Lados

— Ten-u-rezin tem que atacar o Sul com força total. — Opinou Duglas, refastelado na poltrona da sala de reuniões enquanto olhava para o mapa de Heelum espraiado à frente de Desmodes.

— Mas tem que parar primeiro em Karment-u-een. — Disse Sandra, mecânica. — De lá dá pra redividir as forças, com parte delas indo para Ia-u-jambu.

— Desmodes — Chamou Janar, com as grossas sobrancelhas negras levemente levantadas. — Se me permite, devo dizer que temos que confiar na marinha de Den-u-tenbergo, porque a cidade é isolada mas a marinha é de excelente qualidade.

Desmodes assentiu.

— Daremos ordens para que eles ataquem Torn-u-een.

— Quem mais está conosco mesmo? — Perguntou Duglas, olhando de canto para o mensageiro no canto da sala atrás de Desmodes.

— Dun-u-dengo, Jinsel e Al-u-tengo, senhor.

— Jinsel e Dun-u-dengo podem atacar Inasi-u-een, não é, Desmodes?

— Sim. — Respondeu ele, logo voltando-se de novo para todos na mesa. — Alguma objeção?

— Não estamos discutindo outros planos. — Sugeriu Brunno.

Desmodes fitou o mago antes de jogar fora o problema.

— Não creio que seja importante.

— E se isso tudo der errado?

— Não vai dar errado, Brunno. — Cortou Duglas, impaciente.

— O que é que preocupa você? — Perguntou Janar.

Brunno olhou para ele depois de passear com os olhos pelos outros magos; alguns deles não pareciam sequer ouvi-lo.

— Inasi-u-een é muito forte, por exemplo.

— E Dun-u-dengo tem um dos maiores exércitos de Heelum. É o mais bem pago e o mais bem equipado.

Brunno engoliu as palavras, pensando que seria inútil continuar. De fato os planos eram dificilmente atacáveis; no caso de Den-u-tenbergo, não havia nada de melhor que pudesse fazer. No caso de Ten-u-rezin, qual seria o plano secundário? Reservar parte das forças até que fossem necessárias? Mas isso implicaria uma demora de dias até que elas conseguissem atingir o local onde fossem precisas de qualquer forma. Um desperdício de forças necessárias imediatamente.

— Você tem razão.

Brunno se deixou afundar na cadeira, buscando o olhar de Maya.

Ela não parecia sequer saber que estava sendo olhada.

Depois...

O dia seguinte já escurecia quando uma nova charrete chegou ao Conselho. Trazia mensagens de Prima-u-jir que repetiam informações conhecidas. Os mensageiros não tomavam a decisão de trazê-las — eram encaminhadas por Evan. Cumprindo ordens, uma delas sendo justamente não ler nenhuma carta a não ser que solicitados por um mago do Conselho, os mensageiros não faziam ideia do que carregavam consigo.

E nem poderiam, quando finalmente chegaram à passagem entre as paredes rochosas, já que estavam mortos.

A charrete não deixou ninguém à porta do castelo. Continuou na fenda, com o cocheiro segurando firme as rédeas dos yutsis. Ele tinha a ponta de uma espada, que jamais seria vista à distância, colada na base de sua espinha.

A espada foi recolhida para dentro do comboio e o cocheiro pôde finalmente se encolher. Soprando forte a ansiedade, largou as rédeas e saiu pela esquerda, quase tropeçando ao deixar a charrete. Correu de volta por onde veio sem olhar para trás.

Depois...

Hiram não conseguia acreditar no que via. Abriu as portas torcendo para que elas não rangessem e para que aquilo não fosse uma armadilha. Riu quando nada aconteceu; riu da própria tolice e uma lágrima em seu rosto caiu.

Vinha à frente, seguido de Gagé, Raquel e Kan. Cada um empunhava uma espada, tentando deixá-la o mais estável possível para que nenhum deles visse no medo do outro, que fazia tremer, motivo pra temer estar onde estavam.

Corriam os olhos pelo saguão como se vissem os Arcos Brancos pela primeira vez. Cada pedra bronzeada, cada quadrado azul escuro de piso, cada porção de luz filtrada pelas janelas verticais — tudo parecia imaterial, próprio de um pesadelo cujo malfeitor ainda não se mostrara.

Viam em Neborum uma série de castelos num semicírculo à distância. Um em especial, mais à frente, aproximava-se dos quatro, o barulho de seus passos ecoando até o salão em Heelum.

Viram um homem pálido, não muito alto, de curto cabelo preto e olhos igualmente escuros. Ele colocou a mão no parapeito do segundo andar para o qual as duas escadas laterais convergiam.

— Quem são vocês?

— Você é um mago? — Perguntou Hiram, altivo, mas abaixando a espada. — E esse é o Conselho dos Magos?

O enorme castelo negro, tão alargado que sua fachada quase abarcava todos os deles, era iluminado com minérios vermelhos por toda a sua extensão; minúsculos, pareciam pequenos dentes de um animal marinho gigante que, não contente em ter destruído um barco e tingido os molares com sangue, queria mais.

— Você É UM MAGO? — Vociferou Hiram.

Raquel não esperou. Correu escada acima à direita, com Gagé a seguindo pela esquerda. Hiram, pego de surpresa, correu atrás do amigo.

Raquel levantou a espada para descê-la contra Desmodes, que deu um passo para trás; ela prosseguiu, em passos minúsculos, e com os olhos arregalados manobrou a espada até dilacerar o pescoço de Gagé.

O filinorfo largou a própria espada um momento depois de ser atingido.

Raquel soltou um grito tenro, soltando a espada e abafando mal a boca escancarada com as palmas das mãos. Olhou em horror para Hiram que, frio, desviou do corpo de Gagé no chão e enfiou sua espada no peito da filinorfa ao mesmo tempo que sibilava, com a voz esvaziada de rouquidão, um breve “não”.

Puxou a arma de volta para si. Raquel caiu de joelhos antes de abraçar o chão, seu corpo amolecido, o rosto virado para baixo.

Hiram virou-se para o lado de fora do castelo, segurando a espada para baixo com as duas mãos à frente da testa. Olhou para o último companheiro, de pé no primeiro pavimento.

— Kan…

Tossiu quando foi engolfado pelo próprio golpe. A espada o atravessou sem hesitação.

Hiram deu passos curtos para trás, desorientado, e Desmodes aproximou-se para tomar-lhe a espada. Quando a retirou de sua barriga, com delicadeza que beirava o respeito, golpeou-lhe no pescoço com um corte amador. O filinorfo, então caído, apertou os olhos molhados até parar de tremer.

O mago-rei começou a descer a escada da direita. Kan largou a espada e, quando Desmodes estava a um palmo de distância, olhou direto em seus olhos.

— Eu não sou um filinorfo. — Disse Kan, seu peito estufando e esvaziando a cada frase engessada. — Não sou um herói e não quero morrer. Posso ir embora e desaparecer de vista. Por favor me deixe ir.

Um homem e uma mulher entraram no prédio. Vestiam as mesmas vestes dos mensageiros que morreram antes dentro da charrete, e amarraram os braços de Kan atrás de suas costas enquanto Desmodes, que chegara a franzir o cenho em frente ao invasor, voltava para o lugar de onde viera, subindo as escadas.

Kan foi puxado para fora do castelo. A última coisa que viu do lado de dentro foram empregados, que surgiram do corredor à direita com panos, baldes e grossas vassouras.