Vento para os vivos

Pôs a mão na maçaneta, parando assim que o terror da decisão a atingiu; torcia para não ter feito o trinco mexer do lado de fora. Possivelmente não veria nenhum deles nunca mais. Mas vê-los, qualquer um deles, poderia convencê-la a desistir. Não sabia se queria abrir a porta.

— Leila, eu… Estou indo embora… Então… Eu só queria ver você, se você está me ouvindo e só não quer me ver, só…

A rapidez com que a porta se abriu assustou Beni. Ela, que carregava um rosto alarmado dos olhos aos fios de cabelo, viu a maleta à direita dele. Todos, a mala, ele e ela, vestiam preto, não importando quão velha ou desconfortável as roupas e os sapatos fossem. A noite se consolidava com as horas, e Beneditt logo se perguntou se ela também, por coincidência, planejava não ser vista.

— Eu também vou. — Disse ela.

— Tem polícia e exército no hotel, Leila. — Disse ele, inclinando o rosto num último desafio.

Leila fez que não com a cabeça.

— Não me desanime, Beni… Não agora…

— … Eu sei de um jeito. — Sussurrou ele.

Um sorriso de fome tentou quebrar a resistência da guitarrista, que logo o controlou sem conseguir tampar a luz que surgira em seus olhos.

— Você me espera?

Depois...

Um minério anil na rua lançava no teto uma fraca projeção da janela quadriculada do escritório de Seimor, mergulhando Beneditt numa escuridão geométrica. Tateou a escrivaninha do agente, suando nos pés, nas mãos e por detrás das orelhas, mas não encontrou nada.

Pôs-se a vasculhar os armários na parede da porta. Na primeira gaveta que abriu quando começou a inspeção de baixo para cima encontrou as duas barras de ouro. Sorriu enquanto as colocava nos grandes bolsos internos da capa que Leila lhe emprestara.

Saiu da saleta e tornou a fechar a porta, entrando na luz laranja que enchia o largo corredor amarelo. Correu até o final, querendo sair dali o mais rápido possível, e logo estava quase no fim da escada de corvônia e corrimão prateado.

A sala parecia mais fria que o corredor, embora uma janela aberta e claros minérios azuis não pudessem fazer tanta diferença assim.

Parou, quase se engasgando com a própria saliva quando Seimor entrou na sala pela esquerda, numa abertura para algum lugar além da parede do relógio.

Beni pôs as mãos na capa pelo lado de fora — envergonhado pela estupidez do ato imediatamente após fazê-lo — e olhou fixo para o agente musical que parecia deslizar pelo chão atrás do sofá ao invés de andar. Sua barriga parecia ainda maior. Seu rosto, esculpido em desprezo e jamais retocado, acompanhava as mãos fechadas que balançavam ao lado do corpo, ameaçadoras como Beneditt nunca as percebera. Ele não conseguia parar de olhar para aquelas mãos.

— O que está fazendo na minha casa sem a minha permissão?

Beneditt recuou, vendo que não estava tão longe da parede atrás de si quanto parecia. Ele seria preso — não havia para onde correr, e tentar atacar Seimor não lhe parecia uma opção.

Mas e Leila?

Desgrudou-se da parede, o que fez Seimor parar de andar.

— Você é um ladrão nojento vivendo debaixo do meu nariz. — Cuspia Seimor. — Eu vou levar você à polícia e você vai descobrir o que se faz com ladrões em Jinsel…

Beni esperava por alguma reação a mais. Alguma solução para aquele jogo de olhares, de posições; perda de um tempo que ele não tinha para perder.

Por outro lado, nunca lutou em sua vida e não sabia se conseguiria enfrentar Seimor. A ideia de um soco lhe era tão estranha que não conseguia imaginar exatamente que movimentos devia fazer para… Fazer um. Talvez fosse melhor desistir de uma vez. Aquele nunca foi um bom plano…

Seimor deu um confiante passo à frente quando a porta se escancarou. Beneditt viu um sarrafo cilíndrico girando numa curva que fez o ar uivar.

Seimor caiu às tosses e aos tropeços ao ser atingido no peito; a madeira escorregou das mãos de Leila e voou até o lado dele no chão.

Assim que o viu no chão, respirou mal e avançou, urgente, para chutar suas costas.

— BENI… — Punha a mão no sapato do pé violento, agora dolorido, enquanto se apoiava no outro. — VEM!

Beneditt desviou com cuidado de Seimor e logo correu para alcançar a companheira. Pararam para recuperar as malas escondidas numa servidão do outro lado da rua e esperaram, por cinco ou seis respirações pesadas, ela dizer que estava bem o suficiente para correr de novo.

Foram saindo das rotas movimentadas assim que possível, e logo conseguiram evitar todas as passagens em que policiais e soldados mantinham guarda na cidade. Mais tarde ele a puxou pela mão, entrando numa rota pouco notável já nos limites da jir central — caminho que ele planejara para a fuga.

Por todo o trajeto, às vezes escuro, às vezes iluminado, às vezes rápido e às vezes afobado, ele olhava para trás e para os lados — cuidava que, à esquerda, Leila estivesse mesmo ali com ele; que no passado próximo a aventura não tivesse sido um sonho, e que nas próximas horas a parceira não sumiria nem sofreria mais.

E a cada vez que o fazia, apesar de ver em seu rosto ainda a preocupação justa que ele também deveria estar sentindo, sorria. Era quase como se correr fosse tudo que a liberdade tinha a oferecer, e talvez fosse; disso ele já sabia quando garoto, época em que andar parecia um desperdício de tempo e só correr o deixava feliz. Sorria, e deixava o vento bater no rosto à vontade. Nada poderia parar aquela história.