Não posso ir embora

A casa não era de um qualquer, isso qualquer um podia ver. Pequena mansão rosada bem decorada, os três andares eram separados na fachada por faixas de tinta azul. O jardim, saudável ainda que tímido, destoava da cidade amarelada e empoeirada.

Lamar punha as mãos na cintura o tempo todo, impaciente por algum sinal. Sonhava que num golpe de sorte veria uma parte do rosto da companheira, ou o pulso que fosse do filho, e que de memória, numa intuição que fizesse os sentidos explodirem em desconfiança, fosse capaz de reconhecê-los à distância. Até visitou Neborum quando pareceu que Dier ia passar mais uma eternidade simplesmente avistando as redondezas — mas descobriu, enrubescendo com um misto de vergonha enraivecida e orgulho ferido, que nunca tinha visto o castelo da mulher. Ou o do filho.

Parte da fantasia era Dier simplesmente deixá-lo sair correndo atrás da família.

Mas ele já estava mais perto deles, e com o resto estava decidido — estava obrigado — a se preocupar depois.

Dier resolveu se mexer, com Lamar quase tropeçando em seus calcanhares ao segui-lo caminho acima. Bateram à porta, e foram atendidos por uma senhora com roupas marrons de linho bem ajustadas e um sorriso lento.

— Pois não?

— Faobo está? — Pediu Dier.

— Podem entrar, eu vou avisá-lo. — Disse, abrindo mais a porta e saindo do caminho. — Quem devo dizer que deseja falar com ele?

— Meu nome é Dier, mas ele não me conhece. — Inspecionava a sala com olhares rápidos, buscando resumir numa impressão o dono do lugar. Tornou a olhar para a mulher quando viu, depois de um certo silêncio, que ela não considerava a resposta suficiente. — Quero fazer negócios com ele.

— Fiquem à vontade. — Disse ela, assentindo com gentileza antes de subir as escadas.

Lamar seguiu seus passos com o canto dos olhos, esperando que por detrás de todo o marasmo houvesse um plano bem arquitetado. Secretamente esperava que ela virasse, mesmo que só o pescoço, de leve, e dissesse alguma coisa — que delegasse a tarefa a uma certa Myrthes, ou que lembrasse que antes disso deveria, veja só, falar com a Myrthes, aquela Myrthes, sobre algo que, interrompida pelos visitantes à porta, ela esquecera.

Ou os levaria diretamente à Myrthes, que tratava das questões chatas do cotidiano de Faobo por detrás de uma escrivaninha tranquila. Ou os levaria diretamente à Myrthes, que… Esteve esperando por eles o tempo todo. Ou algo assim.

Um grande plano para um reencontro e para se livrarem de Dier. Seria pedir demais.

— Ele não me parece tão rico… — Comentava Dier, olhando para o sofá pálido que ocupava a amplitude da sala.

— Ele está a espera no escritório. — Disse a empregada, descendo as escadas.

Sorriu para Lamar ao passar por ele. O alorfo olhou para trás ao passar por ela escadaria acima, esperando que ela fizesse algo a mais; suas expectativas mais irreais sempre encontravam um caminho de volta aos nervos do corpo. Ela não se virou para ele. Não houve piscadela, segredo ou sinal.

Dier, que nunca estivera na casa, provavelmente se guiava por Neborum em direção ao próximo castelo da vizinhança. O quadrado que servia de corredor, cujo piso estava escondido abaixo de um tapete verde com sólidos círculos vermelhos, dava acesso a várias portas. O preculgo escolheu a correta, e entrou marchando sobre a sala aconchegante.

Só havia um homem ali, que aparentava ter sessenta rosanos, mais ou menos. Sentado e voltado para baixo com a seriedade de quem escrevia uma carta de suicídio, embora tratasse de papeis de comércio que Lamar não conseguia ler à distância, era difícil avaliar exatamente quem ele era. O cabelo preto raso e encaracolado por cima da dura pele morena estava voltado para trás das orelhas. Seu nariz relativamente grande acima de um maxilar cheio e desbarbado apareceram, costurando em caráter emergencial um sorriso amigável quando ele deu por terminado o que fazia.

— Boa tarde, senhores. — Disse, com modos simples ao oferecer a mão para um aperto. — Em que posso ajudá-los?

Enquanto Lamar se mantinha na retaguarda, Dier caminhava de braços cruzados pela sala de estantes marrons e paredes pintadas de verde escuro, algumas delas cobertas com um tecido atapetado de mesma cor. O lugar inteiro era envolto por minérios de luz verdes, mas claros e enfraquecidos, envoltos numa versão mais fina do mesmo tecido.

Faobo recolheu a mão sem perder o pique de peça de teatro em que estava tudo bem. Bugigangas mecânicas dos lugares por onde ele havia passado, além de livros — metade deles relativos à própria contabilidade — cobriam as prateleiras, e em uma das paredes ficava um mapa desenhado por um cartógrafo de Ia-u-jambu especialmente para aquela sala; o mar era esverdeado, quase misturando-se ao tom da parede em suas bordas, e tudo nas terras estava disposto em tons entre ouro e laranja. Acima do mapa, um minério vermelho só para ele.

Dier deixou o comerciante esperar por mais um tempo antes de encará-lo de pé em frente à escrivaninha.

— Faobo é o seu nome?

— Sim. — Respondeu o próprio, na expectativa de entender a visita a qualquer momento.

— Você é um alorfo, Faobo?

A pergunta arrancou o sorriso de seus dentes no mesmo instante.

— É claro que não, eu…

— Então um filinorfo? — Continuou Dier.

Não! — Disse, rindo esbaforido para Lamar. — Quem são vocês?

— Você não está abrigando uma mulher chamada Myrthes?

— Myr… — Ele parou, olhando por uma fração de segundo para baixo; Lamar chegou mais perto, prendendo a respiração. — Myrthes?

— Você é surdo? — Sibilou Dier.

Faobo se recostou à cadeira, já completamente nu de qualquer verniz de amabilidade comercial com a qual negociava enquanto acreditou que era o que estava prestes a fazer.

— Havia uma mulher aqui. Com uma criança.

HAVIA?!“, pensou Lamar, o gosto de terror atravessando a garganta na descida.

— Mas o nome dela era Irene, não Myrthes.

— C-como assim havia, p-para onde ela foi? — Disparou Lamar.

— Ela foi embora, ela e o menino. Agora vocês precisam ir embora daqui.

O dono da casa se levantou com confiança, e Dier reagiu primeiro; chutou a borda da mesa na direção de Faobo, espremendo-o no fundo do escritório, seus protestos abafados pelo preculgo que pulou por cima da mesa derrubada e prensou o homem nas cortinas do fundo, a lâmina da espada encostando em sua garganta.

Lamar não sabia se poderia proteger aquele homem sem que isso fosse o seu fim — ele podia saber para onde eles tinham ido; era talvez o único que soubesse.

— Vamos ver se você me leva a sério. — Disse Dier, por cima dos grunhidos assustados do comerciante.

GORDO! — Berrou Faobo.

Dier encaixou um soco curto na barriga do homem, que não conseguiu se abaixar como automaticamente começou a fazer — Dier o pressionou de novo a ficar rente à parede, agora parecendo não saber sequer onde estava; segurou suas bochechas, talvez para lembrá-lo.

— Por que aceitou que a mulher ficasse aqui?

— Ca… Caterina me pediu. — Explicou ele, sem voz.

— Lamar! — Chamou Dier. — Cuide dele.

Lamar não entendeu o que ele quis dizer até ouvir passos pesados atrás de si, subindo as escadas; logo um homem largo vestindo um avental azul claro apertado por cima de roupas pretas apareceu na porta com os olhos mais abertos que Lamar já vira.

O alorfo engoliu; nos dois passos que deu para trás na direção da janela entendeu que se aquele homem salvasse Faobo, era o fim. Perderia a chance de reencontrar Myrthes e Ramon.

Chefe!

Gordo lançou-se em direção à janela e Lamar o viu chegar, em passos desajeitados, demorados, tortos — sua boca aberta, os braços balançando sem razão ou coordenação no esforço de chegar até lá e tirar da garganta do homem que pagava seu salário aquela espada.

Lamar jogou-se em cima dele com o ombro; caiu de costas tanto quanto ele, e logo se virou para tentar prensá-lo no chão.

Gordo era mais forte; segurou seus braços pelos pulsos e conseguiu tirá-lo de cima com um empurrão; por sorte era lento na hora de se levantar, e Lamar se agarrou à batata da perna do inimigo.

Puxou-a de qualquer jeito, e Gordo ajoelhou; perdeu o equilíbrio enquanto tentava desagarrar Lamar de si e acabou caindo de novo. Debatiam-se os dois, tolos no chão, Lamar impedindo-o de se levantar pelos braços enquanto ele tentava se desvencilhar; ouvia a voz ofídica de Dier abaixo do silêncio do puxar e repuxar das roupas, mas não entendia nada — especialmente quando começou a gemer de dor com os chutes rifados do homem que, já desesperado, queria acertar qualquer coisa para e acabou solando os joelhos do alorfo, que perdeu o pouco de força nos braços de que mais precisava.

— Gordo, NÃO! — Disse Faobo.

Dier ainda o tinha nas mãos, mas era a mão de Faobo que se levantava num sinal desesperado.

— Mas, ch…

— Gordo, confie em mim. — Disse ele, com as pontas do cabelo do tão molhadas quanto as do empregado. — De-desça, saia daqui.

Olhou boquiaberto para a cena por mais instantes, entendendo menos do que quando entrou na sala.

— Gordo, . — Insistiu Faobo. — Fique longe.

— Vou saber se não ficar… — Comentou Dier.

Lançou um olhar cheio de medo para Lamar, que se apoiava na prateleira baixa de uma estante para se levantar.

Quando o serviçal foi embora, Dier puxou a espada para si, empurrando Faobo para o lado com a mão livre. Andou de volta até o centro vazio da sala.

— Faobo me contou uma história interessante. — Começou o preculgo. — Ele diz que Caterina não é uma alorfa.

— É MENTIRA! — Disse Lamar. — E-ela é alorfa, e-eu vi ela lutar e-em Neborum, e-ela…

— Você mentiu para mim, Lamar?

— NÃO!

— Mentiu, Lamar?

NÃO!

Lamar já conseguia ficar de pé, mas parecia ter se contundido sozinho ao entrar me contato com a penumbra do homem com a espada na mão. Encolhia-se contra a estante, com o maxilar tremendo.

Olhou para a arma uma vez, e prometeu a si mesmo não olhar de novo.

— Caterina me ajudou uma vez e eu fiquei devendo um favor para ela. — Disse Faobo. — Eu paguei esse favor deixando a tal… Irene… ficar aqui por alguns dias. Mas depois ela foi embora. E foi só isso. Não tenho associação nenhuma com a Caterina, a não ser uma relação profissional de…

— Pare de falar. — Comandou Dier. — Lamar?

— Eu já disse o que sabia… Caterina me ajudou a não ser pego de novo por Byron.

— Byron?! — Perguntou Faobo.

— O que tem ele? — Indagou Dier.

— Ele é um bomin. — Respondeu Lamar, rápido. — Eu fui discípulo dele e ele me trocou por outro quando achou que eu não servia.

Dier passou a observá-lo de novo. Lamar não sabia exatamente que estratégia usava, mas já não tinha o mesmo medo de ser atacado.

— Há quanto tempo?

Lamar deu de ombros.

— Eu era criança…

Dier levantou o queixo e respirou fundo, bufando a confusão da boca para fora. Guardou a espada na bainha e cruzou os braços de novo.

— Você garante que Caterina era uma alorfa, Lamar?

— Sim.

Dier se virou para Faobo.

— E você diz não saber disso.

— Nunca a tratei como uma alorfa. Para mim era só mais uma parlamentar.

— E ela disse a você — Voltou-se para Lamar. — que Faobo era um alorfo.

Lamar estancou, o calor subindo as veias do pescoço até queimar as orelhas.

Dier descruzou os braços, quebrando o próprio ritmo ao dar um passo incerto à frente.

— Lamar?

— Não.

Dier agarrou o colarinho da capa de Lamar antes que ele pudesse se esquivar e o jogou no chão, chutando-o com o bico do pé.

— Você… Me fez perder TEMPO… — Dizia, com um chute novo por fôlego. — Para VIR À IMIORINA! … Para NADA!

Zigue-zagueou pela sala com o rosto contorcido e os punhos fechados; Lamar tossia e se arcava de lado enquanto Faobo observava a cena por detrás da escrivaninha.

— SEU INÚTIL! — Berrou Dier, inconsumível. — SEU INÚTIL, SEU IMPRESTÁVEL!

Andou por mais algum tempo em padrões irreconhecíveis até que os pés chegaram perto de novo de Lamar, que ainda estava na mesma posição.

— Vou para a charrete e se você demorar a ponto de eu me irritar eu volto aqui e mato você.

Lamar chorava, cada lágrima ritmada para não vir junto a uma contração na barriga. Cada vez que expirava, um som estranho e nauseado saía de sua garganta. Não era sua voz. Não podia ser.

Com a mão direita agarrou o chão, buscando apoio; os dedos se levantaram, mas nada além deles. Tentou se sustentar mas o corpo parecia dividido em dois, a parte de baixo por um fio de se destacar de vez da de cima.

Com as duas mãos pôs-se de cotovelos no chão; estabilizou-se um pouco até perceber com o canto do olho os dois sapatos marrons, e sentir por inteiro a presença de Faobo. Olhou para o teto, e Faobo o encarava com os punhos na cintura.

— Vamos. Levante-se. — Disse ele, desviando o olhar para a porta.

Lamar grunhiu ao arrastar as pernas; forçou o joelho para ele subir rápido, rasgando mais seu estômago por dentro. Ficou de quatro, travado no chão. Sentiu que subir sozinho seria exigir demais de si.

— Pode… Me aj… Me ajudar?

— Vamos, levante-se. — Ignorou ele, de sobrancelhas franzidas. — Ele pode voltar aqui a qualquer momento.

Lamar queria perguntar se Myrthes estava bem. Se Irene — se era esse o nome que ela tinha escolhido para se esconder melhor — tinha ido para outra cidade, para outra jir de Imiorina, se tinha tentado voltar para Prima-u-jir. Ou, quem sabe, vendo que o plano não estava indo como o esperado, tenha ido para Kerlz-u-een.

Mas precisava andar primeiro.

— Por… Por favor me ajude…

Faobo bufou, voltando acelerado para a poltrona atrás do escritório, colocando-a no lugar antes da mesa, ainda caída.

— GORDO!

O empregado chegou. Não usava mais o avental, nem estava tão consternado quanto na primeira emergência.

— Leve-o para fora, por favor.

Gordo hesitou, mas percebeu num cruzar de olhares que Lamar não só não tinha por que fazer algo contra ele como não tinha um como.

— Vamos lá… — Disse, numa voz suave.

Acomodou o braço de Lamar em volta de seu ombro esquerdo, e com o braço direito começou a puxar o alorfo para cima.

Doeu, ou pelo menos Lamar garantiu que essa fosse sua aparência ao tentar andar; logo pareceu se acostumar, dando passos pequenos rumo às escadas.

Sentiu um arrepio e verteu uma lágrima; uma que não era de dor ou humilhação, mas de derrota. Descia as escadas da casa onde combinara se encontrar com Myrthes e Ramon — sem ver nenhum dos dois; sem sequer saber onde estavam. Trouxera Dier ali para que Dier pudesse trazê-lo ali, e não só voltava de mãos vazias como de pulsos, na prática, acorrentados.

A não ser que não estivessem, na prática, acorrentados.

Olhou para trás, por via das dúvidas. Haviam descido metade dos degraus da primeira série. Faobo não estava atrás de si; nem no topo da escadaria, nem na soleira da porta. O comerciante não perderia mais nenhum minuto naquele absurdo.

— Me desculpe… — Começou, sem resposta. Mais um degrau. — O seu nome é Gordo?

— Não… — Respondeu, baixinho. Mais um degrau. — Só eu sou.

Lamar riu, controlando com dificuldade as fisgadas no abdômen. Mais um degrau.

— Desculpe por ter brigado…

Um degrau em silêncio. Outro.

— Eu fui atacado… — Disse ele, fazendo da verdade um sorteio.

Chegaram à seção em que tinham que dar a volta. Lamar não conseguia sozinho, e Gordo parou, olhando para o lugar de onde tinham vindo. Logo continuou.

— Eu preciso da sua ajuda…— Sussurrou Lamar.

Mais um degrau.

— Gordo…— Mais um.

— Eu não posso… — Sussurrou ele de volta. Mais um.

— Mas eu vou… Eu posso morrer…

Mais um.

— E eu preciso encontrar a minha família… Gordo…

— Eu não posso fazer nada…

Mais um.

— Gordo, para de me levar para fora… — Suplicou Lamar.

— Eu sou obrigado…

Mais um.

— Para de me levar para fora, por favor, não… Ai… — Doeu quando tentou falar mais rápido ao mesmo tempo que acompanhou o passo para descer mais um degrau. — Tem alguma… Saída dos fundos, alguma…

Mais um. Não sabia se Gordo estava pensando ou ativamente ignorando seus apelos.

Outra lágrima, pela derrota prematura. Estava cansado de chorar, mas não conseguia evitar; a força maior do braço no ombro o empurrava mais um degrau abaixo e suas pernas tremiam, querendo voltar.

— Por favor…

— Não tem saída nos fundos… — Respondeu, irritado.

“Consegui irritar meu único aliado”, pensou Lamar. Fechou os olhos, deixando a vertigem vir.

Teria sido mais um, se não precisasse se equilibrar de novo. Recuperou-se mais rápido do que queria e se viu empurrado para baixo de novo.

— Acha que consegue sozinho? — Perguntou Gordo quando chegaram ao térreo.

Lamar fez que sim com a cabeça. Conseguia gerenciar as pontadas em algum lugar do tronco. Já respirava melhor, apesar de precisar controlar a respiração como se coordenasse algo que nunca havia feito na vida.

Olhava fixo para o chão, de rosto lavado; pé por pé ajeitou-se na direção da porta e começou a andar, sem vontade.

Teria que fazer aquilo sozinho. Correr; pegar o lado errado da rua, o que não levava para a charrete, e ver até onde conseguia chegar antes de precisar parar, antes de tropeçar por não andar direito, antes de entender que não tinha como se esconder naquelas condições. Ou talvez em nenhuma outra, considerando quem o perseguiria assim que percebesse a fuga.

— Espera.

Lamar se voltou ligeiro, olhando nos olhos do empregado. Queria poder contar para ele toda sua história ali, mas não tinha tempo; contava que a ajuda dele viesse espontânea e sem precisar de mais cuidados.

Abriu a boca para falar, mas olhou de novo para o segundo andar antes de sussurrar à distância.

— Você faria… Qualquer coisa?

Lamar fez que sim com a cabeça.

— Iria a qualquer lugar? — Abandonou a fala baixa.

Depois...

Se não fosse a maldita promessa.

Dier se culpava pelas escolhas tolas que fez. Toda vez que voltava para Den-u-tenbergo se lembrava de porquê havia saído de lá programando-se para passar tanto tempo fora. No entanto, seus objetivos sempre o levavam de volta. Ele precisava voltar, precisava impressionar — se queria tanto fazer alguma coisa que os deixasse realmente impressionados, não podia só fazer. Tinha que voltar e mostrar. Tinha que colher os louros que lhe foram negados por tanto tempo.

Se não fosse por tudo isso não teria usado Lamar para não chegar à Noite dos Mestres sem um discípulo. Deveria ter previsto o desastre: Lamar não era digno dele. Pelo menos não parecia. Ou, por outro lado — pensou, arqueando as sobrancelhas — na visão de Flavian, pelo menos, qualquer um “era digno” dele, já que o critério não era muito alto.

A viagem deveria ter sido definitiva. Descobrir um alorfo que alimentasse os demais com recursos teria sido a quebra na espinha dorsal dos miseráveis.

Levou os olhos à direita, acompanhando a visão improvável em Neborum.

Saiu da charrete e, em segundos, do estacionamento recuado da rua. Dobrou a esquina próxima à direita e andou, caminhando a passos decididos. Considerando o estado em que deixou Lamar, não precisaria correr muito para alcançá-lo.

A única dúvida que restava era se ele deveria cumprir a promessa de punir aqueles que fugiam, ou cumprir a promessa à Corte e levar o mesmo discípulo à próxima Noite dos Mestres, a quase um rosano de distância.

Passou pela casa de Faobo e logo o viu.

Viu pedaço; a capa azul esvoaçando nas costas de alguém curvado para frente, que corria se escorando nas paredes de uma galeria de pequenas lojas enfurnadas debaixo de uma marquise cheia de colunas finas.

Dier passou pela sombra do espaço escuro, e logo avistou Lamar.

Entrava num parque que não era grande, nem tinha árvores muito frondosas; era na verdade bem aberto e claro, com caminhos de lajotas rosadas separando pares de bancos curvilíneos. Havia, de fato, mais pessoas sentadas que passando por ali; Lamar era praticamente o único a andar no caminho quase reto que levava da rua que Dier agora atravessava a um prédio extenso, de uma cor caramelo viva. A frente do prédio, na porção acima dos portões, elevava-se num arco que era possível ver do outro lado da praça, por cima do maior coqueiro.

Quando o preculgo entrou na praça, Lamar já dava passos minúsculos e frenéticos em frente. Mal conseguia se equilibrar com o próprio peso, e parecia sempre a um passo de um tropeço.

Dier chegou com tranquilidade por suas costas e o puxou até empurrá-lo para um coqueiro.

— Seu imbecil.

Apertava seu peito e observava seu rosto; Lamar encarava-o de volta com a mesma frieza: os lábios fechados, o respirar controlado, o queixo levantado quando o topo da cabeça encostou no tronco da árvore atrás de si.

— Seu inútil… — Espumou Dier, tirando a espada da bainha.

— Ei! — Gritou uma grossa voz feminina. — O que é isso?

Uma mulher alta de pele escura correu para eles, interpondo-se entre os dois. Vestia uma capa amarela amassada cujos vincos pareciam vir do próprio tecido grosso e denso. Usava um elmo aberto em toda a extensão do rosto que, redondo, cobria o resto da cabeça. No pescoço um lenço tão amarelado quanto o resto da roupa cujo “I” azul bordado ao centro indicava o exército da cidade.

— Identifique-se, senhor. — Exigiu ela.

Identifique-se? — Ironizou ele. — Saia da frente!

— Está me ameaçando? — Perguntou ela, recalculando o tom de voz.

— Ele é um mago preculgo e quer me matar — Se apressou a dizer Lamar. — Por fa…

Shh, calma — Pediu ela, voltando o rosto para tranquilizá-lo. — Vamos cuidar d…

Dier avançou e apunhalou a mulher nas costas; tirou a espada ensanguentada dela, que caía de joelhos na grama baixa do parque, e viu dezenas de pessoas chegarem perto da pequena comoção. Tinha um sorriso cansado na hora em que recuou mais, ouvindo pela primeira vez o grito de “assassino” por parte do povo reunido.

Rangeu os dentes e tentou terminar o que havia começado, mas Lamar havia saído do coqueiro para continuar a corrida de antes. Parte da multidão o cercou, fechando um círculo em volta dele. Por onde Lamar se afastava, agora com ajuda, ele podia ver outros soldados correndo em sua direção.

Os berros ficavam mais altos. Dier foi atingido com uma pedra na cabeça, que para sua sorte era pequena; logo mais duas outras passaram zunindo pelo ouvido esquerdo.

Dier berrou de volta, possesso, e girou a espada para dispersar os desarmados à frente. A turba que surgia atrás dele logo correu em sua direção, tomada pela fúria. Eram demais para conter.

Conseguiu escapar por entre dois coqueiros, desembocando num caminho lateral de lajotas. À direita via militares correndo tanto quanto ele em via paralela. Em algum tempo deixou para trás a multidão, que se contentou em atirar-lhe pedras na esperança de que alguma o acertasse.

Chegou ao fim da praça, em uma via não muito movimentada. Tinha uma noção de como chegar à charrete de volta, mas precisaria parar os soldados que o perseguiam.

Correu por uma ruela de casas baixas e antigas em que todos os presentes, recostados às paredes, o observavam enquanto ele passava debaixo do sol forte da tarde. Não tinha grande vantagem em relação aos militares, que seguiam em seu encalço. Entrou em uma outra rua, em que casas e prédios maiores lhe davam sombra. Parou na esquina, apoiado em uma parede vermelha.

Em Neborum, foi fácil identificar os castelos — eram os únicos vindo rápido em sua direção.

Desembainhou a espada — nos dois mundos, embora em só um ela ainda pingasse sangue — quando os soldados o avistaram na calçada, pegos de surpresa.

Correu pela grama macia ao sol já poente até esbarrar em uma porta simples, num castelo simples; da ponta dos dedos saía o metal amorfo que transformava-se pouco a pouco em uma chave.

Partiu para cima do soldado da esquerda, dando a volta nos dois que, parecendo assustados, não pareciam muito experientes. Dier manteve-o defendendo, empurrando os dois, um atrás do outro, para a rua de onde haviam vindo.

Testou a chave, e passou ligeiro pela fresta leve quando ela funcionou.

O primeiro soldado tropeçou no pé do segundo, que tentara lançar a espada longa à frente com uma mão para um ataque rápido que Dier esquivou; os dois caíram de costas, recompondo-se tão rápido quanto possível. O preculgo não avançou, sabendo que não podia deixar as costas vulneráveis para um deles ao atacar quem estivesse caído, os dois estando lado a lado.

Os dois se olharam, decidindo num instante partir para cima do mago ao mesmo tempo; Dier defendeu os dois ataques verticais com um giro da espada para a esquerda — atacando o soldado da direita com um corte horizontal e esquivando ainda o golpe do outro oficial, que vinha rápido, mas sem jeito, no rebote da defesa: Dier coroou a esquiva com um chute que fez o guerreiro perder o equilíbrio.

Os dois estavam no chão, dessa vez mais separados e sem a mesma reação. Dier se afastou andando para trás; observou que alguns observavam a luta da janela, mas não havia mais multidões interessadas em levá-lo à justiça. Viu um homem levar duas crianças para dentro de casa.

Sorriu, pensando que era interessante um preculgo inspirar tamanho medo.

Virou-se para a frente: os soldados estavam de pé, mas na corrida para alcançar o condenado o soldado da direita deixou-se ficar para trás. O da esquerda percebeu, mas era tarde demais: um corte no braço fez o adiantado ir ao chão de novo. Dessa vez pela última vez.

Dier sabia que tinha pouco tempo até o soldado perceber que matar o companheiro para levar todo o crédito pela prisão do mais novo assassino de Imiorina não foi exatamente a ideia mais inteligente — talvez um tempo tão pequeno quanto este para ele perceber que sequer fora sua ideia.

Um dia Dier gostaria de voltar. Mas, planejava ele com pensamentos e nervos em ebulição ao cruzar o caminho alternativo em direção à charrete, seria numa situação bem diferente.