A pior parte

O navio mercante não era tão atraente e organizado quanto o de Den-u-pra, mas a sala que Dier alugou era uma exceção. Cubículo magro, azul-celeste e amarelo-canário em tinta mal distribuída, era oásis de tranquilidade num cenário em que o ruído de caixas, berros descoordenados e comandos à tripulação, quase nunca interrompidos, pareciam zombar do enjoo de Lamar.

Dier comia um prato de sopa que ofendia o nariz do alorfo. Estavam os dois à mesa no centro da saleta; um, para tentar comer de um jeito estável, e o outro porque aquela era a opção menos pior de atividade. Atrás de Dier, a porta trancada; atrás de Lamar, uma janela pequena, e dos lados duas camas em que seus corpos mal cabiam, mesmo com os joelhos dobrados.

Era preciso grande concentração para operar a colher grande sem que nada caísse, mas aquilo não parecia aplacar o tédio aparente de Dier.

— Quantos filhos você tem? — Perguntou ele.

— Só um…

— Um menino?

Lamar achou melhor engolir ao invés de responder. “Por que essas perguntas agora?”

— Prefere não responder?

— Eu não estou passando muito bem…

Dier assentiu.

— Quem ensinou magia para você?

Lamar respirou fundo, formulando discursos que ele sabia que não daria. O arrepio que percorreu-lhe a espinha foi o bastante para terminar de assentar a revolta engasgada.

— Magia alorfa?

— Aprendeu outra?

Negou antes que revelasse mais do que queria.

— Então?

— Muitas… Pessoas.

— Tem família viva?

Viva, sim”, pensou Lamar, “provavelmente”.

— Ou afastaram-se do alorfo quando descobriram?

Dier terminou de extrair o quanto podia, ou queria, do almoço. Largou tudo sobre a mesa e, num extenuar de ombros que Lamar só pôde identificar como um espreguiçamento, andou até a janela. Para não voltar o pescoço para trás e alterar o precioso equilíbrio a duras penas conquistado, Lamar passou a olhar fixo para o último naco de pepino no fundo do prato rosado.

— Vocês, alorfos, também conhecem essa sensação. — Disse Dier, fazendo o ouvinte contrair o rosto de leve.

— Não entendi…

— O jeito como eles julgam, Lamar, a partir do mundo como ele é e das coisas como elas são… Você é diferente, se torna cada vez mais diferente. E eles julgam você por isso.

“Nisso ele tem razão”, pensou Lamar. Mas, por outro lado, ele era um preculgo.

— Você não sabe nada sobre isso…

— Claro que eu sei. Basta ter uma família para saber. Aqueles olhares, aquelas… Frases que saem da boca deles bem devagar e baixo, para que ninguém ouça o que os outros já sabem. O que todos já sabem…

Lamar não entendia nada de novo, mas tinha a sensação de que tiraria mais da conversa se deixasse de falar. Como um efeito colateral, pensou, ficaria menos enjoado também.

— É por isso que vocês, alorfos, precisam tanto uns dos outros. Está tudo aqui. — Lamar não viu para onde Dier apontava. — Por isso tantos que chegam perto da ideia mas se afastam logo depois. Querem um único olhar que seja livre do peso de todas a… Aquelas… Expectativas… Eu entendo que tomem atitudes extremas. E que busquem essa comunhão.

— Eu tenho razões pra não gostar das atitudes extremas de vocês… — Rebateu Lamar, pensando no absurdo que era classificar de extremos os alorfos num mundo em que existiam filinorfos.

— Existem razões para tudo.

— Vocês são culpados por essas…

Quando pareceu, por um momento, ter ficado bem de novo, o barco deu mais uma guinada cheia daquela força lenta e absoluta para o alto. Teve raiva de si mesmo pela décima vez quando a aparência se desfez, ilusória.

— Foi interessante saber que temos algo em comum, mas a diferença permanece. — Disse Dier, mais seco, longe do transe poético em que se abrira antes. — A de que eu mando, e você obedece. Portanto aproveite que não passa bem e fique quieto pelo resto da viagem.

Depois...

Quatro dias depois e já em outra embarcação, entravam mais fundo na costa oeste de Heelum. Viam mais e mais jirs apertadas ao longo dos contornos da região. Em planícies domesticadas, as casas de cores brandas deixavam em Lamar resquícios de calafrio e saudade. A vida não parecia muito diferente, ali, das horas mais calmas da última tentativa de ser feliz em Prima-u-jir.

Um vazio tomou conta do litoral depois de um último grande povoado. No contorno alaranjado do céu de fim de tarde viam-se esparsas silhuetas de árvores selvagens. Era como ter errado o caminho, deixando a cidade para trás. Mas Lamar entendeu tudo melhor ao olhar para o Norte assim que o barco começou a se afastar para a esquerda. Fincada lá estava uma torre de tijolos bronzeados, talvez ainda mais colorados pela tinta poente do sol. Cinco colunas externas de corvônia coladas à alvenaria acabavam se derramando perto das rochas mais antigas na fina faixa de praia.

A torre era guardiã da extremidade sul de uma alta e retilínea murada, que seguia norte em pedaços a perder de vista. Atrás do muro via-se, por pouco tempo e num espaço mínimo à direita da torre na ponta, um pouco da cidade na forma de casas e pequenos prédios ordenados numa subida em direção ao que parecia ser uma montanha. Não teve tempo para observar mais, mas comentou para si que não precisaria esperar muito para ver o lugar de um ângulo melhor.

O navio começou a dar a volta, completando meio círculo: chegara até uma boca no centro da murada, abertura em que duas torres similares à da ponta sul, mas de tamanho desigual, fechavam as costuras. Uma delas, à esquerda e mais alta, tinha um relógio de hastes vermelhas brilhantes no topo. Lamar supôs que as estruturas davam boas vindas a quem chegava, mas pareciam igualmente capazes de repelir qualquer um que não quisessem bem.

Lamar sentou em um banco disponível no convés enquanto a tripulação fazia seu trabalho, frenética; ele não conseguia prestar atenção a qualquer comoção, hipnotizado como ficara com o castelo dourado de telhado vermelho que, com simpáticas janelas pequenas, ficava acima das galerias com colunas em arco de frente para o grande abrigo d’água em que dezenas de navios se refugiavam.

Foi só quando ancoraram permanentemente que Dier apareceu, desembarcando sem olhar para trás no píer mas sem tampouco parecer entusiasmado. Lamar o seguiu, considerando que ficar para trás naquela cidade completamente nova talvez não fosse a melhor das ideias. Envergonhou-se imediatamente, seguindo a passos servis o carcereiro despreocupado.

Depois...

Na noite do dia seguinte, Lamar foi tirado da casa trancada em que Dier lhe pusera depois de saírem do porto. Ouviu da boca do próprio que os planos mudaram. Perguntou o que ele queria dizer com aquilo, mas recebeu de volta uma resposta em forma de simples alerta — que ele não testasse sua paciência. Lamar não o fez; entrou na charrete, teve suas mãos libertas, e recebeu as roupas que deveria usar assim que chegassem ao destino.

A montanha que vira do mar, percebeu assim que olhou pela janela da carroça, era na verdade um castelo — gigantesca fortaleza cinzenta, com cantos arredondados formando torres anexas aos lados, sujos e duros que impressionavam pela rede de minérios de luz vermelhos que ocupava, pontilhada, toda a extensão de cada lado.

Não era possível ver a base do prédio, nem mesmo na forma de uma porta de entrada; a fortaleza jogava a cidade inteira na forte luz vigilante do alto, mas qualquer perspectiva sempre deixava no ar a sugestão de que havia algo a mais abaixo da linha até onde a vista alcançava. O terreno era provavelmente uma colina, com as casas e árvores convergindo para o topo dela, cada vez mais densas à medida que se chegasse perto do centro brilhante. Não permitiam a ninguém entender, de longe, o que era exatamente aquilo — as ruas, indiretas, seguiam tortas para a direita numa espiral que ludibriava quem desejasse o caminho mais rápido até o meio.

Assim que passaram por um portão e entraram no castelo, Dier esperou — provavelmente provocando isso — até que o cocheiro os deixasse em paz. Estavam em uma espécie de garagem longa, cujas paredes de corvônia eram adornadas por uma linha sutil de minérios rosados, formando um túnel que tinha por fim um portão de madeira com entalhes que Lamar, de longe, não discernia.

— Você vai estar com a corte de Den-u-tenbergo esta noite. — Avisou Dier como se anunciasse a morte do prisioneiro. — E deve fingir que é meu discípulo. Não fale nada, nem mesmo quando diretamente perguntado. Não coma nada. Se fizer ou disser algo que me desagrade ou que contrarie minha versão dos fatos, quaisquer que sejam os fatos, vou abrir seu pescoço na mesa do jantar. Acene se entendeu.

Lamar fez que sim com a cabeça.

— Vista-se. — Disse, saindo da charrete.

Depois...

Lamar olhava intrigado para a pintura dourada do corredor, que não parecia tinta. Ressaltada por minérios amarelos e alaranjados ao longo do corredor, estes encrustados a intervalos regulares e em posições intercaladas, o relevo da textura curva que ocupava a porção central da parede repetia-se, à esquerda, à direita e também no teto, como grossa e forte camada brilhante. Encostou as mãos à parede, sentindo um frio fugaz nas palmas e nas conexões dos dedos, até ser puxado para trás pela gola da capa verde-escura que vestia.

— Sei que provavelmente nunca viu tanto ouro junto, mas não se comporte como um idiota. Lembre-se do que falei.

Seguiu Dier pelo corredor, que continuava exatamente da mesma forma até a passagem para uma outra seção, onde as paredes pintadas — definitivamente pintadas — em pêssego ficavam mais escuras. Os focos fracos de minérios azuis foram pendurados a partir do teto em fios cobertos por um trançado fino de vidro.

Depois de mais uma porta chegaram a escadarias retas e modestas, ainda que inteiramente convertidas em corvônia. Subiram até encontrar um último portal, dessa vez maior que os outros e servindo de bloqueio a um burburinho educado do outro lado.

A porta se abriu pelo lado de dentro; Dier provavelmente controlou algum serviçal. Entraram, rápidos, com o alorfo atrapalhadamente seguindo-o, tentando manter-se blindado para a curiosidade que o atraía de todos os lados. Dier sentou-se em uma cadeira vazia mais à direita da mesa, e Lamar, ao seu lado, confiando que se não devesse fazer aquilo Dier teria dito alguma coisa.

Parecia haver duas dúzias de pessoas dispostas ao longo de uma larga mesa farta e colorida — tentação especial para Lamar, que não comera nada o dia inteiro. O estômago reclamou, audível no silêncio, mas felizmente quieto se comparado ao tom das conversas no salão. O piso do lugar, brilhante ao ponto de refletir em parte os pés de madeira escura das cadeiras e da mesa, era do mesmo amarelo claro das paredes em que nenhum retrato se via. Do outro lado da entrada, vidraças longas em molduras roxas completavam o ambiente íntimo do lugar de iluminação dividida entre parcos minérios carmins e velas vermelhas à mesa.

— Está atrasado. — Comentou uma sorridente mulher mais velha no centro da mesa, seu cabelo grisalho repartido ao meio combinando bem com as sobrancelhas levantadas em tom de desafio.

— Tive problemas. — Respondeu Dier. Lamar não conseguia ver seu rosto, e franziu o cenho tentando decifrar sua voz. — Este é meu novo discípulo.

As pupilas à mesa pareciam ter se movido muito pouco, mas Lamar pôde sentir a mudança atacando-o com ferocidade pelos flancos.

Se era o novo, perguntou-se o que aconteceu com o anterior.

Quando resolveu prestar mais atenção ao campo de visão que efetivamente tinha, percebeu que a colher era o único talher disponível. Arriscando voos mais altos, viu como os outros usavam as mãos para comer quase tudo.

Começou a pescar nomes. Tentava entender o que estava fazendo ali. Todos usavam vestidos, togas e capas semelhantes às de Prima-u-jir, só que mais ornadas e coloridas. Muitos pareciam-se — eram parecidos até mesmo com Dier em suas linhas suaves, narizes pequenos e cabelos secos.

— Bom que finalmente tem um discípulo. — Disse a mulher.

Dier não respondeu; continuou roendo um osso lustroso de coxa que fez o estômago de Lamar dar saltos. Sequer vira o preculgo começar a comer e ele já terminava uma porção.

— Viu a frota indo para o Sul?

— Vi. — Disse ele, largando o resto no prato. — Quase me atacaram.

— É claro… — Respondeu ela, voltando-se para a própria comida. — Era só o que faltava você não voltar com o carregamento que pedimos para você.

— Mas voltei.

Ela concordou, mastigando.

— Torn-u-een teve a indecência de vir aos nossos muros. — Continuou ela. — Atacamos já em alto mar. Tentaram inclusive fugir.

Dier balançou a cabeça, mexendo a língua dentro da boca.

— A retaliação deve estar acontecendo esta noite mesmo. — Concluiu a anciã.

A conversa estava desinteressante para algum deles, mas Lamar não conseguia entender quem. Perguntavam-se perguntas e respondia-se com respostas, mas pareciam seguir um protocolo ao invés de qualquer vontade genuína. Só ironias e indiretas — diretamente fora da relação entre os dois, e ainda nem sabia o nome da mulher — justificavam a suspeita de que se importavam um com o outro, para o bem ou para o mal.

— Quando é que você vai nos contar sobre o que anda fazendo viajando por Heelum? — Perguntou um homem alto e barbado, separado da mulher por uma moça magra, quieta e que olhava para baixo. O homem antes estava mais distante da conversa, mas agora parecia ter percebido a presença de Dier na mesa.

— Quando estiver pronto.

— Quando estiver pronto o quê?

Dier meneou a cabeça, num sorriso que escondia facas atrás dos dentes.

— Avisarei quando estiver pronto.

O homem voltou ao parceiro anterior de conversa com um muxoxo.

À medida que a noite seguia, serviçais em longas vestes negras surgiam numa espécie de coreografia geométrica — absolutamente perfeita em cumprir uma reta exata desde duas portas simples em uma das pontas do salão até a mesa. Vinham trazer novos pratos ou substituições dos antigos.

— Irmão. — Chamou Dier em voz baixa um homem que parecia o próprio, só que mais velho, de rosto mais longo e de bigode, que sentava-se ao seu lado. — Não vai nos apresentar formalmente ao discípulo?

A anciã subiu as pálpebras na direção da nova conversa.

— A família é grande demais e este não é o momento. — Respondeu Dier, olhando inflexível para a frente.

— Por que não só para os mais importantes? — Disse, levantando as sobrancelhas. — Eu sou irmão do Dier. Meu nome é Flavian. Aquela é nossa mãe, Noella.

Lamar não sabia como reagir, a não ser pela mandatória falta de verbalidade.

— Não acha que seria mais interessante falar conosco? — Perguntou Flavian. — Você não deveria ser assim mal educado.

— Não se atreva. — Disse Dier, sem interromper o copo d’água levado à boca, vertido sem que nenhuma indicação de que ele viraria o pescoço para confrontar o irmão.

— Ele deveria comer também. Deve estar com fome.

— Mais um passo e não respondo por mim, Flavian.

Enquanto via Noella sussurrar um agressivo “Dier!”, Lamar entrou em Neborum — viu-se em uma sala que havia descoberto durante a viagem. Nela, podia se trancar pelo lado de dentro. A porta contava com três trancas, e estava escondida atrás de uma parede falsa. O cômodo não tinha móveis, nem mesmo janelas aparentes — pequeno e longo, era uma brecha entre salas, feita para não ser imaginada por quem estudasse sem critério o castelo do lado de fora. A abertura pequena próxima ao chão não lhe dava vista privilegiada alguma, mas a ignorância valia a pena.

Voltou a Heelum trazendo uma lufada de ar para dentro do peito — que com sorte, ninguém percebeu; nada mais parecia ter acontecido, e Flavian sorria docemente para o irmão.

— Você não muda…

Dier permaneceu quieto.

— Por falar nisso, a Casa do Norte ganhou o torneio enquanto você esteve fora.

— Interessante.

— É a mesma casa de nossa prima Brigi, lá no outro lado. Você deveria ir cumprimentá-la.

— Não. — Determinou Dier, depois de um curto silêncio. — Outra hora.

— Ela está a algumas cadeiras de distância, Dier. — Censurou o irmão. Noella conversava com o homem de barba e não parecia mais prestar atenção à conversa.

Enquanto isso Lamar seguia olhando para o próprio prato barroso, com seu vazio deprimente. Arriscava espiadas rápidas para frente ou para os lados, à altura da comida e só.

Mas era certamente injusto — não seria possível consumir toda aquela comida com o dobro de convidados, e parecia que quase metade deles era composta por discípulos como ele — que, parados e encabulados em suas cadeiras, não comiam ou falavam qualquer coisa. De fatias de carne a frutas, passando por cebolas e tomates tostados, havia tipos de preparações e molhos que não conseguia arriscar sequer os ingredientes para além da água. Lamar desejava apenas que o frio da estação fizesse logo seu papel e acalmasse os ânimos dos vapores, que distribuíam com coreografias onduladas cheiros sedutores pelo salão.

Mas não podia comer. O desperdício não importava.

— Como encontrou um discípulo tão rápido? — Perguntou Flavian, que sempre falava meneando a cabeça para incluir Lamar na direção da conversa. — Você saiu daqui sem um.

Dier voltou-se para o irmão, que arqueou as sobrancelhas em expectativa.

— Duvida de mim, irmão?

— Obviamente.

Talvez a raiz de toda a irritação de Dier fosse que justamente ele estava seguindo suas ordens. Será que deveria mesmo fazer aquilo?

É claro, pensou. Ele estava fingindo ser discípulo dele; não o era de fato. Não fazia sentido que aquilo se tratasse de qualquer tipo de teste.

— Temos que discutir também esta guerra, Dier. Mamãe falou sobre isso com você?

— Mencionou brevemente.

— As ordens chegam lentas, mas se formos mandar tropas para algum lugar, um da fortaleza deverá ir à frente.

— Não há necessidade alguma disso, e ela já está ciente de minha opinião.

— Qual é a sua opinião, Dier?

— Não lhe cabe ouvi-la.

Dier parecia irritado — e ninguém, além de Flavian de vez em quando, conversava com ele. O homem jovem à esquerda de Lamar estava tão entretido em uma conversa sobre algum tipo de torneio que toda a superfície de suas costas voltavam-se para o alorfo como uma nova parede. Noella ria discretamente, com as duas mãos juntas na beirada da mesa, engajada com alguém no próprio lado da mesa.

Alguém realmente perceberia se ele pegasse uma colherada daquele molho à frente, tão perto de si, tão seu, a jogasse para dentro da boca e lentamente fingisse estar observando a colher?

Um arrepio percorreu o corpo — fome, não frio, concluiu. Não estava frio dentro do salão, e as velas reinavam sem contestação no ambiente cujas janelas ninguém abriria.

— Eu creio que me cabe, irmão.

— Eu não creio, Flavian.

— Você resiste a me chamar de irmão pela mesma razão a que resiste servir à Fortaleza?

Serv… — Engasgou Dier; Lamar arregalou os olhos quando viu, na posição privilegiada que tinha sua postura cabisbaixa, o mago agarrar a própria coxa como quem precisa de apoio para não arrebentar alguma outra coisa. — Vocês me querem na guerra para saber onde estou e para que com sorte eu morra por lá.

Lamar engoliu, fazendo da secura protagonista — mas não queria chamar a atenção nem mesmo com um arranhar de garganta. Verificou de novo que ninguém lhe dirigia a menor atenção, e Dier virava-se mais e mais para o irmão.

Encostou as pontas trêmulas dos dedos na ponta do cabo da colher. Maravilhou-se com a total inocuidade do toque, em todo seu glorioso silêncio em meio às conversas cruzadas das quais era pivô.

— O fato de que você não quer ir mostra por que nos importamos tanto com o seu destino. Embora eu, pessoalmente, duvide que você vá correr muitos riscos…

— Vá você, se quer tanto.

— Mas oh, não, eu não quero! — Flavian ria como se galanteasse o próprio irmão. — Eu tenho sido um representante mais autêntico dessa família do que você desde que você nasceu, Dier! Você sabe disso! É óbvio que você deveria ir.

Lamar encostou a colher no molho cremoso — de um alaranjado salpicado com ervas finas e odor cítrico que fazia umedecer os últimos cantos da boca.

Sentiu-se observado um momento antes de virar a atenção um pouco para o lado; Dier o observava num transe sem expressão, com a boca levemente aberta e as mãos entrelaçadas diante do queixo.

Largou a colher na hora em que o falso mestre a jogou bruscamente pelo chão, sujando o caminho de molho. Lamar ofegava, voltando a olhar para baixo em desespero — sua única chance era tirar a espada de Dier antes que ele a usasse; talvez conseguisse sair correndo dali e poderia sair antes que eles entendessem que ele não era discípulo nenhum.

FLAVIAN! — Berrou Dier, levantando-se imediatamente.

A mesa entrara num silêncio atônito. O ruído da respiração de um irmão, junto ao sorriso satisfeito do outro, preenchiam todo o espaço reverberando num eco constrangedor.

Sente-se, Dier. — Chamou Noella, controlando o volume da voz azedada. — Não me faça usar a força e sente-se, Dier!

O filho, imóvel, não respondia.

Sente-se, Dier! — Desesperava ela, destilando o comando em uma voz mais e mais fina. — Você não vai me envergonhar na Noite dos Mestres de novo, Dier!

Lamar não ousava observar a reação de ninguém.

SENTE-SE, DIER, NÃO ME ENVERGONHE MAIS!

— Por que devo ser eu a causa da vergonha quando meu irmão força as regras da noite à ruptura? — Questionou Dier, voltando-se para a mãe com olhos arregalados e bochechas tensas a cada palavra.

— Porque você é o mestre deste mago e deve controlá-lo direito! — Explicou ela, fechando os punhos trêmulos, tornando ainda mais visíveis as veias do antebraço.

— A Noite dos Mestres é para mestres de fato, irmão…— Zombou Flavian.

— Você testa minha paciência como se eu não pudesse fazer nada, Flavian.

— E o que vai fazer? Me matar?

Chega. — Declarou Noella.

Dier jogou-se para baixo, desconcertando-se na queda sobre a cadeira que, para seu provável desprazer, não era acolchoada. Logo ele pôs as mãos entrelaçadas acima da mesa, e instantes depois Noella começou a tossir, encostando a mão a garganta até se estabilizar.

As conversas recomeçaram, rodopiando em volta de um Dier perfeitamente pacífico. Lamar ouviu à esquerda comentários sobre seu caráter e temperamento sempre ter sido daquele jeito — e que aquilo era realmente muito triste para a linhagem de Noella: pequena mancha naquilo que era de outra forma uma condução muito boa de sua vida pública.

— Imagino o que papai diria se estivesse vivo… — Disse baixinho Flavian, escolhendo um pedaço de carne para mordiscar. Logo voltou-se para Lamar. — Você é realmente o discípulo dele?

Lamar sentiu as bochechas arderem: não podia mais se deixar enganar por nenhum impulso que tivesse. Tinha que se agarrar à ideia de que simplesmente não podia falar. Nem comer. Não podia falar ou comer.

— Deveríamos tirar essa dúvida.

Lamar arriscou uma rápida melhoria no ângulo e viu que Noella olhava para ele também.

— Eu estou concedendo a você o direito de falar. — Disse Noella no tom certo para que as conversas não parassem e as atenções começassem a gravitar de novo para aquela porção da mesa. — E espero que possa nos contar caso não seja um discípulo… Em especial um discípulo de Dier.

O mago controlado pela mãe se manifestou, urrando até forçar o limite da mordaça que ela, provavelmente uma espólica, lhe impunha. Não durou muito, e ela logo insistiu.

— Pode admitir. — Dizia Flavian. — Qual é o seu nome?

— Penso que ele tem levado a lealdade a Dier longe demais, filho. — Supôs Noella.

— Talvez. Olhe para nós, homem, por favor. Eu imagino que Dier não tenha dito nada sobre isso, não é?

Lamar imaginava que não podia continuar contrariando aqueles magos por muito tempo — com Dier fora de combate, talvez eles mesmos o invadissem para fazê-lo falar, se já não houvessem feito.

Mas se não o fizeram ainda, será que farão caso ele não coopere?

Olhou para Flavian, depois para Noella, e manteve a cabeça reta e os lábios trancados.

— A tradição da Noite dos Mestres celebra a vida e a morte dos grandes mestres de Den-u-tenbergo. Nessa noite os discípulos não têm vez ou voz. — Explicou Noella, didática. — Mas hoje eu sou a organizadora, e digo que você pode falar. Mesmo que seja discípulo de Dier de verdade.

— Vai ser pior se não falar… — Deixou no ar Flavian.

— Filho… — Advertiu Noella, polida.

“Vai ser pior”, pensou Lamar, se Dier não quiser mais ir para Imiorina depois de um desvio nos planos em Den-u-tenbergo. Aquela noite tinha que dar certo para ele, e até o momento estava sendo um desastre.

Assustou-se quando Noella tocou sua mão. A pele era fina e pedregulhosa; os movimentos, incertos. Ela quase o fez lembrar da própria mãe.

— Garanto que você pode se sentir seguro. Dier não é uma ameaça para você nesse momento, não importa o que ele tenha dito a você. Eu tenho voz aqui. Aqui e agora.

Lamar percebeu um movimento à direita: virou-se para ver a cabeça de Dier quase dentro do próprio prato, o rosto impassível todo virado para baixo.

Dier subiu a cabeça de novo num movimento brusco, apenas para dar testadas no prato sujo de molho, grãos de arroz cozido e pedaços duros demais de carne. Testadas duras, nada ensaiadas para o conforto: depois da quarta vez, Dier permaneceu reto no assento, mas a testa estava estampada com uma mistura nada harmônica de cores.

— Vê? Você não precisa falar. Faça movimentos com a cabeça de início. — Disse ela.

Lamar confirmou discretamente.

— Você é discípulo de Dier?

Fez que sim, ligeiro.

— Tem certeza?

Repetiu, confiante.

Noella continuou a ver nele um difícil quebra-cabeças. Quando Lamar deu por si ela havia levantado o dedo indicador para ele, desfazendo o contato carinhoso das mãos.

— Proponho um desafio. Um desafio que será talvez mais difícil para Dier do que para você. — Começou ela, falando diretamente com o discípulo ao invés do mestre. — Prometa que estará na próxima Noite dos Mestres conosco. Será daqui a um rosano, e você aparecerá na mesma condição de discípulo de Dier. Você acha que isto é possível?

Lamar engoliu em seco; a Dier foi permitido fechar os olhos por mais tempo do que o de uma piscada, e só. Não havia muito o que interpretar, e estrategicamente dizer não era confessar que havia muito menos do que um plano de longo prazo na mente dos dois.

Depois de controlar o desejo de responder com um sonoro sim, Lamar confirmou com um movimento de cabeça. Dessa vez, mais contido, pensado; sabia que mentia, e esperava que Flavian não o estivesse persuadindo a querer cumprir a palavra. Este sorria para Noella, sem preocupações no mundo. Jogou as sobrancelhas para o alto e voltou-se ao próprio prato.