Buscando

Leila e Beneditt espremeram um lugar no canto da charrete, ao lado de um desatento homem loiro e defronte aos dois irmãos. Assim que todas as pessoas e todos os instrumentos estavam a bordo, a charrete seguiu. Ninguém conversava. Leila tocava acordes que, embora soltos, formavam um ritmo estimulante, e tudo o que eles queriam era aproveitar o esplêndido cenário das colinas de Novo-u-joss, especialmente antes que precisassem entrar em uma maratona de preparação rumo ao palco.

No princípio seguravam-se para não cair; os yutsis corriam a toda velocidade nas descidas e subidas dos campos sedutores, a maioria castrados por terraços com batatas, todos com a presença de no mínimo alguns arbustos densos. Conseguiam, ainda assim, admirar algo das montanhas ao norte e ver, quando passavam pelos pontos mais elevados do trajeto, um pouco do rio Pudro. O que mais gostavam era, sem dúvida, as estrelas, que podiam ver de qualquer lugar: azuis e verdes (por vezes tão escuras que eram quase invisíveis ante o manto púrpura do céu), algumas vermelhas, alaranjadas, amarelas ou rosas. As estrelas de Novo-u-joss lhes desejavam boa sorte; podiam sentir o vento trazendo aquela mensagem do céu.

Começaram a chegar às jirs mais próximas ao centro. Pessoas com guitarras, baixos e por vezes baterias completamente montadas se reuniam no espaço pavimentado entre as casas, a maioria delas com um andar apenas e paredes vivamente coloridas — tons que só se deixavam adivinhar pelos minérios de luz que, solitários quanto a seus pares, sustentavam as singelas noitadas musicais por horas a fio. Os sons, que de qualquer forma seriam fugidios demais, não chegavam à charrete. Leila, com seu repetido padrão, não deixava.

A maioria das pessoas naquele pedaço de mundo sabia tocar alguma coisa. Ainda que não abundasse habilidade, não faltaria admiração a quem se dispusesse a fazer mais do que entreter amigos. A música movia a cidade — ou, pelo contrário, a mantinha no lugar. A sensação geral era de que ali ninguém conseguiria se comunicar bem sem música. Mais do que isso, sem a própria música.

Leila aumentava o ritmo das palhetadas, e arriscava um solo ou outro apenas para gracejar com Leo. Os dois se olhavam, cúmplices na aflição. Beneditt batia os pés. Fjor observava tudo ao seu redor, mesmo já tendo corrido aquele caminho várias e várias vezes. Os sorrisos de Leo e Leila cresceram, assim como os solos de Leila, que começavam a ficar um pouco mais rápidos. Mais uma jir se passou, e a charrete descia com violência o último morro antes do centro. As luzes da cidade passaram a encher cada vez mais os olhos dos músicos.

A jovem mulher de cabelos finos que comandava os yutsis diminuiu a velocidade ao efetivamente entrar na cidade. A rua em que trafegavam agora era larga: dos dois lados eles viam casas que serviam como residências — certamente muito mais bonitas e funcionais que as deles. Misturavam-se a elas casas de shows, padarias, pequenas lojas e grandes espaços abertos em que crianças brincavam enquanto uma roda de uns poucos adultos cantava um leque de modas populares. Quem andava nas ruas ao lado da charrete acompanhava Leila e sua guitarra com sorrisinhos satisfeitos, ainda que ela tivesse voltado a tocar uma simples sequência de acordes. Leo pensava que, diante de algo tão fácil de fazer, a maioria das pessoas estava apenas achando aquela moça bonita. Perguntou-se se ela chegara à mesma conclusão.

A cidade oferecia um espetáculo à parte; parecia uma única avenida sem fim com todo o tipo de letreiros coloridos, sons exóticos e cheiros que viravam pescoços. Tudo que eles viam era trazido à luz por minérios azuis e amarelos amarrados, nesta parte da cidade numerosos, pendurados em finos postes de ferro ao centro da rua. Todos os tipos de timbres de guitarra que os quatro integrantes da banda pudessem reconhecer estavam presentes, e havia também outras coisas a se fazer naqueles infinitos espaços fechados. Peças de teatro, da comédia ao horror, e restaurantes, com suas glamorosas ofertas gastronômicas pelas quais eles não poderiam pagar.

Pararam em um lugar cômodo para a banda e mais dois passageiros, que desejaram uma boa noite aos camaradas desconhecidos antes de se afastarem, puxando as dobras verticais das vestes longas para proteger as mãos do frio. Os músicos agradeceram, em momentos diferentes, agradecendo também à cocheira enquanto terminavam de descarregar a bagagem. Ela sorriu brevemente, olhando para trás por pouco tempo, e logo a charrete já estava longe.

Estavam em frente ao Colher de Limão, uma das mais conceituadas casas de shows de Novo-u-joss — embora não fosse nem de perto a maior delas. Era como diziam: grandes músicos precisam tocar no Gran Bosque para provar que têm público, mas precisam tocar no Colher de Limão para provar que têm qualidade. Muitas bandas que ao longo dos rosanos conquistaram a fama, mesmo dentro do estilo tradicional de rock, tocaram no Gran Bosque e atraíram milhares de pessoas para a apresentação. Ainda assim, não encararam o Colher de Limão.

Por outro lado, muitas bandas iniciantes tocavam ali. O dono do lugar abria espaço para qualquer músico sério mostrar o que conseguia fazer. A plateia era sempre composta por pessoas preocupadas com o quanto uma banda conseguia trabalhar em suas músicas tudo que uma boa música deve ter, com os elementos básicos investigados com reservas: riffs, batalhas de solos, mas também aquilo que os torna especiais. Que os torna únicos. Não ser especial poderia levar qualquer banda a muitos lugares razoáveis em Heelum, mas não ser especial no Colher de Limão significava não ser bom o suficiente.

— São os Colineiros? — perguntou Leo, em dúvida, ao reconhecer a música que vinha forte de dentro do bar. Beneditt respondeu que sim com um balançar de cabeça.

Entraram na casa. Não seguiram em frente; viraram à esquerda, entrando na área de funcionários. Cumprimentaram brevemente todos que encontravam por lá, e, já conhecendo o caminho desde quando foram contratados para o show (por um módico preço; nada mais justo, concordavam), foram subindo as escadas que os levariam para a sala dos músicos.

A sala ficava atrás do palco e de várias outras acomodações do Colher de Limão. A banda passava por cima de todas elas através de uma espécie de passarela, um túnel de fortes estruturas metálicas no segundo andar. Enquanto passavam por cima da sala de shows, Leila parou para observá-la.

— Leila? — Perguntou Leo.

— Eu vou depois… — Disse, compenetrada.

Os outros foram em frente. Leila via que a banda tocava bem. Empolgava o público. Eles tinham uma guitarra lilás de som marcante, e um baixo ainda mais presente. Olhou então para aqueles que se balançavam, contidos, à frente do palco. Seriam eles exigentes? O que seria preciso para impressioná-los?

Mesmo diante de mutáveis zonas sem luz, era possível ver que a plateia era essencialmente heterogênea. Alguns vestiam capas, grossas vestes e vestidos — a rouparia tradicional das cidades do Oeste de Heelum. Alguns vinham de calça e de camisa de algodão, mas eram mais raros sem algo que os protegesse do frio por cima. Não havia cor que predominasse. O que ela podia sentir, na barriga, na nuca, na inquietação dos joelhos, era que eles não vieram para se divertir. Vieram para conhecer.

E para julgar.

Foi precisamente por isso que Seimor escolhera o “Colher”, como era carinhosamente conhecido, naquela noite em que visitava Novo-u-joss. Ele entrou no estabelecimento ouvindo apenas uma parte da música de encerramento dos Colineiros. Pensou que se à primeira vista o lugar parecia pequeno, à segunda parecia minúsculo.

Do lado de fora, pessoas conversavam no pequeno jardim, com animadas conversas florescendo ao redor de mesas e bancos dispostos ao longo da avenida da cidade. Tudo era espaçoso e amplo. Mas quando Seimor (com uma grande barriga e, em parte por isso mesmo, sentindo-se desconfortável quanto a ficar em lugares pequenos) entrou no Colher, percebeu que talvez tivesse escolhido o lugar errado para ir. Mas decidiu ficar. Várias pessoas indicaram o lugar; algumas outras, a banda. Talvez aquela noite fosse valer o investimento.

Ao passar da porta, a primeira coisa visível era uma parte do palco, avistada através da abertura em arco que dividia a antessala e bar do lugar em que o show de fato acontecia. Via o baixista andar de um lado para outro, ocasionalmente aparecendo no seu campo de visão. De resto, via apenas os ouvintes, de costas. O primeiro andar, já alto, não era dividido do segundo por um teto. Era no andar de cima que ficavam os minérios de várias cores que iluminavam a casa inteira.

— Você vem aqui pela primeira vez. — Seimor ouviu um homem dizer.

Não era uma pergunta, e o homem que a fizera vestia um grosso casaco negro de goma escura com longas mangas. Ficava atrás do balcão de corvônia que se estendia pela antessala. Percebia, certamente por experiência, que aquele homem careca, com um largo e endurecido rosto, deveria ser novo na casa ou na cidade.

Seimor olhou com momentânea desconfiança para o surpreendente interlocutor e então deu um sorriso que, por mais que se esforçasse, jamais pareceria amável.

— Sim. Deve ser fácil dizer de onde sou.

— Na verdade não, senhor. Fale mais um pouco e posso tentar descobrir pelo sotaque. — Respondeu ele.

— Não tenho paciência para charadas. Meu nome é Seimor. Sou de Jinsel.

Tentando segurar-se para não levantar uma sobrancelha, o empregado foi mal-sucedido. Para sua sorte, estava escuro no interior da casa e Seimor nada viu.

— Nenhum comentário?

— Como?

— Sobre Jinsel.

— Não, senhor. Nunca estive lá.

— Não há muito pra ouvir. Vocês não vão gostar.

— E o que o senhor faz aqui? Algum motivo em especial?

— Procuro gente nova. Sou um agente musical.

***

Dentro da sala de espera dos músicos, quase do tamanho da sala onde ocorriam os shows, Leo se apoiava numa bancada negra em frente a uma superfície de prata polida — sujo e escuro espelho — deixando a cabeça pender entre os ombros. Tentava relaxar, mas não muito; queria dar o melhor de si.

Leila andava de um lado para outro, e Fjor estava deitado em um espaçoso sofá azul-marinho, de olhos fechados e braços cruzados. Cada um tinha seu jeito de aliviar a tensão, e Leila o fazia também ao observar os métodos alheios. Sabia, por exemplo, que Beneditt estava fazendo mais do que apenas um serviço necessário: ao arrumar a bateria, no palco, dava a si mesmo a impressão de que tudo ia ficar bem.

Alguém bateu na porta, de leve, e entrou. Fjor apenas abriu os olhos; Leila e Leo viraram os pescoços para o homem com sobrancelhas levantadas, que apenas disse “cinco minutos” após um olhar cansado e foi embora, fechando a porta atrás de si. Leo tirou as mãos de cima da bancada e ficou de frente para Leila.

— Nós vamos conseguir, não vamos?

— Sim. — Respondeu Leila, com um sorriso travado.

— Esse é o show mais longo que já fizemos.

— Sim.

— E com a plateia mais exigente…

— Sim, m-mas já fizemos muitos shows e ensaiamos bastante pra isso.

— E somos bons. — disse Fjor, levantando-se devagar. — Parem com isso. Se acalma, Leo, isso é o que a gente sabe fazer de verdade. — Fjor colocou a mão no ombro do irmão. — Queria desejar boa sorte aqui, mas não faço isso sem o Beni, então… — Agarrando o fino e elegante contrabaixo preto e caramelo, saiu. Leo e Leila o seguiram de perto.

***

— Então o senhor procura por talentos?

Novos. Quero pessoas com talento e força.

— Certamente. E o senhor, de todas as casas de shows, escolheu o Colher de Limão.

— Ora, não finja surpresa. Este lugar é o mais famoso de Novo-u-joss, embora… — E ele puxou as vestes mais para perto de si enquanto mais pessoas entravam — Pudesse ser maior.

— É como pedir que um momento seja maior, senhor. Ele deixaria de ser um momento, e em uma hora estragaria tudo que coubesse nele.

— Tudo bem. — Seimor parecia contrariado, mas não o bastante para se importar com isso. — Qual é o nome da próxima banda?

— O senhor não gostou desta última?

— Não. Agressivos demais.

— Hm. Bem, o nome da próxima é Buscando.

Buscando? Talvez encontrem…

— É uma… Oportunidade, senhor. — Como Seimor não estava rindo, talvez não fosse uma piada. O que deveria dizer?

— É claro que é. Diga, como funciona esse rock tradicional?

— Como funciona?

— Do que eles falam?

— Podem falar de qualquer coisa, senhor. Creio que hoje em dia é uma tendência falar sobre as dificuldades da vida das pessoas simples ao redor de Heelum.

— É isso que eles falam? Essa Buscando?

— Ah, não. Eles são um pouco diferentes.

— Hm. E como eles tocam?

— Com guitarras, baixo e bateria, senhor. — Disse o homem, esfregando um copo recém-lavado.

— Ouvi dizer que há uma batalha de solos…

— Sim. Em geral são dois guitarristas, que, novamente, em geral, não tocam juntos a maior parte do tempo… Mas há uma parte de cada música em que eles vão tocar solos, e que agirão como se tentassem superar um ao outro. É muito bonito de se ver, senhor.

Seimor não respondeu. Olhou para o palco sem demonstrar qualquer emoção óbvia. Todo o salão estava iluminado apenas por luzes vermelhas.

— Em Jinsel não se… Faz isso nas músicas?

— O povo não gosta muito dessas coisas. — Disse Seimor e, virando-se de volta para ele, soltou mais um sorriso fora de sintonia — Nós somos mais… Diretos.

O anfitrião concordou com um sutil balançar da cabeça. Colocou o copo e a toalha no balcão de corvônia e ficou feliz ao ver que algumas pessoas queriam alguma coisa. Murmurou um simples “Com licença, senhor” e se afastou do homem de Jinsel, que não respondeu; apenas se levantou e, ajeitando-se um pouco mais, abriu caminho até a sala principal. Ainda que fosse maior do que ele inicialmente supôs, não caberiam cem pessoas nela, calculou. Arranjou um lugar perto à parede e pôs-se a esperar.

***

— Bem… Estamos aqui — Disse Leo.

Todos concordaram silenciosamente. Os instrumentos estavam posicionados. Tudo estava de acordo. O tempo se esgotara, e eles podiam começar quando quisessem.

— Vamos lá. Boa sorte! — Disse Fjor, sorrindo.

Cada um tomou suas posições atrás de um fio que pendia do teto, segurando à altura do peito de cada músico um minério de som, que tornava mais alto o volume do que eles cantassem ou tocassem. Minérios de som eram esféricos, negros e opacos, além de raríssimos: controlados pelas agências de música e casas de shows, era praticamente impossível comprar um para uso pessoal. Leila, Leo, Fjor e Beneditt esfregavam com as mãos as esferas. Dali em diante o que quer que falassem seria ouvido desde a porta do Colher.

A sala, em que uma quantidade amedrontadora de pessoas conversava, continuou banhada em vermelho, rodeada pelo alaranjado que se tornavam as paredes amarelas com aquela iluminação. Leo, que vinha no centro, logo à frente de Beneditt, fez um sinal positivo para o alto. Os empregados do Colher que trabalhavam especificamente com os minérios colocaram tochas atrás de uma pequena mureta, embaixo do suporte das pedras escarlates. As luzes rapidamente se apagaram, e as conversas deram lugar ao silêncio.

Leila buscou o olhar de Leo, mas não o encontrou; apertou a mão esquerda no braço da guitarra, que parecia rosnar sob sua guarda.

Uma luz amarela surgiu, mostrando apenas Leo.

— Oi… Boa noite. Nós somos a Buscando, e… — As palavras escorregaram como água entre os dedos. Era estranho falar com a escuridão, ainda que fosse a origem de um místico burburinho. — Bem, eu… Gostaria de agradecer o Colher de Limão e… Espero que vocês gostem.

Leila, Fjor e Beneditt teriam se entreolhado, se pudessem. Onde estava a frase que haviam combinado?

— E… — Hesitou Leo. — Essa se chama… — Engoliu. — Começando a madrugada.

Os integrantes da banda respiraram mais tranquilos, mas logo as sensações voltaram, pantagruélicas. Os iluminadores se mexiam, rápidos, e logo um novo foco de luz surgia, enquanto o de Leo desaparecia. Leila ficou debaixo de um holofote azul e, não conseguindo evitar um sorriso enquanto olhava para os fios de níquel do próprio instrumento, posicionou a mão esquerda nas cordas e começou a tocar.

As primeiras notas, em um primeiro momento parecendo dissonantes, mas surpreendentemente envolventes, começaram a ganhar corpo com as batidas em um único tambor que surgiram com Beneditt — e junto com elas um foco de luz vermelho sobre ele. À batida de pratos, que fez o público acordar para a música, uma luz verde revelou Fjor e o baixo, que adicionaram movimento à música.

Era um som essencialmente tranquilo, mas rápido e intrigante: o baixo ia e vinha, e levava com ele a guitarra de Leila — travesso, tirava de cena na sequência o que acabava de mostrar. Beneditt, depois de introduzir o baixo num prelúdio, tocava de maneira mais cadenciada.

Depois de duas sequências do riff principal, a luz amarela voltou a focar Leo, que, batendo o pé ao ritmo e olhando para o espaço acima de onde achava estar as cabeças do público, cantou:

Tarde da noite, eu conheci

A alma da tarde, eu descobri…

Aos poucos Beneditt começava a incluir mais os pratos no ritmo simples e espaçado que criara, aumentando a força que usava neles a cada batida; Leila, começando a se soltar, olhou para o lado e viu Fjor, tocando serenamente, com a cabeça abaixada, enquanto Leo aproximava a esfera de som da boca novamente.

Que agora era cedo… Ainda!

Lá fora então a vida finda

Depois de cantar a última palavra com os olhos fechados, Leo deixou a esfera cair de propósito para tocar um curto riff com sua guitarra, ao mesmo tempo em que Beneditt virava nos tambores e acelerava o passo; as luzes do palco tornaram-se todas vermelhas, e os dois guitarristas começavam a tocar acordes feitos com uma palhetada, rápidos e incisivos. Mais volumosa, a música vinha para o refrão — que Fjor, Leila e Leo cantavam juntos.

O que eu vi, eu não posso esquecer…

O que eu sei é que eu não vou me perder

E no meu fim, só o que é resta é ver…

As luzes se apagam, o baixo e a bateria se interrompem: apenas as duas guitarras tocam os mesmos acordes, repetidamente, rapidamente; uma profusão de luzes de tom quente vai pouco a pouco iluminando a sala inteira, e o público vê que Leila e Leo olham um para o outro ao tocar o simples mantra musical. Leila sorria como uma feliz criança e, antecipando uma batalha de solos, fez-se silêncio; mas quando as luzes atingiram o pico da intensidade, Beneditt recomeçou a bateria e Fjor, o baixo. Leo rapidamente voltou à posição enquanto Leila continuava nos acordes do verso.

Não tenho lar, apenas par

Não tenho pra quem mais olhar

Não tenho outra profissão

Quem me ganhou foi a escuridão…

A banda recomeçava o refrão, com cada vez mais força e autoconfiança. O público parecia se deixar envolver. Seimor via que a banda tocava bem; bem o suficiente para o que quer que pudesse fazer com eles. O baterista não parecia ser genial, mas esta podia ser uma música que exigia pouco dele. O baixista era centrado; deveria tomar cuidado com ele, caso fosse um mago. O vocalista masculino era carismático e agia naturalmente no palco.

No entanto, o que mais chamou a atenção de Seimor foi Leila. No momento em que a luz a atingiu, ele viu-se tomado por uma curiosidade que se tornou, pouco a pouco, luxuriosa necessidade de tê-la. Cantava excelentemente, e era de uma beleza estonteante. Não apenas seria ótima como líder da banda — obviamente deveria substituir o atual, ainda que ele pudesse cantar parte das músicas — mas também seria a adição mais bela aos seus rosanos de experiência. Seria, na verdade, única; nunca havia provado o exótico néctar das fortes mulheres de Novo-u-joss.

Enquanto fazia planos em sua mente — tanto profissionais como pessoais — Seimor viu do que o homem do balcão falara há pouco. O público parecia estar gostando da batalha de solos em que, apoiados pela bateria e pelo baixo, os dois guitarristas revezavam-se fazendo solos cada vez mais intrincados e complementares. Curiosamente, enquanto o homem no centro do palco esforçava-se em solar para o público, Leila, quando tocava ou esperava sua vez, sempre olhava para ele — sempre o buscava, com um sorriso encantador e brincalhão. Para ele aquilo era uma performance, com controladas margens para o gozo do momento; mas para ela, aquilo era como uma divertida competição, e o público podia gostar ou não — ela sentia-se iluminada por estar tocando, e nada mais parecia importar.

Seimor cruzou os braços.