Água para os mortos

A sala dos músicos parecia-se com a do Mina de Prata, embora todas as salas do tipo no fundo se parecessem. Era um quadrado quase livre de móveis, com apenas um aparador quase inútil de tão fino, abaixo de um espelho manchado e mal emoldurado. Na varanda, curta e não muito separada do resto, havia uma janela do tamanho de um rosto na parede rosa-podre, um sofá marrom com cheiro de biscoito velho e, no canto, um banquinho com uma jarra de água pela metade e um copo com marcas de boca nas bordas.

Fjor foi o primeiro a entrar, trazendo o baixo para guardar na capa que deixou largada no chão. Leo o impediu, segurando-o pelo braço.

— A gente tem que conversar.

O irmão encostou-se à parede com o pescoço do instrumento ainda na mão esquerda. Leila e Beneditt entraram na sala, ela passando entre os irmãos e indo jogar-se no sofá; Beneditt parou já depois da porta, observando a tensão na sala com uma atenção obsessiva.

— Você quer sabotar essa banda, não quer? — Provocou Leo.

— Não. — Respondeu Fjor, balançando a cabeça num arco tão pequeno quanto o sorriso que deixava aparecer.

— Você foi debochado, você tocou mal e você não toca mal, Fjor!

— Que estranho, porque é exatamente assim que Seimor manda eu tocar. — Fjor continuou, enquanto Leo negava. — Você está admitindo que rock de cidade é ruim, só isso.

— Não, não é verdade isso, é, Beni? — Leo apontou o dedo para o baterista. — Você esteve em todos os ensaios e você sabe que não é assim, não é?

— O Seimor me parou na saída do palco e disse que achou a bateria muito agressiva.

— O quê?! — Reagiu Leo.

— Eu não aguento mais esse idiota. — Disse Fjor, abaixando para guardar o baixo como queria antes. — Eu não sei por que ele tem que pessoalmente assistir cada apresentação nossa se um policial podia fazer isso como eles falaram que iam fazer.

— Eles falaram que iam ser “agentes especiais”, não policiais… — Corrigiu Beneditt. — E eu acho que sei por que ele assiste à gente toda noite.

Fjor ficou em pé de novo, terminando de fechar a capa, enquanto Leo ficou à espera da resposta. Leila sorria como uma criança sonhadora, os lábios guardados atrás de três dedos da mão esquerda amalgamados, os olhos voltados ao chão.

— Nós somos a única banda que têm potencial de rebeldia.

Fjor balançou a cabeça, rindo um pouco com metade da boca. Foi sentar-se ao lado de Leila, que abriu um espaço para ele.

Beni foi até a jarra de água e encheu o copo sem muito cuidado. Olhou para as próprias mãos por uns segundos antes de abaixar a jarra e jogar a água no copo no rosto de Fjor num gesto que parecia bobo de tão quieto e trivial.

Largou o copo de volta no banco a tempo de Fjor levantar-se e empurrá-lo contra a parede oposta. Bateu com as costas no espelho e no aparador, só indo para frente num salto quando o espelho caiu e rachou atrás dele.

Leo se pôs entre eles e Beneditt, depois de sustentar o olhar do baixista como numa disputa sem critério, saiu da sala só desejando ter visto a reação de Leila àquilo tudo.

Fjor, ainda com o peito inflado e o rosto molhado, pegou o baixo de supetão pela alça da capa e quis atropelar Leo para sair da sala. O irmão tentou impedi-lo, pedindo que ele não fosse brigar com Beneditt.

— Eu não vou brigar com ele. — Fjor tentou dar a volta em Leo, sem muito espaço para a manobra. — EU NÃO VOU BRIGAR COM ELE, LEO, SAI DA MINHA FRENTE!

Leo foi parcialmente andando, parcialmente empurrado até a parede. Bateu a porta com força quando Fjor foi embora, começando a soluçar assim que o fez.

Andou em círculos apertados, andando por cima de caquinhos de vidro, agoniado por não saber onde colocar as mãos para evitar que chorasse.

Olhou para Leila, que parecia pairar em algum outro lugar, e ajoelhou-se diante dela. Sentiu uma ponta de vidro pressionar-lhe o joelho através da calça.

— Leila… Me perdoa se eu fiz você acreditar que… Que isso aqui ia ser um sonho, que ia… Que ia ser o fim dos nossos problemas, o-o começo dos nossos sonhos, de ser uma banda, de ser… — Parou para engolir uma palavra ou outra que ele não conseguia dizer; o discurso voava pela cabeça mais rápido do que ele conseguia falar. — Me perdoa…

Precisou apertar os olhos quando Leila segurou seu rosto entre as mãos e encostou sua testa à dele. Fez seus lábios se encostaram por um ou dois segundos; Leo reagiu tarde, pondo as mãos sobre as mãos dela quando o beijo acabou. Se deixou levar por si mesmo para frente, não querendo deixar aquele momento ir embora, mas Leila recuou.

— Leo… — Sussurrou. — Estamos todos mortos…

Ele balançou a cabeça, olhando-a nos olhos úmidos e dizendo:

— Não, Leila… Não… Estamos vivos!

— Isso é só um sonho seu.

Leila se levantou, passando o punho no rosto assim que os braços deixaram o amigo. Verificou a sala uma vez mais e foi embora sem esperar por Leo, que ficou exatamente onde estava.