A Batalha de Enr-u-jir

O guerreiro encostou a tocha acesa à corda, relutante. A chama consumiu rápido o fio, acendendo a fogueira ao chegar no topo da magra torre improvisada.

Olhou para trás, e pelo fino visor do elmo pôde ver, algum tempo depois, a segunda torre ser acesa. O alerta seguiria sua rota do posto de observação na jir mais distante, o seu, até o centro de Enr-u-jir, e uma charrete viria buscar mais informações para organizar as defesas. Quando ela chegasse, o mensageiro teria que escolher bem as palavras para descrever o que os pesadelos mais criativos teriam medo de sugerir: aproximava-se, quase camuflado nas rotas tortas da floresta, o borrão azul e metálico de guerreiros de Inasi-u-een.

Depois...

Mesmo se as tropas de Inasi-u-een não tivessem avançado rápido pelas jirs do Oeste, fazendo pouco dos poucos deixados para tentar atrasá-los, a cidade estaria quieta. Havia algo na falta absoluta de civis naquelas noites de guerra que todo soldado apreciava, fossem eles de Imiorina, de Rirn-u-jir ou os que sempre viveram ali; o espaço que respiravam à noite, iluminado pela abundância de minérios ao invés de pelo sol, era o mesmo da manhã — e ao mesmo tempo, não era.

Naquela noite os cidadãos, já acostumados com a noção de que o fogo nas torres mais altas em qualquer direção indicava inimigos, dormiam com medo ou fingiam que dormiam, impedidos de fazê-lo pelo receio de não conseguirem fugir se algo desse errado.

O general das forças da cidade aproximava-se de uma pequena praça no cruzamento entre quatro largas ruas. Nela não havia árvores; só bancos e grama. Do lado oeste, ocupando tudo até confundir horizonte e cabeças, os largos guerreiros de Inasi-u-een. Vestiam armaduras que, refletindo as cores dos minérios pendurados ao longo da via, quase não deixavam ver o tecido azul que vazava por um ou outro espaço entre as placas de aço.

Do lado leste, os defensores de Enr-u-jir compactavam-se de forma parecida na parte de trás da formação. Os melhores e mais bem protegidos soldados, com armaduras mais comparáveis e espadas mais invejáveis, ocupavam os flancos do início da rua, ao lado de um grupo constantemente vigiado de yutsis de guerra. No fim da formação, bem visível para os inimigos, uma catapulta bem centralizada.

Mairaden caminhou até a praça no cruzamento. Tirou a mão direita da alabarda por um momento para levantar a viseira do elmo; olhou para baixo para fitar o general da cidade, cujo elmo aberto tornava seu rosto redondo, bem como seus protuberantes dentes da frente, visível por completo.

— Nós falamos em nome do Conselho dos Magos. Temos nesta cidade mais que quatro vezes o número de soldados, e ordens para utilizá-los. Temos yutsis, temos arqueiros, temos artilharia pesada. Coisas que vocês não têm. Se resolverem lutar, é possível que estejam mortos antes que possam fazer um acordo e se tornarem prisioneiros. Por isso… — Fez uma pausa; apesar de confiante, falava como se não dormisse há dias. — Peço que se rendam imediatamente, entregando as armas e as armaduras, e colaborando com qualquer informação pertinente.

Mairaden observou os yutsis a meia avenida de distância.

— Voltarei para minha tropa… — Começou ele, absorto. — E assim que chegar começaremos a fazer o que viemos fazer aqui. Vocês tentarão nos impedir.

Com um movimento ligeiro da cabeça o visor encaixou-se de volta, fazendo do aço exclamado a última palavra do general.

O comandante da cidade franziu o cenho, retornando para perto da própria tropa o mais rápido que conseguia sem parecer estar correndo.

Metade pelo sul. — Disse ele ao mensageiro desarmado, que correria para dar o recado a outros grupos de soldados. — O resto pode esperar na retaguarda. — Assim que o mensageiro começou a correr, voltou-se para os soldados à frente. — Podem soltar.

Pôs no braço esquerdo o escudo que havia deixado no chão e desembainhou a espada. Ao lado, ouviu o primeiro guincho de dor do yutsi, que elevou as patas da frente e caiu um pouco mais perto dele. Depois de mais dois golpes provavelmente acordou a cidade inteira ao tentar se livrar das correntes — especialmente depois que os outros animais, inflamados de ódio, amplificaram o hino de agonia.

Três se libertaram ao mesmo tempo, e o quarto juntou-se a eles um instante depois. Com uma ordem de Mairaden, os guerreiros de Inasi-u-een recuaram de costas; apenas quatro foram à frente, lado a lado, acelerando pesadas esferas negras acima da cabeça pelas longas correntes a elas presas.

Quando os yutsis destroçaram os bancos da praça, as esferas foram lançadas à frente: acertaram em cheio as cabeças e os pescoços dos animais que, desembestados, interromperam a corrida na fração de tempo necessária para serem atropelados pelos que vinham atrás. As duras carapaças arrastaram-se no chão; algumas racharam com os impactos, e os yutsis passaram a usar suas gargantas como nunca, machucados e confusos. Os últimos conseguiram interromper a corrida, fugindo pelas laterais enquanto os guerreiros de Inasi-u-een que antes recuaram aproveitavam os pontos expostos dos bichos encolerizados no chão para atacá-los.

O general da cidade viu, sem voz, os soldados fecharem-se numa densa parede de escudos atrás de si. Ficou tranquilo; os oficiais com permissão para a magia usavam-na com inteligência. Integrou-se enfim à tropa, estacionando na terceira linha, mandando alguns guerreiros procurar e controlar os yutsis que fugiram pelas laterais. A outros, disse-lhes que carregassem a catapulta. O contingente de trás aproximava-se, fechando o espaço no meio da formação que preenchia a rua.

Dois yutsis que conseguiram se reerguer na praça central avançavam contra os soldados de azul. Sem a velocidade que ganharam antes, absorviam melhor os golpes das esferas de ferro; os guerreiros, contudo, usavam as correntes para enredá-los, içá-los ao chão e ali prendê-los.

Os vencedores tomaram a praça. Reformados, serenos em frente à parede de escudos de Enr-u-jir, ouviam à distância os sons das duas retaguardas, as suas e as do inimigo.

No centro do batalhão, próximo às carcaças moribundas dos yutsis, Mairaden viu o segundo-em-comando terminar de organizar aquele setor da tropa. Abriu o visor do elmo para ele, que fez o mesmo.

— Está na hora. — Disse Mairaden.

— … Boa sorte, general.

— Obrigado! — Mairaden pôs uma mão na parte de trás do elmo do companheiro. — Siga firme! — Projetando a voz para o alto, falou com todos. — TROPA! MANOBRA AO SUL!

O muro de armadurados de Inasi-u-een que encarava os escudos de Enr-u-jir permaneceu firme, mas parte da tropa começou a recuar, reorganizando-se em grupos ao longo da rua por onde chegaram à praça.

Um som elástico ecoou pela cidade. Mairaden dirigiu o olhar para o horizonte atrás dos inimigos.

— SUL! — Berrou Mairaden, fazendo o som de aço em movimento eclodir entre os companheiros. — SUL!

A catapulta atirou uma maciça esfera cinzenta da altura de um adolescente; brincalhão como um, misturou-se ao céu noturno, ocultou estrelas no trajeto, e esmagou um guerreiro retardatário ao descer à terra, atingindo outros três até a parada completa.

O general de Enr-u-jir mandou interromper a catapulta; a maior parte do batalhão de Inasi-u-een desviara daquele confronto e começava a evitá-lo pelo sul. Assim que a segunda esfera caiu inútil na rua praticamente deserta para além dos inimigos, ordenou outro tipo de fogo: arqueiros revelaram-se nas janelas de algumas casa, e atrás da parede de escudos uma fina linha dupla de artilheiros posicionava os arcos.

O segundo-em-comando decidiu atacar, liderando um avanço repentino. Chocaram-se contra guerreiros mais baixos e, embora bem equipados, afeitos a recuar. Os soldados que defendiam Enr-u-jir deram passos para trás assim que receberam os primeiros golpes sem conseguir contra-atacar. Não havia tempo para respirar; as armas de longo alcance pareciam onipresentes, encontrando espaços inimagináveis no que parecia ser uma defesa coesa, enquanto machados prensavam os escudos em golpes que derrubariam qualquer guerreiro inexperiente e espadas selavam o destino dos primeiros a sangrar. As esferas com correntes foram recuperadas entre os corpos dos yutsis, e era com elas que os arqueiros defensores nas janelas começaram a lidar.

Depois...

Mairaden desviou os olhos quando o barulho da batalha alcançou seu grupo. Explicou para os que havia escolhido ao acaso que eles não poderiam se separar, mesmo que, juntos, ficassem afastados do resto da tropa. Pedindo pela movimentação mais silenciosa que eles conseguissem, seguiu caminho; logo perdeu todo contato com os outros grupos que tinham continuado a infiltração do centro pelo sul.

O final da rua estreita e comercial por onde passava era a lateral de uma outra, similar. Nela o general pôde ver, à esquerda, a movimentação leve de uma tropa numerosa em direção ao Norte. A armadura que vestiam era diferente; cotas de malha enegrecidas pelo uso cobriam o tronco e as coxas por cima de um grosso e comprido conjunto amarelado. Na cintura a espada longa; na cabeça, elmos que deixavam o rosto livre.

Mairaden respirou fundo antes de desviar os olhos. “Imiorina”, pensou.

Continuou o caminho à direita, evitando os inimigos. Chegou a áreas cada vez mais residenciais, com minúsculos parques entre casas de até três andares, cujas cores vívidas pareciam doentias à noite; a escolha dos minérios que iluminariam a rua, todos roxos, marrons ou alaranjados, tampouco ajudava.

Fizeram a primeira volta à esquerda quando já não ouviam nenhuma batida de pernas inimigas nas redondezas. Buscavam retornar a trilhas que os levassem para mais perto do coração da cidade. Acabaram de frente para um grupo que parecia estar esperando por eles: guerreiros como os que viram por último, com a seriedade bem à vista, porém ainda mais escuridão nas malhas metálicas.

— Chamou-me a atenção um grupo tão grande ficando tão longe dos outros. — Disse o guerreiro à frente, a baixa estatura e os olhos finos perscrutando os rostos trancafiados dos guerreiros de Inasi-u-een. — Quem é o líder?

Mairaden apoiou a alabarda no chão de ladrilhos num baque seco, levantando o visor do elmo com a mão esquerda. Viu que os inimigos estavam em pequena vantagem; tinham dois guerreiros a mais.

A rua era estreita, mas os jardins amplos e com cercas baixas das casas faziam do lugar um vasto campo de batalha. Com um gesto fez os comandados se distribuírem pelo espaço, bloqueando a passagem. O general inimigo desembainhou a espada e os comparsas, sombras balançantes na calada de cores fortes da noite, correram até bloquear também a passagem inteira.

— General Mairaden, de Inasi-u-een.

— General Enoro, de Imiorina.

Mairaden fechou o visor e avançou, fazendo crescer sua sombra sobre o outro general. Recolheu a arma para lançá-la ao rosto de Enoro, que a defletiu e partiu para o ataque; teve a espada puxada para o lado no retorno da alabarda, mas a circulou por baixo e por pouco não passou da defesa de Mairaden.

Enoro o rondava quando recebeu o ataque rápido por cima; desviou do golpe, travou a alabarda com a lâmina e tentou um corte horizontal. Mairaden subiu os braços, redirecionando o ataque com a defesa, e os dois perceberam as guardas abertas ao mesmo tempo; chutaram-se, e enquanto Enoro acertou a coxa de Mairaden, foi revirado para trás ao ter as costas do joelho atingidas.

Mairaden perdeu o equilíbrio. Caído, sentiu o sangue ferver o suor da pele e fazê-lo trabalhar mais rápido; virar-se, apoiar-se, levantar-se, recuperar a arma — Enoro também tinha seu peso para carregar, e se recuperou em tempo similar.

Como faz isso? — Indagou o general de Imiorina, assustado, com a espada apoiada no chão. — Quem é você?

Mairaden sabia que ele não estava falando da luta, mas não se permitiu ficar contente.

Ouviu o peso dos passos alucinados atrás de si atravessando os sons das lutas na rua. Girou o corpo num acelerado movimento, afastando a espada. Empurrou a ofensora com o cabo da alabarda e numa machadada precisa definiu seu desmonte no chão.

Percebeu que Enoro se aproximava; por mais que não visse seu rosto, sabia que veria ali orgulho ferido.

A espada vinha pela esquerda, numa diagonal que tentaria seu pescoço. Mairaden girou nos calcanhares e se agachou, largando a arma e partindo para cima da cintura de Enoro — jogou-o para trás, fazendo-o cair sobre as próprias costas.

O general de Inasi-u-een socou o rosto exposto do comandante de Imiorina uma vez e o observou, confuso, tentar manter o foco — tinha sangue desinibido no rosto e não conseguia reorganizar sua força de vontade. Não conseguiu terminar o balbucio; depois de um segundo soco, apagou por completo.

Mairaden saiu de cima do corpo inerte e olhou ao redor: contou corpos dos dois lados, nos jardins das casas. Dois grupos de seus guerreiros ainda enfrentavam dois grupos inimigos: uma luta dentro de um jardim mais à frente e outra na rua, atrás de si. Viu a luta ser interrompida, e os inimigos começarem a recuar, espalhando-se mais. Alguns olhavam diretamente para Enoro no chão, para Mairaden de pé, e voltavam para a luta com algum cuidado a mais.

Recuperou a alabarda e correu para uma das batalhas. Numa contenda espaçada, as espadas enganavam, irritavam e distraíam enquanto esperavam pela oportunidade decisiva. Um lanceiro de Imiorina conseguiu derrubar um oponente e matá-lo; com a guarda alta Mairaden convidou-o a atacá-lo, desviou a investida, enganchou a lança e aproximou-se o bastante para derrotá-lo. Pensou em ajudar os soldados que sobraram daquele conflito, mas os dois lutavam bem contra um guerreiro talvez tão alto quanto eles mesmos. Mais musculoso que os pares, mostrava-se destemido — virtude venenosa para um lutador de Imiorina, que lutava com o elmo aberto não só para enxergar melhor, mas para ter receio do combate pelo bem do próprio rosto. Em bruta harmonia, os combatentes de Inasi-u-een prensaram o inimigo até romper suas defesas mal treinadas.

Quando terminaram, viram ao longe uma companheira sendo perseguida por dois soldados inimigos. Correram em sua direção, vendo-a aguentar com propriedade os golpes rápidos; com uma alabarda um pouco mais longa que a de Mairaden, a guerreira defendia e se esquivava para os lados, concentrando-se em um oponente por vez. A chegada dos amigos quebrou o ritmo da luta; os defensores de Enr-u-jir entreolharam-se e fugiram.

Debaixo de um intenso foco de luz vermelha, os quatro estavam sós. Mairaden tirou o elmo, mas os companheiros não quiseram fazer o mesmo. Embora ele soubesse que os três provavelmente ofegavam de olhos fechados por detrás das máscaras, mantinham a postura de quem esperava por novas ordens.

— Confiram os corpos. — Instruiu o general. — Depressa!

Depois...

A esfera abriu uma funda depressão do lado de fora da casa, errando por pouco a janela, e voltou ao chão. O arqueiro que havia sumido voltou; errou por pouco o guerreiro de Inasi-u-een, que se escondia enquanto arrastava de volta para si as correntes.

O segundo-em-comando mantinha a tropa pressionando os defensores de Enr-u-jir. As baixas eram poucas, mas eles faziam pouco progresso; os arqueiros nas fileiras opostas, por outro lado, pareciam crescer de número.

O primeiro avanço veio quando a ponta da esquerda empurrou tanto a parede de escudos que foi possível alcançar a porta de uma das casas. Um dos guerreiros, já protegido por uma linha de ataque agora duas vezes mais violenta, arrombou a porta e correu para dentro. Deveria ser capaz de neutralizar os arqueiros naquela esquina.

Os inimigos já tinham que recompor as defesas com as tropas de reserva, que contavam com técnica e equipamentos, em geral, piores. Pelo que se podia ver assim que elas chegaram ao centro do combate, eram também menos treinadas, mais afoitas, consideravelmente mais aflitas.

— TROPA! — Berrou o segundo-em-comando. — PONTA DE LANÇA!

Por um momento foram pegos de surpresa; tinham que se rearranjar, e no recuo dos flancos sofreram alguns golpes de tirar o equilíbrio. Na esquerda, uma ou duas quedas foram logo compensadas por ameaças de alabardas e lanças até que a porção se reagrupou.

— AVANÇAR!

A formação inimiga foi rasgada ao meio. O ataque os dilacerava pelas beiradas, esmagando-os contra casas e lojas. Vidros eram quebrados por golpes errantes, e alguns moradores podiam ser vistos espiando por detrás de cortinas e frestas. Soldados no meio lançaram-se à frente para atacar os arqueiros inimigos, que foram obrigados a desfazer os tiros limpos que planejavam; alguns foram atingidos, mas outros fugiram, sumindo para longe demais da batalha para tornar aconselhável uma perseguição.

A estratégia dos inimigos para se recuperar era fazer com que todos retornassem até um momento anterior ao novo ataque. O que no começo confundiu os soldados começou a funcionar quando mesmo quem não sabia o que fazer parecia ser puxado para trás, as pernas juntando a todos num bloco denso de novo, dessa vez muito mais para dentro da rua do que quando todo o confronto começou.

Os mortos e feridos acumulados nas laterais chamaram por um momento a atenção do segundo-em-comando que, tendo ficado para trás, via que era tempo de vencer. Tinha conseguido aterrorizar os inimigo; só precisavam de um pouco de tempo.

Uma flecha cortou o ar ao seu lado, atingindo a parte de trás da coxa de um companheiro. Virou-se a tempo de ver cinco ou seis arqueiros vindo na direção deles, alguns deles já carregando o próximo tiro.

Deu um empurrão em três guerreiros próximos e, sabendo que eles entenderiam, partiu para cima dos inimigos.

Os arqueiros recuaram, apressando-se nos tiros. Erraram uma, duas, três vezes; logo quatro guerreiros os apertavam para perto dos corpos dos yutsis. O segundo-em-comando aproximava-se com o corpo encurvado, a espada rente em guarda, do único arqueiro que estava completamente pronto para disparar.

O estouro no elmo o fez cair rolando no chão, apesar da impressão de que conseguiu golpear alguma coisa. Sentiu o corpo doer em lugares que não conseguia identificar; parecia travado ao chão, à própria armadura, como os yutsis atropelados de carapaças fora de lugar.

Virou o pescoço para o lado em que esperava encontrar uma batalha. A abertura do elmo estava comprometida perto do olho esquerdo, mas ele pôde ver um arqueiro cair mais à frente depois que dois pés largos pés passaram pelo lugar.

Tentou mexer os braços; não conseguiu. Os cotovelos, à direita do corpo, pareciam encaixados um num outro de alguma forma. Fez força em todas as direções até conseguir retrair o membro esquerdo — e imediatamente grunhiu quando todo o peso do tronco forçou alguma parte perfurante solta sobre seu antebraço.

Passou algum tempo assim, sem conseguir muito mais que prestar atenção aos sons ao seu redor. Esforçou-se como pôde depois de recuperar algum fôlego e salvou o braço, respirando aliviado; contou até três e impulsionou o corpo para cima. Levantou-se aos poucos, descobrindo uma forte torção na perna assim que ficou de pé. Dois guerreiros aproximaram-se pela direita, ajudando-o a ficar de pé.

— Você está bem? — Perguntou uma guerreira. Sua voz, que parecia mais abafada que o normal, o fez perceber que sua audição estava um pouco estranha.

— Sim… — Mentiu ele, mal entendendo o que dizia. — Vamos voltar…

Um coro de aclamação veio da batalha, e não parecia vir dos companheiros. De onde estavam, mesmo que atrás dos altos soldados amigos, puderam ver a chegada de um grupo numeroso de reforços para o batalhão de Enr-u-jir. A tropa de Inasi-u-een inteira flexionou os joelhos, como se estivesse preparada para aguentar um ataque maciço; um dos guerreiros na retaguarda destacou-se da posição para avisar aos outros três, que começavam a marchar em direção ao confronto, que se tratava de Imiorina.

O segundo-em-comando apreciou a situação com raiva; o curto cabelo coçou por dentro do elmo, e ele desejou não estar usando manoplas para poder pressionar mais seus dedos contra a polpa da mão.

— … Vamos nos dividir. — Começou, balançando a cabeça. — Para o Sul, junto com os outros.

— Mas vamos ser…

— O objetivo é Mairaden. — Interrompeu ele. — Ninguém nunca prometeu vida ou liberdade para nós aqui!

Depois...

O prédio do governo de Enr-u-jir tinha certo destaque no centro da cidade. Entre duas casas normais, ainda que altas, um largo espaço servia de entrada para uma praça bem arborizada, em cujo final um castelo escuro tornava-se agora silhueta velha contra a noite avançada.

Quatro soldados haviam seguido caminho com Mairaden após o conflito com a tropa de Imiorina. O general e dois deles olhavam para a praça a partir da esquina de uma rua vazia. Patrulhando o lugar de um lado a outro estavam dois grupos inimigos — que não eram como os que os “recepcionaram” na cidade, de Rirn-u-jir, nem como os de Imiorina: eram parte do Exército de local, Enr-u-jir.

Os três recuaram do limiar da esquina. Pensavam num plano de ação quando começaram a ouvir os guinchos de um yutsi. Seguiram com atenção o crescimento do barulho até que ele se tornou localizável; o animal estava no quarteirão seguinte, certamente próximo da entrada da sede do governo, e gritava de maneira particularmente desesperada.

— O que está havendo, afinal? — Resmungou um guerreiro quando, ao ouvir o barulho dos soldados inimigos, tornou a olhar para o local. — Aquilo é fogo?

Mairaden e a guerreira acompanharam o colega imediatamente. Viram os soldados reunidos perto do portal de corvônia da praça, todos iluminados por uma luz alaranjada que, ao trocar de intensidade o tempo todo, só poderia significar uma chama.

— Ponham os elmos. — Disse Mairaden.

Os guardas da cidade aproximavam-se da comoção, mas pareciam prontos somente para correr. Estavam de frente para impactos no que parecia ser paredes e vidros; marteladas contínuas que faziam os corações baterem assustados. “ALGUÉM CHAMOU quem cuida deles?”, berrou um soldado em meio a alertas constantes de “cuidado” e “ele está vindo!”.

O som da demolição veio logo depois. Os guerreiros de Inasi-u-een ouviram cada vez mais claros os gritos de terror. Logo perceberam a fumaça negra cada vez mais aparente acima do prédio que teve, como logo puderam ver, um dos lados destruído.

A parte dianteira do yutsi surgiu no final da rua, e num pulo cheio de dor, acompanhado de um lamúrio agudo, ele mostrou para Mairaden e os guerreiros que sua parte traseira fora consumida pelo fogo; as patas, já quase puro casco, esqueleto e carapaça enegrecida, mal se mantinham de pé. A vermelhidão que passava por entre as rachaduras da dura camada externa do yutsi pela barriga indicava que o fogo, sem mais espetáculo, ainda ardia.

Mairaden liderou a marcha enquanto o yutsi finalmente caía no chão, um desmonte quase tão barulhento quanto a derrubada de paredes que ele causara. Aquilo distraiu os guardas por tempo o bastante para que não notassem que eles se aproximavam da esquina. Quando os guerreiros chegaram perto demais, os soldados alertaram uns aos outros e preparam-se para a luta; dois deles não foram rápidos o bastante já que, de costas para os invasores, teve um a retaguarda e outro o pescoço cortados.

Mairaden recebeu os primeiros golpes; desviou um ataque alto de espada para atingir a cabeça do inimigo, e depois talhou o peito de um soldado que chegava pela esquerda, despreparado para o alcance da alabarda. Com as duas mãos destravou a arma do corpo atacado e seguiu em frente, seus companheiros já se adiantando contra o contingente de inimigos tímidos e perdidos no próprio espaço.

Passou pelo portal. Quase não percebeu, pelo canto do visor, o arqueiro de pé atrás de um arbusto — virou o pescoço inteiro e o viu tensionando uma flecha, mirando sua corrida rumo ao prédio.

Conseguiu pular à frente, passo acelerado, para esconder-se atrás de uma árvore. Bateu com força as costas, e um momento depois viu a flecha ricochetear na lâmina da alabarda, que ficara para fora da proteção do tronco. Calculou que o arqueiro refazia a concentração e correu; já estava perto do prédio e não quis olhar para trás. Sentiu o ar rasgar-se atrás da nuca num zunido enquanto trocava a terra pelo piso do terraço; quando entrou no prédio pela porta dupla da frente, viu que ela era mantida escancarada por dois corpos de soldados flechados no chão.

Seguiu por um corredor à esquerda, incerto se aquele era um bom caminho; descobriu que era um corredor longo e escuro, com apenas uma janela que transmitia até o chão a luz de algum minério azul do segundo andar. Virou-se e viu o contorno do arqueiro armar mais um disparo do início do corredor; abaixou-se de qualquer jeito e torceu para que nenhum caco de vidro da janela despedaçada pela flecha entrasse em alguma brecha da armadura.

Pendendo para a frente pelo peso do elmo, apoiou-se firme na alabarda para se levantar; venceu uma porta com o ombro e entrou em uma outra passagem, dessa vez bem iluminada pela mesma luz azul e por minérios amarelos do lado de cada uma das esparsas portas marrons à direita.

A primeira porta estava trancada; para não perder tempo com as outras duas, decidiu ir até o fim. Na metade do corredor a porta no final foi aberta; um guarda de braços nus e pés descalços com placas de couro por sobre o tronco entrou no corredor, parecendo completamente desnorteado. Brandiu sua espada longa em defesa própria enquanto os olhos tentavam pedir que Mairaden não avançasse.

O general correu para ele, levantando as cortinas de tecido fino para o ar; apontou a arma para o inimigo confuso e a circulou ao redor da ponta de sua espada. Interrompeu um giro para jogá-la para o lado e estocar o rosto do soldado, que caiu para trás drenando gemidos e sangue.

Mairaden virou-se, a onda de calor pelo corpo pressentindo aquele que o seguia; viu a flecha vindo em sua direção e só teve tempo de colocar o aço da alabarda, já próxima de qualquer forma, entre ela e seu elmo.

A porta aberta atrás de si rangeu, e o soldado que dali saía, dessa vez paramentado como os do lado de fora, foi arrastado para o lugar de onde veio, nocauteado no queixo com um cotovelo metálico e por último com o cabo da arma.

Mairaden estava em um pequeno corredor; poderia continuar pela esquerda, mas escolheu subir as escadas à frente — que, ao virar curvas com frequência, deveria inutilizar o arco por algum tempo.

Na passagem do segundo para o terceiro andar começou a ouvir o som da subida abaixo de si; saiu no terceiro, para onde não tinha mais para onde ir. No corredor com um único minério vermelho no final, abaixo da janela circular, testou a primeira porta e viu que estava aberta.

Entrou na sala cinzenta, que constatou ser um mero depósito de produtos de limpeza e uma série de caixas, e fechou a porta da forma mais silenciosa que pôde. Pouco tempo depois ouviu os passos deixarem de ressoar nos degraus.

Preparou o ataque, pronto para atingir o inimigo assim que ele abrisse qualquer fresta larga o bastante.

Nada aconteceu.

Mairaden apurou os ouvidos, flexionando mais os joelhos como se cada momento de quietude o deixasse mais certo de que a porta se abriria.

— Quem é você? — Ouviu do outro lado.

A pergunta não parecia dirigida para ele, mas não ouviu nenhuma resposta.

— Não chegue perto! E largue esse arco!

Pôde ouvir passos no fim do corredor e o rangido do arco próximo preparando-se para um tiro.

— Não… — Avisou o soldado.

Seguiu-se ao disparo o som da flecha caindo no chão, longe, de repente frágil. Não demorou quase nada para que depois disso, contudo, o soldado caísse, ali, do outro lado da porta.

Mairaden recolheu a alabarda, cuidadoso; com uma mão segurou-a perto da lâmina. A outra encostou na maçaneta. Escutou batidas na parede; não sabia dizer qual delas, mas tudo indicava que o desconhecido estava ainda na metade do caminho.

Não entendia o porquê das batidas. Julgou ouvir um chiado vocálico, um lamento feito de ar quente — não entendia mais nada do que acontecia, e já não sabia se era uma pessoa ou várias.

O desconhecido voltou a andar. Aproximou-se até chegar no ponto crítico.

Abriu a porta e chutou à frente; teve o pé socado para a porta com a mão fechada em que o novo inimigo carregava um arco. Enquanto Mairaden se equilibrava, o outro homem armou uma flecha cuja ponta ficou a uma mão de distância dos olhos do general, que fincou a parte cortante da arma na porta num golpe bruto que separou da flecha sua ponta metálica.

— Pare! — Disse Mairaden.

O homem já tinha outra flecha pronta para o disparo depois de dar dois passos para ganhar distância. De rosto severo, pele morena, cabelo escuro, curto e seco, vestia uma amarelada camisa longa que mais parecia um saco para batatas adaptado. A calça, cinzenta, chegava a raspar o chão atrás dos calcanhares desnudos.

— Não parece que somos inimigos. — Continuou o guerreiro do Norte, entrando no corredor. Resolveu deixar a alabarda do jeito que estava, emperrada na porta.

— Parece que somos! — Respondeu o outro, raivoso.

— Fui perseguido pelo arqueiro que você matou. Temos um inimigo em comum.

— Ou eu sou o inimigo comum de vocês!

— Isso não faz sentido.

Desejava que o homem pudesse ver seus olhos através do elmo, mas não queria fazer nenhum grande gesto — especialmente um que tirasse aquele arco vermelho-vivo, abaixado mas nem por isso menos perigoso, de sua vista.

— Quem é você?

— Meu nome é Mairaden. Sou general do Exército de Inasi-u-een.

— O que faz aqui?

— Eu trouxe as tropas de minha cidade para atacar Enr-u-jir.

Um riso sarcástico transbordou as narinas do arqueiro.

— Essa cidade está cheia de tropas!

— E isso não o impediu de invadir o prédio do governo.

Mairaden o viu ajeitar melhor a flecha já relaxada no centro do arco.

— Minha intenção nunca foi vencer esta batalha. — Continuou o general. — Não foi para isto que eu vim.

— Só criou uma distração para invadir o prédio…

— Distração que lhe serviu bem, eu creio.

— … Eu vou embora.

— Eu vim atrás de informação. — Disse Mairaden, ignorando o quase passo do arqueiro para frente. — Vou precisar me certificar de que você não a conseguiu primeiro.

— Por favor… — Pediu o homem. — Não me faça usar isso contra você!

— Isto pode ser evitado. — Respondeu Mairaden, lentamente levantando as mãos abertas ao nível da cintura e as sobrancelhas curiosas aos primeiros fios de cabelo. — Quem é você?

O invasor sujo engoliu em seco antes de dar dois passos para trás e guardar a flecha na aljava.

— Meu nome é Nariomono. Procuro o mago que destruiu toda a minha família. Todo o meu povo. Um mago chamado Desmodes.

— Não é o que eu procuro. — Disse Mairaden. — Procuro a localização do Conselho dos Magos.

Narion estreitou o olhar como se tivesse ouvido falar do Conselho pela primeira vez.

— E eu acabo de descobrir… — Disse ele, aproximando-se sem medo do general de armadura. — Que Desmodes é o líder do Conselho dos Magos.