Não

Uma maçã, um tomate, um cacho de bananas e um figo.

Com as mãos na cintura Gustavo olhava no escuro para o que conseguira trazer da rua. Ele dispôs a oferta magra em cima da mesa empoeirada, e passou os olhos por uma, depois por outra, e depois por outra, sem se decidir. A maçã estava bem vermelha; a banana, bem amarela. O tomate, com uma região esverdeada que sumia numa transformação difícil de acompanhar.

Com as unhas grandes das duas mãos coçou a cabeça. Olhou para trás, observando a cozinha abandonada seguir até a porta, onde começava a sala abandonada de uma casa abandonada. Sem minérios de luz e sem camas, só restavam alguns móveis e algumas cadeiras, mas felizmente também as cortinas grossas que, deixando passar só um pouco da amarelidão do sol, escondiam os dois dos vizinhos que sabiam que não deveria ter ninguém morando ali.

Anabel acordava, lenta e inexpressiva, do cochilo em cima de um tapete azul-marinho que fazia Gustavo espirrar. Levantou o tronco, permanecendo sentada no chão.

O fugitivo pegou uma banana e foi para a sala. Começou a descascá-la enquanto se aproximava da companheira, não exatamente voluntária, de fuga.

Na casa não havia roupas, e o balde de água pouca tinha servido para dois banhos igualmente insatisfatórios, e depois os corpos voltaram para os mesmos panos degradantes. No caso da garota, pelo menos eram escuros, e a sujeira não ficava tão aparente.

— Isso é uma banana? — Perguntou ela, com os olhos inchados.

Gustavo assentiu.

— Sim… Você quer?

Ela fez que não.

— Você não devia sair… Vai ser pego…

— Ou vou morrer de fome com você… Então…

Gustavo já tentara todo tipo de conversa com ela. Anabel se recusava a fugir para mais longe, ou a conversar sobre o porquê de ela ter caído naquela espiral depressiva.

Insistia que nada acontecera com ela na prisão — exceto a descoberta de que queria, absolutamente queria, morrer. Tinha certeza de que ninguém a tinha invadido, porque ela checava sempre seu castelo; ou era pelo menos o que dizia.

Foi indiferente à ideia de Gustavo de vasculhar ele mesmo seu castelo. O que ele faria, se não achasse que estava fraco demais para se preocupar com aquela empreitada. Se alguém a tivesse dominado, poderia dominá-lo também — teria que convencer Anabel a voltar ao normal presumindo que seu problema não era mágico.

— N-não quer a banana mesmo? — Ele continuou, podendo ver perfeitamente o contorno familiar do não. — E-eu trouxe também outras coisas, eu…

O não continuava sendo um não, e ele sabia disso.

Jogou a banana na parede, que quicou num baque surdo até parar perto da abertura para a cozinha. Começou a coçar o couro cabeludo de novo.

Deixou-se cair para trás — coçava e coçava mais e mais. Não sentiu a lágrima se espremendo pela fechadura dos olhos porque ela já era da casa.

Alcançou as costas na parede e bateu nela com a mão fechada, instantâneo, indiferente, inconformado — e tentou se acalmar, gritando em silêncio para os dedos das mãos que não ousassem coçar a cabeça de novo.

Olhou para o corpo à frente. Um corpo fraco; uma mente em frangalhos. Só o passado o unia àquele outro corpo fraco e teimoso.

Lembrou-se do pai.

— Você me atacou mesmo, Ana?

Notou uma virada de rosto para ele. Daria tudo para saber o que ela estava pensando antes de ela responder.

Esperou uma eternidade antes de insistir.

— Você me atacou para gostar de você, Ana?

— Sim. — Sussurrou ela de volta.

Gustavo riu e assim que o fez assustou-se com o caminho sem volta que o rosto fez, abrindo-se num choro dolorido.

— Não… Não… — Implorou ele, esganiçado. — Não é verdade… Você só diz isso porque acha que eu vou te matar, e-e que… Porque… Você quer morrer!

Foi para Neborum porque lá ele sabia que podia não chorar.

Deixou o corpo à míngua, e percebeu que só no próprio castelo podia ver o sol. O dia estava nublado, na verdade. Não soube quanto tempo demorou ou como tinha decidido chegar lá, mas estava a um passo da porta escancarada da própria sala verde.

Entrou, e admirou a obra grandiosa. Havia centenas, talvez milhares de molduras; várias verdes e várias rosas. Algumas poucas tinham cores diferentes, mas todas em tons calmos.

Era como se pedissem paciência e Gustavo, que caminhava pelas galerias de desenhos emoldurados, obedecia.

Os quadros enchiam cada estante, das prateleiras de tal forma que as de trás nem estavam visíveis — só estavam lá, como se esperando um momento para substituir uma outra. Não se podia saber as cores das paredes, nem mesmo do teto; os retratos só não cobriam pequenos buracos nos quais ficavam minérios alaranjados que compensavam a falta de luz natural da sala. As janelas estavam também cobertas de quadros de Anabel.

O pai o forçara a visitar a sala, mas o miolo estava diferente: saíram as mesas, e as estantes eram de fato formas mais eficientes de empilhar e agrupar os quadros.

Andou até uma e pegou um desenho na mão. Sem fundo, função que o papel amarelado exercia, e só desenhada aos contornos, Anabel sorria.

Gustavo riu, passando a mão no vidro por cima do rosto dela. “Há quanto tempo…”.

Piscou os olhos e se viu na sala escura de novo. Nada parecia estar acontecendo; ele não chorava. Voltou para Neborum.

Olhou ao redor e acreditou que estava diante de uma obra calculada.

Tinha a moldura na mão, e era uma só, das tantas e tantas — mas queria destruí-la. Não da mesma forma como jogou a banana na parede, mas sentiu um impulso enorme de fazer uma limpeza em sua sala verde. Talvez descobrir se as paredes eram verdes.

Mas conseguiria? Afinal, não era possível fazer magia em si mesmo.

Olhou uma última vez para o rosto desenhado de Anabel e deixou o retrato cair. Continuou intacto, já que o impacto não era o bastante para quebrá-lo.

Desistiu daquilo e voltou para Heelum. Anabel continuava ali, meio levantada, meio deitada, não parecendo ter se movido em qualquer direção.

— Eu fugi do meu pai, sabia? Deixei ele com um grupo de filinorfos.

— O meu fugiu quando eu fui presa… — Respondeu ela.

Gustavo franziu o cenho, achando estranho não ter se preocupado em perguntar o que tinha acontecido, afinal, com o pai dela.

Aquilo era terrível, mas seria o bastante para causar o estado dela? Eles eram próximos, pelo que ele se lembrava, mas não tanto…

— Ele morreu? — Perguntou Anabel. Gustavo demorou para entender que ela falava do pai dele.

— Eu não sei.

Anabel voltou a se deitar.

— Me entrega de volta, Gustavo… Me leva de volta…

Sentiu como se segurasse um dos quadros na sala verde na mão. Frágil, mas Gustavo não sabia se podia quebrá-lo. Ou o que aconteceria com ele se tentasse — ou, ainda, se conseguisse.

— Não. — Respondeu ele.