Tradição

O cenário era o melhor que os dois já haviam visto em suas curtas vidas. Um dos motivos para tanto era o cenário; o outro, o contexto. É certo que sentavam no chão, encostados no amontoado de terra que os levaria mais acima no morro, mas eram assentos privilegiados, próximo ao topo de uma elevação coberta por pinheiros de folhas anormalmente grandes e grossas. Para além deles começava uma complexa rede de casas simples e lojas agregadas em prédios de dois ou três andares, já em terras planas. Mais longe ficava um conglomerado de grandes castelos de corvônia: um número sem-fim de túneis, corredores, câmaras, salas, pequenas torres e, atiçando a curiosidade e fantasia de muitos, passagens secretas — crescimento, para Al-u-ber, significou a simbiose do que um dia foi símbolo de belicosa divisão. Mais perto do litoral havia várias torres longas e imponentes — a maior delas, a Bela Torre, contrastava com o azul e amarelo do céu em sua potente negritude esguia. No solo era possível discernir um pouco do Rio Trojinsel. Atrás das figuras das torres o mar estendia-se, limpo e plano, espraiando-se como promessa e destino.

Tadeu e Amanda conheciam quase todos os detalhes daquela paisagem. Jovens e enamorados, os dois abraçavam-se, as duas mãos de cada um dadas, ligadas pelos vãos dos dedos. Visitavam aquele lugar de quatro em quatro dias, sempre ao pôr do sol, para poderem ficar juntos longe da vigilância urbana: ninguém sabia do romance, e se quisessem ficar juntos era assim que as coisas precisavam ser.

— O que você acha que vai acontecer hoje à noite? — Perguntou ela.

— Não sei. Você quer aprender?

Ela deu de ombros.

— Acho que é importante.

Ele olhou para a esquerda. O sol sucumbia, desaparecendo por detrás da linha do horizonte, feita de matagais e daquilo que pareciam ser casas e construções de distantes jirs.

— Me sinto como ele. — Disse Tadeu, sem saber ao certo se deveria adicionar um “às vezes” ao comentário.

Amanda olhou em direção à luz.

— Como quem?

— Como o sol.

— Desaparecendo? — Perguntou ela, franzindo o cenho.

— Não. Fazendo parte de uma história que eu sei como vai acabar.

— Ah, Tadeu… — Ela se aninhou mais nos ombros dele, tentando confortá-lo sendo confortada no processo.

— É sério. Roun. Brilhante Roun… Todos os dias começa vencendo Nauimior e, depois de um tempo passando pelo céu, tem que enfrentar seu destino. Ser derrotado.

Ela riu, baixinho.

— Está vendo como ele anda bem devagar? — Reafirmou ele. — É desse jeito que ele vai rumo ao fim…

Ela passou a encarar Tadeu de frente, ainda com o rosto cômico. Puxou o rosto dele para si, de leve, com a ponta dos dedos.

— Você não vai morrer. Isso vai ser bom!

— Até hoje só tem separado a gente.

— É, mas… Se não fosse por isso nós não estaríamos juntos, não é?

Agora foi a vez dele de sorrir, olhando para a própria mão descansando sobre a calça.

A primeira vez que os dois se viram foi quando tinham cerca de dezessete rosanos. O pai de Tadeu, Galvino, era um proeminente mago e político. A mãe, Eva, também maga, apenas acompanhava Galvino na carreira, sem exercer uma profissão independente. Os três foram um dia a um jantar na casa de um mago que, por alguma razão inescrutável para um menino tão jovem, também viria a fazer parte dos círculos de poder da cidade.

O mago, Barnabás, aparentava ter mais que oitenta rosanos, mas era ligeiramente mais jovem. Majoritariamente calvo, com o cabelo que lhe restava tomado por uma tempestade cinza, tinha um rosto cansado, mas um sorriso encantador.

Em contraste, Galvino tinha um longo e liso cabelo loiro e, apesar de bastante experiente, aparentava ser mais jovem. Seus olhos azuis — que Tadeu também tinha, para explícita alegria de Amanda — eram emoldurados por feições sérias. Raras vezes Tadeu vira seu pai sorrir; raras vezes ele não usava sua máscara habitual de homem preocupado, ocupado e atarefado.

A mãe não era tão atarefada, mas em seus olhos ovalados uma preocupação era tão perceptível que Tadeu aprendera, por direta intuição, que não deveria sempre chamá-la, depender dela. Não deveria falar com ela por muito tempo. Morena, tinha um curto cabelo negro e ostentava o nariz mais perfeitamente reto que Al-u-een já havia visto.

Barnabás não tinha uma família normal para os padrões de Al-u-ber. Sua mulher havia morrido durante o parto da única filha que tiveram, e desde então ele não quisera outra mulher em sua vida. Tadeu lembrava que, enquanto sua mãe se desculpava por tocar em um assunto tão pessoal, ele olhava para Amanda com curiosidade e suprimido espanto. Ele ainda não havia tomado consciência de afastamento algum em relação à própria mãe, mas não tê-la por perto? Como isso era possível para aquela menina?

Amanda também olhava para ele com curiosidade. Daquela noite Tadeu pouco lembrava quanto ao que ela vestia, mas lembrava que seus cabelos eram lisos, como os de Galvino, porém ainda mais longos e, ao invés de loiros, dotados de uma espécie de acobreado que combinava com seu rosto de linhas macias. Os olhos castanhos dela surpreenderam-se com o escuro cabelo penteado à esquerda do garoto, e também com seu pequeno nariz coberto em manchinhas beges.

— Se não fosse por isso talvez a gente tivesse amigos. — Argumentou ele.

Ela torceu a boca. Sabia que era verdade.

Depois de tanto tempo, o cabelo dos dois havia se transfigurado: ele não tinha mais cabelo algum, e ela havia cortado o seu. Ele, porque precisava fugir da vontade de ter cabelos longos, finos e retilíneos como os do pai. Ela, porque precisava fugir das boas razões para se cultivar um cabelo comprido em Al-u-ber.

Se a magia fosse proibida, qualquer descendente direto de magos teria que crescer sabendo mentir, tendo medo do que significaria ser íntimo de alguém. Com a magia sendo a chave para o poder, aquela era a cidade do interesse. Crescer em uma família poderosa significava também ter medo de ser íntimo de alguém, mas por razões completamente diferentes.

Depois de se conhecerem, Tadeu e Amanda continuaram a se encontrar pelas ruas de Al-u-ber e em ocasionais visitas. No entanto, não importava o quanto suplicassem pelo contrário, viam-se menos e menos regularmente. Quanto menos aleatórias as visitas se tornavam, menos os pais gostavam da ideia de que convivessem tão de perto. Eles nunca diziam isso, mas mostravam com expressões faciais, olhares enviesados, comentários abafados.

Um adorava poder sentir no outro uma relação de verdade. Era como se não precisassem ter mais medo. Os pais, contudo, preferiam que eles se relacionassem com outras crianças — crianças que também eram incentivadas pelos próprios pais a frequentarem a casa de Barnabás ou de Galvino.

Mas os dois tinham uma sensibilidade superior. Tanto para saberem que gostavam um do outro quanto para verem que havia algo de errado com aquela rotina que lhes era cada vez mais imposta. Sempre que os pais estavam por perto, sentiam-se bem dispostos. Até conseguiam, com os colegas sugeridos e pré-aprovados, compartilhar momentos bons. Mas, à distância dos progenitores, nada funcionava tão bem. Por vezes eram perguntados sobre magia, mas dela nada sabiam; e quando isso vinha à tona, a conversa morria, afogada em inexorável frustração. Tadeu e Amanda pareciam ser os únicos a terem interesse quase nulo por magia. Não demorou muito para que Tadeu relacionasse a ausência do pai à ausência de vontade, de significado, de apetite — e entendesse na raiz de quem era o sentido da palavra solidão.

Uma vez, sepultando suas antigas dúvidas e suscitando novas, escutou uma briga do lado de fora do quarto dos pais.

— Você vai parar com isso, Galvino.

— Por que, Eva? Porque estou tentando dar uma vida pra esse garoto?

— Ele tem uma, seu estúpido! — Dizia ela, com uma voz contida, mas claramente irritada. — Ele tem uma e você está arruinando ela!

— Tem certas coisas que não podem acontecer, você sabe do que eu estou falando

— Ele é só um garoto, Galvino, ele não sabe de nada disso e não tem como descobrir. Do que você tem medo?

— Você diz que se preocupa com ele, mas eu sei o que pode acontecer se ele sair da linha quando começar a aprender o que deve!

Eu também sei muito bem. Não me chame de desinformada ou me acuse de negligência. E eu sei que o seu jeito de lidar com isso tudo vai fazer tudo acabar do jeito que você e eu não queremos.

— Então o que você sugere, Eva?

— Você não vai atacá-lo de novo. Eu vou protegê-lo.

— E como você vai fazer isso?

Silêncio.

— Você vai me atacar?

Ao ouvir isso, Tadeu respirou pela boca, assustado, fazendo um barulho alto demais para a quietude da casa. Andou para longe da porta o mais sorrateiramente que pôde, já nem sabendo se isso tinha funcionado, e quando pensou estar a uma boa distância dali começou a correr.

Os próximos dias foram de batalha. Uma em que os lutadores brandiam espadas por debaixo das aparências. Sempre que os pais estavam perto, Tadeu podia ver que os dois, às vezes por minutos inteiros, deixavam de prestar atenção ao que faziam. O garoto não sabia qual parte daquilo era culpa sua, mas sentia-se mal. Na verdade, chegava até a sentir como se precisasse encontrar alguns amigos — aqueles garotos que o pai tanto queria que tivesse por amigos — mas isso era passageiro; em outras ocasiões sentia apenas que precisava ficar em casa, e durante esses dias fazia muito pouco, ocupando-se basicamente de teorias, uma pior que a outra, quanto ao desentendimento entre os pais. Às noites, durante o jantar, era como se ninguém na casa dormisse há dias, mesmo que nada minimamente cansativo tivesse sido feito o dia inteiro.

Depois de algum tempo, as coisas estranhamente começaram a voltar para o lugar. Eles não pareciam mais tão cansados. Galvino saía de casa todos os dias para suas atividades, como fazia antes. Todos retomavam suas tarefas e rotinas de outrora, mas apenas o silêncio permanecia: algo havia sido estabelecido entre os pais. Eles só haviam esquecido de dizer a Tadeu o quê.

Preocupado e nada satisfeito, saiu de casa um dia e bateu à porta da casa de Barnabás. Ele, nervoso e assustado com as possibilidades daquele encontro inesperado, lembrava-se que ela mesma atendeu a porta e, olhando para os lados — tão nervosa quanto ele — o puxou pela mão.

Os dois subiram a colina de pinheiros o mais rápido que puderam por uma trilha. Tadeu tinha medo daquele lugar, em que as sombras eram frias mesmo sob o forte sol de torn-u-sana, mas não queria mais ter medo de nada. Amanda parecia conhecer bem o trajeto, e o guiava com simplicidade. Chegaram ao mesmo lugar em que estariam sentados rosanos depois, e tentaram compreender o que Tadeu havia escutado.

— Mas o que isso quer dizer? — Perguntou a Amanda de cerca de vinte rosanos ao terminar de ouvir o relato.

— Eu não sei. Você não sabe de nada sobre magia?

Ela olhou para ele com um misto de decepção e raiva.

— Você parece as minhas amigas. — Disse, virando-se de costas.

Tadeu abriu a boca, arregalando os olhos ao perceber que parecia exatamente como os supostos amigos dele também.

— D-desculpa.

Quando ela se virou de novo, estava chorando. Ele não soube como reagir, mas seu corpo soube: um arrepio perpassou sua coluna; ele queria poder fazer algo. Qualquer coisa que parasse aquilo. Que a confortasse.

— Eu só… Estou tão cansada de não sentir nada pela minha mãe. Ou, de… E-evitar, n-não pensar no que eu sinto… Eu fico ouvindo na minha cabeça que não vai adiantar de nada chorar por ela, mas… Eu queria tanto ter conhecido ela, Tadeu…

Ela começou a soluçar violentamente, e Tadeu cedeu ao impulso de abraçá-la. O fez de maneira desajeitada, e a cabeça dela tremia enquanto se deixava envolver pelo afago do garoto.

— Eu só… — Ela se afastou; seus olhos se comprimiam ao ponto de quase fecharem enquanto as lágrimas rolavam pelas bochechas — Estou tão cansada de seguir a minha cabeça o tempo todo…

E então, de um jeito doce como ele não conseguiria sequer imaginar, ela o beijou.

***

Tadeu acariciava as costas da mão de Amanda com o polegar; os outros dedos sentiam a textura da própria calça bordô e da longa capa verde-musgo que Amanda emprestara do pai.

— Lembra de quando a gente brigou feio?

— Lembro… — Respondeu ele, nostálgico.

— Você ainda acha que o seu pai fez tudo aquilo? Fez a gente ficar com raiva um do outro?

— Eu não sei. Só sei que foi uma boa chance pra passar a ideia de que a gente estava separado. De vez. — A tristeza de ambos foi verdadeira apenas por um tempo, e estava sendo falsamente prolongada desde o incidente. Oficialmente, um estava mais do que disposto e inclinado a esquecer o outro, e a recíproca era verdadeira. Já tinham esquecido.

— Será mesmo que eles acreditam nisso?

— Não sei.

Amanda suspirou, abatida, como sempre ficava quando chegava aquele momento. O sol já havia se posto por completo. Ela queria perguntar se ele imaginava que eles pudessem ficar juntos algum dia, como um casal normal, ignorando o que quer que houvesse de errado com a combinação de seus afetos. Mas a pergunta morreu no tempo.

— Temos que ir.

— Sim.

Os dois se levantaram e, ainda com as mãos juntas de frente um para o outro, se beijaram devagar e apaixonadamente; depois de separarem os lábios, ficaram ainda com os rostos em contato. Ela passou a mão na cabeça lisa do garoto, deslizando para a nuca. Ele, nas curtas madeixas lisas da garota, deslizando para o pescoço.

— Boa sorte. — Disse ele, baixinho.

— Pra você também.

Foram embora, um para cada lado. A charrete dela a esperava ao fim da trilha tradicional, que ela conhecia bem; a dele, bem longe, em uma que ele abrira sozinho.