Alorfos e filinorfos

Al-u-een foi a terceira cidade a ser fundada depois que os humanos fugiram do Yutsi Rubro, deixando a Cidade Arcaica para trás. No entanto, diz o ditado popular local que ela foi a primeira, já que foi a única cujo povo, à época, quis ficar exatamente onde estava. Kerlz-u-een e Rirn-u-jir não passavam de postos militares; fortalezas provisórias que todos desejavam abandonar ao primeiro sinal de que pudessem voltar para o lugar de onde vieram. Um ditado jocoso de Roun-u-joss dizia que ela foi a primeira cidade a descobrir a justiça — o que, curiosamente, alguns em Al-u-een ouviriam sem notar o sarcasmo.

Ambos os ditados informavam muito sobre a cidade. Ao longo da história foi um dos locais mais influentes de Heelum: sua arquitetura, cheia de colunas, igualdades e proporções, era muito admirada e copiada. Suas esculturas, que complementavam de forma brilhante o urbanismo perfeccionista, geraram toda uma tradição por seus próprios métodos. Sua política serviu como modelo natural para Rouneen, Ia-u-jambu e Novo-u-joss em seus primeiros tempos.

Na manhã seguinte àquela noite gelada, Al-u-een seria o cenário de um assassinato.

Ao sul do Rio Ia dois homens caminhavam por uma rua em frente à praia, vestindo grossas capas negras por sobre roupas presumivelmente ainda mais quentes. As ondas iam e vinham, no eterno quid pro quo com a fina areia. A distâncias regulares, um poste de corvônia brotava da calçada da rua de paralelepípedos. Altos e resistentes, tais postes terminavam em uma esfera oblonga da qual saíam oito finas hastes curvilíneas, simetricamente dispostas como as de um polvo. As hastes juntavam-se em uma espécie de pedestal, acima da esfera, e lá era colocado o minério que iluminaria aquele pequeno trecho da cidade. Com as mãos nos bolsos, os dois andavam despreocupadamente, mas nisto fingiam: pensavam seriamente no que aquela noite podia trazer.

— Que casa é? — Perguntou Kan.

— Esta.

Enfim pararam. O homem que identificou a casa, Lenzo, tinha um rosto redondo e relativamente pequeno. Seus olhos, amendoados e castanhos, vasculhavam a rua à procura de algum estranho a observá-los.

— Me esconde. — Pediu ele.

Kan, com longos rosto e corpo e a barba por fazer, fez que sim com a cabeça. Mergulhou em um outro tipo de escuridão, e quando emergiu estava pisando não em pedra, mas em grama.

Olhou para o lado e viu um imponente castelo dourado fosco; reconheceu estar ao lado da torre oeste. Voltou-se para a frente e, com um rápido escrutínio, percorreu a região inteira. Sentiu o vento no rosto ao percorrer toda a área, todas as direções, e voltar até onde estava. As estrelas ainda giravam e se recombinavam no céu quando ele assegurou-se de que aquele era mesmo o único outro castelo na região — quando assegurou-se de que estavam, enfim, sozinhos.

Levantou as mãos em direção à construção, um pouco menor que a própria e, como numa súplica por esmola, manteve a palma da mão para cima. Logo a escuridão do céu começava a se misturar com as sombras do castelo, e as luzes, vindas dos minérios nas salas com janelas, começavam a brilhar mais forte, para depois serem engolidas para dentro da escuridão que caía por sobre o prédio como se o céu derretesse. Enquanto os últimos raios de luz entortavam-se num redemoinho, o próprio castelo chegava mais perto dele; a destruição fazia aproximar, sem força e sem movimento, sem tirar do lugar.

O próprio céu ganhou as tonalidades das paredes externas do castelo e, logo depois, o mago se viu do lado de dentro, e todos os objetos do salão principal — das velas às cadeiras — estavam distorcidos e estendidos; ora grandes demais, ora pequenos demais, formando uma redoma de paredes e luz ao redor do centro que havia se tornado o mago. O teto esférico começou a convergir para ele e, antes que tudo entrasse em colapso, o mago fechou os olhos.

Após sentir um breve calafrio, abriu-os e contemplou a rua em frente à praia novamente.

— Não tem mais ninguém? — Perguntou Lenzo.

— Eu não vi. — Respondeu Kan. — Agora anda, me esconde também.

***

Lenzo bateu duas vezes na porta da pequena casa. Ela ficava no meio de um terreno grande, e suas paredes externas, pintadas em azul real, estavam longe das paredes de todas as casas da vizinhança. Completamente quadrada e com apenas uma janela nos fundos, emoldurada com madeira pintada de amarelo, a casa era de arquitetura tão empobrecida que era uma raridade naquele bairro de Al-u-een.

— Quem? — Perguntou uma seca voz feminina.

— Lenzo e Kan.

A porta se abriu. A fraca luz da rua não conseguia adentrar o recinto, tão intensa a escuridão do lugar; os dois magos, com seus castelos tornados invisíveis um pelo outro, conseguiam ver apenas um fino braço, iluminado de azul claro, segurando a porta pelo lado de dentro.

Assim que entraram e a porta se fechou, a escuridão foi completa. Ouviram um barulho; um farfalhar que adivinharam estar relacionado a roupas ou tecidos, e depois um baque maciço de algo como uma pedra contra uma superfície de madeira. Uma luz vermelha começou a surgir em cima daquilo que parecia ser cada vez mais uma mesa redonda. A luz, ainda que não tão forte quanto poderia ser se cinco pessoas não estivessem aglomeradas naquele espaço abafado, revelava os rostos dos convidados e dos anfitriões da noite.

— Boa noite, Lenzo.

Aquele com a palavra era um homem moreno e forte, com um rosto grande e cheio. Seus olhos escuros abaixo de uma cabeça perfeitamente lisa, juntamente à boca fechada disposta em um contido sorriso, davam efusivas boas vindas aos visitantes.

— Obrigado por trazer Kan. — Completou ele.

— Hiram. Há muito tempo não nos vemos. — Disse Kan, com um sorriso similar.

— Não querem se sentar?

Kan pigarreou após acomodarem-se, ele e Lenzo, nas cadeiras disponíveis.

— Quem são os amigos?

— Este é Gagé, filinorfo de Kerlz-u-een — Hiram apontou para o homem à direita dele, de pele ainda mais escura que a própria e com um curto cabelo encaracolado. — E esta é Raquel, de Roun-u-joss. — Hiram apontou para a mulher de rosto experiente, e cabelo castanho-claro preso num grande coque. — Este, meus amigos, é Kan, o alorfo de quem muito falei esta semana.

Gagé era musculoso, mas de baixo porte, enquanto Raquel era o completo oposto. Alta, mas magérrima. Hiram fazia uma boa média aritmética entre os dois tipos.

— Aposto que não fala muito bem de mim, não é?

— Eu?! — Perguntou Hiram, pondo o dedo indicador no próprio peito ao libertar-se numa risada contundente. — Pode apostar que sempre falo muito bem de você, meu amigo!

Hiram ria sempre com vigor, as bochechas quase forçando os olhos a se fecharem. Disso Kan se lembrava.

— Lenzo me disse que você queria falar comigo. Por que me chamou aqui, Hiram?

Hiram respirou fundo, olhando para os dedos médios de Kan, que tamborilavam na mesa.

— Porque precisamos de você, Kan.

— Por quê? O que vocês pretendem?

— Matar Hourin. — Respondeu Hiram, com simplicidade.

Kan olhou para Lenzo, cujo olhar parecia estar em outro lugar.

— Você enlouqueceu?

— Não.

— Você está falando sério?

O filinorfo aproximou seu corpo da mesa e, com as mãos ficando perto do minério, a luz levemente feneceu.

— Eu vou ser sincero com você, Kan. Você era um dos nossos. Estava conosco. Lembra-se de nós? De nós dois, antigamente? — Kan balançou a cabeça, sem parar de olhar com o que parecia ser regulada curiosidade para Hiram. — Eu sinto saudades. De verdade. Não consigo esconder isso, você sabe como eu sou… E então você nos abandonou. Preferiu ser um alorfo… Preferiu acreditar que você pode consertar tudo de errado que há com o mundo ensinando magia às pessoas. Tudo bem. Não deixa de ser um nobre objetivo. A conscientização. — Se afastou novamente, ficando levemente deitado na cadeira, a luz vermelha produzindo sombras tortas nos olhos de Hiram, Gagé e Raquel. — Mas me dói acreditar que você realmente cai nessa ilusão.

— Qual é a maior ilusão, Hiram? Acreditar que a educação das pessoas para a magia é a melhor forma de ajudá-las ou acreditar que a morte de um político qualquer vai mudar alguma coisa?

— Você está dando veneno às pessoas achando que vai curá-las da doença, Kan!

— Mas a magia não é veneno. É ferramenta. Você pode usá-la para o bem ou para o mal.

— Ah, disso eu já ouvi… E você, que já foi um mago comum? Um preculgo? Acha mesmo que seu mestre se preocupava com o bem ou o mal, Kan?

— Eu me preocupo. — Agora era Kan a recuar na cadeira. — É o que me basta.

— Que pena, Kan. Que pena que não basta às milhares de pessoas doentes, miseráveis ou simplesmente vivendo em condições terríveis de vida porque elas trabalham, às vezes como loucos, para saciar a fome inesgotável dos senhores magos. — Hiram pôs uma ênfase tamanha na última palavra que era como se falasse de pragas de lavoura. — Pessoas sem cuidados médicos, com casas podres, sem uma roupa digna, sem comida suficiente.

Lenzo observava Kan, continuando os dois tão sérios quanto antes.

— Eu sei, Kan, eu sei… Não se preocupe em demonstrar sua frustração. Eu conheço você, e sei que a sua incapacidade de falar não significa que reconheceu sua derrota.

— Isso não é uma disputa.

— Ah, Kan, sempre é! — Riu-se Hiram. — Sempre é uma disputa! Mas nesse caso é uma disputa de você consigo mesmo… Tentando justificar o que você faz.

Justificar, Hiram? — Disse Kan, estreitando o olhar. — Eu tenho ensinado o que significa a magia, a dezenas de pessoas, para que elas entendam o poder que os magos têm em Al-u-een e em Heelum. Um poder que não deveriam ter.

— Isso é bom. Tem ensinado seus alunos a lutar contra isso também?

— Não. Não quero que eles virem foragidos que têm que viver em casas como essa.

Hiram entortou a boca, assentindo com a cabeça. Reconhecia, até com um quê de orgulho, que merecia o insulto.

— Então ensina seus alunos a serem como os algozes deles?

— Por que está me perguntando isso tudo, Hiram? — Questionou Kan, bufando.

— Para que perceba o que está fazendo, Kan. — O olhar de reprovação de Hiram parecia irritar Kan profundamente, já que Lenzo podia ver, ainda que apenas através de imprecisos contornos, o punho fechado do colega por debaixo da mesa. — Você sabe que este poder é o problema, mas ao invés de querer acabar com ele, você quer que todos tenham o mesmo poder. A mesma capacidade de dominar uns aos outros.

— E você acha que é possível acabar com esse poder? Olhe o que você tem. — Kan percebeu, com uma olhada rápida para todas os cantos da sala, que Gagé e Raquel olhavam para Lenzo, e que este, por sua vez, olhava para baixo, com a luz vermelha deixando sua pele rosada demais para perceberem que estava pálido, mas brilhante o suficiente para verem o quanto ele suava. — Você tem quatro pessoas dispostas a tirar de cena um político mago em Al-u-een, e existem milhares de magos em Heelum, todos coordenados, se ajudando, disso nós sabemos… Como você espera conseguir isso?

— Com a sua ajuda, Kan.

Kan desviou o olhar, em silêncio. Hiram sorria, aberto como um velho amigo.

— A magia nunca vai acabar.

— Vivíamos sem ela antes, podemos viver sem ela daqui pra frente, Kan.

— Ela é um mistério de Heelum, Hiram. Como é possível… Reprovar isso?

— Está dizendo que é natural um ser humano dominando o outro e usando o outro como se faz de praxe, Kan?

Kan voltou a se recostar, parecendo cansado do jogo de palavras.

— Não foi pra isso que a Rede de Luz nos criou, Kan. A educação para a magia não vai salvar ninguém. Acorde, Kan! Metade dos seus alunos acaba sendo resgatada por magos tradicionais. São envoltos pela ganância!

Era uma estatística bem próxima dos alunos de Lenzo, pelo que ele próprio podia recordar.

— Outra parte acaba caçada, morta, intimidada… Os magos dão tanto trabalho infrutífero para a polícia dessa cidade, Kan!

— E você quer dar ainda mais trabalho pra eles.

— Quero. Quero sim. Mas um que valha a pena.

Kan refletiu em silêncio, cruzando os braços.

— Você vai, Lenzo?

Lenzo deixou de olhar o que quer que estivera olhando anteriormente na mesa e olhou para Kan. Os olhos arregalados e lacrimejados significavam, na linguagem dos gritos desesperados, que uma decisão estava sendo tomada.

— Eu… — O silêncio durou alguns instantes apenas, e mesmo assim conseguiu fazer o coração dos filinorfos da sala parar. — Tudo bem.

Kan olhou para baixo por uns instantes e enfim deu-se por vencido, abrindo os braços e voltando a colocá-los sobre a mesa.

— Tudo bem.

Hiram sorriu, satisfeito.

— Qual é o plano? — Perguntou Kan.

— Correm boatos — Recomeçou o líder filinorfo — de que as portas de Hourin estão abertas. A filha está doente. Há dias não vai ao Parlamento. Não sai de casa.

— Eu fui até lá e falei com ele. — Interrompeu Lenzo. — E… Quando eu olhei pro castelo, o-o castelo dele, as portas estavam abertas sim.

— Lenzo o conhece. É sobrinho dele. — Clarificou Hiram. — Ele é um mago enfraquecido, essa é a verdade… Um mago não deixa as portas abertas, você bem sabe, Kan. A ideia é que, enquanto Gagé, você e Lenzo falam com ele pela porta da frente, eu e Raquel entramos no quarto da filha dele, que fica no segundo andar.

— Da filha?

— Sim. Atacamos a filha, que está frágil também, para que ela fique quieta, apenas. Atrás da porta outro de nós espera. Com a espada.

— E qual é a nossa parte?

— Vocês falarão com Hourin ao mesmo tempo que o atacam. É preciso fazer com que ele sinta que há algo de errado com a filha. No momento certo, é claro. Depois nós pegamos o maldito quando ele subir.

***

Lenzo já havia saído da reunião, e sem dispensar mais que uma ou duas palavras despedira-se de todos. Kan o observou sair apressado em direção à maresia, mas permaneceu por mais um tempo diante da luz vermelha.

— Obrigado, Kan. Amanhã nos vemos. — Disse Hiram, recolhendo o minério e colocando-o dentro das vestes azuis.

— Esse plano não pode passar de amanhã. — Sussurrou Kan, para um escuro cheio de ouvidos e atenção. — Ele foi difícil de convencer. Se não for amanhã, não vai dar certo.

Hiram concordou, solene, com um único movimento da cabeça.

— Não se preocupe. Será amanhã.