Monstros não existem

Grossas colunas de corvônia sustentavam um prédio comprido e austero de apenas dois andares; o primeiro deles era uma grande galeria formada pelas colunas, o chão pavimentado com hexágonos e iluminado por minérios amarelos. Após esse espaço, no qual as pessoas se refugiavam em caso de chuva, paredes formavam salas à altura da terceira linha de colunas. Entre elas, escadas conduziam a um segundo andar — andar de ainda mais vastas salas, de pequenos gabinetes e janelas circulares.

Três prédios iguais a esse e um lado aberto para o resto da cidade formavam no centro de Ia-u-jambu uma figura quadrática no mapa. Em seu interior ficava uma praça cujas árvores fechavam a vista, crescendo densas, mas conviviam com trilhas organizadas e limpas. Havia áreas afastadas, cercadas de calma, onde palcos retangulares de madeira foram construídos. Funcionavam como salas ao ar livre uma vez que preenchidos com poltronas e mesas.

Esse era o coração da Universidade. Ela não se restringia àqueles três prédios, a casas ou mesmo a pessoas. A Universidade se fundia com o distrito, e os dois passeavam de mãos dadas, olhando-se de esguelha e dentes à mostra, cabeça inclinada para o lado, sem vergonha da pura cumplicidade. Era principalmente nos prédios e em suas salas de aula que cursos e reuniões aconteciam todos os dias, mas por todo lugar havia espaço para aprender e pesquisar. Conhecer é um estilo de vida.

Eram oito e cinquenta em Ia-u-jambu quando Jen passava pelo primeiro andar do prédio norte da Universidade. Não gostava daquele lugar; não àquela hora da noite, pelo menos. Era escuro demais naqueles vãos abandonados, e o espaço parecia se multiplicar — e para daí abrigar gente mal-intencionada não demoraria muito. Havia histórias, como em todas as planícies e morros de Heelum; mas virar os olhos negros para aquela escuridão simétrica depois de ouvir os contos era uma experiência no mínimo preocupante. Jen virou os olhos negros para a escuridão simétrica várias vezes, fazendo balançar o curto cabelo loiro.

Parou de olhar quando sentiu-se tola. Riu, mas voltou a si: não era um nervosismo infundado. Na tarde anterior Christine escorregou uma mensagem por debaixo da porta de seu gabinete, ou pelo menos alguém a seu mando o fez. A mensagem dizia, com uma letra cuidadosa:

Encontre-me em frente à sala 230 às nove da noite.

Venha sozinha.

Jen conhecia a sala 230. Ficava no canto direito do primeiro andar no prédio norte, e quase nunca era usada para nada. Muitas vezes, enquanto ela passava por lá, via uma placa de manutenção pregada acima da maçaneta. Era como se a sala fosse intocável: era a única na qual nada nunca acontecia.

Vestiu botas pretas, uma comprida saia rosa de algodão e uma camisa azul-bebê. A capa preta por cima da combinação foi o toque final. Graças aos óculos avistou Christine, uma forma mais baixa e mais larga que ela própria, por entre as colunas e as sombras. Inquietou-se menos e tomou discreta coragem de se deixar engolfar mais pelas sombras do primeiro andar, chegando perto do olhar diagonal da mulher de cabelos vermelhos e franja reta por sobre as sobrancelhas.

— Então você veio. — Disse ela, desamarrando o semblante com um sorriso tão tangencial quanto o ângulo do rosto inteiro.

— Então você veio! — Disse Jen, cruzando os braços. — Que mensagem foi aquela?

— Eu tentei falar com você, mas você não estava. Eu acho que você vai gostar do que vai ver aqui.

Jen percebeu que estavam mesmo em frente à sala 230. A placa que alertava sobre a manutenção estava lá.

— O que está acontecendo aí dentro? Eu vi a programação na praça, mas não diziam nada sobre essa sala…

Christine entortou a boca e olhou para o chão, como se dissesse que aquilo seria difícil de entender.

— Jen, faz… Algum tempo que eu frequento essas reuniões. As que ocorrem nessa sala. — Jen franziu o cenho. — Elas são secretas e muito, muito fechadas, então nunca pude te contar. Mas depois que você me falou das suas ideias…

— Christine! — Interrompeu Jen, instintivamente olhando para os lados. Não que achasse que alguém estaria ali. — São desconfianças!

— Que precisam de pesquisa! — Retrucou a amiga, num tom irritado. — Depois que você me falou delas eu percebi que esse é o lugar onde você vai encontrar uma chance, amiga.

Jen retesou as costas.

— Uma chance?

— Sim, uma chance. Mas eu não posso te explicar aqui fora. A gente tem que entrar.

***

Jen é uma animóloga. Desde quando criança estudou a vida dos animais; seus hábitos, sua vida, seus corpos. Achava a investigação de um coelho ou de macaco muito mais interessante do que pensar sobre pessoas. Além disso, aprender mais sobre os animais era uma forma de se conectar aos pais. Grandes pesquisadores, punham os pés nos lugares mais não-habitados do mundo, juntos, para estudar as formas não-humanas de vida. Morreram quando colocaram os pés em um lugar muito arriscado.

Anos depois Jen encontrou entre os pertences dos pais uma série de papeis contendo observações curiosas quanto a algumas de suas viagens. Enquanto cortavam caminho rumo a Kor-u-een, tiveram um inusitado encontro com um grupo de vaziros. As observações contrariavam, e muito, o senso comum em relação aos animais que eram comumente chamados de monstros.

Quando as duas entraram na escura sala, um magro rapaz negro de cerca de trinta rosanos — se Jen tivesse que apostar, pensaria em algo como trinta e cinco — interrompeu a entrada. Portando uma espada e fazendo uma cara séria, ordenou, com a mão, que parassem.

— Boa noite, senhoras. O que vieram fazer aqui?

— Viemos para a reunião, Richard. — Disse Christine, como quem já teve que repetir aquilo várias vezes.

Ele abriu um largo e acolhedor sorriso, e piscou para ela.

— Quem é a sua nova amiga?

— Velha amiga. Essa é a Jen. Jen, esse é Richard.

— Boa noite. — Disse ela, apertando a mão do rapaz.

— Bem-vinda à reunião. Sentem-se! A apresentação de Kinsley já vai terminar. Quem chega tarde come frio! — Christine esbofeteou displicentemente o braço do segurança, que voltou a encostar-se à parede.

A coisa mais notável para Jen, assim que ela se acalmou e foi percebendo melhor o ambiente à sua volta, foi a quantidade de pessoas. Algo entre vinte e trinta pessoas olhavam para frente, atentas, dispostas em um semicírculo de confortáveis cadeiras azuis. Reconheceu meia-dúzia de pesquisadores, mas o discursante em particular: Kinsley, um célebre historiador da Universidade. Cabelos cinzentos, mas oleosos. Nariz bem feito, mas orelhas um tanto destacadas do rosto. Esteticamente, uma charada; intelectualmente, uma arma afiada. E sob sua mira estavam todos ali, ouvindo-o com caixas direcionando a luz de dois minérios pentagonais verdes para ele.

— … Então, o que nós podemos entender com tudo isso? Que a cartografia de Heelum na época da Primeira Guerra foi resultado de muito esforço, coordenação e inteligência por parte dos nossos antepassados. Não foi o fato de que a “luz” — ele marcou a palavra com desdém — nos mostrou o caminho, e apontou, através do cruzamento de dados de diferentes grupos humanos, os pontos cardeais e a localização das coisas. Houve cruzamento de dados, mas foram trocas difíceis, puramente humanas, diretas, de material cartográfico.

Kinsley continuou a falar, e quanto mais Jen ouvia mais começava a entender o motivo da reunião.

Aquilo era simplesmente revolucionário. Não havia dúvida quanto ao porquê de tanto segredo.

O historiador atacava cada vez mais a ideia de que a Rede de Luz havia ajudado os humanos, na época em que descobriam Heelum, a fazer mapas que os ajudassem a se localizar no mundo. Ao invés disso, o que se sugeria é que a luz não teria tido nenhuma importância na confecção desses mapas; que tudo foi resultado do esforço humano bem empregado.

— É fascinante, não é? — Perguntou Christine. Jen olhou para o lado e viu que a amiga a observava com um sorriso sábio.

— O que foi?

— Você está completamente ligada nele. E o pior é que eu sei que é no que ele está falando, não naquele lindo rosto maduro… Ai…

Jen sorriu e começou a observar melhor os entornos. Ficou surpresa ao perceber que finalmente havia entrado na sala 230, mas mesmo assim não tinha prestado atenção ao que ela era por dentro — isso porque, evidentemente, tudo que acontecia ali estava sendo muito mais importante e inusitado. As paredes carmins eram dramáticas; as janelas vedadas com tiras de goma escura, muito mais.

— Como se chama isso aqui?

Christine fez que não sabia com as mãos.

— Acho que não há um nome. Nós nos reunimos para discutir nossas ideias, hm… Pouco ortodoxas… Uma vez a cada doze dias. Na maioria das vezes alguém faz uma apresentação interessante, mas em outras apenas discutimos. Nós nos sentimos em casa aqui porque, bem… Podemos falar o que quisermos.

— E o que vocês querem falar?

— Sobre toda a história de Heelum, Jen. Muito provavelmente é uma mentira.

— Certo… Tudo bem… — Ela olhou para a frente, ajustando os óculos sem necessidade alguma. Ou talvez fosse apenas a necessidade de colocar alguma coisa em seu lugar. — Isto eu estou disposta a considerar, mas… Qual parte da história?

— Provavelmente tudo desde antes das primeiras Guerras Modernas e do Concílio da Modernidade. Pessoas como Kinsley nos mostram como a Rede de Luz provavelmente nunca existiu.

— Mas… E o que isso tem a ver comigo?

— Porque essas reuniões são independentes da Universidade. Usamos a sala, mas o dinheiro pra essas pesquisas vêm do pessoal daqui. Alguns, como o próprio Kinsley, são muito ricos, e estão dispostos a bancar essas coisas que a Universidade normalmente não bancaria.

Jen balançou a cabeça afirmativamente, voltando a olhar para frente. Kinsley terminava a apresentação.

— E você acha que eu posso conseguir isso aqui?

— Eu já disse que alguns, como o próprio Kinsley, são muito ricos? — Riu Christine.

— Sim, mas eu vou precisar que eles me deem esse dinheiro.

— Não sei. Exponha a sua ideia e veremos o que você pode conseguir, que tal?

Luzes amarelas clarearam o ambiente. Kinsley tirava minérios de dentro de caixas e os colocava de volta nos pedestais apropriados. As pessoas agora conversavam animadamente, ainda que o burburinho fosse mínimo. O historiador, ao posicionar o último minério, olhou de relance para o público e fixou seu olhar em Christine.

— Sim? — Perguntou ele.

Jen viu que Chris estava com o braço levantado, e sabia aonde aquilo ia levar. Era tarde demais para impedir, tanto ela quanto o vermelhidão das bochechas. “Desgraçada”, pensou ela enquanto tentava controlar a raiva e a ansiedade. A sala toda já estava prestando atenção nela.

— Eu gostaria de apresentar uma nova integrante do nosso grupo, que gostaria de dizer algumas palavras a vocês. Esta é Jen, que estuda animais.

A recepção foi singela, mas afetuosa. Várias saudações, além de silenciosos acenos com a cabeça e com a mão — todos acompanhados de sorrisos e atenção — cortaram o ar em direção a Jen, o que só aumentou sua vergonha. Por outro lado, lhe dera o pouco de confiança que precisava; não havia se preparado para falar em público, ainda mais sobre um assunto tão delicado. Descobrira havia tão pouco tempo que os ouvintes estavam supostamente inclinados a apoiá-la em suas dúvidas que isso pouco importava.

— Colegas… — Disse Kinsley, apertando os olhos. — Eu peço uma salva de palmas à filha dos dois maiores animólogos que Ia-u-jambu já conheceu. Dwight e Jeanine.

Pegos de surpresa tanto quanto a própria Jen, os estudiosos da sala a aplaudiram; alguns, inclusive, levantaram-se para prestar ainda maior homenagem. Jen fechava os olhos e curvava a cabeça como uma forma simples de reconhecer a recepção.

— O que a traz aqui, Jen? — Perguntou Kinsley, da frente da sala, quando a ovação terminou.

— Meus pais. — A própria história veio à cabeça, apesar do trocadilho que ainda provocou algumas esparsas risadas contidas na sala. — Foi um caderno deles que me intrigou e motivou algumas pesquisas pessoais.

— Pesquisas sobre o quê?

E então Jen percebeu que talvez os monstros fossem um assunto tão delicado quanto a Rede de Luz. Ou mais.

— Sobre monstros.

Alguns remexeram-se nas cadeiras. Outros olhares desviaram-se dela durante algum tempo. O silêncio permaneceu.

— Sim, todos vocês conhecem a história. — Prosseguiu ela. — Heelum teve uma guerra antiga, contra o Yutsi Rubro, e três modernas. A primeira contra Mosves, de Prima-u-jir. A segunda contra Fennvir, em Al-u-tengo, e a terceira contra Napiczar, da Cidade Arcaica.

“Todos eles foram magos que tiveram poder demais nas mãos e quiseram mais. Destruíram muitas vidas para isso. Dominaram muitas pessoas. Parte dessa gente, conta a história, foi destruída por dentro por essa… Essa força terrível desses homens, desses governores. Algo dentro dessa gente mudou e, então… Surgiram os monstros. Humanos degenerados, que perderam a essência. Estão condenados a uma vida indigna.

Os vaziros ficam nas Montanhas do Sul, castigados pela vontade de Mosves de jamais se render. Os furturos, num pântano na região Noroeste, que até leva o nome deles. Os procos, na Grande Cordilheira Oriental, também a noroeste daqui.”

— Se os monstros são só humanos, mas degenerados — prosseguiu ela — por que são tão diferentes? Por que vivem de maneira tão… Tão animal, sem nem sinal de coisas como linguagem ou… Uma vida social complexa como a nossa?

— Mas qual é a sua teoria, afinal? — Perguntou um homem careca e óculos dourados sentado logo à frente dela.

Ela pôde ver a estupefação em seus olhos de uma forma que ninguém mais podia, já que ele olhava diretamente para ela. Parecia querer espantá-la com um braço, com as costas da mão aberta; com a armação dos óculos se fosse isso o que estivesse à mão. , umenau, .

Ela não queria ser os umenau que ela tanto espantava quando criança.

— Eu não tenho uma teoria. — Respondeu ela. — E… É por isso que eu quero pesquisá-los. Quero saber mais sobre eles, só que… Para isso eu preciso de dinheiro.

Ela não conseguia dizer se a expressão de Kinsley era de sólido interesse ou de profundo ceticismo. Nem a dele, nem a do homem careca, nem a de ninguém mais.