O caminho das ordens

— Nada vai para o Leste ou vem do Leste, a estrada está morta. — Disse Gagé, balançando de leve a cabeça enquanto falava.

— Claro, faz todo sentido. — Respondeu Raquel, do outro lado do mapa. — Ela só leva a Al-u-een e a Roun-u-joss, que são inimigos.

No escuro quase completo da casa segura, o minério iluminava o mapa que Hiram conseguira para eles. Iluminava de um jeito mais fraco que o normal, já que os quatro se espremiam ao redor dele, tentando decifrar o que tinham aprendido nos últimos dias espalhando-se pela cidade e observando o movimento de charretes que entenderam ser do exército, do governo da Cidade Arcaica ou, em última instância, do Conselho dos Magos.

— Mas ela leva a Karment-u-een também. — Disse Hiram. — E aquela cidade…

— Aquela cidade está bloqueada por Al-u-een por terra e por água, porque eles provavelmente têm o controle do começo do Rio Ia. — Respondeu Raquel, desenhando o que pensava com o dedo. — Admita, Hiram, seria impossível eles confiarem mensagens que precisam ir e vir com frequência a uma região tão instável!

— E eles não podem dar a volta porque Ia-u-jambu está contra eles também. — Completou Gagé.

Hiram balançava a cabeça, respirando fundo antes de desapontá-la.

— Ainda penso que Karment-u-een é a chave…

— Eu estive lá e não há ninguém passando por lá. — Recomeçou Gagé, contendo a indignação de Raquel. — Estradas secundárias, e-eu alternei entre as jirs, e… Nada. Nada. Não há ninguém viajando para lá.

— Você só não quer admitir que está errado. — Disse Kan.

Hiram levantou as mãos, mostrando as palmas para os colegas.

— Tudo bem! — Disse, cômico. — Eu me rendo!

— No Oeste temos uma noção melhor, mas… — Começou Raquel, o indicador travado em cima da bifurcação ao pé da Montanha Kor. — Há muitas mensagens nas duas direções.

— O caminho todo pela floresta Al-u-bu é muito perigoso. — Comentou Gagé.

— Mas a viagem até Enr-u-jir é rápida. — Argumentou Hiram. — E lá é outro lugar em que um Conselho dos Magos seria construído e escondido com certa… Facilidade…

Falava as últimas palavras já exasperando, tentando ver o que se recusava a aparecer. Kerlz-u-een era a única alternativa, mas uma cidade com alorfos e filinorfos tão ativos parecia ser o último lugar para se instalar um Conselho dos Magos.

— E no Sul, Kan? — Questionou Hiram.

— Nada. — Respondeu. — Mas eu não fiquei sempre no Sul.

Havia claramente um limite pelo qual estavam dispostos a esperar pelo suspense numa situação como aquela.

Fala! — Reclamou Raquel.

— Para onde mais você foi, Kan? — Traduziu Hiram.

O mago pôs o dedo sobre o pequeno porto da Cidade Arcaica.

— Segui uma charrete. Vi que os barcos que fazem a travessia primeiro param do outro lado para deixar algumas charretes… E depois continuam.

— O quê?

— Mas para onde elas vão? — Perguntou Gagé.

— Eu perguntei… Alguns disseram que era um atalho para Imiorina.

Hiram girou o mapa para ele. Desenrolou uma outra porção à esquerda e viu que não havia nenhuma estrada, nem mesmo uma que se formalizasse mais tarde naquela mesma região.

— O Conselho fica em Imiorina, então? — Conjecturou Raquel.

Kan balançou a cabeça, descartando a ideia. Um largo sorriso apareceu tão devagar no rosto de Hiram, sendo construído com tanta satisfação, que Raquel sentiu a ideia contagiá-la apenas pelo prospecto de alguém tê-la descoberto. Gagé, que percebeu a transmissão de alegria, perguntou se algum deles tinha descoberto alguma coisa.

Sim… — Murmurou Hiram, estudando o mapa.

— O Conselho dos Magos não está em cidade nenhuma. — Disse Kan.

— Não é exposto, não é arriscado, ninguém precisa saber que existe e quem já foi lá sabe onde fica! — Disparou Raquel.

— Aqui no meio a distância das cidades fica equilibrada… — Comentou Gagé, lidando com a surpresa com um estado quase catatônico.

Hiram, que ainda sorria, abriu a mão inteira por sobre o bloco do mapa em que estava a região suspeita de abrigar o Conselho dos Magos.

— Amigos… — Disse ele, continuando a frase fora do ritmo. Talvez estava cansado de esperar pelo discurso adequado. — Temos que chegar lá.