Vulnerável

Eva já mancara o corredor inteiro desde que saiu da cama, mas foi ao chegar na beirada do primeiro degrau que finalmente sentiu a preguiça insidiosa que lhe transformara numa tola indolente.

Pressionou a boca por se recusar a gemer — mas ainda assim os joelhos doíam a cada passo, suas micro-engrenagens e polias gritando a cada impacto; as costas, arqueadas como jamais estiveram, pareciam não querer mais aguentar o peso dos ombros. Nunca precisara tanto do corrimão, mas venceu a descida e caminhou, torta, até uma das cadeiras da sala de jantar.

— André? — Perguntou, projetando a voz para o corredor ao apoiar a cabeça na mão esquerda.

O visitante, que ia das escadas à porta de saída, desviou do caminho e entrou no espaço entre as salas.

— Olá, Eva… Estás com algum problema?

Deu um sorriso frágil ao arrancar-se da posição de cansada.

— Eu quero conversar com você. Pode sentar-se aqui comigo?

Ele confirmou, tomando lugar à mesa.

— Outro dia à mesa você disse que já foi ajudante de um médico.

— Sim, é verdade.

— … Então… Suponho que a morte não lhe seja um conceito tão alheio.

Depois...

Barnabás subiu quase ignorando seu próprio andar; podia arriscar um tropeço nas escadas de verdade se fosse o preço para não voltar à situação que conseguiu a muito custo evitar há vários rosanos. Tinha que se certificar de que aqueles castelos estavam mesmo separados por aquela distância toda.

Abriu a porta sem bater, o barulho do vento em corrida desabalada quase assustando os dois.

Viu Amanda sentada à cama e Tadeu de pé em frente à janela. Ele olhava para a rua, com as mãos nos bolsos, e se virou devagar para cumprimentá-lo.

Olhou dele para a filha; ela o olhou de volta, com as sobrancelhas levantadas.

— O Tadeu veio me devolver um anel que caiu naquele dia.

— O anel simplesmente caiu da sua mão, filha? — Perguntou ele.

Amanda bufou, cortando o olhar entre eles.

Sim, pai, o anel caiu.

Ele assentiu, sorrindo como um curativo quente.

— Olá, Tadeu. Seja bem-vindo.

— Obrigado. Senhor. — Adicionou. — Faz muito tempo que não converso com a Amanda, e… — Limpou a garganta, ficando nervoso só de achar que poderia parecer nervoso. — Estamos conversando sobre… As coisas que aconteceram desde que a gente se viu pela última vez.

— Sim, é claro. — Respondeu Barnabás, forçando um sorriso um pouco mais quente. — Espero que agora que você… Bem, já deve ter começado seu treinamento mágico, entenda que não é sábio ficarem muito próximos, você e minha filha. Especialmente da forma como queriam ser há alguns rosanos atrás.

Pai! — Repreendeu Amanda. Tadeu quase riu ao pensar o quão bem ela interpretava o papel; lembrou-se de que deveria parecer grave e constrangido.

— Isso não é uma brincadeira. — Repetiu Barnabás, levando Tadeu a crer que não era, afinal, um ator tão bom quanto ela. — Espero que entenda que não vou permitir que o futuro de Amanda seja comprometido.

— Eu sei, senhor. — Respondeu Tadeu, mal conseguindo olhá-lo nos olhos.

Barnabás demorou-se mais algum tempo antes de sair do quarto. Os aprendizes se olharam imediatamente, tensos, tendo imaginado que assim que a porta se fechasse poderiam rir e comemorar a aceitação de Barnabás em relação à visita.

— Fique longe. — Alertou Amanda, em murmúrios. — Ele ainda está prestando atenção…

— Eu não posso mais voltar aqui.

Ela concordava, e ele observou com mais atenção o anel que esteve em sua posse aquele tempo todo.

— Como você teve a ideia tão rápido? — Perguntou ele.

— Que ideia?

— A de me… Entregar esse anel. Para vir aqui te devolver.

— Ah… Na verdade eu estava tentando te achar aquele dia só pra fazer isso, antes que… Antes do que aconteceu.

— Por quê?

— Porque eu não ia poder mais te ver nos nossos dias, então… Eu precisava de alguma desculpa pra gente se ver.

Tadeu se aproximou, inclinando-se o quanto podia para entregar o anel para Amanda sem fazer parecer, em Neborum, que os dois estavam perto demais. Pensou em perguntar se eles poderiam começar a se ver de novo como amigos, sem a necessidade de segredos, pelo menos quanto a estarem fisicamente num mesmo espaço — ainda que provavelmente de maneira regular, previsível e supervisionada.

— Tadeu, uma coisa… Me incomodou muito. — Disse ela, mais rápida. — Por que é que logo o Gustavo, que tinha até sumido da cidade depois de me atacar… Resgatou a Anabel?

Tadeu tentou olhar para ela sem dar sinais de que poderia mentir, o que provavelmente teria que fazer. Descobriu que acabou não piscando e acabou desviando o rosto, ainda mais nervoso do que quando esperava pela entrada de Barnabás na sala.

— Logo a Anabel? — Continuou Amanda. — Que era a sua amiga? É uma coincidência enorme!

— É.

— Tadeu?

— É que… Anabel s-sabia. S-sobre a gente.

Amanda engoliu, retificando a coluna; era como se identificasse um cheiro novo, e podre, no próprio quarto pela primeira vez.

— E o que ela sabia?

— Eu… Tinha… Ela tinha me contado que ela estava com o Gustavo. E-e aí eu… Contei que… Eu estava com você. E a gente ia p-poder se ajudar!

Os olhos de Amanda se expandiram quando ele terminou de falar, embora os lábios não tenham esperado até então para começar a tremer furiosamente.

— POR QUE você não me CONTOU?

Shh, Amanda! — Disse Tadeu com uma onda de calor invadindo-o, urgente.

— POR QUÊ?

— Porque eu fiquei sabendo um dia antes de ela ser presa, e-eu não consegui te encontrar!

— Mas que tal quando você contou pra mim que ela foi presa? — Terminou a pergunta em duas risadas esbaforidas. — Ela podia, ela podia… Ela podia acabar com as nossas vidas, Tadeu!

— Eu sei, mas depois de um tempo nada aconteceu, e-e eu s-só…

— Você confiou nela, Tadeu, mas eu queria que tivesse confiado em mim também!

Tadeu voltou-se para a segurança da janela, onde não teria que sofrer com a face avermelhada de Amanda — e ainda havia a brisa para aliviar aquele calor de nudez que, contraditório, o deixava claustrofóbico. Afinal, finalmente teve coragem para deixar de lado as mentiras que vestia (ainda que nem todas) e aquele era o resultado: uma espécie de prisão.

Sentiu arrepios ao pensar que a única forma de deixar aquilo pior seria se despir mais; contar toda a verdade, tudo que fizera e principalmente o que quis fazer. Quando finalmente achava que a magia poderia afinal solucionar seus problemas, concluiu apenas o mesmo de sempre: ele odiava tudo aquilo.

— Isso não aconteceria se a gente já fosse melhor. — Disse ela, com a fala dura. — Nós dois. O Gustavo é bem melhor que eu e a Anabel é melhor que você.

“Mas foi ela que foi pega”, pensou Tadeu, surpreso com o próprio orgulho ferido.