O Prólogo da Jornada de Kan

Nenhuma luz abrandava a noite do lado de fora da tenda; por dentro, um minério amarelo desperdiçava seus esforços num canto, jogado no chão. Kan já havia desistido de tentar se desamarrar — o esquema era complexo demais, e na mesa em frente não havia nada que pudesse ajudá-lo.

Olhava reto para nenhum lugar em particular, com o corpo nada incomodado e a mente pouco atarefada. Esperava, como fizera sem alarde nos últimos dias, por uma decisão que alguém tomaria quanto ao que fazer com ele.

Não conseguia ainda ouvir os passos do lado de fora, mas percebia o agito no ar em Neborum. Logo pôde ver o contorno de um castelo surgir ao longe. Engoliu em seco ao perceber exatamente que castelo era.

Voltou suas atenções para Heelum; alongou a cabeça e respirou fundo uma, duas, três vezes e rápido, preparando-se para o que acontecesse ali — resistir em Neborum parecia ser inútil.

Desmodes entrou devagar na tenda. Passou a fitar o filinorfo preso sem pressa nem interesse.

— Há coisas que quero saber. — Ditou ele.

Kan fez que sim com a cabeça.

— Eu posso dizer tudo. Qualquer coisa.

Kan pensou ter visto um leve estreitar nos olhos negros.

— Nenhum escrúpulo?

— Vou cuidar de mim como sempre cuidei, então… Aceito os seus termos.

— Não há termos. Não há acordo al…

Desmodes parou de falar quando levou a atenção para o canto escuro da tenda atrás de Kan.

O filinorfo esticou o pescoço, tentando ver o que estava acontecendo. Não ouvia nada e, já que ainda não tinha sido dominado em Neborum, podia ver que lá não havia nenhum outro castelo para além dos dois.

— Qual é o…

Quieto!

A tenda se mexia como se crianças, despreocupadas em dias de felicidade, corressem pelas laterais arrastando seus dedos displicentemente pela goma alaranjada. Primeiro ali, mais embaixo; depois do outro lado, de leve. Não havia o som de seus passos nem de suas unhas, mas Desmodes sabia que aquilo não era obra do vento.

— Há mais de vocês aqui? — Perguntou Desmodes, voltando-se para Kan de novo.

— Não. Éramos quatro.

Desmodes olhou de novo, por um momento a mais, para o canto escuro.

Avançou contra o filinorfo, virando a mesa para o lado de qualquer jeito e encostando a ponta da espada em sua garganta exposta.

HÁ MAIS de vocês aqui?

NÃO!

Virou o pescoço bruscamente para o canto em que parecia ver alguma coisa; com a espada ainda em punho, saiu de perto de Kan e andou até o minério na ponta oposta da tenda.

Pinçando a pedra iluminada com os dedos, adiantou-se, pé por pé em posição de segurança, até o canto menos iluminado do lugar.

Pressionou o minério contra o tecido como se quisesse ver através dele; ali teria ficado até ter certeza de que o que viu era só sua imaginação se dentes fortes do outro lado não tivessem mordido seus dedos.

Desmodes berrou, deixou o minério cair no chão e saiu da tenda. Não precisou terminar de dar a volta nela para topar com um vulto encapuzado do lado de fora.

Num estouro sem pensamento, atacou — com golpes amplos, cruzados, acompanhados de grunhidos de raiva, tinha certeza de que tinha atravessado o corpo envolto em vestes cinzentas à sua frente, mas a lâmina passava por ele como por vento. No fim, estava tão limpa quanto no começo.

Desmodes recuou, o rosto louco como se os olhos também ofegassem. Deixou a espada à frente, instintivo, enquanto esperava que o inimigo se revelasse, fosse o que fosse — poeira de sua imaginação ou mistério de Heelum.

Mistério de Heelum.

Pôs os dentes de cima junto aos de baixo para ranger; expirava forte o silêncio da espada enquanto aparecia, cada vez mais estridente, cada vez mais asmática, a gargalhada do ser à sua frente.

— Estive pensando… Pensando mesmo, Desmodes… Se seria feio o bastante matá-lo aqui. Matá-lo agora.

Desmodes apertou a mão por sobre a guarda da espada.

Sim, ela é inútil. — Continuou ele. — Mas você não é!

— O que quer, Lato-u-nau?

NÃO ME CHAME — Gritou Lato-u-nau, empurrando Desmodes para trás. — POR ESSE NOME!

O mago-rei se recompôs rápido depois da cambalhota, um pouco tonto e mais enraivecido, e empunhou a espada em riste mais uma vez. Viu com desgosto o capuz de Lato-u-nau jogado para trás; viu a cabeça alongada, levemente esverdeada, adornada com uma barba completamente irregular e dentes da frente apodrecidos.

— Ah, não seja tolo! — Com um gesto de mão à distância fez a espada de Desmodes ser atirada para longe. — Eu já disse, e você já viu, como ela é inútil!

O que você quer? — Rosnou Desmodes.

Lato-u-nau se empertigou, sua boca torta arranjando-se num sorriso bobo; sua cabeça parecia um pouco mais achatada agora, pelo menos à distância que Desmodes estava — via praticamente a silhueta do inimigo apenas, construída com a luz fraca do minério dentro da tenda.

— É simples. Quero que mate o Kan.

Quem é Kan?

— O filinorfo que você capturou… — Sussurrava ele, balançando sem muita graça a cabeça cujos olhos ferinos começavam a brilhar como tochas na noite. — Aquele, ali dentro… Que não quer morrer.

Depois...

Ele corria com os pés descalços de um lado da jir a outro, cortando caminho por meio da plantação. Ao chutar sem querer uma caixa de ferramentas ouviu um “Ei!”, e pela voz achava que sabia quem ele tinha incomodado dessa vez.

Onari tinha pedido para ele transmitir um recado a Sainara, a senhorinha dos temperos, e para “aproveitar” e ficar na casa dela. Sainara, depois de ouvir o recado e dizer que ele já podia ir embora, não gostou nada da ideia. Explicou com olhos enormes que “Não… Não, não, aqui não! Vai de volta pra Onari, menino!”.

Kan sentiu o vento que a porta fez ao bater atrás das costas. Não chegou a fazer o caminho de volta; mal pisou no corredor entre as plantas altas, já decoradas de dentro para fora com suas espigas, e viu o dono da caixa de ferramentas que derrubara vir atrás dele cheio de raiva para distribuir.

Fugiu, aparvalhado, e entrou na primeira casa de porta aberta que viu. Assustou uma menina mais nova que ele, que zanzava pela sala com uma boneca sem cabeça nas mãos, e se escondeu na cozinha, entre as tábuas claras da parede e o fogareiro preto.

Acabou expulso minutos mais tarde, aos gritos, pela dona da casa. Ela nunca tinha gostado muito dele — e só uma vez, num torn-u-sana em que os umenau pareciam ter decidido invadir quase a jir inteira, ela permitiu que ele dormisse lá.

Pelo menos saiu pela porta dos fundos, vendo que ali, nas encostas da colina que os separava do Rio Al-u-bu, não era perseguido. A jir no Extremo Oeste de Al-u-een se dispunha num semicírculo; Kan conhecia todas as casas, já que passara pelo menos uma noite em cada uma delas desde que nascera — e, embora não tivesse motivo para gostar muito de alguma em especial, gostava daquela ponta do vilarejo mais que da outra. Na subida da íngreme colina, que ele sempre encarara como um desafio secreto, só seu, conseguia uma vista ótima do nascer-de-Roun por sobre o rio.

— Arranjando encrenca, garoto?

Kan parou de olhar para as árvores enraizadas no morro, virando-se para a varanda cercada nos fundos de uma das casas. Célido, o homem mais velho da jir, sentava em uma cadeira tão baixa que na última parte do processo mais caía no assento do que aterrissava. Célido perdeu a visão quando Kan era muito pequeno; para o azar do menino, não tinha perdido a voz.

— Kan?

— Sou eu, sim… — Kan murmurou de volta. — Como você sabia que era eu?

— Além dos berros aí do lado? — Apontou com o dedo trêmulo para a casa de onde o menino saíra. — Pelo cheiro, é claro, porque você fede mais que peixe podre, seu moleque fedido.

Kan respirou fundo e fechou os olhos, fechando as mãos do lado do corpo. Detestaria ter que dissimular a raiva que sentia de Célido, então até que sua cegueira lhe era bem conveniente.

— Onde é que você vai dormir hoje? — Perguntou o velho.

— Não interessa!

— Moleque atrevido, isso é que dá não ter pai nem mãe! Se bem que… Para ser um palerma como você nem pai nem mãe davam jeito, não é? Deviam ser dois idiotas para fazer um assim…

— Não fala da minha MÃE! Nem do meu PAI!

— Você nunca nem viu seu pai… — Sugeriu Célido, a voz amansando enquanto as sobrancelhas puxavam o rosto para cima. — Nunca viu sua mãe!

— E você não vê nada porque é cego!

Ah, garoto! Acha que me incomoda? Seu pedaço de gente miserável… — A mão de Célido tremia na cadeira enquanto seu rosto balançava, procurando mais ou menos o lugar onde Kan estava. — Sua mãe botou você no mundo e deve ter abandonado depois de te cheirar… Viu o desperdício de carne que tinha parido e foi-se embora! O pai ela não devia nem saber quem era, que ele nunca veio procurar você… Mas aquela idiota podia ter jogado você em algum outro canto, não podia não? Mas NÃO! Tinha que jogar aqui, para você abusar da nossa comida, do nosso dinheiro… Se fosse por mim tinha te chutado daqui antes que começasse a falar e a andar que assim ninguém perdia tempo com você, seu esterco!

Kan já não conseguia segurar os pulsos juntos; perdia as forças nas mãos trêmulas. Não soluçava, mas prendia a respiração sem perceber; dali saiu direto para um lugar, qualquer um, o primeiro que encontrasse — e não eram muitos, nem um que pudesse chamar de seu sempre — para desaguar o que saía dos olhos. Entendia uma verdade simples, pouco a pouco, sem verbalizá-la nem consagrar como profeta dela o velho amargo: todo mundo tinha alguém para poder ser amado por inteiro. Ele não.

Depois...

Seu pai não poderia ter escolhido pior época para conhecê-lo. Cheio de espinhas amarelas no queixo (e uma na ponta do nariz), alto demais para as roupas de segunda mão que já nem deveriam ter sido passadas adiante e com as unhas imundas de terra, Kan definitivamente não se sentia adequado no escritório do pai.

Livros, mais do que ele já tinha imaginado existir em toda a sua vida, enchiam uma estante que ocupava uma parede inteira. Ele mal sabia ler. A janela atrás da escrivaninha bem trabalhada, colorida e decorada com padrões repetidos de cima a baixo, era provavelmente mais cara que uma casa inteira da jir onde crescera. Até mesmo as portas, desenhadas com motivos herbais dourados por sobre a madeira escura, parecia concentrar mais riqueza do que jamais experimentara.

— Como me achou? — Perguntou, assim que conseguiu falar. — Como sabe que eu sou seu filho de verdade?

O pai, sujeito de cabeça miúda em corpo magro e alto, trancafiava o corpo em vestes verdes. Sorria docemente para o filho, e quando finalmente falou sua voz estava tão rouca que em nada combinava com suas feições.

— Perdoe pela voz, estou com um problema na garganta… — Disse, engolindo duramente logo depois. — Meu filho… Se demorei tanto para achá-lo é justamente porque quis ter certeza.

— Mas como…

Eu. Não. Acredito.

Kan olhou para trás, e pela porta entreaberta uma garota, certamente alguns rosanos mais velha que ele, o observava com um sorriso crescente recheado de algum sentimento que Kan não conseguia decifrar — mas sentia que não era amistoso.

Ela entrou na sala com estardalhaço, arrastando um longo vestido roxo até ficar perto de Kan. Contorceu o rosto quando cheirou o ambiente; afastou-se, puxando consigo parte do que vestia.

— Esse é quem eu acho que é? — Perguntou ela.

— Sim. — Esforçou-se o pai. — Sim, filha, esse é o seu irmão.

Não. — Disse ela, levantando o dedo. — Você não vai aproveitar que você e a mãe se separaram para trazer para casa um filho bastardo!

BASTA! — Levantou-se o dono da casa, forçando a voz ao limite. Kan arregalou os olhos, dando um lento passo para trás. — Não vou admitir que fale assim comigo!

— E eu não vou dividir mais minha herança com esse… — Avaliou o irmão mais uma vez.

QUERANÇA? — Interrompeu o pai no meio-tempo, obrigando-se a arranhar a garganta por completo para se fazer entender o pouco que fosse. — Que herança? Por acaso eu vou morrer amanhã?

— Amanhã ou depois não interessa, porque filho é para sempre, pai.

Por mais que Célido o forçara a criar uma casca ao redor de seu orgulho, e por mais que não conseguisse entender exatamente por quê, Kan sentia que aquela era a maior humilhação de sua vida.

Recebeu um novo olhar da meia-irmã.

— Parabéns, pivete. Tirou a sorte grande.

Depois...

De seu esconderijo pôde ouvir a porta abrir. O armazém, usado para dezenas de coisas, tinha nas estantes e seções fechadas das paredes bons refúgios. Aquele era seu armazém favorito, e toda vez que vinha a Karment-u-een convencia aquele fazendeiro específico, homem organizado e ambicioso, a deixá-lo ficar por ali.

Aparentemente alguma coisa havia dado errado. Com isso ou com o dinheiro que, aí sim, “coletava” dos empregados.

Em Heelum os passos foram interrompidos, mas a porta de seu castelo estourou — caiu para frente com o chute do iaumo invasor, que berrou para que ele ficasse bem onde ele estava.

Kan estava à frente da porta de seu castelo, com as mãos para o alto e um sorriso no rosto. O mago que o atacava era um largo homem de pele escura, careca, que parecia se esforçar ao máximo para ser ameaçador.

— Vou me virar de costas como sinal de que estou ao seu dispor. — Disse Kan.

Não chegou a ficar de lado; fez surgir uma adaga em sua mão direita e a jogou na direção do homem, que teve a garganta cortada.

As galinhas do outro lado do armazém acordaram com a ação que começou assim que o iaumo sumiu de cena aos poucos. Kan estava no chão, ajeitando-se como podia num espaço fechado por duas portinholas. Quando elas abriram, conseguiu chutar o homem para trás.

Kan jogou-se para fora do esconderijo; aproveitou o desequilíbrio do inimigo para roubar a espada de sua mão e chutá-lo até uma coluna, tronco firme no meio do casebre.

— Qual é o seu nome? — Questionou Kan. — O que quer aqui?

O outro mago se estabilizava, conferindo com a mão se não sangrava no rosto. Olhou para Kan, para a espada roubada, e então para o resto do lugar.

— Meu nome é Hiram. Você é um preculgo que mora muito mal…

— Isso é problema meu.

— É curioso, na verdade… Qual é o seu nome?

— Kan. E você não disse o que veio fazer aqui.

Aquela foi a primeira vez que Kan viu um sorriso de Hiram. Ele apareceu de repente, completamente fora de contexto; ainda assim, transformou o fim de uma luta em um cenário amigável — era quase como reencontrar um velho companheiro que mudara muito nos últimos tempos.

— Eu sou um filinorfo.

Kan fez que sim com a cabeça.

— Descobriu que tinha um mago aqui e quis me matar, é isso?

— Ah, não… — Riu-se ele, parecendo genuinamente se divertir. — Se eu quisesse matar você eu não teria sido tão calmo quando invadi seu castelo.

— Eu teria reagido rápido também.

— Kan… — Seus sorrisos agora pareciam feitos para repreendê-lo. — Você foi descoberto… Quer dizer que não é um mago tão bom assim. Bons preculgos não deixam esse rastro…

— Isso ainda é uma disputa? Porque eu estou vivo lá. E tenho a sua espada aqui.

Hiram levou as mãos ao alto, segurando a boca como criança levada.

— Só achei estranho que um preculgo precisasse viver num lugar como esse.

— Eu não vivo aqui. — Kan apressou-se a corrigi-lo. — Eu não moro em lugar nenhum.

— Como foi que aprendeu magia preculga?

Kan respirou fundo.

— Não interessa.

— Você não é igual aos outros magos.

— Eu fugi do meu mestre.

Hiram se aproximou. Kan apontou a espada para ele.

— Você sabe por que nós, filinorfos, lutamos, Kan?

— Não quero saber.

— Está certo… — Hiram recuou, avançando apenas com seu olhar brincalhão. — Hoje estou sozinho. Foi a sua sorte. Amanhã ou depois, preculgo, eu voltarei com alguns amigos. E, se ainda estiver aqui, será morto. Então… Sugiro que fuja.

Kan baixou a espada, sentindo-se relaxado o bastante para entrar no jogo.

— É mesmo?

— Sim.

— Está me avisando para que eu saia daqui porque não quer me matar?

— Sinto que você caiu nas mãos dos preculgos por acidente, Kan. E que na verdade seria um grande filinorfo. Só não sabe disso ainda.

— Hm… Acho que não.

— Creio que não posso convencê-lo a me devolver a espada, não é?

— Crê corretamente.

— Muito bem…

Hiram deu meia-volta e partiu para o par de portas na outra ponta do armazém. Parado exatamente onde estava, Kan observou a espada. Ao som de cacarejos, reprisava o estranho encontro em pensamento.

Nunca encontrara um filinorfo antes — não assim, tão pessoalmente. No entanto, Hiram parecia conhecê-lo; parecia saber como ele funcionava.

“Caiu nas mãos dos preculgos por acidente”, disse Hiram. Mas qual acidente foi mais importante? Ter sido filho de um mago ou ter sido abandonado pelos pais assim que nasceu? O primeiro garantiu o conhecimento necessário para sobreviver da forma como sobrevivia agora. O que, aliás, foi outra incrível coincidência — magos em Al-u-een não costumavam ensinar magia para os filhos. O pai de Kan era exceção: queria que sua linhagem inteira fosse de magos. Dizia que esse era o único caminho honrado, e que justamente para burlar as regras e a vigilância da cidade seria preciso que fossem excelentes magos.

Kan não se sentia exatamente bem mexendo com a cabeça de outros coitados, roubando-lhes com convencimentos absurdos um pouco de dinheiro — mas estavam todos na lama, ele e seus controlados; poucos em Heelum viviam bem, e a maioria, da qual Kan sempre fizera parte, vivia mal. Um pouco menos mal, um pouco mais mal — faria realmente alguma diferença?

Já o segundo acidente garantiu que ele jamais se sentisse parte da família de magos de seu pai. Precisava viver sozinho; não aprendera desde pequeno as regras do mundo da alta sociedade, e cada personalidade que conhecia parecia carregar os olhos nublados de Célido e tudo que eles significavam. Ele não era um genuíno preculgo; isso não era nenhuma novidade.

Deixou a espada cair no chão de terra. Ficou pensando que deveria ter ouvido melhor o que Hiram tinha para dizer.

Depois...

Saíram há alguns dias da fortaleza de Roun-u-joss, mas Kan ainda não tinha encontrado oportunidade para falar com Hiram. Oportunidade, claro, era um conceito relativo: quando se está junto o tempo todo, trata-se de encontrar o tempo certo.

Raquel e Gagé estavam caçando, e Hiram descansava os pés na grama. Libertara-se das botas por um tempo, e olhava para a última parte da saga de Roun naquele dia.

— Hiram… — Começou Kan. — Eu acho que prefiro sair.

— Sair?

— Ficar com os alorfos de Roun-u-joss.

— … Conhece os daqui?

— Talvez… Mais ao norte.

— Espero que entenda, Kan, que ainda estamos sendo caçados pela polícia de Al-u-een. E eles não vão querer voltar de mãos vazias, então… Não espero que eles desistam cedo.

— Já faz um tempo que saímos de lá.

— A cidade vai cooperar. — Hiram virou o rosto para o sol de novo. — Eles vão passar o tempo que acharem necessário, mas certamente é mais do que cinco dias, Kan.

Expirou, cheio de cansaço, esperando que o líder do grupo percebesse.

— Não deseja mais fazer parte disso, Kan?

A voz suave de Hiram era um golpe baixo. A pergunta parecia perfeitamente arquitetada para atingi-lo em seus pontos mais precários: não queria decepcionar o amigo. Não queria se arriscar mais do que já fizera nos últimos tempos — mas tampouco sabia onde estava a fronteira que antigamente costumava ser tão simples de traçar para si mesmo.

Em uma de suas passagens por Al-u-een, pouco tempo depois de conhecer Hiram, Kan acabou empregando suas técnicas na pessoa errada. Se por um lado escapou da prisão quando acusado, por outro acabou nas mãos de justiceiros que fariam, adivinhava ele, mais mal que a polícia. Apostou que confesso e condenado estaria melhor.

Errou. A presunção que fizera de si e do que sabia do mundo quando decidiu viver de esperteza finalmente dava frutos.

A maturidade chegou no ritmo da dor. Não podia ter vindo de dentro, cicatrizado como estava aquele lado desvirado de si. Entendeu uma verdade que, dessa vez, era bela porque trazia esperança: só podia cuidar de si fazendo parte de um grupo. Nada na vida era justo ou certo e ele nunca sentira-se em condições de fazer parte de um coletivo — mas, quando saísse da pena e dos suplícios, teria que fazer aquilo funcionar.

Foi estratégico nas alianças. Sabia que com os filinorfos compartilhava o desprezo pelos magos tradicionais — algo que o fez passar um bom tempo procurando por Hiram de novo. Percebia como a vida de um filinorfo ativo fazia deles pessoas muito mais confiáveis em geral. Eles arriscavam muito mais a vida. Precisavam uns dos outros. Dependiam uns dos outros.

Mas arriscar era a palavra-chave. Não queria se arriscar demais de novo se possível, e a vida quase pastoril de alguns alorfos ao longo da costa leste de Heelum o atraiu para a dupla agência. Hiram aparecia de vez em quando, e os dois funcionavam bem em suas missões temporárias. Já os alorfos… Podiam não ser muito confiáveis, mas eram estáveis.

Por outro lado, se queria tanto a vida de sombras como alorfo discreto, deveria ter fugido de Hiram assim que ouviu o plano de assassinar Hourin e fugir para o Sul.

— Não sei.

— Nós vamos precisar da sua ajuda. De toda ajuda que conseguirmos. Não sabemos o que vamos encontrar, porque isto jamais foi feito antes. Jamais estivemos tão perto, Kan. Você não quer descobrir a verdade?

— Sempre soubemos da verdade, não é?

Hiram abriu um de seus longos sorrisos abertos.

— Sim, meu amigo… Mas isto é diferente.

— Eu não sei… — Kan passou as mãos pela cabeça.

— Continue conosco, Kan. Pelo menos até sabermos do que isso tudo se trata. Nunca exigi nada de nenhum companheiro, pois sei que cada um dá o sangue e o suor que acha que pode dar. Não é justo impor bravura, ou a chance de um sacrifício, a ninguém.

Kan assentiu, engolindo mais fácil do que pensava tudo aquilo que nunca dissera. Coisas tão familiares quanto canções de infância formavam um discurso pronto em sua cabeça quase o tempo todo.

— Você vai acabar me matando, Hiram.

Hiram riu, em alto e bom tom, antes de se deitar na grama.

Depois...

— Por que não o mata você?

Lato-u-nau recuou para mais fundo nas sombras.

— Kan apenas sobrevive. — Explicou ele, começando a vagar para longe da tenda. — Ele fez de sua existência mínima para que seja só isso, ou pelo menos isso: uma existência! Heelum, para ele, está cheia de pessoas que não se importam com nada. Ele não se importa com nada. Não é fácil matá-lo de um jeito feio, Desmodes, de um jeito que destrua seus sonhos, porque ele não tem nenhum. Que destrua sua vida, já que ele quase não se preocupa tanto em viver. Viver de verdade. Viver bem, como…

Ele parou, engasgando no meio da frase.

— Como meus al-u-bu-u-na faziam. Agora ele acredita que pode convencer você, ah, você não tem ideia de como ele acredita nisso. Agora é a hora. Você tem que desapontá-lo.

Desmodes olhou para a espada jogada ao longe; quase não conseguia vê-la.

Tudo que tinha que fazer era invadir aquele homem e forçá-lo a se matar de alguma forma.

A pedido de Lato-u-nau, que já havia dito, na Floresta Al-u-bu, que iria matar Desmodes um dia. De um jeito particularmente específico.

Desmodes andou até a espada e a recolheu do chão. Ao levantar o olhar de novo viu a sombra de Lato-u-nau assomar à frente.

— Mate-o com magia, Desmodes. Invada-o.

— Não.

Deu as costas para ele e voltou-se para a tenda.

— Não para o quê?

A luz do minério lá dentro, sua fraca referência no terreno, ficou ainda mais frágil quando Lato-u-nau se pôs entre ele e a entrada.

— O que está fazendo?

Achou que atravessaria o mistério pelo meio como sua espada fez antes, mas teve que empurrá-lo com o ombro para entrar na tenda.

Kan olhou assustado para Desmodes.

— Decidi não matar você. — Anunciou o espólico. — Se você for útil.

Kan assentiu. Lato-u-nau surgiu por detrás dele.

Mate-o!

— Você está olhando para trás de mim de novo… — Comentou Kan.

Mate-o! — Continuou incitando Lato-u-nau, que Kan aparentemente não podia ver. — Invada seu castelo e mate-o!

— Posso matá-lo com a espada?

Não!

O quê? — Arfou Kan. — Não!

— Você tem que invadi-lo!

A boca do mistério era só o que o capuz revelava para Desmodes, especialmente agora que ele se curvava até o pescoço do prisioneiro. Seus dentes separados e tortos apontavam quase que diretamente para ele.

— Mate-o você.

NÃO! — Guinchou Lato-u-nau.

QUEM? — Desesperou-se Kan.

Desmodes embainhou a espada de novo.

— Ninguém.