O medo revela

Byron jogou os olhos para cima sem mexer o pescoço para olhar a entrada mansa, de braços cruzados, de Tornero na sala.

— Como está ele? — Perguntou Tornero.

— Preso. — Respondeu Byron, sentado à escrivaninha, terminando de assinar os papeis que levara longo tempo para ler.

— Por que não o mata logo?

O mestre bomin tirou os óculos com a mão direita, substituindo o rosto de Tornero por um borrão. Segurou as hastes finas entre os dedos, analisando resignado o quanto sentia falta de andar livremente em Neborum, onde não precisava usá-los.

— Ainda tenho informações a serem obtidas.

— E por que ainda não obteve?

— Está me interrogando, Tornero?

— A presença dele é um incômodo completamente dispensável, mestre, se o senhor…

Eu decido o que é dispensável dentro dessa casa, Tornero. — Interrompeu Byron, colocando os óculos de volta. — Ele ainda não acha que tem algo a perder, então resiste. É só uma questão de tempo.

Tornero concordou com a cabeça.

— Eu achei os parlamentares fugidos.

— Onde?

— Em uma jir do Sul.

— Muito bem. Encarregue-se disso.

Levantou-se e começou a pôr o casaco laranja, enganchado na parede à direita, sem ver que Tornero franzia a testa. Apostava num sorriso. Até cogitou adicionar à ordem um “eu sei que você vai gostar disso”.

— Esse é o seu cargo, mestre, não o meu.

Byron respirou fundo enquanto terminava de alinhar bem o casaco ao corpo; reprimiu o espasmo na espinha e deu três passos até chegar perto de Tornero o suficiente para forçá-lo, em tese, a dar um passo para trás.

Em tese, já que o passo não foi dado.

— Você vai fazer o que eu mandar, Tornero.

— O cargo é o de parlamentar, mestre. — Respondeu Tornero entre os dentes. — Já avisei o Parlamento e eles estão esperando o senhor para fazer planos.

Byron recuou, desviando do aprendiz rumo à porta.

Depois...

— A mensagem era de Kor-u-een. — Explicou Frederico, depois de ler a primeira das cartas que o funcionário trouxe para a sala de reuniões. — Pedia ajuda contra o Conselho.

Sem sentir que era necessário responder àquilo perante os outros, o mestre tirou de dentro de um envelope amarelo comum a segunda carta do dia. Estavam todos presentes, de Byron a Marco, passando pelo silêncio calculado de Alice, a impaciência petulante de Luca e a alegria exuberante de Ângela.

Mestre Frederico de Prima-u-jir,

Esta carta deve ser lida em silêncio por você apenas, no exercício de sua função, e imediatamente queimada após a leitura. Mensageiros, bem como demais parlamentares, funcionários, oficiais do exército ou policiais, assim como qualquer outra pessoa, não devem ter acesso direto ao conteúdo desta carta a partir deste parágrafo.

Suas ordens quanto à ação militar da cidade são resistir a quaisquer tentativas de invasão, além de passagem belicosa rumo à Cidade Arcaica através de seu território.

A cidade deve esperar por novas ordens e comunicar à Cidade Arcaica qualquer novo desenvolvimento quanto aos amigos e inimigos do Conselho dos Magos.

Além disso, todo o estoque de esferas de bronze da cidade deve ser enviado para a Cidade Arcaica em um carregamento fortemente protegido. Esta informação não deve ser compartilhada com nenhum parlamentar, funcionário, oficial do exército ou policial, assim como com qualquer outra pessoa.

Saudações cordiais,

General do Exército do Conselho dos Magos,

Evan

Frederico dobrou a carta com cuidado após repetir a leitura.

— Escreva uma resposta — Começou a ditar para o mensageiro, a voz projetada para trás junto com o rosto o quanto possível. — Escreva que Kerlz-u-een e Den-u-pra já confirmaram o apoio ao Conselho… E que Kor-u-een confirmou posição contrária.

— Não vai ler a carta em voz alta? — Perguntou Marco.

— Não… Ordens do Conselho. — Respondeu ele, com um olhar apertado de esguelha. — Ordens de queimar a carta.

— É claro que não precisamos levar isso ao pé da letra, Frederico. — Disse Alice, com um sorriso doce que logo se desfez.

— Não, Alice. — Disse o mestre.

Byron refletiu sobre a resposta invertida. Frederico só podia estar respondendo a uma pergunta — ou tentativa de invasão — em Neborum.

O chefe dos parlamentares da cidade terminou de ditar a carta para o mensageiro, instruindo-o por fim a eliminar a mensagem original.

— Qual é o segredo, Frederico? — Perguntou Ângela, o rosto tão preocupado àquela altura quanto o dos outros. — Acho que merecemos saber!

— Não, não direi. Assunto encerrado.

Byron percebia agora quão difícil era ler as pessoas sem forçá-las, em Neborum, a ter um apreço renovado pela sinceridade — ou pela irritação, o que geralmente era um atalho bom o bastante. Frederico lhe parecia estressado quanto a algum desdobramento de suas atitudes. Talvez reconhecesse a estrutura do sentimento porque já a tinha percebido no espelho nos últimos dias.

— Então temos que sentar e esperar. — Confirmou Luca.

— Sim. Temos problemas mais urgentes também. Byron! — Chamou o mestre. — Tornero esteve aqui e nos alertou sobre o Sul. O que você pretende fazer?

Marco o olhava do outro lado da mesa com serenidade; não parecia estar atravessando-o, como quase sempre fazia Alice, ou esperando dele um constante tributo de proatividade, como Ângela.

Nessa ocasião em especial, contudo, teve certeza de que se recebesse o olhar atento de Alice, a preculga seria capaz de ver que ele não estava bem. Sua própria hesitação, contida toda em um engolir saliva fora de ritmo, já fora o suficiente para atrair dela um olhar de quem iria embora, mas resolveu ficar, de algum jeito, porque ainda há muito que se ouvir num lugar em que há muito para acontecer.

Depois...

Tornero desembainhou a espada e encostou a lâmina no pescoço de Kerinu, que passou a sentir seu sangue correndo — bom, pensou ele, que há não muitos dias sentia-se um mero boneco dolorido.

O fio da espada roçava na barba, mas parada não machucava. Talvez o bomin só quisesse fazê-lo se lembrar de como era se sentir vivo, para então chantageá-lo com a vida como termo.

— Eu sei no que Byron acredita. — Tornero começou a discursar no escuro, a porta ainda aberta. — Mas não sei o que é verdade. Andei pensando… Se você morrer e Byron ser libertado, eu serei o herói. Se você morrer e Byron ficar preso, eu vou acabar tomando o lugar dele.

Mais uma engolida; se antes sua garganta seca mal fornecia água para engolir, agora parecia ter espasmos no pescoço, o gogó protuberante saindo do contato com o metal para fazer seu percurso amaldiçoado sem descanso.

— Entende como a sua morte é importante para mim, no final das contas? — Continuou Tornero, terminando com um sorriso amarelo que se deixava capturar, cínico.

A espada saiu rápido demais de seu pescoço — e desceria de volta num corte preciso em uma fração de segundo e nada mais.

— ELE VAI SAIR! — Disse, juntando todo o fôlego que conseguia achar para transformar em berro o que ainda parecia um sussurro esforçado.

Com a espada ainda suspensa, Tornero não tinha vergonha de devorar o olhar de Kerinu — olhar transtornado, esfomeado, cuja obscenidade maior era a forma poética como, cansado, fazia par com a voz rouca e destruída.

Desviou a cabeça um pouco para ver as marcas nos pulsos gastos, os hematomas na barriga e nas costas onde fossem visíveis, além do fato de que, tirando pela cabeça, seu corpo todo não parecia ter se mexido de todo nas últimas horas.

Guardou a espada.

— Você é corajoso…

— É a coragem que me mantém vivo.

Tornero apertou a bochecha do prisioneiro, que gemeu baixinho. Depois do segundo apertão, puxou seu lóbulo da orelha até sentir que estava quase arrancando-o. Kerinu não fazia ideia de por que ele queria fazê-lo sentir aquela dor em particular.

— É a minha vontade que mantém você vivo daqui em diante.

Depois...

Recostado à parede no lado externo de um dos anéis de casas e pequenos prédios na jir circular ao sul da cidade, Byron engolia com dificuldade, suando de gota em gota avulsa. Sentiu-se tonto; ainda bem que já tinha andado o que precisava e agora podia só ficar ali, descansando enquanto fingia ouvir a reunião dos parlamentares rebeldes com os moradores da jir.

Tudo o empurrava para a clausura da própria caixa torácica; a proximidade não só dos inimigos, no contexto de sua total impotência enquanto bomin, mas também de Alice.

— Você está estranho, Byron.

Ao sussurro tremeu de leve, contendo seu corpo como podia; fantasiava, quando fechava os olhos pela metade, Alice prendendo-o pelos pulsos em um cubículo úmido e mal-cheiroso. Um único feixe de luz, roxo e cheio de contraste, descia reto numa diagonal à parede a partir de uma janelinha no alto; ela, com lábios pintados de vermelho e praticamente só o queixo aparecendo para quem quer que estivesse assistindo de perto à cena bizarra, apertava as costas dele contra si para falar, baixinho e a ponto de arrancar um pedaço de sua nuca, “Você está estranho, Byron”.

— Diga logo o que é que você tem.

— Estou doente. — Respondeu, seco, ainda olhando para a parede do outro lado da abertura entre as casas.

Doente? De que doença?

— Só me sinto um pouco fraco.

Se perambular pelo próprio castelo como um guardião paranoico não fosse o que Byron fizesse já quase o tempo todo, pensaria que a maga o aliciava a voltar para a visão febril que tinha de seu pesadelo vigilante. “Doente de quê?“, sussurrava opaca a boca sem corpo na escuridão.

— Se tivermos que fugir daqui eu vou ter comigo um parceiro doente. Você percebe o quanto foi leviano?

Tentou ignorar Alice, concentrando-se no clamor que vinha da pequena praça ao centro. Tinham percorrido parte do corredor até lá, que era relativamente longo, mas mesmo assim não entendiam muito mais que palavras soltas.

— Se pensa que vou deixar você ir para casa enquanto cuido da sua tarefa para você, está enganado.

— Cale a boca, Alice.

Byron quase não prestava mais atenção em Heelum; da janela com a melhor vista de seu castelo procurava, na posição desprivilegiada pela distância, um castelo em especial no meio da aglomeração.

— Onde está a Caterina? — Perguntou ele.

Depois...

Quando parlamentar, pensou em denunciar a forma estúpida como o reservatório de minérios foi construído.

O lugar era mal defendido; a cidade não guardava minérios que podiam levar à morte, tanto de animais quanto de pessoas, esta uma determinação provavelmente motivada pelo fato de que isso poderia atrair mais ladrões para um lugar já mal estruturado. Janelas grandes num prédio com um formato irregular, cheio de reentrâncias, e numa área cheia de outros prédios conectados a ele numa quadra — tudo aquilo facilitava uma invasão.

Caterina, que vestia uma capa bordô bem maior que o tamanho mais apropriado para ela, teve que cuidar durante o trajeto para não tropeçar, não chamar a atenção por estar tão coberta, não se cobrir demais para não chamar a atenção, e não se cobrir pouco a ponto de ser reconhecida. Contava com o manto da noite, e o principal contratempo era a ocupação ostensiva do exército em ruas estratégicas, que ela pretendia evitar, o quanto fosse possível, para chegar ao reservatório.

Da última vez que esteve ali, contando com um pouco mais de tempo para planejar o roubo, preparara uma janela para que pudesse ser facilmente aberta pelo lado de fora. Assim que entrou fechou-a, e também as cortinas marrons, voltando-se para as estantes grossas e largas de ferro na sala principal do reservatório, austera e escura.

Passou as mãos pelas prateleiras empoeiradas à frente. Só viu contornos de caixas na ponta próxima à parede.

Foi até elas, afundando a mão nas pedras. Pegou uma e sentiu os lados; perdeu-se na conta com uma mão só e usou as duas. Contou duas vezes. Oito lados. Lembrou que procurava por uma esfera, e se tivesse qualquer quantidade de lados é óbvio que não seria uma.

Talvez a confusão viesse da sensação, da qual ela tomava mais nota, de que o lugar estava essencialmente vazio. Nos outros corredores as caixas, dispersas, às vezes em cima, às vezes em baixo, carregavam vários minérios diferentes, em quantidades variadas. Os minérios abundantes naquela sala sempre foram as esferas de bronze e as de fogo. Os hexagonais estavam em sua maioria nas casas de saúde; excedentes, quando haviam, eram guardados ali (havia uma ou duas caixas do tipo). Outros eram usados com frequência, então não costumavam se acumular tanto. Os de bronze, contudo, embora não tão amplamente produzidos, acumulavam-se ao longo do tempo ainda mais que os de fogo.

Mas agora não havia nenhuma esfera de bronze sequer. Nenhuma, quantia equivalente à vantagem que eles agora tinham para combater o Parlamento.