarra; os dedos da mão esquerda deslizavam pelo braço com precisão, e os da mão direita seguravam a palheta com firmeza. Ao final do último acorde, quando todos os homens da casa estavam com a boca levemente aberta e sorrisos bobos, Leila mostrou os dentes com delicadeza e até mesmo timidez, dizendo:

— Vamos?

— Magnífico, minha querida, magnífico! — Disse Cordélia, respondendo por todos. Com quase lágrimas nos olhos, ela pôs-se a comentar o quanto tinha saudades dos shows de que tinha participado e das bandas que tinha visto enquanto todos se arrumavam. Beneditt agarrou sua pesada mala e Fjor, com o baixo nas costas, voluntariou-se para ajudá-lo a dividir o peso. Antes de ir até o amigo, Fjor foi interrompido por Leo.

— Escuta, eu não sei se a magia é mesmo assim tão importante. Mas quando eu ouço isso aí… — Ele apontou pra Leila com um aceno de cabeça. — Eu me arrepio. Isso aí é mais que mágico! É fantástico!