Cerco

Quase quinze pessoas ocupavam o centro da jir ao sul — Caterina, Verônica e Alessandro, além de uma dúzia de membros da comunidade que, abdicando do trabalho, coordenavam um esforço para fazer as vozes rebeldes chegarem a outras regiões de Prima-u-jir.

O meio da manhã se aproximava, mas boa parte da praça ainda estava em sombras. Esperavam, olhando na mesma direção, enquanto Leonardo chegava de viagem.

— Não está nada bom. — Adiantou, cansado, ao sentar-se em um dos bancos de pedra e enxugar o rosto com as mãos.

— Por quê? — Perguntou Verônica.

— Pessoas… Geralmente os donos das terras… Vêm explicar a nova situação, e os boatos que vêm do centro. As reuniões são sempre cheias. São protegidos por policiais, às vezes pelo exército também.

— E o que acontece? — Perguntou Caterina.

Ele balançou a cabeça, negativo.

— Eles explicam que a guerra está acontecendo porque as cidades resolveram se juntar sob o comando de um grupo de magos, e… Dizem que algumas cidades estão tentando tomar o controle do grupo. Estão jogando a culpa em Ia-u-jambu e Al-u-een.

— Que absurdo… — Sussurrou Verônica, começando a circular pela área.

— Você deveria ter ido, Caterina. Eu não consigo dizer se eles eram mesmo magos ou não.

Caterina fez que não com a cabeça, pensando em dizer que não havia problema. Mudou de última hora.

— E elas acreditavam nisso? As pessoas que ouviam?

Leonardo confirmou.

— Ficaram irritados com essas cidades. Diziam que elas eram arrogantes.

Verônica procurou o olhar de Caterina, que não demorou para chegar.

— O que foi? — Indagou Alessandro.

— É isso sim. — Disse Verônica. — Eles passam a informação mas escondem o conteúdo com uma distração.

— Para não fazer pensar nos magos estão pondo o foco na divisão entre as cidades. — Completou Caterina.

— O-o que quer dizer isso? — Perguntou Alessandro, tentando várias pessoas com um olhar esperançoso. — Eu não entendi.

— Eu acho que entendi. — Disse Leonardo. — Quando eu falei com alguém sobre os magos estarem no comando disso eles ficaram meio surpresos, como se só quando eu disse isso eles conseguiram prestar atenção nisso.

— Mas não disseram isso para eles? Não-não foi isso que foi dito nas reuniões?

— Preculgos confundem a sua memória, fazem você prestar atenção a uma parte de uma ideia e esquecer outra… — Explicou Verônica, gesticulando. — São os preculgos que estão fazendo essas reuniões. Você raramente vai ver bomins junto com eles, pode ter certeza.

— Isso é bom. — Falou um líder da jir com o dedo em riste, um velho homem de rosto bem vincado e óculos bem tortos. — Isso é bom. Eles devem estar sabendo que não vamos aceitar magos não!

— Sim… — Disse Caterina. — Eles não confiam na popularidade de um “Conselho dos Magos”.

— E não deviam. — Falou uma mulher da jir, baixa, negra e de cabelos encaracolados presos por mini-tranças à curvatura da cabeça. — Estamos indo todo dia com a charrete que passa ali em cima viajar pela cidade. A gente conversa com todo mundo que a gente conhece para dizer que não pode ser assim.

— Temos que fazer isso também. — Concordou Leonardo, levantando-se. — Nós quatro. E aproveitar a saída das tropas da cidade, porque certamente alguma ordem do Conselho deve chegar logo e o exército vai se movimentar…

Ninguém prestou muita atenção ao final do que ele dizia; o chão tremia cada vez mais, com o barulho das pisadas enchendo os corredores que levavam ao eco no centro da jir. Através do corredor mais largo entrou uma carroça puxada por dois yutsis, que foram sendo manobrados para o outro lado do círculo. Na carga, atrás dos cocheiros, mais três pessoas com forquilhas e facões, além de galhos de todo tipo amontoados a seus pés.

Eles desceram rápido, começando a descer o mato grosso; a companhia dos moradores em reunião com os ex-parlamentares perguntaram o que estava acontecendo. Os outros responderam duas, três vezes até que conseguiram ser ouvidos — mais pessoas entravam correndo pelos corredores estreitos, enquanto ainda mais yutsis se enfurnavam pelas entradas largas por entre as casas, dando o jeito atabalhoado que fosse para passar e entrar a tempo.

Depois...

— O que eles fizeram? — Perguntou Byron para o comandante do exército que se aproximava no campo, à distância segura do conjunto coeso de casas, dele, de Alice e Tornero.

— Trancaram as passagens menores e os portões principais. Eles conseguem atacar se chegarmos muito perto.

— Não faça isso. — Respondeu o bomin. — Uma hora eles terão que sair.

— Suspenda as charretes para cá. — Disse Alice.

— Certo. — Confirmou o oficial.

— E diga que é por causa de um surto de doenças da noite. — Instruiu a maga.

Byron observou a colega por um instante antes de concordar. O comandante começou a andar de volta para o acampamento que estava sendo montado ainda mais atrás de onde os três magos estavam.

— Acha que conseguimos? — Perguntou Alice. — Já está melhor para fazer isso, pelo menos?

Tornero voltou-se para a conversa, subitamente interessado. Byron respondeu assim que viu a testa do discípulo franzir.

— Me recupero de minha fraqueza aos poucos, Alice. Obrigado por perguntar. Felizmente não é nenhuma doença da noite.

Alice sorriu, cruzando os braços para o horizonte claro. O céu sem nuvens, azul até esgotar as possibilidades da cor, lutava em contraste com o verde dos campos e, em primeiro plano, as pequenas companhias do Exército de Prima-u-jir que montavam, apressadas, o cerco.

— Felizmente, Byron.